BENTO XIV
Extraído do número 05 - 2005
Um predecessor iluminado
Artigo do arcebispo de Gênova sobre Bento XIV, papa de 1740 a 1758
do cardeal Tarcisio Bertone
Depois de um interessante debatesobre o novo Papa na televisão, o presidente Andreotti me solicitou quereapresentasse – como homenagem a Bento XVI – um perfil de seu predecessorhomônimo, Bento XIV, fruto de meus estudos anteriores, aos quais quis benevolentementereferir-se o papa Ratzinger em sua primeira visita à Congregação para aDoutrina da Fé em 20 de abril de 2005.

1. A preparação
e a eleição a papa
Prospero Lorenzo Lambertini nasceu em 31de março de 1675, em Bolonha, filho de Marcello e Lucrezia Bulgarini. Excelentepor inteligência e aplicação ao estudo, obteve o diploma em teologia e inutroque iure em Roma, em1694.
Em consideração a suasqualidades e à estima universal que gozava nos círculos romanos, percorreutodos os graus e escritórios da Cúria Romana, até se tornar secretário daCongregação do Concílio em 1718.
Surpreende o fato de quetodas as fontes biográficas silenciem sobre um momento considerado geralmenteimportante na vida de um eclesiástico: a data da ordenação sacerdotal. Na realidade,Lambertini, por motivos que não se podem dever a um costume já em desuso, e queseria interessante aprofundar, retardou sua ordenação sacerdotal até 1724,quando, com a idade de quase cinqüenta anos, se poderia dizer que já estava noápice de sua experiência e de sua atividade “romana”.
Os testemunhos concordam emdar ao futuro Papa um caráter vivaz e espirituoso, impetuoso e cordial. O padreDe Montfaucon o descreveu com esta expressão: “Lambertini tem duas almas: umapara a ciência, a outra para a sociedade”. Com Pastor, podemos afirmar: “No fimdas contas, pode-se dizer que Bento XIV representava a encarnação do ladomelhor e mais agradável do espírito italiano”.
Como sinal de apreço ebenevolência, foi eleito arcebispo in partibus de Teodósia e criado cardeal in pectore em 1726, e nomeado bispo residencial deAncona em 1727.
Foi publicado cardeal em 30de abril de 1728. Em 30 de abril de 1731, foi transferido ao arcebispado deBolonha, sua cidade natal, onde esse homem erudito, prelado da Cúria Romana,demonstrou-se pastor zeloso e pio.
Visitas e instruções foramos meios mais concretos de que se valeu para elevar o nível espiritual do cleroe do povo.
Apesar da trabalhosa funçãode pastor de almas, o cardeal Lambertini continuou a ser homem de estudo. Bastacitar as obras compostas em Bolonha para se dar conta de sua extensa atividadeliterária. Suas Ordenanças, reunidas e publicadas, serviram de modelo para muitos bispos. A grandeobra De Servorum Dei beatificatione et canonizatione apareceu de 1734 a 1738, e tornou-seclássica para a Cúria Romana.
Não podemos esquecer outrasobras menores, mas muito importantes: De sacrificio Missae, De festis Domini nostri Iesu Christi, Beatae Mariae Virginis et quorundamSanctorum, e o riquíssimoThesaurus Resolutionum Sacrae Congregationis Concilii, compilado já quando era secretário daSagrada Congregação.
Também o De SynodoDioecesana foi iniciadoem Bolonha. Em verdade, Bento XIV podia dizer: “Ma plume est ma meilleureamie”.
Foi justamente em Bolonha,no outono de 1731, que conheceu o grande historiador Ludovico Antonio Muratori,que residia habitualmente em Módena: desde então, os dois homens estiveramsempre ligados em estima recíproca e amizade.
Em fevereiro de 1740,chegou a Bolonha a notícia da morte de Clemente XII. O cardeal Lambertini tevede partir para o conclave, o segundo de sua vida (o primeiro foi depois damorte de Bento XIII: era cardeal havia apenas dois anos, e aquele momento ficouem sua memória sem qualquer impressão particular).
Esse segundo conclave teveproporções e importância tais, que modificou totalmente a rota de sua vida: defato, depois de conflitos irredutíveis e discussões que não chegavam aconclusão alguma, no 255º escrutínio, depois de seis meses de conclave, em 17de agosto de 1740, o cardeal Lambertini foi eleito papa. O júbilo por suaeleição, tão mais apreciada quanto imprevista, foi imensa.
