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EDITORIAL
Extraído do número 12 - 2004

Com humilde determinação


Giulio Andreotti entrevista Colin Powell. Os EUA e o resto do mundo num amplo diálogo


Giulio Andreotti



GIULIO ANDREOTTI: O senhor é um generalque trabalha com uma grande e reconhecida habilidade diplomática, o que não mesurpreende, pois me lembro muito bem de sua sabedoria no momento da crise doKuwait. Se o senhor tivesse de projetar hoje um possível equilíbrio de forçasem ação, que servisse para garantir uma ordem mundial mais estável e serena, oque diria? Qual é - nas relações entre as potências do hemisfério norte, masnão exclusivamente nelas - a sua idéia de equilíbrio?

COLIN POWELL: Nós estamos além da era doequilíbrio dos poderes políticos. Estamos numa nova era, caracterizada pelacausa comum da liberdade. A estabilidade e a paz vêm hoje de relações abertas ecooperativas com as nações com as quais compartilhamos valores comuns. Existeuma enorme diferença quando trabalhamos juntos. Em mais de meio século, asprincipais conquistas das relações transatlânticas - personificadas na Otan e,cada vez mais, na relação entre Estados Unidos e União Européia - foramsurpreendentes: paz na Europa, vitória na Guerra Fria, vitoriosas transiçõesdemocráticas e de mercado em grande parte do ex-bloco soviético e criação de umsistema econômico global mais estável por meio de mecanismos como Bretton Woodse a OMC. Nossa agenda comum com a Europa é mais ampla do que nunca - desde apromoção do livre mercado até o combate ao terror e a busca da paz no OrienteMédio.
O ano de 2004 viu uma expansão históricatanto da Otan quanto da União Européia e iniciativas para ajudar as nações doOriente Médio e do Norte da África, com reformas e modernização. Esse é umtestemunho da força de nossos valores e ideais comuns e o caminho paraconstruir uma estabilidade democrática e oportunidades para os povos no mundointeiro. Quando consideramos o caminho ainda a ser percorrido e quandosuperamos os desafios que encontramos, fica claro que o sucesso só pode vir detrabalharmos juntos.
Acima um grupo de mulheres de Bagdá protesta contra os soldados americanos, lamentando os graves transtornos devidos à falta de água, eletricidade e gêneros de primeira necessidade; 
Abaixo Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchev assinam  o tratado para redução de armamentos, em Washington, em 1987

Acima um grupo de mulheres de Bagdá protesta contra os soldados americanos, lamentando os graves transtornos devidos à falta de água, eletricidade e gêneros de primeira necessidade; Abaixo Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchev assinam o tratado para redução de armamentos, em Washington, em 1987

