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Extraído do número 05 - 2005

O Senhor escolhe a nossa pobreza


Joseph Ratzinger lembra sua nomeação a arcebispo de Munique e a cardeal, ambas feitas por Paulo VI, em 1977, e os dois conclaves de 1978


de Gianni Cardinale


João Paulo I com o cardeal Joseph Ratzinger, em  3 de setembro de 1978

João Paulo I com o cardeal Joseph Ratzinger, em 3 de setembro de 1978

O verão europeu de 1978 não foiapenas mais um para a Igreja Católica. Em poucas semanas, os cardeais viram-seduas vezes reunidos em conclave para eleger o sucessor de Pedro. Em 6 deagosto, depois de quinze anos de pontificado, faleceu Paulo VI, que completaria81 anos em 26 de setembro daquele ano. Em 26 de agosto, depois de umrapidíssimo conclave - dois dias e quatro votações -, foi eleito papa opatriarca de Veneza, Albino Luciani, que tomou o nome de João Paulo I.Completaria 66 anos em 17 de outubro. Mas não festejou aquele aniversário. Seupontificado durou apenas trinta e três dias. Na aurora de 28 de setembro, onovo Pontífice foi encontrado morto em seu quarto de dormir. O Sacro Colégio,então, reuniu-se novamente para o conclave, após o qual, em 16 de outubro -depois de oito votações, em três dias -, viu-se a eleição do arcebispo deCracóvia, Karol Wojtyla, 58 anos, que, com o nome de João Paulo II, tornou-se oprimeiro Papa polonês da história e o primeiro não-italiano depois de 456 anos.
Para lembrar, vinte e cinco anos depois,os dramáticos acontecimentos daquele verão, 30Dias pediu o testemunho do cardeal JosephRatzinger, 76 anos, indubitavelmente o mais conhecido entre os vinte e umpurpurados do atual Sacro Colégio que participaram dos dois conclaves de 1978.Falamos com ele também de suas conversas e encontros com Paulo VI e João PauloI, entre 1977 e 1978.
O cardeal Joseph Ratzinger não precisa demuitas apresentações. Teólogo famoso desde a época do Concílio Vaticano II,nomeado arcebispo de Munique e Freising e criado cardeal em 1977 por Paulo VI,é atualmente o único purpurado europeu criado pelo papa Montini que teriaassento num eventual conclave. Convocado a Roma por João Paulo II em 1981,preside desde então a Congregação para a Doutrina da Fé, a Pontifícia ComissãoBíblica e a Comissão Teológica Internacional. Atualmente é o mais longevo entreos chefes de dicastério da Cúria Romana. Vice-decano do Sacro Colégio desdenovembro de 1998, no final do ano passado foi eleito decano.