Seu amor pela ciência e suadoutrina logo se manifestaram no ininterrupto empenho pessoal com o estudo, quelhe permitiu prosseguir suas publicações.
Seu horário de trabalho eramassacrante. Eis como ele mesmo descreve o programa de um dia: “O dia tem vintee quatro horas. Nós nos levantamos às dez da Itália e vamos deitar às três daItália: e asseguramos que, com exceção da meia hora de almoço, e da hora quevai das duas às três, no resto do dia ouvimos ou escrevemos ou lemos”.
Sua formação científica sedestaca tanto nos escritos particulares quanto na legislação, na qual sereflete sua vastíssima erudição pessoal.
No entanto, encontravaainda formas de sair pela cidade e deixar-se ver pelos súditos – coisa que seuspredecessores não haviam feito -, de passar de igreja em igreja para assistiràs quarenta horas de exposição do Santíssimo Sacramento quase todas as noites ede executar todas as funções religiosas pessoalmente, pois considerava que essafosse uma das obrigações do pontífice.
Promotor de múltiplasiniciativas culturais e artísticas, fundou quatro Academias em Roma: a dosConcílios, a da História Eclesiástica, a da Liturgia e a das AntigüidadesRomanas. Reformou a Universidade della Sapienza, da qual fora reitor como“advogado consistorial”, instituindo as novas cátedras de Matemática e Químicae reforçando a de Física Experimental.
Manifestou compreensãopelas idéias de seu tempo e “procurou adaptar cada vez mais a severidade dadisciplina eclesiástica ao novo espírito de tolerância, para preservar aliberdade de pesquisa científica”.
Foram frutos dessa suaatitude a estima e a consideração pelos homens cultos, e relações com as maisdiversas personalidades, por exemplo, com o já citado Muratori, com PierreLouis Moreau De Maupertuis, presidente da Academia das Ciências de Berlim, como napolitano Antonio Genovesi, com o veronês Scipione Maffei, com Voltaire.
Sua visão ampla e seuequilíbrio o acompanharam também nos atos de governo: tanto na escolha doscolaboradores quanto na política financeira e comercial.
Quando a morte o colheu, em3 de maio de 1758, ele havia prestado quase 18 anos de serviço pontifical nacátedra de Pedro, trazendo consigo uma bagagem de ciência, de operosidadeincansável no aprofundamento das reformas indicadas pelo Concílio de Trento –como já havia feito em Ancona e em Bolonha -, de mansidão e de senso concretoda realidade mesmo nas mais difíceis ações diplomáticas que fez dele “o maiorPontífice de seu século, ao qual a história da Igreja continuará a conceder umlugar merecido entre os mais insignes sucessores de Pedro” (Pio XII).
2. Juízos sobre o homem
e sua atividade político-religiosa
Bento XIV “foi em muito superior, pelasqualidades pessoais e pela colocação favorável e duração de seu pontificado,aos papas que o precederam e o seguiram”.
A consciência de suastremendas responsabilidades e sua extraordinária capacidade de trabalho ofaziam escrever: “É possível ser papa comendo e bebendo, dando ordens aosoutros e nada fazendo pelas próprias mãos, e nem mesmo exigindo contas do queos outros realizam, pondo toda sua solicitude e contentamento em enriquecer suacasa; e o papado, tomados nesses termos, é o melhor emprego que existe nestemundo. Dissemos neste mundo, pois as coisas no outro certamente não serãoassim, ao passo que, esforçando-nos sempre, trabalhando noite e dia,inquietando-nos a fim de que as coisas melhorem, não tendo nem carne nemsangue, não será pouca no outro mundo, se não perdermos a marcha e noscontentarmos, por nossas omissões, a grande misericórdia de Deus de umpurgatório até o dia do juízo”.
Sua intenção declarada, “aprincipal tarefa do pontificado”, era “preservar a fé onde ela já está, edilatá-la onde ainda não está”. Tarefa difícil, especialmente numa épocaatormentada e acesa pelas controvérsias jansenistas e jurisdicionalistas, que oobrigavam às vezes a restringir a eficácia de seus discursos a uma desesperadaação de defesa e de contenção dos movimentos centrífugos: “Refletiremos muitobem sobre tudo isso, estimando o quanto pudermos a Igreja galicana, amando anação, mas sem prejuízo a esta Santa Sé, à qual, se não formos capazes detrazer proveito, não queremos no leito de morte lamentar por ter-lhe infligidodanos”.
