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POLÊMICAS
Extraído do número 01/02 - 2005

Pio XII, Roncalli e as crianças judias.Os fatos e os preconceitos


No debate aberto pelo Corriere della Sera sobre o episódio das crianças judias abrigadas em conventos e famílias católicas e reclamadas pelas organizações judaicas ao final da guerra, registraram-se ataques contra Pio XII e seu sucessor, João XXIII. Mas apareceram também documentos até hoje inéditos que podem permitir uma reconstrução objetiva do “caso”


de Gianni Valente


Pio XII

Pio XII

A querela histórico-jornalística queestourou em torno das instruções vaticanas sobre como responder a organizaçõese autoridades religiosas judaicas que, depois do fim da guerra, pediam arestituição das crianças judias entregues aos cuidados de instituiçõescatólicas durante a perseguição nazista representa, sob diversos aspectos, umcaso estranho. No entanto, se, depois de esfriar a cabeça, repassarmos todo oconjunto de artigos e declarações escrito a res­peito do caso, poderemosencontrar, um a um, fragmentos documentais que ajudam a reconstruir ao menosparcialmente a trama de uma complexa série de eventos históricos. Pedaços de ummosaico ainda incompleto, escondidos pela cortina de fumaça composta por linhaseditoriais enigmáticas, guerras entre diferentes grupos acadêmico-culturais,rancores ideológicos para com as figuras de Pio XII e João XXIII. Elementosesparsos que é útil encontrar e juntar, se quisermos tentar obter um juízoobjetivo sobre todo o caso.

O artigo do Corriere
Em 28 de dezembro, num artigo lançado emprimeira página com um título e um olho enganadores (“Pio XII ordenou: nãorestituam as crianças judias. O futuro papa Roncalli desobedeceu”), AlbertoMelloni, professor de História Contemporânea da Universidade de Módena eRégio-Emília, antecipava no Corriere della Sera um documento inédito, datado de 23 de outubro de1946, extraído do aparato crítico do segundo tomo do livro Anni di Francia.Agende del nunzio Roncalli 1945-1948, a ser publicado no final de 2005, organizado pelohistoriador francês Etienne Fouilloux sob encomenda do Instituto de CiênciasReligiosas de Bolonha. Segundo Melloni, o documento revela que em 1946 chegarama Angelo Roncalli, então núncio em Paris, “instruções elaboradas pelo SantoOfício e aprovadas por Pio XII” a res­peito dos casos de crianças judias salvasem casas e conventos católicos, cuja restituição e reunião à comunidadereligiosa de origem personalidades e organizações do mundo judaico reclamavamcom insistência naqueles anos. O documento, originalmente em francês, foipublicado em tradução italiana num box, com a advertência de que o textoinédito fora encontrado no Centro Nacional dos Arquivos da Igreja da França. Noartigo, as instruções contidas no documento e apresentadas como “ordensespantosas” dadas ao núncio Roncalli são assim sintetizadas: “Não se deve darres­postas escritas às autoridades judaicas, mas explicar que a Igreja avaliarácaso a caso; as crianças batizadas podem ser entregues apenas a instituiçõesque garantam sua educação cristã; as crianças que ‘já não têm pais’ não devemser restituídas, e os pais eventualmente sobreviventes poderão reavê-las apenasse não tiverem sido batizadas”.
No debate que começou a partir desseartigo, ao mesmo tempo em que as polêmicas se inflamavam em todas as direções(ataques às figuras de Pio XII e João XXIII, dissertações históricas sobre oscasos dos batismos forçados, vinganças pessoais mesquinhas entre estudiosos ejornalistas), vinham à luz também outros interessantes documentos iné­ditos.Essas contribuições progressivas permitem enquadrar o texto publicado no Corriere como um segmento conclusivo de umaseqüência de documentos bem mais longa e orgânica. Uma seqüência que, por suavez, corresponde apenas ao filão francês de uma história mais geral, queenvolve o conjunto das relações entre a Santa Sé, a Igreja Católica e o mundohebraico nos anos que se seguiram à Shoah, na iminência do nascimento do Estadode Israel, quando personalidades, instituições e agências judaicas trabalhavamem toda a Europa para encontrar crianças judias, sobretudo órfãs, sobreviventesdo extermínio, com a intenção de transferi-las para a terra de Israel. Umahistória que deve ser percorrida novamente, alinhando os documentos publicadosem sentido inverso a sua ordem cronológica de publicação.