ANDREOTTI: A relação da Itália com osEstados Unidos da América tem raízes e motivações profundas, que não sãocondicionadas pelo titular da Casa Branca. Mas certamente o presidenteamericano que retomasse o projeto de Reagan, de uma política mundial de reduçãode armamentos (tanto nucleares quanto outros) gozaria de grande consenso. Épossível que os Estados Unidos sigam uma política como aquela? Ao morrer,Reagan foi objeto de elogios unânimes, mas ninguém mais fala em redução dearmamentos.
POWELL: Um controle eficaz das armascontribui para alcançar nosso objetivo de reduzir a ameaça das armas dedestruição em massa à nossa nação e ao mundo. Nos últimos quinze anos,reduzimos as ogivas nucleares estratégicas operantes de dez mil para menos deseis mil em dezembro de 2001, e eliminamos cerca de 90% das armas nucleares nãoestratégicas dos Estados Unidos. Os Estados Unidos, além disso, se abstêm de realizartestes nucleares desde 1992, e removeram mais de 200 toneladas de materialfíssil de seus depósitos, material suficiente para pelo menos oito mil armasnucleares.
Uma grande conquista durante o primeiromandato do presidente Bush foi a negociação para o Tratado de Moscou, que daráacesso, até o ano de 2012, à redução de dois terços das ogivas nuclearesestratégicas operantes, fazendo com que o número caia para 1.700 a 2.200 ogivasnucleares.
Com as grandes mudanças no ambiente dasegurança internacional ocorridas desde o fim da Guerra Fria, a comunidadeinternacional deve adaptar seu controle de armamentos e suas políticas denão-proliferação para combater as ameaças emergentes, em particular oterrorismo e a proliferação de armas de destruição em massa. O presidente Bushpromoveu ativamente novas idéias para responder à ameaça da proliferação, comoa Proliferation Security Iniciative. Com base na resolução 1540 do Conselho desegurança da ONU, que os Estados Unidos propuseram, continuaremos a responder àameaça de proliferação de armas com parceiros de todo o mundo.
ANDREOTTI: Todos recebemosfavoravelmente a revogação do embargo à Líbia, decisão tomada pelos EstadosUnidos e, com atraso, pela União Européia. É uma prova de que a linha históricado diálogo político-diplomático com o mundo árabe ainda pode funcionar demaneira excelente. O que o senhor pensa a res­peito?
POWELL: No início desse processo com aLíbia, o presidente empenhou-se para responder às ações concretas de boa fé daLíbia, notando que esse país “pode readquirir um lugar seguro e res­peitadoentre as nações e, com o tempo, melhores relações com os Estados Unidos”. Foramnecessários anos de firme diplomacia, combinados com uma atitude resolutaindubitável por parte dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, antes quea Líbia fizesse uma opção histórica e desse passos significativos eirreversíveis para eliminar suas armas de destruição em massa. Isso impõe ummodelo que nós esperamos seja seguido pelas outras nações. A ação da Líbia vemrecebendo uma contrapartida econômica, política e diplomática.
A coordenação entre Estados Unidos eGrã-Bretanha a respeito da Líbia foi extremamente estreita. É um fator quecontribuiu para o sucesso de nossas respectivas políticas e que está continuando.
De uma forma ou de outra, não resolvemostodas as nossas preocupações sobre a Líbia. Continuaremos o diálogo com essepaís sobre os direitos humanos, sobre a modernização econômica e política esobre o desenvolvimento político regional. Saudamos favoravelmente ocompromisso da Líbia com a Anistia Internacional. Compartilhamos aspreocupações da Comunidade Européia sobre a crise dos médicos búlgaros. Oempenho diplomático e a cooperação na educação, na saúde, na preparaçãocientífica estabelecem os fundamentos para relações mais fortes. Como declarouo presidente em dezembro de 2003, “se a Líbia procurar uma reforma interna, osEUA estarão prontos a ajudar seu povo a construir um país mais livre epróspero”.
Powell com  o presidente da OLP, Abu Mazen, em Jericó, em 22 de novembro de 2004

Powell com o presidente da OLP, Abu Mazen, em Jericó, em 22 de novembro de 2004

ANDREOTTI: Como pôr à prova essediálogo político-diplomático de forma mais geral no Oriente Médio (processo depaz israelense-palestino, Síria, Irã, etc.)?
POWELL: Continuaremos a aproveitar todasas oportunidades para progredir em favor da paz na região. Como disse opresidente, o objetivo de que dois Estados - Israel e Palestina - possam viverlado a lado em paz e segurança só pode ser alcançado por meio de um cami­nho: ocaminho da democracia, das reformas e do Estado de direito. Tudo isso que nósesperamos alcançar requer da América e da Europa uma colaboração estreita.Juntos, somos os pilares do mundo livre. Enfrentamos as mesmas ameaças ecompartilhamos o mesmo credo na liberdade e nos direitos individuais.
A outra oportunidade - e desafio - a maislongo prazo que vemos no Oriente Médio é colaborar com os esforços internos daregião para a transição democrática e a modernização econômica.
Definitivamente, nosso sucesso dependeráde sermos capazes ou não de alcançar uma parceria com os povos e os líderes daregião que vêem seus interesses pessoais entrelaçados com a modernizaçãoeconômica e com uma maior abertura política. Esse certamente não será umprocesso fácil e nem será veloz. Mas é essencial começar, e procurar reformasregionais com o mesmo vigor, com o mesmo propósito e com a mesma autoridadereconhecida que pusemos na reconstrução do Iraque, no apoio aos israelenses eaos palestinos para que alcancem uma solução para os dois Estados e no combateao terrorismo e à difusão das armas de destruição em massa.
[ PROCESSO DE PAZ ] O objetivo de que dois Estados - Israel e Palestina - possam viver lado a lado em paz e segurança só pode ser alcançado por meio de um caminho: o caminho da democracia, das reformas e do Estado de direito. Tudo isso que nós esperamos alcançar requer da América e da Europa uma colaboração estreita
ANDREOTTI: Falemos da Rússia. O que osenhor pensou ao ver as imagens do terrível massacre de Beslan?
George W. Bush com Vladimir Putin

