TESTEMUNHOS
Extraído do número 05 - 2005
Os testemunhos de vinte e um cardeais sobre o novo papa
Os testemunhos de vinte e um cardeais. II

Justin Francis Rigali
Ele está confiante de que o Senhor o ajudará, que iniciaránele uma boa obra segundo as palavras de São Paulo. A Igreja está cheia de esperança; o Senhor chamou, oSenhor dará a sua graça, ajudará Papa Bento a levar a termo o trabalho queiniciou na sua vida, no seu ministério sacerdotal. Por quantos anos, quem podesaber?O Papa já manifestou suavontade de continuar no caminho do Concílio Vaticano II, e isso é muito bom,porque foi o próprio Papa João XXIII quem expressou o objetivo do Concílio. Em8 de outubro de 1962 eu estava presente quando Papa João disse que o Concíliotinha sido convocado principalmente “para que o sagrado depósito da fé sejacustodiado e apresentado com maior eficácia”. Havia também outros objetivos,certamente muito importantes, como o ecumenismo, mas aquele era o principal..Papa Ratzinger tem uma grande experiência, porqueJoão Paulo II designou-o como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, eem todos estes anos trabalhou para a fé da Igreja, com a dedicação decustodiá-la e apresentá-la de modo mais eficaz. Como papa agora pode continuare custodiar a fé, e para ele é fácil prometer fidelidade ao Concílio, porque emtodos estes anos viveu a realização do Concílio. Essa é a tarefa à qual semprese dedicou. Em relação ao ecumenismo, a realidade da unidade visível na fé e noamor de todos os cristãos será objeto da sua solicitude; e sob a graça doEspírito Santo, o Papa deveria levar a termo aquilo que era tão desejado porJoão Paulo II e Paulo VI: recordemos o testamento de Paulo VI no qual pedia queo trabalho do ecumenismo fosse adiante. O novo Papa tem consciência de que é o Bispo de Roma,sabe que a tarefa é de ser “episcopus catholicae Ecclesiae”, Bispo da IgrejaCatólica, que significa ser bispo de todos os bispos; eis portanto acolegialidade, também já mencionada. Bem consciente, ou seja, que sim, ele comosucessor de Pedro possui a plenitude do sagrado poder, e porém, de modomisterioso, este poder pleno é compartilhado também pelos bispos: pois o Senhorconfiou a Sua Igreja a Pedro junto com os bispos, o poder é exercido “cumPetro e sub Petro”.A suapreocupação, segundo toda a tradição desde as origens, mesmo antes do Concílio,será a de presidir na caridade. O Papa tem esse ideal, presidir na caridade, eé muito importante a colegialidade efetiva com os bispos. Veremos acontinuidade, veremos o que é o papado, porque os papas recentes nosdemonstraram o que significa presidir na caridade, receber os bispos e recebero povo de Deus, por isso milhões e milhões de católicos sentem-se em casaquando estão em Roma. Mas cabe ao bispo de Roma envolvê-los todos na fé e nacaridade. E assim será.E todos osdesafios do mundo? Veremos que o Papa continuará a pregar o magistério socialda Igreja, porque isso é o que Jesus ensinava. Mas Jesus também ia por todos oslugares fazendo o bem, e a Igreja recebeu d’Ele essa herança. João Paulo IIdizia que o homem, com todas as suas exigências, com todo o seu ser, é ocaminho para a Igreja, e a Igreja existe para que todo o homem tenha aplenitude da vida humana e cristã.Papa Bento recordou que ele inicia seu ministérioneste ano dedicado à Eucaristia, um ano, segundo João Paulo II, no qual todosnós podemos compreender melhor e renovar a nossa fé na Eucaristia, que aIgreja proclama sacrifício de Cristo, o sacramento do corpo e sangue de JesusCristo. E também a Eucaristia, dizia ainda Papa João Paulo II, e certamentepapa Bento XVI tem consciência disso, não é apenas sacrifício, nosso nutrimentoe nossa companhia, mas também desafio, porque é a própria pessoa de Jesus quenos diz: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Trata-se de uma dimensãouniversal. Por isso a Igreja ruma para o homem e para todos os homens, porqueela está perto de todas as dificuldades e as dores de cada homem, assim comodas comunidades e das nações.Essa éa tarefa do romano pontífice seja ele João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, JoãoPaulo II ou Bento XVI: pregar Jesus, em uma continuidade absoluta.Que maravilha quando o Papa foi eleito! Depois que,segundo o rito, ele escolheu o seu nome, e nós rezamos por ele, como primeiroato, ali na Capela Sistina, em cumprimento ao plano de Deus, o cardealprotodiácono, coloca-se diante do papa e proclama o Evangelho de Mateus,capítulo 16. Naquele instante volta-se às origens, para que o papa saiba logocom clareza o que o espera. Lê-se a confissão de fé de Pedro a Jesus: “Tu és oCristo, o filho do Deus vivo”; e Jesus respondeu-lhe: “Tu és Pedro e sobre estapedra edificarei a minha Igreja”. Que lindo, tudo é claro desde o primeiromomento: Pedro deve proclamar Cristo e é Cristo que o chama e lhe dá a graça depoder completar a missão de Seu vigário.Sim, estamos cheios de esperança, e temos plenaconfiança: Claro, Jesus disse aos apóstolos que teriam tido dificuldades nomundo; porém disse: “Confieis”, tenhais confiança porque “eu venci o mundo[...] e as portas dos infernos não prevalecerão” . Porque Pedro está edificadosobre a pedra, e toda a Igreja, como dizem os Atos dos Apóstolos, é fiel emrezar por Pedro, e... não temos mais nada. Porém, devemos enfrentar tudo, osproblemas e os perigos, com a força do Espírito Santo, força que o Senhorinfunde no coração do papa mas também de todos os fiéis. As suas orações contammuito, como as da comunidades ao redor do papa, os bispos. A oração: o Senhor não podia fazer mais, este é o seuplano de Salvação, e tudo aquilo que existe para que encontremos a salvação,podemos viver neste mundo com plena satisfação e alegria, em preparação para avida eterna.