Dos documentos aos fatos
Tudo começa com a carta que o rabino-chefeda Palestina, Isaac Herzog, envia ao papa Pio XII em 12 de março de 1946. Namissiva, publicada integralmente e comentada por Andrea Tornielli na edição de IlGiornale de 19 de janeiropassado, o rabino reapresenta de forma escrita a petição já submetida ao Papadurante uma audiência anterior. Depois de usar expressões de gratidão para comPio XII, Herzog expõe suas solicitações quanto às crianças judias que haviam encontradorefúgio em instituições e famílias católicas ao ficarem órfãs em razão daShoah: “Vim a Roma”, escreve Herzog entre outras coisas, “para pedir Seu apoiopara que todas essas crianças sejam restituídas a seu povo”. O rabino observaque “em todos os países interessados já estão disponíveis organizações judaicasespecíficas, que dispõem de meios para tomar as crianças sob suaresponsabilidade”. Cita, em particular, o caso da Polônia, onde “se consideraque ao menos três mil crianças se encontrem ainda em conventos católicos e nascasas particulares de famílias católicas”. O Santo Ofício fica encarregado daquestão, e já em 27 de março de 1946 elabora um documento ad hoc, submetido à aprovação do Papa no diaseguinte. A referência ao documento, sem a citação do texto, que permaneceinédito nos arquivos vaticanos, é de Matteo Luigi Napolitano, professor deHistória das Relações entre Igreja e Estado da Universidade de Urbino e beminformado diretor do site www.vaticanfiles.net, em sua pormenorizada reconstrução publicada no Avvenire de 18 de janeiro. No mesmo artigo,Napolitano cita amplamente um despacho enviado pelo núncio em Paris, AngeloRoncalli, à Secretaria de Estado no final de agosto de 1946, que pareceessencial para captar os contornos e desdobramentos que a delicada questãoestava registrando naqueles mesmos anos na França. Na carta, o núncio relatater recebido também solicitações do rabino-chefe da França, Isaiah Schwartz,para que a Santa Sé apoiasse a restituição das crianças judias hospedadas emfamílias e conventos católicos reclamadas pelas instituições judaicas. Roncallirelata também as indicações reunidas a esse respeito pelo cardeal Suhard,arcebispo de Paris, e anexa as cartas recebidas sobre o assunto porEmile-Maurice Guerry, coadjutor do arcebispo de Cambrai, e pelo cardeal PierreGerlier, arcebispo de Lyon e presidente do bispos franceses. Os pareceres epedidos formulados sobre o caso pelos prelados franceses foram expostos, combase em documentos inéditos guardados nos arquivos da Secretaria de Estado,pelo jesuíta Giovanni Sale, na preciosa reconstrução de todo o episódiopublicada no caderno 3711 da Civiltà Cattolica, a revista dos jesuítas cujas provas são corrigidasno Vaticano. Todos os prelados franceses se mostravam propensos a satisfazer ospedidos da comunidade judaica, na perspectiva de que, do contrário, haveria apossibilidade de reações violentas. Gerlier observava que “a gratidão quemuitas vezes nos foi testemunhada, pela ajuda que demos a essas pobrescrianças, se transformaria muito provavelmente em ressentimento, que poderiavir a alimentar polêmicas deploráveis”. Trazia também ao conhecimento do núncioque os bispos franceses haviam ordenado que não se batizassem crianças judiasrefugiadas nos conventos. Mas, por excesso de zelo, algumas religiosas haviamdesobedecido às ordens, batizando as crianças abrigadas e criando, assim, “umproblema teológico muito árduo”. Era justamente sobre esses casos controversosque os bispos franceses pediam o parecer do Vaticano. Guerry, de sua parte,considerava oportuno seguir “a regra geral de restituir as crianças de origemjudia às comunidades judaicas”. E, a res­peito das crianças judias batizadasapesar dos sábios vetos da hierarquia, sugeria que se pedisse ao Papa que elasfossem “dispensadas da lei eclesiástica”. Ou seja, das normas canônicas quediziam respeito “à convicção, muito arraigada na Igreja, de que as realidadesespirituais são as mais importantes, porque relativas à vida eterna, devendoportanto serem sempre tuteladas e defendidas, daí que a uma criança que recebeuo batismo deva ser assegurada uma educação cristã. O que só pode acontecer seas pessoas que cuidam dela são cristãs” (G. Sale). A respeito disso, Guerrylembrava, como precedente, o caso de uma menina israelita convertida aocatolicismo, à qual, por ordem de Pio XII, fora concedido reunir-se à famíliade origem, que se opusera à conversão. Diante das solicitações dos bisposfranceses, “e sem entrar no mérito da questão levantada (ainda que parecesse compartilhara opinião de Guerry e de Gerlier), o núncio Roncalli pediu também ao Vaticanoinstruções precisas” (Napolitano). Sua carta, com os anexos, chegou ao Vaticanoem 5 de setembro de 1946.
Refugiados judeus a bordo de um navio de partida de Marselha para Israel, em setembro de 1949