Eminência, em 24 de março de 1977 PauloVI o nomeou arcebispo de Munique. Três meses depois, o criou cardeal...
JOSEPH RATZINGER: Dois ou três dias depoisda minha consagração episcopal, em 28 de maio, fui informado da minha nomeaçãoa cardeal, que, portanto, coincidia com a ordenação sacramental. Foi, para mim,uma grande surpresa. Não sei ainda explicar a mim mesmo tudo isso. O que sei,de qualquer forma, é que Paulo VI conhecia o meu trabalho como teólogo. Tantoque, alguns anos antes, talvez em 1975, me convidara para pregar os exercíciosespirituais no Vaticano. Na época, eu não me sentia suficientemente seguro nemdo meu italiano nem do meu francês para preparar e ousar uma tal aventura, eassim disse não. Mas essa foi uma prova de que o Papa me conhecia. Talvez domKarl Rauber tenha tido alguma parte nessa história; hoje núncio na Bélgica, naépoca ele era estreito colaborador do sub-secretário Giovanni Benelli. Sejacomo for, o fato é que, como me disseram, diante da lista tríplice para anomeação a arcebispo de Munique e Freising, o Papa escolheu pessoalmente aminha pobreza.
O consistório de 27 de ju­nho de 1977foi um “miniconsistório”, com apenas cinco novos cardeais...
RATZINGER: Sim, éramos um grupo pequeno,interessante e simpático. Lá estava Bernardin Gantin, o único ainda vivo, alémde mim. E Mario Luigi Ciappi, o teólogo da Casa Pontifícia; Benelli,naturalmente, e Frantisek Tomasek, que fora nomeado in pectore já no ano anterior e recebeu a púrpuraconosco.
Conta-se que foi Benelli, nomeado arcebispode Florença em 3 de junho daquele ano, quem “escolheu” os nomes daquele“miniconsistório”...
RATZINGER: Pode ser. Nunca tive vontade,nem tenho vontade agora de explorar essas coisas. Res­peito a Providência; masnão me interessa quais foram seus instrumentos.
O que o senhor lembra daquelacerimônia?
RATZINGER: Quando Paulo VI entregou osbarretes, tive uma grande vantagem em relação aos outros novos cardeais. Nenhumdos outros quatro cardeais tinha consigo uma grande família. Benelli trabalharamuito tempo na Cúria, e não era muito conhecido em Florença, por isso não haviaali muitos fiéis provenientes da capital toscana; Tomasek - estávamos ainda nostempos da cortina de ferro - não podia trazer acompanhantes; Ciappi era umteólogo que, por assim dizer, trabalhara sempre em sua ilha; Gantin é do Benin,e não é fácil viajar da África para Roma. Eu, ao contrário, tive muita gente: asala estava quase cheia de pessoas de Munique e da Baviera.
Fez uma boa figura...
RATZINGER: Num certo sentido, sim. Os aplausospara mim foram maiores do que para os outros. Via-se que Munique estavapresente. E o Papa ficou visivelmente satisfeito por ver de certa formaconfirmada a sua escolha.
Naquela ocasião, o senhor pôde ter umaconversa pessoal com o Papa?
RATZINGER: Depois da liturgia na qual oPapa nos entregou o anel, disseram-me que Paulo VI queria falar comigo emaudiência privada. Por muitos anos, eu havia sido um simples professor,distante da cúpula da hierarquia, e não sabia como me comportar, sentia-me poucoà vontade naquele contexto. Não ousava falar com o Papa, porque me sentia aindasimples demais, mas ele foi muito bom e me encorajou. Tratou-se de uma conversasem intenções específicas; ele queria me conhecer de perto, talvez depois deBenelli ter falado de mim.
O que o senhor lembra do último ano depontificado de Paulo VI?
RATZINGER: Naquele período, fui a Roma comos outros bispos da Baviera, para a visita ad limina. E naquela ocasião houve um belo encontrocom o Papa. Paulo VI começou a falar em alemão, fazia-o bastante bem, masdepois preferiu passar para o italiano, pois era mais fácil para se comunicar.De coração aberto, falou de sua vida e de seu primeiro encontro com a nossaterra. Lembrou que, na sua estada em Munique, quando era jovem sacerdote,sentiu-se um pouco perdido e encontrou muitas pessoas que o ajudaram. Foi umaconversa pessoal, sem grandes discursos: via-se que seu coração se abriu e quequeria simplesmente compartilhar alguns momentos com alguns de seus irmãos noepis­copado. Foi um encontro muito simpático.
O senhor veio a Roma outras vezes,enquanto Paulo VI era papa?
RATZINGER: Sim, para seu aniversário de 80anos [em 26 de setembro de 1977; ndr.]. Em 16 de outubro, ele celebrou uma missa soleneem São Pedro. Naquela ocasião, impressionou-me a maneira como citou o verso da DivinaComédia em que Dante faladaquela “Roma onde Cristo é romano” [Purgatório, XXXII, 102, ndr.]. Paulo VI era considerado um pouco um intelectualque tinha dificuldade para ser caloroso com os outros. Naquele momento,manifestou um calor inesperado justamente para com Roma. Eu não conhecia ou nãome lembrava daquelas palavras de Dante. Impressionaram-me muito. Com elas,Paulo VI queria exprimir seu amor por Roma, que se tornou a cidade do Se­nhor,o centro da Sua Igreja.
Como o senhor soube da morte de PauloVI?
