CHINA
Extraído do número 07/08 - 2005
Alguma novidade, também em Xangai
Uma viagem ao encontro dos cristãos da cidade-símbolo da nova China: a memória de quem testemunhou a fé durante a perseguição e o novo início, desarmado, de quem se torna cristão hoje. Enquanto isso, o novo bispo auxiliar nomeado pelo Papa é ordenado com a aprovação do governo...
de Gianni Valente

A Catedral de Santo Inácio, em Zikawei, como é hoje e como era na década de 1920
Na manhã de 28 de junho, nesta mesma Catedral - umdia em que fazia mais calor ainda, a ponto de se espalhar enormes blocos degelo seco pela igreja para refrigerar a multidão formada por cinco mil pessoas-, Joseph Xing Wenzhi se tornou o primeiro chinês ordenado bispo sob opontificado do papa Ratzinger. Havia sido nomeado por João Paulo II. Depois, foi“eleito” pela maioria, em votação dos representantes diocesanos - padres,freiras e leigos da diocese de Xangai. Em seguida, o governo de Pequim o“aprovou”. Por fim, o bispo nonagenário Aloysius Jin Luxian, à frente dadiocese de Xangai desde 1985, com o reconhecimento do governo, mas - até hoje -sem a aprovação da Santa Sé, tornou-o sucessor dos Apóstolos, impondo-lhe asmãos na liturgia de ordenação episcopal. Ele é o grande “maestro” de suacomplicada sucessão, na qual se misturam e se ajuntam, num ponto de virada,todas as controvérsias e episódios anômalos vividos pela Igreja da China nosúltimos 55 anos. Pois ser bispo em Xangai, certamente, não é o mesmo que emoutros lugares.
Na manhã de 28 de junho, Joseph Xing Wenzhi se tornou o primeiro chinês ordenado bispo sob o pontificado
do papa Ratzinger. Havia sido nomeado
por João Paulo II. Depois, foi “eleito”
pela maioria, em votação dos representantes diocesanos - padres, freiras
e leigos da diocese de Xangai. Em seguida,
o governo de Pequim o “aprovou”. Por fim,
o bispo nonagenário Aloysius Jin Luxian,
à frente da diocese de Xangai desde 1985, com o reconhecimento do governo, mas - até hoje - sem a aprovação da Santa Sé,
agregou-o ao Colégio dos Bispos

O bispo Aloysius Jin Luxian impõe o Evangelho sobre a cabeça de Joseph Xing Wenzhi durante sua ordenação episcopal, em 28 de junho passado
Há cinqüenta anos, o jovem jesuíta Aloysius Jin e seuconfrade Joseph Fan Zhongliang eram dois dos colaboradores mais próximos dosbispo Gong Pinmei, e também foram presos, na noite da grande detenção em massa.Seu bispo confiava em ambos: tornara o primeiro reitor do seminário maior, e aosegundo dera a responsabilidade pelo menor. Em 1954, sentindo que o furacão seaproximava, os dois, ao lado de todos os padres de Xangai, subiram com seubispo até o santuário de Nossa Senhora de Xexan para jurar que não trairiam afé, com a ajuda da Virgem. Passada a época terrível da Revolução Cultural,depois de quase vinte e cinco anos de cadeia e prisão domiciliar, Jin e Fantambém foram libertados, no início da década de 1980, como acontecia no mesmoperíodo a milhares de sacerdotes, religiosos e fiéis. A China de Deng Xiaopingreabria as igrejas, convidava padres, freiras e bispos a retomarem seutrabalho, ainda que em regime de vigilância política. Foi então que os caminhosdos dois jesuítas se dividiram.Jinaceitou tornar-se reitor do seminário e, em 1985, bispo auxiliar de Xangai, coma permissão do governo de Pequim mas sem a do Papa de Roma, enquanto o velhoGong Pinmei, legítimo titular da sé episcopal, continuava em regime deliberdade condicional. Fan, por sua vez, recusou qualquer forma de colaboraçãocom as associações “patrióticas” impostas pelo regime como instrumentos decontrole da vida da Igreja. Em 1985, também foi ordenado bispo,clandestinamente, e o Vaticano o reconheceu como único sucessor legítimo deIgnatius Gong Pinmei. A comunidade dixia, os fiéis“subterrâneos” que continuavam a rezar o rosário e a celebrar a missa fechadosem casas particulares, mantendo-se distantes das igrejas que iam reabrindo, umaapós outra, sob o controle do governo, juntaram-se em torno de Fan, sentindo-seconfirmados por Roma na opção que faziam de resistir inflexivelmente. Eram elesa “Igreja fiel”, aquela que em nome da fidelidade plena ao sucessor de Pedrohavia se recusado a assumir qualquer compromisso com a linha separatista que oregime queria impor aos católicos chineses. Jin, sua cúria e seus padres eramtraidores, usurpadores, fantoches nas mãos do regime. Eram o joio do campo doSenhor.
Padre John, que todas as manhãs lê ali o breviário edepois celebra a eucaristia para seus cinqüenta fiéis da missa diária, estavatambém entre os jovens que depois da grande captura de 1955 tiveram de agüentartrês anos de aulas “reeducativas” sobre o socialismo e as conjuraçõesvaticanas, dadas pelos maoístas no seminário de Zikawei. Depois, durante trintaanos, esperou que a tempestade passasse, permanecendo fiel à promessa dajuventude. Não se casou; em 1987, voltou ao seminário de Xexan, o primeiro avoltar a funcionar nos anos de abertura denchista. Só se tornou padre em 1990,com 52 anos. Mas, agora que já vê a China do futuro, a partir do observatórioprivilegiado de Pudong, alguma coisa parece estar errada. “Quando a perseguiçãoestava para começar, o bispo Gong Pinmei nos advertiu de que deveríamos estarprontos. Rezem ao Senhor, ele nos disse; peçam que os ajude a conservarem a fé,que é o único tesouro. Hoje, tenho a impressão de que ninguém mais se dá contadesse tesouro. Todos pensam em ganhar dinheiro, trabalham até doze horas pordia. Para os jovens, mesmo os das famílias cristãs, as histórias daqueles queconservaram a fé naqueles anos difíceis são coisa do passado. O coração doshomens é capaz de esquecer até o maior dos passados”.

