Trechos de padre Luigi Giussani sobre o encontro de Jesus com os dois primeiros discípulos
«André e João são a figura do que devemos fazer»
(L'attrattiva Gesù, Milão, Bur, 1999, p. 25)
introdução e organização de Lorenzo Cappelletti
Introdução
“Eu errava por pensar que a fé por meio da qual acreditamos em Deus não era dom de Deus, mas vinha, em nós, de nós mesmos [...]. Realmente, eu não pensava que a fé fosse precedida pela graça de Deus [...]. Certamente, pensava que não poderíamos acreditar sem antes receber o anúncio da verdade, mas, uma vez tendo-nos sido anunciado o Evangelho, imaginava que o consentimento fosse obra nossa e algo que possuímos em nós mesmos. Esse meu erro se encontra em muitos dos livros que escrevi antes de meu episcopado” (Agostinho, De praedestinatione sanctorum 3, 7).
No Depraedestinatione sanctorum, obra dos últimos anos de sua vida, Agostinhoconfessa esse seu erro com simplicidade - e esse não é o último dos motivospelos quais sentimos Agostinho tão moderno e persuasivo -, um erro presente emlivros anteriores a sua ordenação episcopal, ocorrida trinta anos antes (395 ou396).
O erro deAgostinho parece dominar - sem ser confessado - o cenário destas últimasdécadas do catolicismo mais discursante e vistoso.
Em padre Giussani,ao contrário, a unidade entre as palavras, o olhar, a atração de graça é sempree de novo proposta e descrita diante dos nossos olhos a partir do comentárioque faz do encontro de Jesus com os dois primeiros discípulos, João e André,que pode ser sintetizado na expressão: “Olhavam-no falar”. Se nos ativermos aotestemunho dado sobre ele pelo então cardeal Ratzinger, nos funerais dosacerdote, veremos que isso acontece graças ao que o próprio padre Giussaniviveu em primeira pessoa: “Padre Giussani teve sempre o olhar de sua vida e deseu coração fito em Cristo. Dessa forma, entendeu que o cristianismo é umencontro, uma história de amor, um acontecimento”.
Afirmar que a fénasce de um maravilhamento como o de João e André - como se poderia traduzir apalavra suavitas, usada pelo Concílio Ecumênico Vaticano I, naconstituição dogmática sobre a fé (citando, não por acaso, o segundo Concílioantipelagiano de Orange, que padre Giussani gostava de recordar) - nãosignifica deixar de ter cuidado com a maneira de apresentar as verdadescristãs. Significa fazer com que prevaleça a humilde fidelidade à doutrina(“Todo aquele que se adianta e não permanece na doutrina de Cristo, não possuia Deus. Aquele que permanece na doutrina, esse possui o Pai e o Filho”, 2Jo 9)e a oração de cada instante Àquele único que pode tocar e atrair a mente e ocoração do homem.
De qualquer forma,o recente Compêndio do Catecismo da Igreja Católica também tem uma pequenafrase que, repetindo com simplicidade o fato de que a graça precede e vemantes, ilumina, como um raio de sol quando ilumina os vitrais de uma catedral,todas as verdades contidas no Compêndio: “A oração é sempre dom deDeus que vem ao encontro do homem” (nº 534).
introdução eorganização de Lorenzo Cappelletti
Foi ser batizado, como todos os outros
O que aconteceuprimeiro? Primeiro aconteceu Jesus, que nasceu em Belém, como um menino; e ospastores se reuniram. Depois cresceu em sua casa. E depois, quando já era umpouco mais velho, foi ser batizado, como todos os outros. E quando Jesus deixoua multidão, assim que João Batista apontou para ele e disse: “Eis o cordeiro deDeus”, João e André puseram-se a seguir aquele indivíduo. E estabeleceram umrelacionamento com aquele indivíduo, ficaram lá para ouvi-lo. Eu sempre digo:“Olhavam-no falar” . 1
1 L’attrattivaGesù, Milão, Bur, 1999, p. 27.
Esse Tu enchia o rosto
e o coração deles
E André e João -como narra o primeiro capítulo de São João -, que seguiam a Cristo quaseacanhados, no momento em que Ele se voltou e disse: “O que buscais?”, nãodisseram Tu, mas disseram a Ele: “Mestre, onde moras?”. Era uma maneira dedizer Tu. E quando voltaram para casa e disseram: “Encontramos o Messias”, eraesse Tu que enchia o rosto e o coração deles.2
2 Exercíciosda Fraternidade de Comunhão e Libertação, suplemento da revista LitteraeCommunionis - CL, nº 5, maio de 1991, p. 25.
Diante de seus olhos
Para André e João,o cristianismo, ou melhor, o cumprimento da lei, o realizar-se da promessaantiga, de cuja espera de resposta vivia o povo judeu bom [...], aquilo que opovo esperava, Aquele que tinha de vir, era um homem ali diante dos seus olhos:encontraram-no diante dos seus olhos.
[...] Era um homemali diante dos seus olhos [...]. Era uma coisa que estava acontecendo.