Sua visão da situação daIgreja e a aguda sensibilidade diante de todo ato e acontecimento dirigidocontra o Papa o tornavam, às vezes – contra a sua natureza -, muito amargo nosjuízos: “O mundo está hoje reduzido a um tal estado que, quando uma coisaagrada, aqueles aos quais ela agrada são pelo Papa, e aqueles aos quaisdesagrada são contra o Papa; e, sendo impossível que uma coisa agrade a todos,daqui provém que os danos contra o Papa são inevitáveis”. E replicando apropósito da demissão do cardeal De Tencin do Conselho da Coroa, acrescentava:“Se quiséssemos lamentar todos os nossos problemas, todas as nossas amarguras,tudo o que nos advém do sumo pontificado, as tantas vezes em que nos veio àcabeça voltar à vida privada, encheríamos muitas mais folhas de papel, mas nóslhe asseguramos que outra coisa não nos retém, senão o pensamento de fazer umsacrifício a Deus para emenda de nossos pecados e males, que suportamos, e opensamento de morrer com a espada em punho, já que a desembainhamos”.
Em verdade, o Papa sabiaexercer seu encargo com senso de simplicidade, realismo e coragem, confessando:“Nunca tivemos medo da verdade e da justiça, mas [...] nosso medo sempre foi eé o da mentira e da injustiça”.
Incapaz de dissimular,homem livre acima das adulações, graças ao fino bom humor que soube conservaraté nos dias mais tristes, o Papa acabava por ser extremamente simpático, poissabia brincar não apenas com os outros, mas também consigo mesmo, e estavasempre pronto a reconhecer seus erros, a pedir desculpas por suas faltas, aperdoar, quando não mesmo a esquecer. Mesmo na dura realidade política, jamaisperdeu o substancial fundo de otimismo que o aproxima surpreendentemente, emalguns traços da personalidade, de seu distante sucessor – mais próximo de nósno tempo – João XXIII, quando declara: “Non ex eorum numero Nos sumus, quibuspersuasum sit, omnia in nostra tempora inconvenientia accidere, atque eapraesentibus diebus contingere scandala, quae numquam praeteritis temporibusevenerint”.
Essa postura sem dúvida sebaseava na profunda espiritualidade de Bento XIV, ainda toda a explorar.
Revelou-se homem de oraçãonão apenas durante o Ano Santo, mas desde o início do pontificado, quandoinvocava ardentemente os dons do Espírito Santo e convidava à oração incessantepelo Papa toda a catolicidade, a começar dos bispos, que devem ser modelos depiedade. Ele mesmo dá exemplo disso: sabe-se como estava presente a todas asfunções religiosas de Roma, enquanto a resistência física e o trabalho da cúriapermitiam isso a alguém que não conseguia “escrever ou ditar duas linhas semque houvesse uma interrupção, por motivo de audiência ou de recepçãodiplomática ou de leitura ou de bilhetes ou de muitíssimos afazeres”.
Diante da crise dacristandade do antigo regime, nosso Papa busca remédio no apoio às potênciascatólicas, mas mais ainda na ampliação da vida religiosa e na preocupação deque o clero, com o maior empenho, ensine a verdade cristã e anuncie o Evangelho.
Na opinião dos estudiosos,dois fatos marcam o panorama da religiosidade do século XVIII. Em primeirolugar, em toda a orbe católica, mas especialmente na Itália e na França, essepode bem ser chamado o século da pregação popular. E não pensamos apenas notestemunho que dela dão os muitíssimos livros de oração, de comentários àsescrituras, de panegíricos impressos, mas no fato de que não houve, pode-sedizer, no que diz respeito pelo menos à Itália, lugar ou território que nãofosse batido pela pregação peregrinante dos missionários.
Bento XIV foi dela corajosodefensor – tanto por meio de indicações de ação pastoral repletas de suaautoridade, quanto do ponto de vista prático -, no Estado Pontifício e em Roma,valendo-se da zelosa pregação de Leonardo de Porto Maurício.

Na pregação popular, que procuravalevantar uma barricada à descristianização dos intelectuais, por meio de umaforte recuperação da base camponesa e urbana, nosso Papa idealizou inserirconteúdos teologicamente válidos e formativos, encorajando sobretudo a difusãodos ensaios dos oradores franceses, e retirar as tradicionais invectivas contraos infiéis e os judeus, num esforço de purificação que corresponde a seuespírito tolerante e aberto ao diálogo.