George W. Bush com Vladimir Putin

POWELL: Como todos os americanos que viramas imagens de Beslan, eu não podia deixar de sentir que aquela era a mesmaespécie de mal e de terror que tínhamos visto ser perpetrada contra nós em 11de setembro ou contra a Espanha em 11 de março. Compreendemos a raiva do povorusso depois do massacre dos terroristas em Beslan. Compartilhamos sua dor enossos corações estão unidos a todos aqueles que sofreram. Pôr em risco a vidade crianças e matá-las de uma forma tão deliberada não pode ter nenhumajustificação política ou religiosa. O mal que vimos em Beslan deve sercombatido e enfrentado. Ele nos lembrou também que nesta batalha não pode havernenhum compromisso. O povo russo deve enfrentar tudo isso da maneira maisenérgica, direta e vigorosa possível, de forma a proteger seus cidadãos comonós estamos fazendo para proteger os nossos. Os Estados Unidos estão firmementedo lado da Rússia no combate a todas as formas de terrorismo. Esse ataque sódeu energia aos nossos esforços para continuar a luta.
[ RÚSSIA ] Como todos os americanos que viram as imagens de Beslan, eu não podia deixar de sentir que aquela era a mesma espécie de mal e de terror que tínhamos visto ser perpetrada contra nós em 11 de setembro ou contra a Espanha em 11 de março. [...] Os Estados Unidos estão firmemente do lado da Rússia no combate a todas as formas de terrorismo
ANDREOTTI: Olhemos ainda mais para oLeste. Que relações vocês querem ter com a China de Hu Jin Tao, líder que jápossui plenos poderes com apenas 61 anos?
Powell com o presidente chinês Hu Jin Tao, em Pequim, em 25 de outubro de 2004

Powell com o presidente chinês Hu Jin Tao, em Pequim, em 25 de outubro de 2004

POWELL: Encontrei o presidente Hu muitas vezes.Achei-o bem preparado durante a discussão de nossas relações, que seaprofundaram e ampliaram ao longo dos anos. Creio que ele reconheça que a Chinadeve exercer um papel cada vez mais responsável na contribuição para a paz,para a prosperidade e para a segurança na Ásia e no mundo inteiro.
O presidente Hu e a nova liderança chinesaestão concentrados em estabelecer um percurso claro para o desenvolvimentoeconômico da China e para a promoção de um bom governo. Os Estados Unidos estãoansiosos por que os líderes chineses se comprometam em tornar nossas relaçõesmais sólidas e construtivas do que nunca.
Há um número muito maior de temas sobre osquais concordamos do que daqueles sobre os quais divergimos - o diálogo a seispor meio do qual estamos tentando eliminar as armas nucleares da PenínsulaCoreana e a luta contra o terror, por exemplo. Os direitos humanos são um temasobre o qual temos divergências significativas; de qualquer forma, fiqueicontente quando o ministro das Relações Exteriores chinês se comprometeu,durante minha recente visita a Pequim, a reforçar nosso diálogo bilateral.Seria de nosso agrado ver na China um maior progresso na questão da liberdadereligiosa; já expressei nossa esperança de que os cidadãos chineses venham ater o direito de expressar livremente seu culto porque garantido pela Constituição da China.Isso enquanto esperamos ansiosamente o dia em que a Santa Sé terá relaçõesdiretas com as autoridades chinesas e poderá ministrar os sacramentos aosmuitos milhares de católicos chineses.
[ CHINA ] Encontrei o presidente Hu muitas vezes. Achei-o bem preparado durante a discussão de nossas relações, que se aprofundaram e ampliaram ao longo dos anos. [...] Há um número muito maior de temas sobre os quais concordamos do que daqueles sobre os quais divergimos. [...] Espero ansiosamente o dia em que a Santa Sé terá relações diretas com as autoridades chinesas e poderá ministrar os sacramentos aos muitos milhares de católicos chineses
ANDREOTTI: Não apenas na ONU, é cadavez mais clara a exigência insistente de países emergentes - na América Latina,África e Ásia - de entrarem na sala de comando. Como devem se comportar osEstados Unidos, na sua opinião, diante dessa nova realidade? Que idéia o se­nhortem da reforma da ONU?
POWELL: Queremos parceiros globais fortese vivos, que traba­lhem conosco para responder aos problemas e aos desafiosplanetários. Apoiamos políticas que encorajem o bom governo, aliviem a pobrezae combatam as doenças, de forma tal que não apenas os Estados não afundem, maspossam até emergir desses males e contribuir para a prosperidade global.
Para combater o HIV/Aids nos países maisduramente atingidos, apoiamos a criação de um Fundo Global na ONU, e temos umPlano de Emergência nosso para o socorro contra a Aids. Criamos um programainovador para o desenvolvimento e para aliviar a pobreza, o MillenniumChallenge Account. Ospaíses em via de desenvolvimento que põem em prática políticas de bom governo,que investem em seu povo e encorajam a liberdade econômica serão beneficiadospor esses fundos. As nações que escolherem esses caminhos encontrarão os EUA aseu lado no futuro. Estamos contentes de que muitas dessas nações tenham dadopassos e que estejam trabalhando firmemente conosco para resolver as crisesregionais, e em alguns casos estejam assumindo um papel de liderança. Porexemplo, a Nigéria e os outros Estados africanos são partes de um contingenteda União Africana no Sudão, e países latino-americanos e asiáticos estão secomprometendo para ajudar a manter a paz no Haiti.
A respeito da reforma das Nações Unidas,estamos abertos a levar em consideração propostas sobre as maneiras pelas quaisa ONU possa se modificar para superar os desafios atuais. A “Comissão de AltoNível sobre Ameaças, Desafios e Mudanças” nomeada pelo secretário-geral Annanacaba de publicar seu relatório. Saudamos favoravelmente o sério esforço queele representa e analisaremos com atenção suas recomendações. O principal parâmetropor meio do qual avaliaremos as propostas para as reformas institucionais eestruturais da ONU será a eficácia. Para fazer avançar qualquer reforma dasNações Unidas será necessário, além disso, um amplo consenso dentro daorganização e nos grupos regionais.
Ajudas humanitárias em Darfur

