POLÊMICAS
Extraído do número 01/02 - 2005
Pio XII, Roncalli e as crianças judias.Os fatos e os preconceitos
No debate aberto pelo Corriere della Sera sobre o episódio das crianças judias abrigadas em conventos e famílias católicas e reclamadas pelas organizações judaicas ao final da guerra, registraram-se ataques contra Pio XII e seu sucessor, João XXIII. Mas apareceram também documentos até hoje inéditos que podem permitir uma reconstrução objetiva do “caso”
de Gianni Valente

Pio XII

Refugiados judeus a bordo de um navio de partida de Marselha para Israel, em setembro de 1949
Durante a polêmica jornalística,foi justamente com base nessa diferença entre os dois documentos que a notapreparada pela nunciatura foi definida como uma “síntese um tanto imperfeita”(Napolitano) das instruções provenientes do Santo Ofício. De fato, a nota danunciatura afirma a possibilidade de restituir às famílias apenas as criançasnão batizadas, por meio de uma formulação indireta que parece excluir apossível restituição das crianças eventualmente batizadas a seus parentes. Ao mesmotempo, nem o próprio despacho-Tardini contém de maneira positiva a claraindicação de que as crianças sejam restituídas aos parentes que as reclamamquando elas tiverem sido nesse meio tempo batizadas. Segundo padre Sale, sobreesse ponto as instruções vaticanas e a nota da nunciatura teriam mantido umamargem intencional de vaguidade. Uma espécie de reticência estudada, que,evitando entrar em contradição manifesta com as normas e as doutrinas canônicassobre os deveres da Igreja diante dos batizados, abrisse caminho para soluçõesconcretas que levassem em conta a situação anômala em que aqueles batismoshaviam sido administrados. Uma ambigüidade com a qual se pretendia de certaforma “deixar aos bispos, nessa matéria controversa, uma certa liberdade deescolha” (G. Sale). O fato é que, justamente nos casos das crianças judiasbatizadas, os bispos franceses haviam pedido instruções precisas. Paraesclarecer esse ponto delicado, detalhes úteis talvez possam vir da comparaçãocom o pronunciamento formulado sobre a questão pelo Santo Ofício já em março de1946, e ainda inédito.

Angelo Roncalli, núncio apostólico em Paris