SÃO BENTO
Extraído do número 05 - 2005
Sinais de amizade espiritual
Comunhão de espírito entre São Bento, padre Luigi Giussani e o papa Bento XVI
de padre Giacomo Tantardini

Mestre umbro do século XV, O último colóquio entre São Bento e Santa Escolástica, Igreja Superior do Sacro Speco, Subiaco
Não pretendo,evidentemente, comentar essa última conferência de Ratzinger como cardeal, cujaclareza e simplicidade de exposição tornam fácil para todos perceber suaverdade e beleza. Pretendo apenas fazer menção à posição humana que aquelas palavrastestemunham. Um espírito, um coração que o apóstolo Paulo descreve assim numadas frases mais citadas por padre Giussani: “Examinai todas as coisas e ficaicom o que é bom” (1Ts 5,21).
De fato, por um lado, demaneira muito franca, “o desenvolvimento da cultura iluminista” é considerado“a contradição absolutamente mais radical não apenas do cristianismo, mastambém das tradições religiosas e morais da humanidade”, levando à afirmação deque “uma confusa ideologia da liberdade conduz a um dogmatismo que vem serevelando cada vez mais hostil à liberdade” e de que “uma filosofia que nãoexprime a razão completa do homem, mas apenas parte dela, por essa mutilação darazão não pode ser considerada de modo algum racional”. Por outro lado, quandose pergunta “se essa é uma recusa pura e simples do iluminismo e damodernidade”, Ratzinger responde: “Não, absolutamente”. Não apenas porque “ocristianismo, desde o princípio, compreendeu a si mesmo como a religião queestá de acordo com a razão”, identificando “no iluminismo filosófico” daquelestempos “seus precursores”, mas também porque “foi e é mérito do iluminismo terreproposto esses valores originais do cristianismo e ter dado novamente à razãouma voz própria. O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja nomundo contemporâneo, evidenciou mais uma vez essa profunda correspondênciaentre cristianismo e iluminismo, procurando chegar a uma verdadeira conciliaçãoentre Igreja e modernidade, que é o grande patrimônio a ser preservado porambas as partes”.
Impressiona a expressão“profunda correspondência entre cristianismo e iluminismo”. Parece-me que podeser mesmo esse reconhecimento surpreendente que nos permita vislumbrar a“comunhão de espírito” entre Ratzinger e Giussani, ao conceberem e viverem aexperiência cristã. Realmente, o que é a experiência cristã, senão perceber acorrespondência entre o acontecimento de Jesus Cristo e as exigências eevidências do coração do homem? O acontecimento cristão, ao mesmo tempo em que,com seu aparecimento gratuito, evidencia presunções, parcialidades econtradições das tentativas humanas, realiza em superabundância toda a esperahumana. Há uma palavra evangélica, talvez a mais repetida por Giussani, queindica essa dinâmica: “O cêntuplo”. Foi comovente ouvir o papa Bento, naconclusão da homilia na missa pelo início de seu ministério, repetir,dirigindo-se aos jovens, essa mesma palavra, “o cêntuplo”, para descrever o proprium
O cêntuplo não é oresultado de um projeto, de um programa. “O meu verdadeiro programa de governoé não fazer a minha vontade, não é perseguir idéias minhas, mas pôr-me àescuta, com a Igreja inteira, da palavra e da vontade do Senhor e deixar-meguiar por Ele, de forma que seja Ele mesmo quem guia a Igreja nesta hora danossa história”, dizia ainda Bento XVI na homilia da missa pelo início de seuministério. O cêntuplo neste mundo, como a vida eterna, tem um início, umafonte “permanente” (todas as palavras da primeira aparição de Bento XVI napraça de São Pedro, cheia de romanos que corriam para ver o novo Papa,continuam na memória: “Confiantes em sua ajuda permanente”). O início“permanente” é Jesus Cristo, o Senhor ressuscitado.
“A Igreja é viva porqueCristo é vivo, porque verdadeiramente Ele ressuscitou” (domingo, 24 de abril).E em 1º de maio, quando, dirigindo-se às Igrejas do Oriente que celebravam aPáscoa, repetiu com força “Christós anesti! Sim, Cristo ressuscitou, ressuscitouverdadeiramente”, foram belos os aplausos que imediatamente se elevaram dapraça cheia de fiéis para aquela janela.
Aqui, a comunhão de mente ede coração entre São Bento, Bento XVI, padre Giussani e o menor dos fiéis éluminosa e total.