Refugiados judeus a bordo de um navio de partida de Marselha para Israel, em setembro de 1949

As solicitações feitas pela nunciatura deParis à Secretaria de Estado dão início no Vaticano aos procedimentos naturaise às requisições de julgamento do mérito, com suas passagens de documentação deum organismo para outro. Segundo a citada reconstrução de Napolitano, em meadosde setembro de 1946 é expedida do Santo Ofício à Secretaria de Estado “uma notacom as normas de conduta nesse caso”, que reapresentava o conteúdo dopronunciamento já elaborado em 27 de março, diante dos pedidos feitos ao Papapelo rabino Herzog. Com base nessa nota, a Secretaria de Estado prepara umdespacho, que o “ministro das relações exteriores” vaticano, Domenico Tardini,envia a Paris, ao núncio Roncalli, em 28 de setembro de 1946. Esse despacho,escrito em italiano e transcrito em nota no artigo da Civiltà Cattolica, é o documento que efetivamente partiu deRoma. Nele são “transcritas literalmente” por Tardini as instruções jádispostas pelo Santo Ofício a respeito da questão, para que o núncio em Parisas torne conhecidas dos bispos franceses. A partir do despacho-Tardini, anunciatura de Paris prepara um compêndio (publicado por Tornielli em IlGiornale em 11 defevereiro passado), no qual relata, à letra, todo o aparato de instruçõesprovenientes do Santo Ofício. Assim, no fim das contas, o texto datilografadode vinte linhas em língua francesa publicado por Melloni revela-se comoposterior reprodução não literal dessas indicações vaticanas, uma notapreparada também pela nunciatura, para uso dos bispos franceses. O despachovaticano representa, portanto, a “matriz” da nota em francês guardada nanunciatura. Tanto, que no Centro Nacional dos Arquivos da Igreja da França,indicado por Tornielli como fonte de proveniência também do compêndio dodespacho-Tardini por ele publicado, os dois documentos estão reunidos num únicofascículo, na posição 7 CE do arquivo da secretaria do epis­copado francês, aolado de uma outra folha com a minuta do compêndio.
Em ambos os documentos (o compêndio dodespacho enviado por Roma e a posterior nota preparada pela nunciatura) aparecea mesma anotação escrita à mão em francês: “Document communiqué le 30/4/47 a S.Em. le C.al Gerlier”. Indício de que talvez os dois documentos em conjuntotenham sido materialmente entregues ao presidente dos bispos franceses, apenasalguns meses depois da chegada das instruções de Roma.
Um ponto aberto
A comparação entre os dois textos (ocompêndio do despacho da Secretaria de Estado e a nota redigida pelanunciatura, reproduzidos em forma sinóptica nos dois box da p. 51) confirma queambos se oferecem como indicações para as res­postas que devem ser fornecidasdiante dos pedidos provenientes de personalidades religiosas ou instituiçõesjudaicas. Esse, e não a res­posta a eventuais pedidos provenientes das famíliasdas crianças judias, é o objeto próprio de ambos. A nota chama a atenção naabertura para as “institutions juives” que requerem a restituição das criançasjudias acudidas em famílias e instituições católicas durante a ocupaçãonazista. O compêndio do despacho enviado pelo Vaticano cita até o “pedido dogrande rabino de Jerusalém”, ao qual “os eminentíssimos padres” do Santo Ofíciojá haviam respondido na citada sessão de 27 de março. São justamente oscritérios gerais estabelecidos naquela ocasião pelo Santo Ofício que sãoreapresentados tanto no despacho vaticano quanto na nota preparada pelanunciatura, como instruções às quais os bispos franceses teriam de se ater aores­ponder às perguntas da comunidade judaica.
Os textos dos dois documentos reproduzemusando fórmulas e palavras diferentes as mesmas indicações. Sugere-se que nãose responda por escrito às solicitações provenientes dos judeus, para evitarque as respostas possam ser instrumentalizadas. Nas eventuais respostas, épreciso manter firme que a Igreja se reserva avaliar os pedidos caso a caso.Que as crianças que tiverem sido eventualmente batizadas não poderão serentregues “a instituições que não possam garantir a educação cristã delas” eque mesmo as não batizadas que tiverem sido confiados à Igreja e não tiveremmais parentes não poderão ser entregues a quem - pessoas ou instituições - nãoostente algum direito sobre elas.
Só nos incisos sobre a postura que sedeveria ter diante de eventuais pedidos provenientes dos familiares dascrianças se registra entre os dois documentos uma diferença que abre caminhopara as várias hipóteses de interpretação. A nota preparada pela nunciatura, noponto cinco, esclarece que as crianças reclamadas pelos parentes devem serrestituídas a eles, “admitido que não tenham recebido o batismo”. O despachoenviado pelo Vaticano, reproduzido em compêndio pela mesma nunciatura, depoisde ter excluído as restituições das crianças a instituições que não têm direitoa elas, encerra a série de instruções com uma fórmula genérica (“outra coisaseria se as crianças fossem reclamadas por parentes”), fórmula que, mesmoremetendo à “maneira diferente” como seriam tratados os pedidos provenientesdas famílias, em comparação com os que viessem das instituições, evita aindaassim que se possa entrar nesse mérito e não oferece instruções positivas sobrea questão.
Durante a polêmica jornalística,foi justamente com base nessa diferença entre os dois documentos que a notapreparada pela nunciatura foi definida como uma “síntese um tanto imperfeita”(Napolitano) das instruções provenientes do Santo Ofício. De fato, a nota danunciatura afirma a possibilidade de restituir às famílias apenas as criançasnão batizadas, por meio de uma formulação indireta que parece excluir apossível restituição das crianças eventualmente batizadas a seus parentes. Ao mesmotempo, nem o próprio despacho-Tardini contém de maneira positiva a claraindicação de que as crianças sejam restituídas aos parentes que as reclamamquando elas tiverem sido nesse meio tempo batizadas. Segundo padre Sale, sobreesse ponto as instruções vaticanas e a nota da nunciatura teriam mantido umamargem intencional de vaguidade. Uma espécie de reticência estudada, que,evitando entrar em contradição manifesta com as normas e as doutrinas canônicassobre os deveres da Igreja diante dos batizados, abrisse caminho para soluçõesconcretas que levassem em conta a situação anômala em que aqueles batismoshaviam sido administrados. Uma ambigüidade com a qual se pretendia de certaforma “deixar aos bispos, nessa matéria controversa, uma certa liberdade deescolha” (G. Sale). O fato é que, justamente nos casos das crianças judiasbatizadas, os bispos franceses haviam pedido instruções precisas. Paraesclarecer esse ponto delicado, detalhes úteis talvez possam vir da comparaçãocom o pronunciamento formulado sobre a questão pelo Santo Ofício já em março de1946, e ainda inédito.