[...] Não é queAndré e João tenham dito: “É um acontecimento que nos aconteceu”.Evidentemente, não era necessário que explicitassem com uma definição, já numadefinição, aquilo que lhes estava acontecendo: lhes estava acontecendo!3
3 “Oacontecimento de Cristo e a sua permanência na história”, tradução de DurvalCordas, in: Litterae Communionis, nº 41, setembro-outubro de1994, p. 19.
Olhavam-no falar
Nós nosidentificamos facilmente com aqueles dois lá sentados, que olham para aquelehomem que diz coisas nunca ouvidas, e no entanto tão próximas, tão pertinentes,com reflexos tão familiares.
Eram as palavrascom as quais a grande promessa bíblica se revelava ao coração de todo judeu, ede geração em geração passava para dentro de seu sangue; as palavras que aquelehomem usava participavam daquela promessa, mas eles não entendiam, eram simplesmenteagarrados, arrastados, revolvidos por aquela maneira de falar: olhavam-nofalar.4
4 Exercíciosda Fraternidade de Comunhão e Libertação, suplemento da revista LitteraeCommunionis - Tracce, nº 7, julho-agosto de 1994, p. 24.
Correspondia mais
Se fosse um filme,a cena inicial seria a de João e André olhando para Cristo enquanto este falavaem sua casa.
Um impacto: oimpacto com uma realidade que eles sentem corresponder como nada jamaiscorrespondeu [...].
André e João,quanto mais olhavam para ele, mais entravam naquilo que já era uma realidade emCristo, ou seja, o conhecimento da verdade, o conhecimento da justiça, oconhecimento da letícia e da alegria, “para que a minha alegria esteja em vós ea vossa alegria seja plena”. Correspondia mais.5
5 L’attrattivaGesù, op. cit., pp. 44-45.
Assim nasceu a primeira
certeza sobre Cristo
O que aquele homemlhes havia dito correspondia ao coração deles, à espera do coração deles, tãointensamente, tão evidentemente, tão imediatamente, que era como se dissessem:“Se não acreditarmos nesse homem, não poderemos mais acreditar nem nos nossosolhos”. Foi assim que nasceu, que surgiu na história do mundo a primeira certezapública, para além da de Sua mãe e de Seu pai: a primeira certeza sobre Cristo.[...]
Imaginem: voltarampara casa e começaram a dizer a todos os seus irmãos, aos conhecidos e àspessoas que participavam de sua pequena cooperativa de barcos: “Encontramos oMessias”.6
6 “Lacomunione come strada”, in: Litterae Communionis - Tracce, nº 7,julho-agosto de 1994, p. III.
Começa a memória
João e Andrécomeçaram a seguir aquele homem, e aquele homem se voltou, e eles lhe fizeramuma pergunta, foram à casa dele... eles ouviam - não estavam distraídos -, masouviam olhando para ele.
Isso é a memória.Desde aquele momento, começou a memória, que, partindo daqueles dois, chegouaté nós.7
Imaginem, fomosmovidos por aqueles dois! Fomos movidos por aqueles dois que O olharam falar,que O olhavam falar com simplicidade, humildade, ingenuidade de coração:aqueles dois moveram as nossas vidas e as movem agora!8
7 Affezionee dimora, Milão, Bur, 2001, p. 215.
8 Exercíciosda Fraternidade de Comunhão e Libertação, suplemento da revista LitteraeCommunionis - Tracce, nº 7, julho-agosto de 1994, p. 24.
Uma familiaridade imediata
Mas para aquelesdois, os dois primeiros, João e André - André, muito provavelmente, era casado,tinha filhos -, como foi possível que fossem convencidos tão imediatamente eque o reconhecessem (não há uma outra palavra que possa ser dita diferente dereconhecê-lo)?
Direi que, se estefato aconteceu, reconhecer aquele homem, quem era aquele homem, não quem era nofundo e minuciosamente, mas reconhecer que aquele homem era algo deexcepcional, de incomum - era absolutamente incomum -, irredutível a qualqueranálise, reconhecer isso devia ser fácil.9
Aquela era umacasa diferente, e aquele homem tratava as pessoas de um jeito diferente,pensava de um jeito diferente - dava para ver nos seus olhos -; quando seuspensamentos se exprimiam em palavras, ele falava de um jeito diferente: era umacoisa diferente.
E se estabeleciauma familiaridade imediata com Ele; para dizer a verdade, era Ele quemestabelecia uma familiaridade imediata com aqueles que encontrava. E, comdignidade e com ternura, afirmava coisas que interessavam à vida daqueles que Oouviam, das pessoas que encontrava. Como naquele caso: mudou a vida deles!10
9“Reconhecer Cristo”, tradução de Durval Cordas, in: Litterae Communionis, nº 43,janeiro-fevereiro de 1995, p. 20.
10 Exercíciosda Fraternidade de Comunhão e Libertação, suplemento da revista LitteraeCommunionis - Tracce, nº 6, junho de 1995, p. 13.
