Rubriche
Extraído do número11 - 2010


PAPA

São Francisco, o Breviário e a Eucaristia


IBreviarium sancti Francisci/I, c. 197r.

IBreviarium sancti Francisci/I, c. 197r.

No dia 9 de novembro, o Papa Bento XVI enviou uma mensagem aos bispos italianos reunidos em Assis para a Assembleia Geral. Apresentamos a primeira parte da carta: “Nestes dias estais reunidos em Assis, a cidade onde ‘despontou um sol para o mundo’ (Dante, Paraíso, Canto XI), proclamado pelo Venerável Pio XII Padroeiro da Itália: São Francisco, que conserva intactos o seu vigor e a sua atualidade – os Santos não conhecem ocaso! – devido ao facto de se ter conformado totalmente com Cristo, de quem foi um ícone vivo.
Como o nosso, também o tempo em que São Francisco viveu estava marcado por profundas transformações culturais, favorecidas pela fundação das universidades, pelo desenvolvimento das comunas e pelo difundir-se de novas experiências religiosas.
Precisamente naquela estação, graças à obra do Papa Inocêncio III – o mesmo do qual depois o Pobrezinho de Assis obteve o primeiro reconhecimento canônico – a Igreja deu início a uma profunda reforma litúrgica.
Expressão eminente disto foi o Concílio Lateranense IV (1215), que conta entre os seus frutos o ‘Breviário’. Este livro de oração continha em si a riqueza da reflexão teológica e da vivência orante do milénio precedente. Adoptando-o São Francisco e os seus frades fizeram própria a oração litúrgica do Sumo Pontífice: deste modo, ouvia e meditava assiduamente a Palavra de Deus, a ponto de a fazer sua e de a transpor, sucessivamente, para as orações da sua autoria, como em geral em todos os seus escritos.
O próprio Concílio Lateranense IV, considerando com atenção particular o Sacramento do altar, inseriu na profissão de fé o termo ‘transubstanciação’, para afirmar a presença real de Cristo no sacrifício eucarístico: ‘O seu corpo e o seu sangue estão verdadeiramente contidos no Sacramento do altar, sob as espécies do pão e do vinho, dado que o pão é transubstanciado no corpo e o vinho no sangue, por poder divino’ ( Denzinger, 802).
Da participação na Santa Missa e da recepção devota da Sagrada Comunhão jorram a vida evangélica de São Francisco e a sua vocação a percorrer novamente o caminho de Cristo Crucificado: ‘O Senhor’ – lemos no seu Testamento, de 1226 – ‘infundiu-me tanta fé nas igrejas, que assim eu simplesmente rezava e dizia: Adoramos-vos, Senhor Jesus, em todas as vossas igrejas que existem no mundo inteiro, e bendizemos-vos porque mediante a vossa santa Cruz Vós redimistes o mundo’ (Fontes Franciscanas, n. 111).
É nesta experiência que encontram origem também a grande deferência que ele tinha pelos sacerdotes e a admoestação aos frades, de respeitá-los sempre e em qualquer situação, ‘pois do Altíssimo Filho de Deus, nada mais vejo corporalmente neste mundo, a não ser o seu Santíssimo Corpo e Sangue, que só eles consagram e só eles administram aos outros’ (Fontes Franciscanas, n. 113).
Estimados Irmãos, diante desta dádiva, que responsabilidade de vida deriva para cada um de nós! ‘Frades sacerdotes, prestai atenção à vossa dignidade – recomendava ainda Francisco – e sede santos, porque Ele é Santo’ (Carta ao Capítulo Geral e a todos os Frades, em Fontes Franciscanas, n. 220)! Sim, a santidade da Eucaristia exige que se celebre e adore este Mistério, conscientes da sua grandeza, importância e eficácia para a vida cristã, mas requer também pureza, coerência e santidade de vida da parte de cada um de nós, para sermos testemunhas vivas do único Sacrifício de amor de Cristo.
O Santo de Assis não cessava de contemplar como ‘o Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, se humilha a ponto de se esconder, para a nossa salvação, na aparência de um pedaço de pão’ (Ibid., n. 221) e, com veemência, pedia aos seus frades: ‘Peço-vos, mais do que se o fizesse para mim mesmo, que quando for oportuno e o considerardes necessário, supliqueis humildemente aos sacerdotes, a fim de que venerem acima de tudo o Santíssimo Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo e os seus santos nomes e as suas palavras escritas que consagram o corpo’ (Carta a todos os guardiães, em Fontes Franciscanas, n. 241)”.