Dois momentos da missa dominical celebrada por dom Joseph Xing na Catedral de Zikawei, em 10 de julho passado
Teresa também não sabia nada disso. Quando eramenina, em Pequim, seus pais, funcionários comunistas, certamente não lhefalaram dessas coisas. Mesmo porque nunca estavam com ela, ocupados comoestavam com sua carreira política na Mongólia. Depois, ela encontrou uma amigacristã, começou a freqüentar as igrejas, recebeu o batismo aos vinte e cincoanos. Conta que quando lhe perguntaram que nome cristão iria escolher,respondeu que queria o da santa mais graciosa. “A madrinha me olhou torto, masdepois me deu de presente um livro com a vida de Teresa de Lisieux... Quandofui para o exterior, um padre estrangeiro me perguntou se eu fazia parte daIgreja ‘subterrânea’. Eu não entendia do que ele estava falando. Respondi quenão conhecia igrejas construídas debaixo da terra na China. Nunca as tinhavisto nas estações do metrô...” Hoje ela se mexe com rapidez, seguindo o ritmoneo-hedonista de Xangai. Gosta de passar as tardes nos ateliês dos artistas, oude descobrir novos restaurantes para ir com os amigos. Mas é justamente elaquem está desenhando as cenas do Evangelho e os símbolos chineses nos vitraisda Catedral de Zikawei. As mesmas há anos reduzidas a pedaços pelas GuardasVermelhas.Os seminaristas, os jovenspadres e as religiosas que se encontram na paróquia de São Pedro, antes de seespalhar por toda Xangai para dar os cursos de catecismo de verão, parecemtambém não esperar demais das imaginárias conquistas cristãs que deveriamencontrar campo livre no deserto espiritual das megalópoles chinesas. Mastambém não maldizem o consumismo satisfeito e em nada desesperado de seuscontemporâneos. “Este é o tempo que nos cabe”, diz, abrindo os braços, AnthonyZhao, que está terminando o curso de teologia no seminário de Xexan e acompanhou,no início de julho, o retiro de quatro dias organizado pela diocese paraestudar os métodos “para comunicar de maneira atraente a fé às crianças, aosjovens e aos adultos aos quais iremos dar catecismo”. Ele sabe muito bem que,como já acontece aos pobres coitados que testemunham Jesus Cristo nos camposde trabalho forçado, não serão os bons propósitos e os equilibrados intuitoshumanos que farão brotar o início da fé ou manterão a perseverança. Afinal, naChina, como em qualquer parte, até hoje o pequeno resto daqueles que trazem onome de Cristo é feito de gente indefesa protegida por um Outro.Esse talvez seja também o consolo do novo bispo,Joseph Xing, quando imagina os anos de aventura que o aguardam: não serão suashabilidades ou sua aptidão, nem seus erros ou seus limites que decidirão se ecomo a semente de letícia cristã espalhada pela terra chinesa, depois de terdado frutos até mesmo nas tempestades da perseguição, vai secar ou poderámilagrosamente pegar em cada um dos corações ocupados de homens e mulheres desua imensa cidade cheia de luzes.