Os fatos e os preconceitos
Como reconheceu o cardeal Camillo Ruini, apublicação em conjunto dos documentos do arquivo permitiu dar “respostasprecisas e adequadas” a “polêmicas que não são novas, distantes da verdadehistórica e inutilmente facciosas” que desde o princípio se sobrepuseram aodebate historiográfico. O ponto mais alto da facciosidade foi logo alcançado,com o artigo do polemista Daniel Goldhagen publicado no Corriere della Sera já em 4 de janeiro, no qual Pio XII eradenegrido como raptor de crianças judias e chefe “de uma Igreja que difundiu umferoz anti-semitismo justamente quando os judeus eram exterminados”. Depois,quando veio à tona que o documento inicialmente publicado no Corriere era uma nota redigida pela nunciatura deParis, para uma grotesca par condicio da injúria, acusações mais ou menos superficiais deanti-semitismo foram dirigidas a seu titular, o futuro Papa bom. “O documento‘espantoso’ foi escrito por Roncalli”, ia direto ao assunto o título de umartigo de Il Giornaleem 5 de janeiro passado. Ao mesmo tempo em que, no mesmo dia, no Corrieredella Sera, faziam-seinsinuações sobre presumidas simpatias pela Alemanha de Hitler cultivadas peloentão diplomata vaticano.
Angelo Roncalli, núncio apostólico em Paris

