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CHINA
Extraído do número 07/08 - 2005

O novo bispo auxiliar de Xangai, visto de perto

Ao Papa, pedirei apenas: reze por nós



de Gianni Valente


O bispo Joseph Xing, durante a entrevista

O bispo Joseph Xing, durante a entrevista

No dia em que se tornou bispo, até mesmopadres das comunidades clandestinas de Xangai pediram para participar da missade sua ordenação episcopal. O governo não permitiu, só consentindo acesso àigreja a padres regularmente registrados pela Secretaria de AssuntosReligiosos. Mas o episódio, sem dúvida, é de bom agouro para a delicada missãoreconciliadora que espera Joseph Xing Wenzhi, 42 anos, a partir de agora bispoauxiliar de Xangai. Até os cristãos das comunidades “subterrâneas”, quecelebram os sacramentos nas casas, evitando freqüentar as igrejas da dioceseregistradas nos organismos governamentais, conhecem (e reconhecem) sua fésimples e sua humildade. Isso é bem explicado pelo velho Alfonse, que todos ossábados à noite hospeda em sua casa pobre e dessarrumada quinze amigos queassistem à missa de um padre “clandestino”: “Todos sabem que Joseph é um bompadre, simples e honesto. Quando era reitor do seminário, e seus seminaristasalgumas vezes por ano saíam de noite para ir ao cinema, ele ficava em casasozinho, servindo como porteiro ou respondendo ao PABX...”. E acrescenta: “Obispo e os padres ‘subterrâneos’ obedecem à Santa Sé. Lamentamos apenas quedurante a ordenação do novo bispo auxiliar não tenha sido dita uma palavrasobre a aprovação recebida da Santa Sé”.

O senhor era uma criança durante aRevolução Cultural, naqueles anos em que qualquer prática cristã era proibidapelo governo e Mao proclamava: “A religião não existe mais na China”...
JOSEPH XING WENZHI: Fui batizado quandotinha oito dias de vida. Tenho dois irmãos mais velhos e uma irmã mais nova.Não podíamos ir à igreja. Todas haviam sido fechadas, destruídas ou destinadasa outro uso. Para rezar, fechávamos a porta de casa. A coisa mais importantenaqueles anos, para mim, era ajoelhar-me diante do Senhor e fazer as orações danoite a Jesus, José e Maria antes de dormir. Depois, íamos para a cama, e osmais velhos continuavam a rezar. Lembro-me de que caía no sono ouvindo suasorações. Depois, voltamos a ver alguns padres andando por aí em 1977. Aprimeira vez que entrei numa igreja foi em 1978. Foi meu pai quem me levou;ficava a setenta quilômetros de nosso vilarejo.
Como pensou em ser padre?
XING: Para dizer a verdade, no início nãoé que fiquei pensando muito no assunto. Quando o seminário de Xexan abriu asportas também para quem vi­nha de minha província, um parente meu, idoso,apresentou meu nome. Fizeram uma espécie de exame de catecismo e, entre dezcandidatos do Xandong, seis fomos admitidos.
O senhor iniciou sua preparação noseminário de Xexan e a concluiu nos Estados Unidos...
XING: Estive nos EUA de janeiro de 2003 amaio de 2004. Primeiramente, no Estado de Nova York, hóspede dos Maryknoll, edepois fazendo cursos em Washington, na Catholic University of America. Mas emseguida tive de voltar correndo...
Em sua nova tarefa, como bispo, teráprioridades?
XING: Neste momento, ajudo o bispo Jin. János meses anteriores à ordenação dei uma volta pelas paróquias, estive noseminário, nas casas das freiras e dos padres idosos, no asilo de idosos. Emcada um desses lugares, parei por uma semana, para conhecer os problemas dasdiversas situações. Espero trabalhar para que a Igreja continue a crescer naunidade e na paz, superando os conflitos entre os sacerdotes e os fiéis. E que,sendo unida, possa trabalhar melhor também pelo bem da sociedade, por exemploajudando os idosos cada vez mais abandonados. Pois a Igreja vive dentro dasociedade, não é um mundo separado da realidade dos homens. A meu ver, épreciso fazer como Mateus Ricci...
O que o senhor quer dizer?
XING: Todos reconheciam que ele, sendocristão, fazia o bem à sociedade de seu tempo. Chegou da Itália, mas seidentificou com os chineses, tornando-se um deles. E fazendo boas obras emproveito deles, suscitava simpatia pelo cristianismo.
A fé, que resistiu em meio àsperseguições, parece estar enfraquecendo hoje?
XING: Durante a perseguição, havia umataque que vinha de fora - as Guardas Vermelhas, a Revolução Cultural - e issoimpelia as almas a pedirem ajuda a Deus. A rezarem. Tinham medo de perder a fé.E então diziam: Jesus, toma-me em tuas mãos e me protege. Hoje, ao menos aquiem Xangai, parece que todos são senhores da própria existência. Que não épreciso pedir ajuda a ninguém, e tudo se passa no íntimo do próprio coração.
“Teresa se mexe com rapidez, seguindo o ritmo neo-hedonista de Xangai. Gosta de passar as tardes nos ateliês dos artistas, ou de descobrir novos restaurantes para ir com os amigos. Mas é justamente ela quem está desenhando as cenas do Evangelho e os símbolos chineses nos vitrais da Catedral de Zikawei. As mesmas há anos reduzidas a pedaços pelas Guardas Vermelhas”
Os padres mais velhos dizem: todospensam em ganhar dinheiro e não vão mais à igreja...
XING: Não é que não querem, mas trabalhamtanto, têm tanto a fazer... A meu ver, mesmo as pessoas de meia idade, que sãochamadas de a “geração perdida”, porque eram jovens nos anos da RevoluçãoCultural, têm perguntas verdadeiras e sepultadas que despontam em seuscorações.
E os jovens?
XING: Eles também vivem uma vida convulsa.Conseguem obter muitas coisas. Mas talvez, depois, só venha insatisfação disso.Uma espécie de tédio. Uma espera confusa de algo grande, de um bem infinito.Como o bem que Jesus quer para cada um deles.
O bispo Jin nos disse que no início osenhor não queria aceitar a nomeação a bispo. No fim, o que o convenceu?
XING: No início, eu estava hesitante, poistinha diante dos meus olhos minhas inadequações. Eu dizia a mim mesmo: “Não souinteligente o bastante, não sou esperto, não falo outras línguas...”. Depoispensei: estou nas mãos de Deus, que comigo pode fazer tudo. Se eu não soucapaz, Ele me ajuda. E quanto mais for incapaz, mais se verá que é tudo obradele. Como dizia São Paulo: “Quando sou fraco, é então que sou forte”.
Se pudesse dizer uma coisa ao Papa,para ajudá-lo a compreender a atual condição da Igreja na China, o que o senhorlhe diria?
XING: Os chineses amam o Papa. Amavam JoãoPaulo II, que tinha a Igreja na China no coração. Amam também o novo Papa.Certamente, não sou eu quem deve explicar ao Papa como vão as coisas. Em Roma,há pessoas que sabem muito bem como é a situação. Eu lhe pediria apenas: SantoPadre, reze por nós.


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