ORIENTE MÉDIO

Amos Oz, os fanáticos e a boa notícia


Amos Oz [© LaPresse]

Amos Oz [© LaPresse]

“O verdadeiro conflito de civilizações não é o imaginado no célebre ensaio de Samuel Huntington. Não se dá entre Leste e Oeste; aliás, nem tem pontos cardeais. Para Amoz Oz, é o conflito ‘entre os fanáticos e todos os outros’.” Essa é a síntese de uma entrevista do célebre escritor israelense dada ao jornal La Stampa em 7 de novembro, em que o romancista adverte: “O problema é que o fanático é sempre altruísta, age na cena pública, está muito interessado em você, porque quer mudá-lo, torná-lo melhor. Por isso eu digo: cuidado com aqueles que dedicam sua vida a tentar mudar você”. Concluindo a entrevista, depois de ter enumerado os vários fanáticos que alimentam a tensão no Oriente Médio, observa: “Eu poderia dizer que a situação é desesperadora, mas também que há uma boa notícia: tanto os palestinos quanto os judeus já entenderam que terão de ser dois Estados. Não estão felizes com isso [...], mas sabem que essa é a realidade”.





Bento XVI em oração diante do caixão de Manuela Camagni [© Paolo Galosi]

Bento XVI em oração diante do caixão de Manuela Camagni [© Paolo Galosi]

Papa
“Se nós recordamos o Senhor, é porque Ele, antes ainda, se recorda de nós”

Em 24 de novembro, num acidente na via Nomentana, em Roma, faleceu Manuela Camagni, leiga consagrada da Família Pontifícia, que assistia Bento XVI ao lado de outras três mulheres da associação leiga Memores Domini. O Papa, por ocasião das exéquias, enviou uma mensagem em que, comentando a frase de São Paulo: “Nada será capaz de nos separar do amor de Deus, que está no Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,39), explicou: “Se nós recordamos o Senhor é porque Ele, antes ainda, se recorda de nós. Nós somos Memores Domini porque Ele é Memor nostri, recorda-se de nós com o amor de um pai, de um irmão, de um amigo, também no momento da morte”.


Igreja/1
Cura inexplicável atribuída ao cardeal Van Thuân

Em 15 de novembro, em seu blog, o vaticanista do jornal La Stampa, Marco Tosatti retomou uma notícia divulgada pela agência AsiaNews a respeito de um possível milagre atribuído ao cardeal vietnamita François-Xavier Nguyên Van Thuân, falecido em 16 de setembro de 2002, cuja causa de beatificação está em andamento. O milagre estaria ligado ao seminarista Joseph Ngu yên, filho de vietnamitas imigrados para os Estados Unidos, amigos do falecido purpurado. Em 2009, escreve Tosatti, Joseph foi acometido por “uma grave pneumonia, complicada pelo H1N1, a ‘gripe suína’”. Após os primeiros sintomas, o jovem entrou em coma. “Os médicos disseram que Joseph estava morto. O batimento cardíaco desabara, para um nível muito abaixo de qualquer possível retomada, e sua atividade cerebral tinha acabado. Mas, ao mesmo tempo em que o jovem já estava em coma havia dias, seus pais pediam a ajuda de um velho amigo de família, o cardeal vietnamita. Hoje Joseph está curado e voltou ao seminário”. Ao despertar, o jovem disse que não se lembrava de nada, a não ser de “duas visões do cardeal Van Thuân”. O caso está em avaliação pelos postuladores da causa.


