TESTEMUNHOS
Extraído do número 04 - 2005
Recordando Joao Paulo II
As recordações de 20 cardeais II

Gabriel Zubeir Wako

Justin Francis Rigali
Depois, o Papa começou a viajar, e a primeira dasmuitas vezes em que tive a sorte de acompanhá-lo aos países de língua inglesafoi em sua terceira viagem internacional, a que fez à Irlanda e aos EstadosUnidos. Quatrocentos mil pessoas o esperavam em Galway Bay, na costa ocidentalda Irlanda; eram jovens, e o Papa foi aplaudido 42 vezes. Mas o 41º aplauso foiincrível, durou doze ou treze minutos. O que o provocou? Ele havia dito aosjovens o que diria dali a pouco aos americanos e depois a toda a juventude domundo: “Jovens, eu vos amo”. Então comecei a entender o seu método: queriaproclamar a Palavra de Deus, levar os jovens a assumirem o compromisso de fazeralgo de suas vidas, dizer-lhes, como nos ensina o Concílio Vaticano II, que suarealização está em Jesus Cristo, que só Ele pode explicar a vida e ahumanidade, e que tivessem cuidado para evitar o que os privava dessa herança ede sua liberdade. Os jovens entenderam que ele os amava - e que os amava mesmosabendo que talvez não aceitassem tudo o que afirmava - e a demonstração dissonós tivemos em Roma, na multidão que veio para lhe render homenagem.Estive com o Papa durante a visita ao Marrocos,quando ele falou com grande honestidade aos 60 mil jovens que o esperavam,todos muçulmanos. Disse que os povos de religiões diferentes devem se respeitarmutuamente, mesmo nas diferenças, entre as quais a maior é a nossa fé em JesusCristo. Disse que todos temos em comum o dom da humanidade, que todos somosfilhos de Deus e que o mundo precisa muito que haja entre nós uma relação depaz e respeito.Mas, parainterpretar todo o seu pontificado, é preciso, creio eu, entender sua primeiraencíclica, a Redemptor hominis, pois opapa João Paulo II estava convencido de que o Concílio tinha razão ao afirmarque é Jesus quem explica o homem a si mesmo e que nós conhecemos Deus por meiode Jesus, esplendor do Pai. Jesus não apenas revela a Deus, mas mostra ao homemsua dignidade de criatura humana. E o papa Wojtyla, que experimentou tanto oshorrores do nazismo quanto os do comunismo, conhecia o valor da dignidadehumana e sabia que não pode ser tolerado o que a enfraquece ou a destrói.A energia sem fim desse Papa foi evidente para todos.Como Sansão, no Velho Testamento, cuja força enorme residia em seus cabelos esumia se eles fossem cortados, da mesma forma João Paulo II extraía energia desua vida de oração, e é por isso que o vimos rezar sempre. Lembro-me de que umanoite, na África, ao final de um dia incrivelmente longo de encontros,deslocamentos, discursos, depois do jantar tinha de cumprimentar e agradecerainda aos homens da segurança, aos cozinheiros, e o bispo local não parava delhe apresentar outras pessoas... Só muito tarde a fila terminou. Então, comoutro colega meu polonês, fomos falar um instante com o Papa do dia que haviapassado e das muitas coisas que fizemos. Ele estava muito contente e pareciacansado. Mas, depois de dois minutos, levantou-se da cadeira e voltou à capelapara visitar o Santíssimo Sacramento. Passou ali quase meia hora, depois saiu,e eu e meu colega olhamos um para o outro, compartilhando a mesma impressão:ele estava pronto para recomeçar, estava regenerado. Lá fora, os jovenscomeçaram a cantar, o Papa foi até a janela para cumprimentá-los, cantou umpouco com eles e só depois foi repousar. Esse foi João Paulo II, e nós sópodemos entendê-lo se conhecemos seu segredo, a fonte de energia que osustentou por vinte e seis anos e meio. É fácil fazer bem no início, mas ele ofez, como Jesus, até o fim.Houveuma viagem do Papa que considero especial, a primeira, ao México, pois lá oPapa se ajoelhou diante da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe e entendeuqual era a missão a que Deus o chamava. Disse então que a Igreja, para ser fiela Cristo, deve ser serva da humanidade, e ele tinha muito orgulho de seu título“Servus servorum Dei”, servo dos servos de Deus, o mesmo de Gregório Magno.Esse foi seu desafio, sua meta, sua missão. Mas depois nos deixou entrar em seusegredo: por todos estes anos, ensinou-nos a rezar, a procurar o Senhor e apedir força, pois, se quisermos realizar nossa missão, temos de ir até Jesus noSantíssimo Sacramento. Ensinou-nos a eucaristia e no fim morreu no Ano daEucaristia. Ensinou-nos, como eu disse no início, a misericórdia. Na Divesin misericordia escreveu que a misericórdia é omaior atributo de Deus. E o que é a misericórdia? O amor de Deus que entra emcontato com a nossa fraqueza, a nossa necessidade, os nossos pecados. O Papadisse às pessoas que não perdessem a coragem, pois Cristo nos oferece o perdãono sacramento da penitência, porque Ele é misericordioso. A misericórdia é oamor de Deus diante dos nossos pecados, e todos nós temos pecados. O Papa nãoapenas escreveu essa encíclica, mas canonizou irmã Faustina Kowalska, deCracóvia, que recebeu revelações particulares sobre a misericórdia divina. Oensinamento da Igreja, porém, não deriva dela, mas das Escrituras. IrmãFaustina foi beatificada no segundo domingo de Páscoa de 1993, depoisdenominado por João Paulo II “segundo domingo de Páscoa ou domingo daMisericórdia”. E foi nas primeiras vésperas do segundo domingo de Páscoa ou domingoda Misericórdia que o Papa morreu, depois que pela última vez seu secretário, oarcebispo Stanislaw Dziwisz, celebrou em seu quarto a eucaristia. Roma foiornada de cartazes nos quais, atrás do rosto do Papa, se vê a imagem de Jesusmisericordioso. Naquele domingo celebrei missa em minha Catedral e lembrei aosfiéis que eles tinham acabado de ouvir as mesmas leituras ouvidas pelo Papaantes de morrer.A misericórdia explica todoo pontificado. O Papa se considerava um apóstolo da divina misericórdia, a qualexplica seu amor, seu dar-se completamente, e, enfim, sua morte, que foi acoroação de sua vida doada com total generosidade. Eis por que seu rosto, namorte, está tão sereno e em paz, pois ele completou sua missão, a de quemproclama a misericórdia de Deus e defende a dignidade de cada homem, mulher ecriança.