São uma coisa só,
de tanto que estão
cheios da mesma coisa
E quando voltaram,à noite, no fim do dia - muito provavelmente percorrendo todo o caminho devolta em silêncio, pois nunca haviam falado um com o outro como naquele grandesilêncio no qual um Outro falava, no qual Ele continuava a falar, ecoandodentro deles.11
Mas imaginemaqueles dois que ficam a ouvi-lo durante algumas horas e que depois têm de irpara casa. Ele se despede deles e eles voltam calados, calados porque invadidospela impressão que tiveram do mistério que sentiram, pressentiram, ouviram. Edepois se separam. Cada um dos dois vai para a sua casa. Não se cumprimentam,não porque não costumem se cumprimentar, mas se cumprimentam de um outro modo,cumprimentam-se sem se cumprimentar, porque estão repletos da mesma coisa, sãouma só coisa aqueles dois, de tanto que estão repletos da mesma coisa.12
11 Exercíciosda Fraternidade de Comunhão e Libertação, suplemento da revista LitteraeCommunionis - Tracce, nº 7, julho-agosto de 1994, p. 25.
12“Reconhecer Cristo”, op. cit., p. 22.
O que é a fé
A pessoa entende oque é a fé quando se coloca no lugar dos primeiros: de André e João, que Oseguiram e Lhe perguntaram: “Mestre, onde moras?” (Jo 1,38).
Diante daquelehomem, o que era a fé? Era reconhecer a presença divina. Eles nem ousavampensar nisso, não tinham clareza, mas reconheciam naquele homem a presença quelibertava, que salvava.13
João e Andrétinham fé, porque tinham certeza de uma Presença experimentável: quando estavamlá, primeiro capítulo de São João, sentados na sua casa, àquela noite,olhando-O falar, era uma certeza de uma Presença experimentável de uma coisaexcepcional, do divino numa Presença experimentável. Depois - acrescento -foram para suas casas dormir: André voltou para sua mulher; João, para sua mãe.Voltaram às suas casas, comeram nas suas casas, dormiram nas suas casas,levantaram-se, foram pescar junto aos outros companheiros.
Aquilo que tinhamvisto na tarde anterior dominava a sua cabeça: sim ou não? Sim. Eles o viam?Não.14
13 “Nafé, homem e povo”, tradução de Durval Cordas, in: Litterae Communionis, nº 66,novembro-dezembro de 1998, p. 24.
14 Épossível viver assim?, tradução de Neófita Oliveira e Francesco Tremolada,Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998, pp. 256-257.
Era ele, mas era diferente
Ela lhe perguntou:“O que aconteceu?”. Ele a abraçou. André abraçou sua mulher e beijou seusfilhos: era ele mesmo, mas nunca a havia abraçado daquele jeito! Era como aaurora ou o crepúsculo matinal de uma humanidade diferente, de uma humanidadenova, de uma humanidade mais verdadeira. Quase como se dissesse: “Finalmente!”,sem acreditar nos próprios olhos. Mas era evidente demais para que nãoacreditasse em seus olhos!15
Seu marido tinhase tornado uma outra coisa: não uma coisa pensada, imaginada, mas real, porquenunca fora abraçada assim por seu marido. Deu-se conta disso: em primeiro lugarporque jamais fora olhada assim por seu marido, depois porque jamais foraabraçada assim por seu marido.
E depois, tambémno dia seguinte, via como ele tratava os amigos, como falava com as crianças:tinha acontecido alguma coisa que estava transformando o rosto concreto, carnal,temporal da vida deles.16
15 Exercíciosda Fraternidade de Comunhão e Libertação, suplemento da revista LitteraeCommunionis - Tracce, nº 7, julho-agosto de 1994, p. 25.
16 “Oacontecimento de Cristo e a sua permanência na história”, op. cit., p. 20.
Como se toda a pessoa deles fosse um pedido
Imaginemos SimãoPedro, Felipe e João diante de Jesus, andando atrás dele pelas trilhas doscampos, ou na praça do templo, ou numa casa sentados à mesa para comer. Como éque eles estão? Estão olhando para ele, ouvindo-o, querendo aprender; mas essesainda são termos insuficientes, incompletos: pois é como se toda a pessoa delesfosse um pedido.17
17 Exercíciosda Fraternidade de Comunhão e Libertação, Rímini, 1988, p. 25.
Basta a embrionária percepção daquilo que Ele é para fazer você pedir
A sua relação comCristo não precisa ser evoluída, capacitada, madura, para que a suapersonalidade nasça dela e a sua personalidade saiba criar uma companhia apartir dela. Basta - como poderíamos dizer - a surpresa que tiveram João eAndré, que não entendiam nada; basta a surpresa, basta uma ponta de devoção,basta o maravilhamento. Mais precisamente: basta pedi-lo, basta a embrionáriapercepção daquilo que Ele é para fazer você pedir, para fazer com que você opeça.18
18 L’attrattiva Gesù, op. cit., p. 23.
Trechos de padreLuigi Giussani
sobre o encontrode Jesus com os dois primeiros discípulos