Igreja/2
Os cardeais, as fábulas, as crianças

Fábulas natalinas escritas por cardeais italianos. Quem deu a notícia foi Armando Torno, no Corriere della Sera de 6 de dezembro. O arcebispo de Milão, cardeal Dionigi Tettamanzi, publicou um pequeno livro intitulado Santi subito; o cardeal Carlo Maria Martini, o livro Una parola per te. No artigo aparecia também uma síntese do presente de Natal do cardeal Angelo Bagnasco, arcebispo de Gênova e presidente da Conferência Episcopal Italiana, autor de uma carta dirigida “aos meninos e às meninas do catecismo”. Trazia o Corriere della Sera: “A carta contém uma história que ele [o cardeal, ndr] pede –‘se quiserem’ – que seja contada ‘a seus pais e àqueles que vocês encontrarem durante as festas’. Na história aparece primeiro um senhor apressado, à procura do último modelo de celular, ‘para ser admirado e, por que não, até invejado’, e não se dá conta, nem está com espírito para isso, de uma mãe pobre que aperta seu filhinho nos braços e pede ajuda. Mas outra criança os vê. Bagnasco observa: ‘O coração pequeno ouve os pequenos e pula de surpresa’; a criança, então, dirige-se à senhora que a leva pela mão: “Mamãe, é Jesus com Nossa Senhora! Talvez estejam procurando uma casa. Vamos levá-los conosco!’. As palavras ouvidas no catecismo, lembra o purpurado, ‘ficaram no seu coração e na sua mente’. Mas o senhor do celular também as ouve, e ‘é sacudido do seu torpor’; ou melhor, aquelas palavras o trazem de volta ‘à consciência’ e ele se lembra do Natal de quando era pequeno. É apenas um instante, repleto de passado, enquanto a mãe pobre ‘desapareceu sabe lá onde’. Mas, sublinha o cardeal, esse retorno de antigos pensamentos ‘fez renascer em seu coração a saudade da beleza, da simplicidade de quem sabe olhar com surpresa para as pequenas coisas e compreende sua grandeza’. Esse encontro e o que ouviu lhe permitirão passar um Natal ‘diferente’, ‘verdadeiro’, uma festa ‘que não é apenas para os pequenos, mas para todos aqueles que se tornam crianças’”.


Luz do mundo/1
Ferrara e o Papa pastor

Segundo Giuliano Ferrara, haveria uma “mudança de paradigma” no pontificado de Bento XVI. Sua tese, exposta num editorial do jornal Il Foglio de 27 de novembro, nasce da leitura do último livro do Papa, Luz do mundo. “Para ficar bem claro, Bento confirma em seu último livro, com a força argumentativa de costume, a desaprovação cristã a alguns traços insuportáveis da existência moderna, mas a receita, substancialmente, muda: o teólogo e filósofo propunha que o século se comportasse ‘como se Deus existisse’, uma fórmula pascaliana, paradoxal e intelectualista, no limite entre o agnosticismo e a fé, enquanto o pastor, que continua de qualquer forma a ser um inigualável caçador de lobos, dirige-se hoje a seu rebanho com um mais prudente apelo à fé no Deus vivo. Bento continua a ser um mestre para a minoria de seu discipulado leigo, que não faz parte do rebanho e respeita e ama sua fé, mas as linhas de seu ensinamento pastoral perdem em parte aquela atração transgressiva, aquele vigor provocatório e aquela aura de desafio do século, em seu perigoso terreno, que até ontem nos fizeram pensar, talvez até um pouco delirar e, em certo sentido, crer que poderíamos crer”.


Luz do mundo/2
Zizola e a reforma, de Paulo VI a Bento XVI

“Entre uma entrevista e outra, quarenta e cinco anos de lutas pela reforma da Igreja: em 3 de outubro de 1965, o Corriere della Sera se abria com uma entrevista com Paulo VI feita por Alberto Cavallari, a primeira de um papa a um jornal, sobre as mudanças necessárias na Igreja, ao mesmo tempo em que acontecia a última sessão do Concílio. Luz do mundo, o livro-entrevista de Bento XVI, sai quando a perspectiva da renovação parece esgotada, sob os golpes metódicos da restauração.” São as palavras de Giancarlo Zizola, num artigo publicado no jornal la Repubblica de 24 de novembro.


Sacro Colégio/1
A morte dos cardeais Navarrete e Giordano

Em 22 de novembro morreu o purpurado jesuíta espanhol Urbano Navarrete, 90 anos, ex-reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana, criado cardeal por Bento XVI, em 2007.
Em 2 de dezembro faleceu Michele Giordano, 80 anos, arcebispo de Nápoles de 1987 a 2006, criado cardeal por João Paulo II, em 1988.
Depois da criação de 25 novos cardeais feita por Bento XVI em 20 de novembro, o Colégio Cardinalício fica composto por 201 membros, dos quais 121 eleitores.


