Leitura espiritual/42
Decretum de peccato originali*
3. Si quis hoc Adae peccatum, quod origine unum est et propagatione, non imitatione transfusum omnibus inest unicuique proprium, vel per humanae naturae vires, vel per aliud remedium asserit tolli, quam per meritum unius mediatoris Domini nostri Iesu Christi, qui nos Deo reconciliavit in sanguine suo, «factus nobis iustitia, sanctificatio et redemptio» (1Cor 1, 30); aut negat, ipsum Christi Iesu meritum per baptismi sacramentum, in forma Ecclesiae rite collatum, tam adultis quam parvulis applicari: anathema sit. Quia «non est aliud nomen sub caelo datum hominibus, in quo oporteat nos salvos fieri» (At 4, 12). Unde illa vox: «Ecce agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi» (Gv 1, 29). Et illa: «Quicumque baptizati estis, Christum induistis» (Gal 3, 27).
* Denzinger 1513.
Decreto sobre o pecado original
3. Se alguém afirma que este pecado de Adão, que é um só quanto à origem e, a todos transmitido por propagação não por imitação, pertence a todos e a cada um como próprio, pode ser tirado com as forças da natureza humana ou com outro remédio que não os méritos do único mediador, nosso Senhor Jesus Cristo, que nos reconciliou com Deus no seu sangue, “tornado por nós justiça, santificação e redenção” (1Cor 1, 30); ou nega que este mérito de Jesus Cristo seja aplicado tanto aos adultos quanto às crianças com o sacramento do batismo, devidamente administrado segundo a maneira da Igreja, seja anátema. Porque “não há outro nome dado aos homens debaixo do céu pelo qual devemos ser salvos” (At 4, 12). Daí esta palavra: “Eis o cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29); e a outra: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Gl 3, 27).
O terceiro cânon do Decreto sobre o pecado original do Concílio de Trento que propomos como leitura espiritual para este número sugeriu-nos publicar, como comentário, dois trechos do papa Paulo VI.
O primeiro trecho é extraído do discurso de abertura da segunda sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, a 29 de setembro de 1963, no qual Paulo VI indica o objetivo de tal vigésimo primeiro Concílio ecumênico.
“Donde parte o nosso caminho, Irmãos?”; “Qual é o caminho que desejais percorrer?”; “E que fim, Irmãos, propor ao nosso itinerário?”.
“Estas três perguntas simplicíssimas e capitais, têm, bem o sabemos, uma só resposta, que neste lugar e nesta hora devemos proclamar a nós mesmos e anunciar ao mundo que nos rodeia: Cristo! Cristo, nosso princípio; Cristo, nosso caminho e nosso guia; Cristo, nossa esperança e nosso fim.
Que este Concílio tome plena consciência desta relação entre nós e Jesus abençoado, múltipla e singular, firme e estimulante, misteriosa e claríssima, premente e beatificante; entre esta Igreja santa e viva que somos nós, e Cristo, de quem vimos, por quem vivemos e para o qual caminhamos. Nenhuma outra luz se veja sobre esta reunião que não seja Cristo, luz do mundo; nenhuma outra verdade interesse as nossas almas, que não sejam as palavras do Senhor, nosso único Mestre; nenhuma outra aspiração nos guie, que não seja o desejo de Lhe sermos absolutamente fiéis; nenhuma outra confiança nos mantenha, senão a que, através da sua palavra, sustenta a nossa fraqueza desoladora: ‘Et ecce Ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi’: [‘Eu estou sempre convosco até a consumação dos séculos’] (Mt 28, 20).
Oxalá fôssemos nós nesta hora capazes de elevar a Nosso Senhor Jesus Cristo uma voz digna d’Ele! Diremos com a sagrada Liturgia: “Te, Christe, solum novimus; – te mente pura et simplici – flendo et canendo quaesumus – intende nostris sensibus!”: [‘Só a Ti, Cristo, conhecemos; a Ti pedimos, com o coração puro e simples, no pranto e na alegria; atende os nossos desejos!’]”.
O segundo trecho é extraído do Credo do povo de Deus de 30 de junho de 1968, no qual Paulo VI cita literalmente o terceiro cânon do Decreto sobre o pecado original do Concílio de Trento.
“Cremos que todos pecaram em Adão: isto significa que a culpa original, cometida por ele, fez com que a natureza, comum a todos os homens, caísse num estado no qual padece as consequências dessa culpa. Tal estado já não é aquele em que no princípio se encontrava a natureza humana nos nossos primeiros pais, uma vez que se achavam constituídos em santidade e justiça, e o homem estava isento do mal e da morte. Portanto, é esta natureza humana assim decaída, despojada de dom da graça que antes a adornava, ferida em suas próprias forças naturais e submetida ao domínio da morte, é esta que é transmitida a todos os homens. Exatamente neste sentido, todo homem nasce em pecado. Professamos pois, segundo o Concílio de Trento, que o pecado original é transmitido juntamente com a natureza humana, ‘pela propagação e não por imitação’, e que ele é, portanto, ‘próprio a cada um’.
Cremos que Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Sacrifício da Cruz, nos remiu do pecado original e de todos os pecados pessoais cometidos por cada um de nós; de sorte que se impõe como verdadeira a sentença do Apóstolo: ‘onde abundou o delito, superabundou a graça’ [cf. Rm 5, 20]”.
De 29 de setembro de 1963 a 30 de junho de 1968 não transcorreram nem mesmo cinco anos. Ainda assim, nos seus dois discursos, parece-nos entrever como a experiência de Paulo VI naqueles anos fosse a mesma vivida pelo primeiro dos apóstolos, Pedro, no modo em que o Evangelho nos documenta. Um caminho que, partindo do entusiasmo muito humano pelo reconhecimento de Jesus – que é dom do Pai (“Feliz és tu, Simão, [...] porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”, Mt 16, 17), no qual se coloca em jogo toda a iniciativa de Pedro –, chega à experiência real da nossa “desoladora fraqueza”, assim que toda a iniciativa é deixada ao Senhor e Pedro humildemente ensina “apenas o que foi transmitido” (Dei Verbum, n. 10).
Sem equivalentes é, a este propósito, o comentário de Santo Agostinho às palavras dirigidas por Jesus a Pedro, depois que, em Cesareia de Filipe, o apóstolo tinha-O reconhecido (cfr. Mc 8, 27-33): “Dominus Christus ait: ‘Vade post me, satanas’ / E Jesus disse: ‘Vai para trás de mim, satanás!’. Quare satanas? / Por que satanás? / Quia vis ire ante me / Porque queres ir na minha frente” (Sermones 330, 4).
Pedro e o seu sucessor assim aprenderam a deixar toda a iniciativa ao agir do Senhor. Aprenderam que a nós cabe somente reconhecer e seguir o que o Senhor opera.
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