SUDÃO
Extraído do número 01/02 - 2005
Sudão entre guerra e paz
Depois de vinte anos de conflitos o Norte e o Sul do país assinaram um acordo de paz. Um importante passo que corre o risco de ser anulado pelo conflito em Darfur
de Davide Malacaria

Refugiados de Darfur no Chade
“Em outras ocasiões jáforam feitas negociações e acordos... porém desta vez parece diferente”,explica o padre Fernando Colombo, comboniano que está há 25 anos da África e hátrês anos presente na diocese de Rumbek, no coração do Sul do Sudão, auxiliandoo bispo local: “A população acolheu os acordos entre o Norte e o Sul com grandealegria e grande esperança. Certamente é preciso ver se serão respeitados.Porém o fato novo é que a Comunidade Internacional parece seriamenteintencionada a levar adiante o processo de paz: uma novidade que leva a certootimismo e dá uma certa garantia”. Também o padre Renato Kizito Sesana acolheucom alívio a assinatura do acordo de paz. Padre Kizito, também comboniano, é umprofundo conhecedor do Sudão: por muitos anos, durante a guerra, introduziu-seno Estado para chegar às populações locais, às vezes de maneira rocambolesca,sendo persona non gratatanto ao governo do Norte como ao chefe dos rebeldes do Sul. Destas viagens edos inesperados encontros com o povo sudanês escreveu suas memórias formando umbelíssimo livro (veja quadro). Pelo telefone não esconde suas perplexidades:“Infelizmente este acordo apresenta vários lados obscuros: é ponderoso, devidoa uma série de cláusulas que o tornam confuso e de difícil aplicação. E não seentende bem como a comunidade internacional conseguirá vigiar o respeito detodas essas cláusulas. Enfim a própria estrutura do acordo indica que a paz foiimposta externamente, e não por vontade dos que assinaram. Claro, chegou-se aum acordo sobre a liberdade de religião, mas não está previsto um processo dedemocratização interno, nem no Norte nem no Sul. Com efeito, se no Norte estáem vigor um regime autoritário, é verdade também que, no Sul, John Garangesmagou todas as oposições internas e marginalizou os outros movimentos delibertação que não concordavam com seus desígnios”. Enfim, os acordos deNairobi talvez sejam mais um ponto de partida do que de chegada, mas em todocaso é um início. Um bom início.

A assinatura dos acordos de paz entre o Norte e Sul do Sudão em Nairobi
Por outro lado, paraentender que não se tratou de guerra de religião é suficiente ver o queaconteceu nos Montes Nuba, onde a repressão militar agiu particularmente contraa população civil e a resistência armada em uma guerra santa colocou no mesmolado cristão e muçulmanos. Stefano Squarcina, secretário adjunto da UniãoEuropéia para as relações com o Terceiro Mundo, que esteve recentemente noSudão como enviado da UE, fez um perfil geopolítico muito interessante: “Narealidade muitos observadores internacionais concordam que existe um projetopara colocar o governo do Sudão sob pressão. Certamente não se pode negar queeste governo seja autoritário. É também inegável que o terrorismointernacional tenha recebido apoio no Sudão: basta pensar que Osama Bin Laden esteve por muitos anosrefugiado justamente aqui. Uma situação que não podia ser ignorada. E, comoaconteceu para o Iraque, também para com o Sudão há duas linhas de pensamento:a diplomática e a dura, para simplificar digamos a do diálogo da União Européiae a beligerante dos EUA. No ambiente americano parece que se cultive a idéia dedesmembrar o Estado atual em três áreas mais homogêneas e portanto maiscontroláveis: o Norte, o Sul e o Leste. Neste sentido deve ser visto também oapoio por parte de certos ambientes americanos aos movimentos guerrilheiros doSul e do Leste, onde estão presentes outros movimentos de libertação (o Freelion movement e o Bejacongress),particularmente nos Estados de Kassala e Gedaref. Mas é preciso ter cuidado:desestabilizar o Sudão é muito perigoso, corre-se o risco de desintegrar toda aárea. Também não se pode excluir a priori um diálogo com o regime sudanês que, como todos osregimes, é uma síntese de várias realidades e, ao lado dos duros, há pessoasrazoáveis com as quais pode-se obter um diálogo”.
Na realidade tanta pressãointernacional sobre o Estado africano poderia ter outros objetivos. O Sudão érico em petróleo, que se encontra principalmente nas regiões do Sul, o terrenode combate entre a guerrilha e o governo. No passado o ouro negro eraprerrogativa principalmente das companhias norte-americanas. Há alguns anos,desde que o Sudão começou a ser um país exportador de petróleo, a produçãosudanesa é controlada na sua maioria por um consórcio sino-indonesiano. StefanoSquarcina explica: “Há os que prevêem, no mundo, o início de uma disputa entreEUA e China, que iria se intensificar nos próximos anos, por isso o apoio àguerrilha do Sudão poderia ser uma ação por parte de ambientes americanos paramanter sob controle os caminhos do petróleo chinês... mas além das hipóteses deleitura uma coisa é certa: a guerrilha do Sul não teria resistido por mais devinte anos sem o apoio internacional”.

Refugiados no Chade
Atualmente a situação deDarfur está sob os refletores da ONU. Nos primeiros dias de janeiro foramconcluídos os trabalhos de uma comissão encarregada de monitorar a situação naregião. Foi redigido um documento que denuncia as atrocidades cometidas duranteo conflito. Um ato de acusação levado a todas as partes do mundo antes de serapresentado publicamente. Há os que esperavam que a comissão demonstrasse queem Darfur está sendo feito um genocídio por obra do governo de Cartum, acusaçãoque teria comportado uma imediata ação contra este regime. Porém os enviados daONU indicaram os responsáveis dos vários crimes comprovados, sem envolver intotum o governo. Agora odocumento está sendo avaliado pelas Nações Unidas, onde estão procurando outroscaminhos de pressão e de intervenção. Enquanto isso, em Darfur as mortescontinuam. A não ser que o momento de bom senso e de realismo que levou aosacordos de Nairobi, no final consiga se impor sobre o fragor das armas.