Tarcisio Bertone
Depois de ter assistido ao anúncio do “gaudiummagnum” em 16 de outubro de 1978, comecei a trabalharpara a Santa Sé e para o Papa em 1979. O encargo de consultor de diversosorganismos da Cúria Romana e, de modo especial, da Congregação para a Doutrinada Fé, levou-me, pela confiança do cardeal Ratzinger, a participarfreqüentemente dos dias de estudo do Santo Padre - normalmente na terça-feira-, gozando, assim, de uma familiaridade que foi crescendo até que, em 13 dejunho de 1995, o Papa me chamou para exercer o ofício de secretário daCongregação para a Doutrina da Fé.Contrariamenteà imagem de um papa autoritário às vezes induzida pela mídia - especialmente noinício do pontificado -, João Paulo II era um homem que interrogava e ouviamais do que qualquer outro.Faziaperguntas cruciais, olhava profundamente em seus olhos e esperava respostas commotivações claras. Mas sabia também brincar com a tirada genial, e divagarsobre temas fora da ordem do dia (como sobre os jogos da Copa do Mundo de1998).Nas reuniões de trabalho,quando me dava a palavra, costumava dizer: “Agora ouçamos o magnífico reitor daUniversidade Salesiana”. Quando, em 1991, nomeou-me arcebispo de Vercelli, fuime despedir dele antes de deixar Roma, e ele pôs em meu pescoço uma cruzpeitoral, um presente precioso. Então o secretário, dom Stanislao, perguntou aoSanto Padre: “Como vamos chamar dom Bertone, agora que não é mais magníficoreitor?”. O Papa respondeu prontamente: “Nós o chamaremos magníficoarcebispo!”, e estourou a rir com naturalidade. O fotógrafo pontifício bateuuma foto bem naquele momento, e aquela imagem, com o Papa rindo ao meu lado, eua conservo até hoje na escrivania de meu escritório no arcebispado de Gênova.Conservo também um diário das audiências particularescom João Paulo II, que agora releio com prazer, para reavivar a riquezasapiencial que dele emanava, seja quando preparava uma encíclica, como a Fideset ratio, ou a declaração Dominus Iesus

José Saraiva Martins
Com a morte de João Paulo, desapareceu um dos maiorespontífices da história da Igreja. De fato, seu pontificado não foi apenas umdos mais longos, mas também um dos mais intensos e fecundos, um verdadeiro domde Deus à Igreja entre o segundo e o terceiro milênio.Ressoam ainda nos ouvidos do coração as palavraspronunciadas pelo novo Papa “vindo de um país distante”, logo depois de eleitoao trono de Pedro, naquele memorável 22 de outubro de 1978: “Não tenhais medo.Abri as portas a Cristo, a seu poder salvador”.Essas palavras, realmente proféticas, com as quais oentão recém-eleito Pontífice se apresentou à Igreja e ao mundo, contêm já innuce todo o vasto programa de seu pontificado, cujoeixo é Cristo redentor do homem, como reza o título de suaprimeira encíclica.

Paul Poupard

Jean-Louis Tauran

Francesco Marchisano