Jean-Baptiste Pham Minh Mân
As perspectivas e as diretrizes futuras do novopontificado podem ser encontradas na homilia da sua primeira missa como papacelebrada na Capela Sistina quarta-feira, 20 de abril.A Igreja continua a sua peregrinação no caminhoindicado pelo Concílio Vaticano II, sob a luz do Espírito de Cristo: a comunhãoem vista de uma maior unidade em um mundo globalizado; o diálogo que busca umcompromisso mais eficaz para uma vida mais rica e para uma maior dignidadehumana em um mundo que, olhando ao futuro, vê-se aflito por ânsias eincertezas. A comunhão e aunidade dão à Igreja uma vida mais rica e uma força maior. O diálogo e oserviço ajudam a Igreja e cumprir de modo mais eficaz a sua missão no mundomoderno.

Péter Erdö
Enviou o seu último livro-entrevista como presente deNatal a todos os sacerdotes da nossa diocese.As minhas melhores recordações sobre a pessoa do Papaestão ligadas às suas atividades nas várias congregações e comissões da SantaSé. Como estimado cardeal ouvia sempre com atenção a opinião de todos os outrose no final, na sua intervenção, apresentava uma síntese elegante, apreciandotodos os elementos positivos emersos na discussão. E não se limitava a fazeruma apresentação sintética do debate, mas indicava com a máxima clareza ocaminho para a solução do problema.

Crescenzio Sepe
Foi suficiente um gesto, uma parada para oração sobreo túmulo do apóstolo Paulo, para indicar a grande direção de marcha e, ao mesmotempo, as raízes de um ministério petrino que hoje é sinal de esperança paratoda a humanidade.Na Basílica deSão Paulo, Bento XVI fez uma peregrinação tão breve na distância quantosignificativa na sua extraordinária profundidade. Sobre o túmulo do Apóstolodas gentes, o Papa foi “reavivar” a “graça do apostolado” para poder servirmelhor uma Igreja que, no início do terceiro milênio, “sente com renovadavivacidade que o mandato missionário de Cristo é mais do nunca atual”. Para oSanto Padre, tomar o caminho da Basílica de São Paulo foi como tomar para si epara a Igreja o caminho missionário ao longo do qual não existe temor de quese possa desperdiçar nem mesmo um grão da fidelidade a Cristo. É freqüente,como dizem os dois apóstolos fundadores da Igreja de Roma, também o caminho domartírio, aquele que “irrigou esta terra” e “tornou-a fecunda”, colocando-a nacúpula da “comunhão universal da caridade”. A peregrinação à basílica de SãoPaulo para Bento XVI foi como a urgência de querer despertar, nas pegadas dosPadres e à luz do Concílio Vaticano II, o caráter missionário da Igreja e, aomesmo tempo, traçar as linhas do seu pontificado.Sé da Cátedra de Pedro, Roma é o primeiro pontobasilar de uma visão missionária geral. Antes de alcançá-la fisicamente, aapóstolo Paulo apareceu à capital do Império com a mais importante das suasCartas, apresentando-se à comunidade de Roma como “Servo de Jesus Cristo,apóstolo por vocação” (Rm 1, 1).Bento XVI ajude-nos a ler, no livro aberto – e muitasvezes inexplorado – dos nossos próprios testemunhos, páginas antigas e novas deuma realidade eclesial que sempre reconheceu como sua tarefa primária o deverdo anúncio. “O ConcílioVaticano II” observou Papa Bento XVI na basílica de São Paulo “dedicou àatividade missionária o decreto Ad gentes que recordacomo os apóstolos, seguindo o exemplo de Cristo, ‘pregaram a palavra da verdadee geraram as Igrejas’”.Evangelizar foio primeiro compromisso – diria a ânsia apostólica – de João Paulo II, queintroduziu a Igreja no terceiro milênio cristão.Papa Bento XVI, de maneira criativa, segue seuspassos.A Igreja missionária agoraestá a caminho sob a sua guia. E os horizontes são mais vastos do que nunca.