Ajudas humanitárias em Darfur

ANDREOTTI: O senhor esteve pessoalmenteempenhado com a crise sudanesa, nas negociações entre o Norte e o Sul do paíse, agora, em Darfur. Por quê? E esse seu forte empenho com o Sudão é um testedo que os Estados Unidos querem realizar de maneira mais geral na África?
POWELL: Nós estávamos empenhados no Sudãopara favorecer o fim de uma guerra civil que já durava vinte anos e haviacustado milhares de vidas. Em seguida, ocorreu uma tragédia humanitária emDarfur que tinha de ser combatida e corrigida imediatamente. Podemos estar àbeira de uma pacificação do Sudão graças à recente assinatura de uma declaraçãoentre o governo e a oposição, na qual se afirma o compromisso mútuo paraconcluir um tratado de paz geral para o final de 2004 [o tratado foi assinadoem 31de dezembro de 2004; ndr]. Quero ser otimista sobre o fato de que no fim haverá um governo deunidade nacional e de reconciliação no Sudão, com renovados laços políticos eeconômicos com o mundo. Um novo Sudão depende de que as partes mantenham suaspromessas.
Foi um caminho difícil e exasperante detero genocídio em Darfur, mas os Estados Unidos abriram o caminho. Trabalhamospara pôr em ação um cessar-fogo, que foi difícil manter, em razão das repetidasviolações do governo sudanês e dos rebeldes de Darfur. Doamos mais de 302milhões de dólares em ajuda humanitária para os refugiados internos, em Darfur,e para os refugiados que migraram para o Chade Oriental. Nosso apoio foiimportante para que se adotassem no Sudão duas resoluções da ONU - resoluções1556 e 1564 - e a resolução 1574, mais recente, aceita por unanimidade emNairóbi. Enviei um esquadrão para investigar os relatórios que falavam deatrocidades em Darfur, e fomos os primeiros a reconhecer o genocídio que aliocorria. Fornecemos mais de 40,3 milhões de dólares para sustentar uma missãoampliada da União Africana. Reconhecemos também as contribuições importantesdadas pela Europa e o papel enérgico exercido pelas Nações Unidas e pelasorganizações humanitárias. Nós e os outros doadores internacionais fizemosmuito, mas devemos fazer ainda muito mais, tanto no front humanitário quantopara promover uma presença crescente da União Africana em Darfur.
[ DARFUR ] Nós estávamos empenhados no Sudão para favorecer o fim de uma guerra civil que já durava vinte anos e havia custado milhares de vidas. Em seguida, desenvolveu-se uma tragédia humanitária em Darfur que tinha de ser combatida e corrigida imediatamente. [...] Quero ser otimista sobre o fato de que no fim haverá um governo de unidade nacional e de reconciliação no Sudão
ANDREOTTI: Quando foi celebrado ovigésimo aniversário da instituição das relações diplomáticas entre EstadosUnidos e Santa Sé, estabelecidas em 1984 por Reagan, o senhor escreveu que osamericanos olham para os compromissos futuros com “humilde determinação”. Nocontexto atual, que significado o senhor dá a essa afirmação?
POWELL: O compromisso primário dos EUA nomundo de hoje e de amanhã é sobretudo promover a dignidade do homem num mundoem que essa dignidade está arriscada em razão do terror, da doença, da pobrezae da violência. Fazemos isso de muitas formas - pela assistência que damos aosmais pobres do mundo, por meio da nossa defesa dos direitos humanos e daliberdade religiosa, e, sim, também por meio da nossa vontade de defender aliberdade humana mesmo com o uso da força, se necessário. Todos os nossosesforços, sejam ou não sejam notícia, refletem a bondade própria do povoamericano e seu desejo de fazer o bem no mundo. Esse é o verdadeiro coração dapolítica externa dos Estados Unidos da América, o núcleo vital que anima nossasações internacionais.
Powell no Vaticano, em 2 de junho de 2003, com o cardeal Angelo Sodano, Secretário de Estado vaticano (o primeiro à esquerda), o então Secretário das Relações com os Estados Jean-Louis Tauran, hoje cardeal (à direita) e Jim Nicholson na época embaixador americano junto à Santa Sé