Sacro Colégio/2
O pedido de demissão do cardeal Errázuriz Ossa, em Santiago

Em 15 de dezembro o Papa aceitou o pedido de demissão do cardeal Francisco Javier Errázuriz Ossa, 77 anos, arcebispo de Santiago do Chile, cargo que ocupava desde 1998. Em seu lugar, foi nomeado o salesiano Ricardo Ezzati Andrello, 68 anos, arcebispo de Concepción desde 2006.


Islã/1
O grande mufti da Arábia Saudita: “O islã quer e pede a paz”

“‘Uma das características mais importantes do islã é a moderação, tanto na prática da religião quanto no comportamento de seus fiéis; outro aspecto essencial é a existência de um equilíbrio entre as exigências da alma, do corpo e da mente’. Por isso, os muçulmanos devem rejeitar a violência e o terrorismo em todas as suas formas; quem quer que realize essas ações está traindo os princípios do islã, uma religião que quer e pede a paz. Foi essa a mensagem que soou fortemente, ontem, na mesquita de Namira, aos pés do monte Arafat, durante o Khutba-e-Hajj, o tradicional sermão por ocasião da peregrinação a Meca, pronunciado pelo grande mufti da Arábia Saudita, xeque Abdul Aziz”. Essa é a introdução de um artigo publicado no L’Osservatore Romano de 17 de novembro.


Islã/2
Iraque: os xiitas como proteção dos cristãos

“Pedimos aos cristãos que não abandonem o país, migrando para o exterior”, diz o xeque Faid al-Shamri, presidente do Conselho Regional de Najaf, no Iraque. “Nossa administração enviou uma circular a todas as províncias para que permitam que os cidadãos cristãos encontrem moradia e trabalho na região. São iniciativas que não contrastam com a Constituição nem com os ensinamentos islâmicos, que nos obrigam a trabalhar pela segurança dos cristãos, protegendo-os de qualquer ataque”. A declaração do xeque iraquiano apareceu num artigo publicado pelo jornal Il Giornale de 1º de dezembro, no qual é sublinhado o fato de essa iniciativa não vir de uma região iraquiana “qualquer”, mas de Najaf, “a cidade santa dos xiitas”.


Oriente/1
Bento XVI e a China

“No jargão político atual, papa Bento XVI é indiscutivelmente um ‘conservador’. [...] Todavia, é graças justamente a essas credenciais que o velho axioma americano –‘só Nixon pode ir à China’ – se aplica perfeitamente bem também a Bento XVI. Pelo que Bento XVI é e pelo que representa, de vez em quando pode tomar a liberdade de fazer coisas que um pontífice mais ‘liberal’ não ousaria ou não poderia fazer sem fazer a Igreja em pedaços”. São considerações de John Allen Jr. em artigo para o National Catholic Reporter de 3 de dezembro passado, intitulado Só Bento poderia ir à China.


Oriente/2
Bloomberg e a China

“O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, não esconde seu ceticismo ante o novo Congresso formado pelo voto de midterm, há uma semana. Numa entrevista concedida ao The Wall Street Journal, declarou [...]: ‘Aposto que um monte dessas pessoas nem tem passaporte. Se não tomarmos cuidado, corremos o risco de desencadear nos Estados Unidos uma guerra comercial com a China simplesmente porque muitos não sabem nem o que é ou onde fica a China’”. Trechos de um artigo do jornal La Stampa de 10 de novembro.


Polônia
Jaruzelski, conselheiro do premiê

“Para o general Wojciech Jaruzelski, é quase uma reabilitação de facto. O ex-presidente polonês [que governava na época do conflito com o sindicato Solidarnosc, ndr] foi convidado pelo atual chefe do Estado, o liberal Bronislaw Komorowski, para uma reunião reservada do Conselho de Segurança Nacional para preparar a aguardada reunião de cúpula, em Varsóvia, com o presidente russo, Dmitrij Medvedev”. A notícia apareceu num artigo do jornal la Repubblica de 25 de novembro, em que esse convite é definido “uma surpresa extraordinária”.


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