O segundo fato que se deve notar é onascimento de novas congregações religiosas, voltadas à evangelização e àassistência espiritual e caritativa das populações mais miseráveis edeserdadas. Pensamos sobretudo na ação apostólica dos Passionistas, no entãoEstado Pontifício, e na dos Redentoristas, junto às plebes da cidade e do campona região de Nápoles. Tem sentido, também, constatar que ao longo do séculoveio a formar-se e se difundir uma piedade ora rigorosa, ora terna e afetuosa,uma em aberta antítese ao costume do século inclinado à morbidez dos afetos,como foi a de Paulo da Cruz, a outra, de Afonso de Liguori, voltada a umaparticipação ingênua e afetuosa do mistério cristão, capaz de ser feliz emresumir em si a propensão comum à sensibilidade.
A nova corrente de espiritualidadepassionista, que reapresentava como eixo da vida cristã a meditação da “loucurada Cruz”, contrapunha-se muito bem a um século que se orgulhava das “luzes darazão”. Bento XIV encorajou e demonstrou sua predileção pelo humilde eremita, echegou a exclamar: “A Congregação da Paixão deveria ter sido a primeira fundadapela Igreja, e eis que vem por última”.
Quanto à ação político-religiosa, podem-serelacionar estes componentes de sua política internacional: “Juízo sereno dasituação, aceitação dos dados, obra de pacificação, mesmo a despeito de seuprestígio”.
É certo que a atitude conciliadora deBento XIV diante das exigências dos soberanos, católicos e protestantes,melhorou o clima em que eram chamadas a viver a Igreja e a Religião. Nosso Paparealizou perfeitamente sua máxima segundo a qual nele “o Papa devia preceder osoberano”, já que quis ser em primeiro lugar pastor de almas: “Fixamos em nossacabeça não comparecer ao juízo de Deus réus de não termos feito o quantopodíamos pela saúde das almas”.

Retrato de Bento XIV, Pierre Subleyras, Museu do Castelo, Versailles
Em consideração a suasqualidades e à estima universal que gozava nos círculos romanos, percorreutodos os graus e escritórios da Cúria Romana, até se tornar secretário daCongregação do Concílio em 1718.
Surpreende o fato de quetodas as fontes biográficas silenciem sobre um momento considerado geralmenteimportante na vida de um eclesiástico: a data da ordenação sacerdotal. Na realidade,Lambertini, por motivos que não se podem dever a um costume já em desuso, e queseria interessante aprofundar, retardou sua ordenação sacerdotal até 1724,quando, com a idade de quase cinqüenta anos, se poderia dizer que já estava noápice de sua experiência e de sua atividade “romana”.
Os testemunhos concordam emdar ao futuro Papa um caráter vivaz e espirituoso, impetuoso e cordial. O padreDe Montfaucon o descreveu com esta expressão: “Lambertini tem duas almas: umapara a ciência, a outra para a sociedade”. Com Pastor, podemos afirmar: “No fimdas contas, pode-se dizer que Bento XIV representava a encarnação do ladomelhor e mais agradável do espírito italiano”.
Como sinal de apreço ebenevolência, foi eleito arcebispo in partibus de Teodósia e criado cardeal in pectore
Foi publicado cardeal em 30de abril de 1728. Em 30 de abril de 1731, foi transferido ao arcebispado deBolonha, sua cidade natal, onde esse homem erudito, prelado da Cúria Romana,demonstrou-se pastor zeloso e pio.
Visitas e instruções foramos meios mais concretos de que se valeu para elevar o nível espiritual do cleroe do povo.
Apesar da trabalhosa funçãode pastor de almas, o cardeal Lambertini continuou a ser homem de estudo. Bastacitar as obras compostas em Bolonha para se dar conta de sua extensa atividadeliterária. Suas Ordenanças, reunidas e publicadas, serviram de modelo para muitos bispos. A grandeobra De Servorum Dei beatificatione et canonizatione
Não podemos esquecer outrasobras menores, mas muito importantes: De sacrificio Missae
Também o De SynodoDioecesana foi iniciadoem Bolonha. Em verdade, Bento XIV podia dizer: “Ma plume est ma meilleureamie”.
Foi justamente em Bolonha,no outono de 1731, que conheceu o grande historiador Ludovico Antonio Muratori,que residia habitualmente em Módena: desde então, os dois homens estiveramsempre ligados em estima recíproca e amizade.
