TESTEMUNHOS
Extraído do número 04 - 2005
Recordando João Paulo II
As recordações de 20 cardeais I

Bernardin Gantin
Para mim, são muitas as lembranças. Muitas, já quevivi aqui, em Roma, mais de vinte e cinco anos com ele, como seu colaborador naCúria Romana. São muitíssimas, portanto, as lembranças que me ligam a ele. Masuma, em particular, mantém-se no meu coração, é particularmente cara para mim.E está ligada ao momento em que me concedeu a permissão para voltar ao meuBenin.Não era fácil nem para mim,que era o cardeal decano, lhe pedir isso, nem para ele concedê-lo. Durante trêsmeses, ele reteve a carta com minha solicitação sem dar uma resposta. Enfim,convidou-me para um almoço e me disse: “Tudo bem, eu concordo”. Ele entendeucomo é forte o laço que tenho com minha terra natal. Devolver-me a meu país foium gesto inesquecível para mim. Permitiu-me voltar a minha África, comomissionário romano.

Roger Etchegaray
Lembranças pessoais eu teria muitas, mas direi apenasisto: eu o acompanhei muitas vezes em suas viagens, mas me lembro particularmenteda primeira que fez a sua pátria, a Polônia. Naquela ocasião, pronunciou umafrase que nunca mais esqueci, citada muitas vezes como uma frase-chave de seupontificado. Estava em Varsóvia, na chamada praça da Vitória, bem onde serealizavam as manifestações do regime comunista. Eu ainda posso ouvi-lo, aindaouço sua voz forte, que ele tinha quando era mais jovem. Ouço-o dizer estafrase: “Não se pode excluir Jesus Cristo da história do homem. Fazer isso éagir contra o homem”. São palavras muito fortes, penso eu, palavras quesintetizam bem todo o seu pontificado.Hoje, vendo esta enorme multidão, estou realmentecerto de estar vivendo - e não apenas eu - uma espécie de exercício espiritual,como se fizesse um retiro espiritual. Devo-o à mídia, que nos ofereceu, commuita habilidade e consciência profissional, tudo o que aconteceu nestes dias.Apresentou-nos o desfile de uma multidão, formada de homens, mulheres, jovens,até crianças, que se dirigiam para um corpo, o corpo de João Paulo II exposto emSão Pedro, caminhando durante seis horas ou até mais. Eu me perguntei por queesse Papa, hoje, neste dias, é mais Papa do que nunca, do que já foi nosmaiores dias de seu pontificado. Morto, ainda é Papa, mais do que nunca,provavelmente porque a multidão se aproxima dele, com muita dignidade, emsilêncio. Provavelmente, cada um o faz por motivos diferentes, mas há algomuito profundo que nos faz refletir. Quero dizer que João Paulo II soubedespertar em cada um de nós a parcela, por pequena que seja, de inocência queexiste em todo homem, mesmo quando envelhecido pelo pecado, ferido pelo pecado.Creio que em todo homem, por mais corrupto que seja, existe uma parte, umcantinho que continua “exposto ao sol de Deus”, para usar uma imagem poética.Assim, o Papa soube dar de novo confiança a cada homem, justamente porque nãoexcluiu Jesus da vocação humana.Para concluir, creio que este Papa, João Paulo II,deva ser considerado por inteiro. Foi Papa por mais de vinte e seis anos, edevemos considerá-lo desde a aurora cintilante de seu pontificado até o ocasocheio de dor. Foi sempre o mesmo Papa, um Papa que representa todos os aspectosda condição humana. Este Papa, do qual estive muito próximo, certamente se deua conhecer de maneira mediática, mas talvez não se saiba que para aqueles queestavam a seu lado era um homem de interioridade, cheio de pudor sobre si,sobre sua fé. É extraordinária a maneira como viveu seu cristianismo, seubatismo, como qualquer cristão.

Giovanni Battista Re
Era impressionante como ele se abandonava à oração:notava-se nele um arrebatamento que lhe era natural, e que o absorvia como senão tivesse problemas e compromissos urgentes que o chamassem à vida ativa. Suapostura na oração era recolhida e, ao mesmo tempo, natural e solta: testemunhode uma comunhão com Deus intensamente arraigada em sua alma; expressão de umaoração convicta, saboreada, vivida.Era comovente a facilidade, a espontaneidade, aprontidão com que ele passava do contato humano com as multidões aorecolhimento do diálogo íntimo com Deus. Quando estava recolhido em oração, oque acontecia em volta parecia não tocá-lo e não lhe dizer respeito.Ele se preparava para os vários encontros que iriater, no dia ou na semana, rezando.Antes de qualquer decisão importante, João Paulo IIrezava longamente sobre a questão. Quanto mais importante fosse a decisão, maisprolongada era a oração.Em sua vida,havia uma admirável síntese entre oração e ação. A fonte da fecundidade de seuagir estava justamente na oração. Ele estava convencido de que seu primeiroserviço à Igreja e à humanidade era rezar. Ele mesmo o disse: “A primeiratarefa do Papa diante da Igreja e do mundo é rezar” (homilia no Santuário daMentorella, L’Osservatore Romano, 31 deoutubro de 1978).Este pontificado, portanto,só é plenamente compreensível se levarmos em conta a dimensão interior,contemplativa, que animou e sustentou este Papa, homem de grande oraçãopessoal, além de mestre na fé. É por isso que ele tinha olhos para “ver oinvisível”. E por isso teve a força de continuar em seu posto até o fim.

Godfried Danneels

Francis Arinze

László Paskai

Fiorenzo Angelini

Dionigi Tettamanzi

Paul Shan Kuo-hsi

Geraldo Majella Agnelo

Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga
Lembro-me bem também de quando o encontrei em Roma,em 1983. Naquele ano, vim para minha primeira visita ad limina

Cláudio Hummes
Nessas viagens, visitava a todos e se deu a tudo e atodos: aos bispos e aos sacerdotes, aos pobres e aos excluídos, aos doentes,aos encarcerados, aos famintos, aos sem-teto e aos sem-terra. Entrou nasfavelas, nas palafitas, nos barracos, encontrou os pequenos camponeses, ostrabalhadores, os comerciantes, os empresários, os profissionais liberais, oslíderes de todas as religiões e os homens de boa vontade, em particular ascomunidades judaicas, os missionários e as missionárias, os religiosos e asreligiosas, os consagrados e as consagradas, os seminaristas, as associações deleigos e os movimentos da Igreja, jovens, famílias, crianças, artistas, homensda cultura e das universidades, construtores da sociedade, políticos, homens degoverno e presidentes. Ele foi o Papa de todos.

Jorge Mario Bergoglio
No meio da oração, me distraí, olhando para a figurado Papa: sua piedade, sua devoção eram um testemunho. E o tempo desapareceu, ecomecei a imaginar o jovem sacerdote, o seminarista, o poeta, o operário, omenino de Wadowice... na mesma posição em que se encontrava naquele momento,rezando Ave Maria depois de Ave Maria. Seu testemunho me tocou. Senti que aquelehomem, escolhido para guiar a Igreja, percorria novamente um caminho até suaMãe do céu, um caminho iniciado desde sua infância. E me dei conta da densidadeque tinham as palavras da Mãe de Guadalupe a São Juan Diego: “Não temas. Acasonão sou tua mãe?”. Compreendi a presença de Maria na vida do Papa.O testemunho não se perdeu num instante. Desde aquelavez, rezo todos os dias os quinze mistérios do Rosário.