RATZINGER: Eu tinha ido passar as fériasna Áustria. Na própria manhã de 6 de agosto fui informado de que o Santo Padresentira-se mal repentinamente. Liguei para o vigário-geral de Munique para lhedizer que convidasse imediatamente toda a diocese a rezar pelo Papa. Depois fizum pequeno passeio e, quando voltei, me telefonaram para dizer que o Papaestava em estado grave e, pouco depois, me ligaram de novo para comunicar-meque tinha morrido. Então decidi que na manhã seguinte voltaria a Munique, enaquela mesma noite a TV veio me entrevistar. Depois de escrever uma carta àdiocese, viajei para Roma.
Onde assistiu aos funerais do Papa.
RATZINGER: Impressionou-me a absolutasimplicidade do caixão, com o Evangelho pousado em cima. Essa pobreza, que oPapa desejara, quase me chocou. Impressionou-me também a missa fúnebrecelebrada pelo cardeal Carlo Confalonieri, que, tendo mais de oitenta anos, nãoparticiparia do conclave: fez uma homilia muito bonita. Da mesma forma como foibonita a homilia pronunciada numa outra missa pelo cardeal Pericle Felici, quesublinhou como durante o funeral as páginas do Evangelho posto sobre o caixãodo Papa ti­nham sido folheadas pelo vento. Voltei depois a Munique para celebraruma missa em seu sufrágio: a catedral estava muito cheia. Em seguida, voltei aRoma para o conclave.
O senhor era um cardeal “novato”...
RATZINGER: Eu estava entre os mais jovens,mas, como era bispo diocesano, pertencia à ordem dos presbíteros, e, portanto,no protocolo, vinha antes de muitos cardeais da Cúria que pertenciam à ordemdos diáconos. Assim, não estava nos últimos lugares. Lembro-me de que, noalmoço, nesse mesmo contexto, as precedências eram respeitadas, e eu sentavaentre os cardeais Silvio Oddi e Felici, dois purpurados italianíssimos.
O senhor teve realmente um papelimportante naquele conclave?
RATZINGER: É verdade que me encontrei comalguns cardeais germanófonos naquela ocasião. Participavam desses encontrosJoseph Schröffer, então prefeito da Educação Católica, Joseph Höffner, deColônia, o grande Franz König, de Viena - que ainda está vivo -, AlfredBengsch, de Berlim; estavam também Paulo Evaristo Arns e Aloísio Lorscheider,brasileiros de origem alemã. Era um grupo pequeno. Eles não queriam decidirabsolutamente nada, apenas conversar um pouco. Eu me deixei guiar pelaProvidência, ouvindo os nomes, e vendo como se formou finalmente um consensosobre o patriarca de Veneza.
O senhor o conhecia?
RATZINGER: Sim, eu o conhecia pessoalmente.Durante as férias de verão de 1977, em agosto, estava no seminário diocesano deBressanone, e Albino Luciani foi me visitar. O Alto-Ádige faz parte da regiãoeclesiástica do Trivêneto, e ele, que era um homem de uma fina gentileza,sentiu-se quase obrigado, como patriarca de Veneza, a ir encontrar esse seujovem confrade. Eu me sentia indigno daquela visita. Na ocasião, tive aoportunidade de admirar sua grande simplicidade, e também sua grande cultura.Ele me contou que conhecia bem aqueles lugares, onde, quando criança, fora coma mãe em pe­regrinação ao santuário de Pietralba, um mosteiro de Servitas delíngua italiana a mil metros de altura, muito visitado pelos fiéis do Vêneto.Luciani tinha muitas belas lembranças daqueles lugares, e, também por isso,estava contente por voltar a Bressanone.
Nunca o vira antes disso pessoalmente?
RATZINGER: Não. Passei mi­nha vida, comojá disse, no mundo acadêmico, muito longe das hierarquias, e não conheciapessoalmente os expoentes eclesiásticos.
Depois o encontrou novamente?
RATZINGER: Não, nunca, até o conclave de1978.
Naquela ocasião, trocou palavras comele?
RATZINGER: Algumas, pois nos conhecíamos,mas não muitas. Havia muito o que fazer e meditar.
Que impressão teve da eleição dele?
RATZINGER: Fiquei muito feliz. Ter comopastor da Igreja universal um homem com aquela bondade e aquela fé luminosa eraa garantia de que as coisas estavam cami­nhando bem. Ele mesmo ficou surpreso esentia o peso da grande responsabilidade. Dava para ver que sofria um pouco comaquele golpe. Não esperava a eleição. Não era um homem que procurava fazercarreira, mas concebia os cargos que tinha tido como um serviço e também umsofrimento.
Qual foi sua última conversa com ele?
RATZINGER: A que tivemos no dia de suainvestidura, em 3 de setembro. A arquidiocese de Munique e Freising é irmãgêmea das dioceses do Equador, e naquele mês de setembro havia sido organizadoem Guaiaquil um Congresso Mariano Nacional. O episcopado local pediu que menomeassem delegado pontifício para o Congresso. João Paulo I já havia lido orequerimento e decidido positivamente a esse respeito; assim, durante otradicional cumprimento dos cardeais, falamos de minha viagem e ele invocoumuitas bênçãos sobre mim e sobre toda a Igreja equatoriana.
Paulo VI com Joseph Ratzinger, por ocasião de sua primeira missa como cardeal, em 29 de junho de 1977