Powell no Vaticano, em 2 de junho de 2003, com o cardeal Angelo Sodano, Secretário de Estado vaticano (o primeiro à esquerda), o então Secretário das Relações com os Estados Jean-Louis Tauran, hoje cardeal (à direita) e Jim Nicholson na época embaixador americano junto à Santa Sé

Ao enfrentar esses desafios, nossa relaçãodiplomática com a Santa Sé - arraigada no primado da liberdade humana -exercerá um papel cada vez mais importante. A meu ver, muitos dos desafios hojecentrais são desafios morais: se pensarmos em combater o mal do tráfico depessoas, em salvaguardar a liberdade religiosa onde quer que ela seja ameaçada,ou em eliminar o flagelo do HIV/Aids, tudo isso deve ser enfrentado com clarezamoral e com a capacidade de traduzir essa clareza em ação. Se continuarmos atrabalhar juntos, acredito que os Estados Unidos e a Santa Sé possam ajudar aconstruir um mundo de liberdade, esperança e paz. Já fizemos muito para elevara condição humana, mas reconhecemos humildemente que há ainda muito a fazer.Com humildade e determinação, acredito que continuaremos a promover a causa dadig­nidade humana diante dos muitos desafios que o mundo enfrenta hoje.
ANDREOTTI: A cooperação para odesenvolvimento é a li­nha-mestra a ser seguida para enfrentar a condição demiséria de tantos países? O senhor acredita que se possa fazer mais?
POWELL: Para ter resultados melhores, acooperação para o desenvolvimento entre os doadores e o beneficiário éessencial. A cooperação entre as nações doadoras elimina a duplicação eassegura que a assistência adequada alcance o destinatário. A cooperação com ospaíses em via de desenvolvimento assegura que se responda às causas dosproblemas, não apenas aos sintomas visíveis. Esse esforço requer não apenas umconhecimento técnico do desenvolvimento, mas também colaboração e conhecimentocultural para compreender e enfrentar esses problemas de base.
[ EUA E SANTA SÉ ] Nossa relação diplomática com a Santa Sé - arraigada no primado da liberdade humana - exercerá um papel cada vez mais importante. [...] Com humildade e determinação, acredito que continuaremos a promover a causa da dignidade humana diante dos muitos desafios que o mundo enfrenta hoje
Nosso empenho na assistência humanitáriaquando vidas estão em perigo continua o mesmo. Aumentamos notavelmente nossasdespesas em favor do desenvolvimento tradicional, sobretudo desde que instituídoo novo Millennium Challenge Account, que ajuda os países que estão realizando um bomgoverno. Nos que não estão comprometidos com reformas, dificilmente osprogramas convencionais produzirão desenvolvimento. De fato, a assistência podeaté ocultar instabilidades subjacentes ou contribuir para a insegurança doEstado. É crucial que os recursos sejam usados com muito cuidado, com metas decurto prazo específicas e flexíveis, que estejam abertas às mudanças que possamadvir.
ANDREOTTI: Para terminar: o mundointeiro se surpreende com a facilidade com que se comercializam armas leves nosEUA. O que o senhor acha disso?
POWELL: Em nosso país, muitos sãoparticularmente sensíveis ao fato de que a Segunda Emenda de nossa Constituiçãogaranta explicitamente aos cidadãos o direito de portar armas. Nós acreditamosna liberdade pessoal até o ponto em que ela não viole os direitos dos outros, asegurança pública ou o bem geral. Nossa atenção se concentra no combate aocrime e na punição àqueles que cometem crimes com armas de fogo.


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