Angelo Roncalli, núncio apostólico em Paris

Apesar dos esforços conjuntos dosdetratores, as duas figuras individuais de Pacelli e Roncalli talvez te­nhamsaído ainda mais estimadas, captadas no claro-escuro de episódios históricosconcretos trazidos de volta à luz pelas recentes pesquisas históricas ejornalísticas. Como o episódio romano a respeito de uma mulher judia que em1944 pediu o batismo para si e seus dois filhos, no convento de irmãsfranciscanas missionárias da Balduína, onde estavam abrigados. No final daguerra, a mulh­er abandonou o convento das franciscanas, deixando ali seusfilhos. Reapresentou-se à porta do instituto em novembro de 1947, acompanhadapor representantes de uma organização judaica, e pediu para reaver as crianças,dizendo ter-se arrependido e querê-las levar de volta à comunidade de origem.Em quarenta e oito horas o caso foi submetido diretamente a Pio XII, queordenou a imediata restituição dos filhos à mãe. Um episódio fundamental paracaptar a sensibilidade individual do papa Pacelli. Que, quando foi envolvidopessoalmente num caso concreto tão delicado, mesmo conhecendo as normascanônicas sobre os direitos que a Igreja adquire sobre todo fiel em virtude dobatismo validamente administrado, não se refugiou atrás de um chamado mecânicoàs normas eclesiásticas, às quais, mesmo assim, permaneceu fiel, mas resolveu aquestão empregando o bom senso que nele era simples reflexo do sensus fidei. O mesmo bom senso, o mesmo realismoflexível diante das circunstâncias controversas da vida que bispos, sacerdotes,religiosas e fiéis testemu­nham normalmente naqueles primeiros anos dopós-guerra em toda a Europa, onde a esmagadora maioria dos casos controversosse resolve sem deixar rastros.
Mesmo o núncio Roncalli, nesse contexto,não é uma exceção. Naqueles anos, o prelado italiano enfrenta as gravesquestões que batiam à sua porta “com estudada lentidão” (Meloni). Ganha tempodiante das pressões políticas que pedem a depuração dos bispos francesesacusados de colaboracionismo com o regime de Vichy. Tende a não radicalizar osconflitos, a esperar que as questões controversas, com o tempo, se atenuem omáximo possível por si sós. Com a mesma sabedoria desdramatizante, parece agirem relação aos casos espinhosos das crianças judias. Reúne as indicações dosbispos franceses e mostra compartilhar sua prudente propensão a não repelir ospedidos dos judeus. Transmite a eles, como simples mediador, as instruçõesprovenientes do Vaticano, sem manifestar publicamente nenhum sinal deimpaciência ou distanciamento crítico. Mesmo em seus diários, ainda inéditos,se ficarmos com as antecipações publicadas em Il Giornale de 23 de janeiro por Andrea Tornielli,não faz nenhuma referência ao problema da restituição das crianças judiasmantidas nos conventos. A única menção aparece em 20 de fevereiro de 1953,quando faz uma visita de despedida ao presidente francês Vincent Auriol, quelhe fala do affaireFinaly. O caso de conflito mais famoso, que viu em seu centro os dois filhos deum casal trucidado no lager, que haviam sido entregues pelos pais à diretora de uma creche católicade Grenoble. Depois da guerra, quando os tios pediram sua restituição, adiretora opôs resistência, e os fez fugir, depois de serem batizados, para aEspanha franquista. O próprio cardeal Giuseppe Pizzardo, secretário do SantoOfício, por meio de uma carta de 23 de janeiro de 1953, interveio sobre o casoaconselhando resistir às solicitações dos familiares, na medida em que “aIgreja tem o dever imprescritível de defender a livre escolha dessas crianças,que, pelo batismo, lhe pertencem”. Ao final, o caso se encerrou graças àmediação entre o cardeal Gerlier e o rabino-chefe de Paris, Jacob Kaplan, com atransferência dos irmãos Finaly para Israel. Em seu encontro de despedida, opresidente gostaria de ter falado com o núncio sobre esse caso de graveatualidade. Mas Roncalli deixa passar (“Ele me falou do caso Finaly, ao qualmostrei não dar importância...”). Ele sabe muito bem que para cada caso Finalyacabado em rixa existem na França muitos outros, tendo a grande maioriaencontrado alguma forma de solução.
Depois do furacão da guerra, e diante domagma ardente e incontrolável dos sentimentos, das dores, dos afetos feridos,das reivindicações exasperadas de identidade que marcam o pós-guerra, Pacelli eRoncalli, cada um com sua índole e sua história, com suas flexibilidades e seuslimites, aparecem como testemunhas e intérpretes concordantes de um modusagendi eclesial, de umasensibilidade - a mesma expressa naqueles anos na Secretaria de Estado porTardini e por Montini -, que merecem indubitavelmente serem investigados comliberdade pelos historiadores. Certamente, já então, bem antes do ConcílioEcumênico Vaticano II, mostravam não cultivar nenhum lamento pelos tempos dasconversões coagidas e dos batismos administrados à força.


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