Paulo VI com Joseph Ratzinger, por ocasião de sua primeira missa como cardeal, em 29 de junho de 1977

O senhor foi ao Equador?
RATZINGER: Sim, e justamente quando estavalá recebi a notícia da morte do Papa. De uma forma um pouco estranha. Eu dormiano episcopado de Quito. Não havia trancado a porta, pois, no episcopado, mesinto como no seio de Abraão. Era noite alta quando um facho de luz entrou nomeu quarto e apareceu uma pessoa com uma roupa de carmelita. Fiquei um poucoofuscado com aquela luz e aquela pessoa vestida de maneira lúgubre, que pareciamensageira de notícias ruins. Eu não tinha certeza se era um sonho ourealidade. Enfim, descobri que era um bispo auxiliar de Quito (Alberto LunaTobar, hoje arcebispo emérito de Cuenca, ndr.), o qual me comunicou que o Papa havia morrido. Efoi assim que eu soube daquele acontecimento tristíssimo e inesperado. Apesarda notícia, consegui dormir, graças a Deus, e na manhã seguinte celebrei amissa com um missionário alemão, o qual, na oração dos fiéis rezou “pelo nossopapa morto João Paulo I”. Meu secretário leigo participava da cerimônia também,e no final veio me dizer, consternado, que o missionário havia errado o nome,que deveria ter rezado por Paulo VI e não por João Paulo I. Ele ainda não sabiada morte de Albino Luciani.
O senhor havia visto o Papa noconclave. Quando o cumprimentou, parecia-lhe um homem que pudesse morrer dentrode um mês?
RATZINGER: Parecia estar bem. Certamentenão aparentava ser um homem de grande saúde. Mas há muitos que parecem frágeise vivem cem anos. Na minha opinião, parecia gozar de boa saúde. Não sou médico,mas parecia ser um homem que, como eu, não devia ter uma saúde muito forte. Masessas pessoas acabam sendo as que normalmente têm uma maior expectativa devida.
Portanto, foi uma morte ines­peradapara o senhor?
RATZINGER: Absolutamente inesperada.
O senhor teve alguma dúvida quando começarama correr boatos sobre o assassinato do Papa?
RATZINGER: Não.
O bispo de Beluno-Feltre, o salesianoVincenzo Savio, anunciou ter recebido, em 17 de junho passado, o nihilobstat daCongregação para as Causas dos Santos, a fim de que se possa proceder à causade beatificação do Servo de Deus Albino Luciani. O que o senhor pensa disso?
RATZINGER: Pessoalmente, tenho muitaconvicção de que era um santo. Por sua grande bondade, simplicidade, humildade.E por sua grande coragem. Pois ti­nha também a coragem de dizer as coisas comgrande clareza, mesmo indo contra as opiniões correntes. E também por suagrande cultura de fé. Não era apenas um simples pároco que, por acaso, havia setornado patriarca. Era um homem de grande cultura teológica e de grande senso eexperiência pastoral. Seus escritos sobre a catequese são preciosos. Ébelíssimo o seu livro Illustrissimi, que li logo depois da eleição. Sim, estou muitoconvencido de que é um santo.
Mesmo o tendo encontrado apenas trêsvezes?
RATZINGER: Sim, foi suficiente para quesua figura luminosa irradiasse em mim essa convicção.
Quando vocês se encontraram para osegundo conclave de 1978, qual era a sensação dominante no ColégioCardinalício?
RATZINGER: Depois daquela morteinesperada, estávamos todos um pouco deprimidos. Tinha sido um golpe forte. Éclaro que havia tristeza também depois da morte de Paulo VI. Mas a vida deMontini tinha sido completa, e teve um epílogo natural. Ele mesmo esperava amorte, falava de sua morte. Depois de um pontificado tão grande, tinha sido umnovo início, com um Papa de personalidade diferente mas em plena continuidade.Mas o fato de a Providência dizer não à nossa eleição foi realmente um golpeduro. Se bem que a eleição de Luciani não foi um erro. Aqueles trinta e três diasde pontificado tiveram uma função na história da Igreja.
Qual?
RATZINGER: Não foi apenas o testemunho deuma bondade e de uma fé cheia de alegria. Aquela morte inesperada abriu tambémas portas a uma escolha inesperada. A de um Papa não-italiano.
No primeiro conclave de 1978, essahipótese tinha sido levada em consideração?
RATZINGER: Falou-se nisso também. Mas nãoera uma hipótese muito real, mesmo porque havia a bela figura de AlbinoLuciani. Depois, pensou-se que era preciso algo absolutamente novo.


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