Em fevereiro de 1740,chegou a Bolonha a notícia da morte de Clemente XII. O cardeal Lambertini tevede partir para o conclave, o segundo de sua vida (o primeiro foi depois damorte de Bento XIII: era cardeal havia apenas dois anos, e aquele momento ficouem sua memória sem qualquer impressão particular).
Esse segundo conclave teveproporções e importância tais, que modificou totalmente a rota de sua vida: defato, depois de conflitos irredutíveis e discussões que não chegavam aconclusão alguma, no 255º escrutínio, depois de seis meses de conclave, em 17de agosto de 1740, o cardeal Lambertini foi eleito papa. O júbilo por suaeleição, tão mais apreciada quanto imprevista, foi imensa.
Seu amor pela ciência e suadoutrina logo se manifestaram no ininterrupto empenho pessoal com o estudo, quelhe permitiu prosseguir suas publicações.
Seu horário de trabalho eramassacrante. Eis como ele mesmo descreve o programa de um dia: “O dia tem vintee quatro horas. Nós nos levantamos às dez da Itália e vamos deitar às três daItália: e asseguramos que, com exceção da meia hora de almoço, e da hora quevai das duas às três, no resto do dia ouvimos ou escrevemos ou lemos”.
Sua formação científica sedestaca tanto nos escritos particulares quanto na legislação, na qual sereflete sua vastíssima erudição pessoal.
No entanto, encontravaainda formas de sair pela cidade e deixar-se ver pelos súditos – coisa que seuspredecessores não haviam feito -, de passar de igreja em igreja para assistiràs quarenta horas de exposição do Santíssimo Sacramento quase todas as noites ede executar todas as funções religiosas pessoalmente, pois considerava que essafosse uma das obrigações do pontífice.
Promotor de múltiplasiniciativas culturais e artísticas, fundou quatro Academias em Roma: a dosConcílios, a da História Eclesiástica, a da Liturgia e a das AntigüidadesRomanas. Reformou a Universidade della Sapienza, da qual fora reitor como“advogado consistorial”, instituindo as novas cátedras de Matemática e Químicae reforçando a de Física Experimental.
Manifestou compreensãopelas idéias de seu tempo e “procurou adaptar cada vez mais a severidade dadisciplina eclesiástica ao novo espírito de tolerância, para preservar aliberdade de pesquisa científica”.
Foram frutos dessa suaatitude a estima e a consideração pelos homens cultos, e relações com as maisdiversas personalidades, por exemplo, com o já citado Muratori, com PierreLouis Moreau De Maupertuis, presidente da Academia das Ciências de Berlim, como napolitano Antonio Genovesi, com o veronês Scipione Maffei, com Voltaire.
Sua visão ampla e seuequilíbrio o acompanharam também nos atos de governo: tanto na escolha doscolaboradores quanto na política financeira e comercial.
Quando a morte o colheu, em3 de maio de 1758, ele havia prestado quase 18 anos de serviço pontifical nacátedra de Pedro, trazendo consigo uma bagagem de ciência, de operosidadeincansável no aprofundamento das reformas indicadas pelo Concílio de Trento –como já havia feito em Ancona e em Bolonha -, de mansidão e de senso concretoda realidade mesmo nas mais difíceis ações diplomáticas que fez dele “o maiorPontífice de seu século, ao qual a história da Igreja continuará a conceder umlugar merecido entre os mais insignes sucessores de Pedro” (Pio XII).
A consciência de suastremendas responsabilidades e sua extraordinária capacidade de trabalho ofaziam escrever: “É possível ser papa comendo e bebendo, dando ordens aosoutros e nada fazendo pelas próprias mãos, e nem mesmo exigindo contas do queos outros realizam, pondo toda sua solicitude e contentamento em enriquecer suacasa; e o papado, tomados nesses termos, é o melhor emprego que existe nestemundo. Dissemos neste mundo, pois as coisas no outro certamente não serãoassim, ao passo que, esforçando-nos sempre, trabalhando noite e dia,inquietando-nos a fim de que as coisas melhorem, não tendo nem carne nemsangue, não será pouca no outro mundo, se não perdermos a marcha e noscontentarmos, por nossas omissões, a grande misericórdia de Deus de umpurgatório até o dia do juízo”.