José Saraiva Martins
O Cristo ao qual o Papa se dirige é o Cristoressuscitado, constantemente presente na Eucaristia, “que continua aoferecer-se a nós, chamando-nos a participar da mesa do seu Corpo e do seuSangue. Da comunhão plena com Ele brotam todos os outros elementos da vida daIgreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso deanúncio e testemunho do Evangelho, o fervor da caridade para com todos,especialmente para com os mais pobres e pequeninos”. Justamente porque a Eucaristia é a “fonte e ápice” davida e da missão da Igreja, o novo Pontífice, seguindo os passos do seuimediato predecessor, pede para intensificar, principalmente nos próximosmeses, o amor e a devoção a Jesus eucarístico.Esta centralidade de Jesus Cristo, sublinhada nodiscurso no final da concelebração eucarística com os cardeais eleitores naCapela Sistina, é encontrada também em suas sucessivas intervenções. Assim foina homilia da missa de início do seu ministério petrino como bispo de Roma,Papa Bento XVI diz que “a Igreja é viva, porque Cristo é vivo, porqueverdadeiramente ele ressuscitou”, que “a santa preocupação de Cristo deveanimar o pastor” que a Igreja no seu conjunto, e os pastores nela, como Cristo,“devem pôr-se a caminho, para conduzir os homens fora do deserto, para lugaresda vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida emplenitude”; que uma das características fundamentais do pastor deve ser a deamar os homens que lhe foram confiados por Deus, “assim como ama Cristo, a cujoserviço se encontra”.Só quandoencontramos em Cristo o Deus vivo, diz ainda o Papa, conhecemos o que é a vida;e prossegue afirmando que “não há nada mais belo do que ser alcançados,surpreendidos pelo Evangelho, por Cristo. Não há nada de mais belo do queconhecê-Lo e comunicar com os outros a Sua amizade”.E Papa bento XVI conclui a sua homilia recordando aspalavras inesquecíveis e programáticas de seu imediato predecessor: “Nãotenhais medo, abri de par em par as portas a Cristo” confirmando-as edirigindo-as especialmente aos jovens: “Queridos jovens: não tenhais medo deCristo! Ele não tira nada, ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo.Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira”.São palavras que certamente não serão esquecidas pelas centenas de milhares dejovens que se preparam para participar da Jornada Mundial da Juventude, queserá realizada em agosto em Colônia.A mesma linha cristocêntrica foi evidenciada pelonovo Pontífice na homilia pronunciada na visita, em 25 de abril, à Basílica deSão Paulo Fora dos Muros. Uma visita que o próprio Papa definiu como “umaperegrinação, por assim dizer, às raízes da missão, daquela missão que Cristoressuscitado confiou à Pedro e aos Apóstolos e, de modo singular, também aPaulo”. Foi o amor a Cristo que transformou a existência de Paulo e levou-o aanunciar o Evangelho às gentes. Foi este mesmo amor que o Papa pede também parasi mesmo, “para que eu não tenha paz perante as urgências do anúncio evangélicono mundo de hoje”.E Bento XVIrecorda o mote que São Bento colocou à sua Regra, exortando os seus monges a“nada antepor absolutamente ao amor de Cristo”.Papa Bento XVI volta a falar sobre este pensamento nasua primeira audiência geral, dia 27 de abril passado, na Praça de São Pedro.Ele pede ao Pai do Monaquismo ocidental “que nos ajude a manter firme a centralidade

Jean-Louis Tauran
A escolha do cardeal Joseph Ratzinger como sucessordo Papa João Paulo II certamente é a expressão de uma continuidade; o novoPontífice recordou isso várias vezes. Mas todos nós, diria todo o mundo,entendemos que Bento XVI, humilde e sorridente, poderia ser o Papa que proclamaráa eterna ternura de Deus. No mundo violento, algumas vezes impiedoso, que nósfabricamos, o novo Pontífice nos recordará, com sua mansidão, a força do amorcapaz de abrir novos caminhos à humanidade. De resto, escolhendo o nome Bento,como recordação de Bento XV, ele mesmo quis indicar que o seu ministério serácolocado a serviço da reconciliação e da paz.Fiquei impressionado ao ouvir as palavras de váriosromanos: “Este Papa tão profundo diz coisas tão claras, que entendemos tudo!”Sim, a Igreja mais um vez demonstrou que, viva ejovem, é capaz de surpreender e dizer ao mundo, com Bento XVI: “Não tenhaismedo de Cristo! Ele não tira nada, e doa tudo”.Não há notícia melhor para o mundo de hoje e deamanhã.

Renato Raffaele Martino

Javier Lozano Barragán

Georges Cottier