“Padre Giussani sempremanteve fixo o olhar de sua vida e de seu coração para Cristo” (foi o que disseo cardeal Ratzinger no Domo de Milão, durante os funerais de Giussani).“Precisamos de homens que mantenham o olhar voltado para Deus, aprendendo daí averdadeira humanidade” (em Subiaco). E, ainda em Subiaco, o cardeal Ratzingerconcluiu a conferência citando a frase mais bela que São Bento repete duasvezes na Regra: “Nada, absolutamente nada anteponham a Cristo, o qual nospoderá conduzir todos à vida eterna”. Aqui, no capítulo 72: “Christo omninonihil praeponant”. E nocapítulo 4: “Nihil amori Christi praeponere / nada antepor ao amor de Cristo”.
Quando, desse permanente “prae-ponere
Esse amor de
Como é surpreendente,também do ponto de vista humano, e como é católico, também do ponto de vistateológico, que todo gesto bom, toda obra boa surja e floresça sempre de umacoisa que parece ser nada, como o fascínio (L’attrattiva Gesù
Até mesmo a boa obra porexcelência, ou seja, a liturgia, salvaguardando a validade dos sacramentos,seria reduzida – palavras do cardeal Ratzinger -, a “celebração de si mesmos”,a “teatro”, se não fosse um “pensar nEle”, um estar “voltados para o Senhor”. Aliturgia se tornaria um formalismo pesado, pesado porque construído por nós.Perderia aquela transparência de beleza que (lembrava Ratzinger numa de suasconferências mais belas, no Congresso Eucarístico de Bolonha de 1997, fazendomenção a uma lenda antiga sobre as origens do cristianismo na Rússia) encheu deadmiração os embaixadores do príncipe Vladimir de Kiev quando, na Basílica deSanta Sofia, em Constantinopla, assistiram à santa liturgia. “O que osimpressionou foi o mistério enquanto tal, que, indo justamente além dadiscussão, fez brilhar à razão a força da verdade”.

Abadia do Sacro Speco, Subiaco
Toda a Regra, justamentepor ser um simples e humilde deixar-se guiar pelo Evangelho (“per ducatumEvangelii”), é exemploadmirável de como “a misericórdia de Cristo não supõe a banalização do mal”(Ratzinger), de como “da misericórdia não apenas surge, mas se atesta e se preservao fio da moralidade” (Giussani).
E, tendo como imagem idealdo cristão a de quem sempre repete “aquilo que disse publicanus illeevangelicus / aquelepublicano do Evangelho” (capítulo 7), a Regra é em primeiro lugar a propostaclara, breve, concreta dos mandamentos de Deus, que, com realismo insuperável,Bento lista no início do capítulo 4, ou seja, de preceitos que indicam o quedeve ser feito e o que deve ser evitado nas várias circunstâncias da vida.Justamente porque “a primeira coisa / in primis” a fazer é “rezar a todo instante com oração muitoinsistente (istantissima oratione) Àquele que leva a termo toda boa obra que seinicia” (Prólogo); justamente pelo fato de que “o instrumento mais eficaz quese pode usar”, por exemplo diante de um irmão pecador, é “a oração para que oSenhor, que tudo pode (qui omnia potest), opere a salvação” (capítulo 28), os mandamentos eos preceitos são propostos sem eliminar ou esvaziar nada.
“Não há nada mais realistaque afirmar os princípios justos com fidelidade. E o tempo produzirá a mudança.E a mudança realizada será suficiente para testemunhar o milagre de Deus emnós. E quem apenas experimentou um pouco dessa fidelidade em repetir osprincípios justos sabe que mortificação ela é” (Giussani).
A alternativa ao moralismoque condena (os outros) está em repetir o que é bom e o que é mal ao lado dopedido Àquele que tudo pode. Esse re-petir, esse re-pedir “sempre, sem cansar”(Lc 18,1) é a coisa mais simples e mais humilde que podemos fazer, e “épeculiar àqueles que estimam nada haver mais caro que o Cristo” (capítulo 5 daRegra).
Por isso, eu gostaria deconcluir estas notas agradecendo àquele que, dois meses antes de ser eleitopapa, aceitou escrever a introdução a um pequeno livro de orações que contémtambém quais e quantas coisas são exigidas para fazer uma boa confissão.
“Estou muito contente,portanto, com o fato de 30Dias fazer uma nova edição deste pequeno livro que contém as oraçõesfundamentais dos cristãos, amadurecidas ao longo dos séculos. Elas nos acompanhamdurante todas as vicissitudes da nossa vida e nos ajudam a celebrar a liturgiada Igreja rezando. Faço votos de que este pequeno livro possa se tornar umcompanheiro de viagem para muitos cristãos. Roma, 18 de fevereiro de 2005.Cardeal Joseph Ratzinger”.
Obrigado.