Sua intenção declarada, “aprincipal tarefa do pontificado”, era “preservar a fé onde ela já está, edilatá-la onde ainda não está”. Tarefa difícil, especialmente numa épocaatormentada e acesa pelas controvérsias jansenistas e jurisdicionalistas, que oobrigavam às vezes a restringir a eficácia de seus discursos a uma desesperadaação de defesa e de contenção dos movimentos centrífugos: “Refletiremos muitobem sobre tudo isso, estimando o quanto pudermos a Igreja galicana, amando anação, mas sem prejuízo a esta Santa Sé, à qual, se não formos capazes detrazer proveito, não queremos no leito de morte lamentar por ter-lhe infligidodanos”.
Sua visão da situação daIgreja e a aguda sensibilidade diante de todo ato e acontecimento dirigidocontra o Papa o tornavam, às vezes – contra a sua natureza -, muito amargo nosjuízos: “O mundo está hoje reduzido a um tal estado que, quando uma coisaagrada, aqueles aos quais ela agrada são pelo Papa, e aqueles aos quaisdesagrada são contra o Papa; e, sendo impossível que uma coisa agrade a todos,daqui provém que os danos contra o Papa são inevitáveis”. E replicando apropósito da demissão do cardeal De Tencin do Conselho da Coroa, acrescentava:“Se quiséssemos lamentar todos os nossos problemas, todas as nossas amarguras,tudo o que nos advém do sumo pontificado, as tantas vezes em que nos veio àcabeça voltar à vida privada, encheríamos muitas mais folhas de papel, mas nóslhe asseguramos que outra coisa não nos retém, senão o pensamento de fazer umsacrifício a Deus para emenda de nossos pecados e males, que suportamos, e opensamento de morrer com a espada em punho, já que a desembainhamos”.
Em verdade, o Papa sabiaexercer seu encargo com senso de simplicidade, realismo e coragem, confessando:“Nunca tivemos medo da verdade e da justiça, mas [...] nosso medo sempre foi eé o da mentira e da injustiça”.
Incapaz de dissimular,homem livre acima das adulações, graças ao fino bom humor que soube conservaraté nos dias mais tristes, o Papa acabava por ser extremamente simpático, poissabia brincar não apenas com os outros, mas também consigo mesmo, e estavasempre pronto a reconhecer seus erros, a pedir desculpas por suas faltas, aperdoar, quando não mesmo a esquecer. Mesmo na dura realidade política, jamaisperdeu o substancial fundo de otimismo que o aproxima surpreendentemente, emalguns traços da personalidade, de seu distante sucessor – mais próximo de nósno tempo – João XXIII, quando declara: “Non ex eorum numero Nos sumus, quibuspersuasum sit, omnia in nostra tempora inconvenientia accidere, atque eapraesentibus diebus contingere scandala, quae numquam praeteritis temporibusevenerint”.
Essa postura sem dúvida sebaseava na profunda espiritualidade de Bento XIV, ainda toda a explorar.
Revelou-se homem de oraçãonão apenas durante o Ano Santo, mas desde o início do pontificado, quandoinvocava ardentemente os dons do Espírito Santo e convidava à oração incessantepelo Papa toda a catolicidade, a começar dos bispos, que devem ser modelos depiedade. Ele mesmo dá exemplo disso: sabe-se como estava presente a todas asfunções religiosas de Roma, enquanto a resistência física e o trabalho da cúriapermitiam isso a alguém que não conseguia “escrever ou ditar duas linhas semque houvesse uma interrupção, por motivo de audiência ou de recepçãodiplomática ou de leitura ou de bilhetes ou de muitíssimos afazeres”.
Diante da crise dacristandade do antigo regime, nosso Papa busca remédio no apoio às potênciascatólicas, mas mais ainda na ampliação da vida religiosa e na preocupação deque o clero, com o maior empenho, ensine a verdade cristã e anuncie o Evangelho.
Na opinião dos estudiosos,dois fatos marcam o panorama da religiosidade do século XVIII. Em primeirolugar, em toda a orbe católica, mas especialmente na Itália e na França, essepode bem ser chamado o século da pregação popular. E não pensamos apenas notestemunho que dela dão os muitíssimos livros de oração, de comentários àsescrituras, de panegíricos impressos, mas no fato de que não houve, pode-sedizer, no que diz respeito pelo menos à Itália, lugar ou território que nãofosse batido pela pregação peregrinante dos missionários.
Bento XIV foi dela corajosodefensor – tanto por meio de indicações de ação pastoral repletas de suaautoridade, quanto do ponto de vista prático -, no Estado Pontifício e em Roma,valendo-se da zelosa pregação de Leonardo de Porto Maurício.

Giuseppe Maria Crespi, Retrato do cardeal Lambertini, Coleções Municipais de Arte, Bolonha