VON GALEN
Extraído do número 11 - 2004
As cartas de von Galen à Pio XII
Na edição de julho-agosto, 30Diasapresentou aos leitores três das cartas que Pio XII enviou a Clemens August vonGalen, nas quais o papa Pacelli exprime sua plena aprovação e gratidão pelafirme coragem com a qual o bispo alemão se opôs ao nazismo de Hitler. Aquelascartas, que continuavam desconhecidas do grande público, fazem parte de umacorrespondência que Pio XII manteve com Von Galen entre 1940 e 1946. Dessacorrespondência, nunca estudada até hoje, publicamos nestas páginas trêsmissivas das oito que o Leão de Münster enviou ao papa Pacelli nos anos deguerra. Respondendo a Pio XII, Von Galen o informa aqui não apenas daperseguição sofrida sob o regime nazista, mas também das terríveis devastaçõesprovocadas pelos bombardeios aliados sobre a Alemanha, contra as quais o bisponão economiza palavras fortes. São cartas que sublinham ainda maissignificativamente a estreita sintonia e unidade de juízo entre Pio XII e VonGalen, tanto na firme condenação do nazismo quanto no decidido repúdio de umaculpa coletiva que se queria atribuir ao povo alemão

Carta de Von Galen de 4 de novembro de 1943 a Pio XII
Padre Santo!
Ajoelhando-me espiritualmente aos pés deVossa Santidade, seja-me permitido expressar minha infinita gratidão pelamagnânima designação a assistente do trono de Vossa Santidade, comunicada em 8de setembro de 1943 por sua eminência o cardeal secretário de Estado, noCapítulo da nossa catedral. Ter a honra de ser acolhido na restrita “famíliapontifícia” é um privilégio imerecido que ainda mais alegra e regozija meucoração, na medida em que, por graça de Deus e por educação familiar, desde aminha juventude ligam-me ao Vigário de Cristo na terra os mais profundosvínculos de temor, amor e submissão; essa é uma disposição de alma que a paternalafabilidade e a benevolência de Vossa Santidade pela minha pessoa aumentaramainda mais. Peço a Deus que sustente minha frágil vontade para que permaneçafirme, até o fim, na imutável fidelidade a Roma, à rocha de Pedro e ao supremoSucessor do Chefe dos Apóstolos, e também que preserve e reforce na fidelidadeao Santo Padre o clero e os fiéis que me são confiados. Que Ele, em Suabenevolência e misericórdia, disponha que cedo me seja concedido aproximar-mepessoalmente de Vossa Santidade, de modo a poder expressar em viva voz meussentimentos de temor, amor e gratidão.
Devo agradecer de modo todo particular aVossa Santidade pela carta pessoal de 24 de fevereiro de 1943, que me foientregue em maio por sua excelência o núncio apostólico. Cheio de alegria,comuniquei a meu clero e a meus fiéis os ensinamentos e admoestações paternaise sábias nela contidos. Eles devem servir de guia e encorajamento para ocuidado das almas, que muitas vezes se torna tão difícil, mas também, de modoparticular, na luta por nossa santificação pessoal.
Ao lado de outros documentos recentes,gostaria de submeter a Vossa Santidade o texto de duas pregações que fiz em 29de junho e em 19 de setembro, em nossa catedral, nas quais dei a conhecer aosfiéis as palavras de ensinamento e encorajamento de Vossa Santidade e, ao mesmotempo, repeli energicamente as repugnantes calúnias que ocultamente sãodisseminadas contra Vossa Santidade. Infelizmente, os textos dessas duaspregações, como também todos os outros relatórios e documentos preparados paraserem enviados a Roma, foram queimados com a destruição da residência episcopale do edifício do Ordinariato causada por uma incursão aérea inimiga em 10 deoutubro passado.

Ao longo do ano passado, as agressõesaéreas inimigas muitas vezes atingiram e danificaram sobretudo as nossascidades industriais: Bottrop, Bocholt, Sterkrade, Gladbeck e, em particular,Duisburg-Hamborn. Nesses ataques, foi gravemente danificado também um grandenúmero de igrejas, de edifícios eclesiásticos, e muitos hospitais. Também emMünster, em 10 de junho, uma grave incursão tornou, entre outras coisas,temporariamente inutilizáveis muitas igrejas, e a igreja do Sagrado Coração deJesus assim ficará por muito tempo. Domingo, 10 de outubro, uma incursão aéreade bombardeios inimigos, breve, mas extremamente brutal, reduziu a destroçosgrande parte do antigo e venerando centro histórico de Münster. Sofremos muitopelas vítimas que causou. Ao lado de um grande número de leigos, pereceramquatro sacerdotes: dois membros do Capítulo da nossa catedral, os preladosprofessor doutor Emmerich e professor doutor Diekamp, além do professor eméritodoutor Vrede e do professor doutor Hautkappe. Na casa-mãe da nossa “Congregaçãodas Irmãs Misericordiosas da Santíssima Virgem e Mãe Maria das Dores(Clemensschwestern)”, foi morta a superiora-geral, ao lado de duas superioreslocais que, bem naquele momento, haviam sido chamadas a participar dosexercícios na casa-mãe. Foram gravemente danificadas também outras casasreligiosas na cidade, e, da mesma forma, o seminário e o instituto teológico.
Deploramos sobretudo a destruição dasantigas e grandes igrejas da cidade de Münster. Uma bomba de impacto atingiu eincendiou a torre campanária norte da Catedral; os destroços e o lixo atingirame derrubaram duas vezes a construção principal, e diversas outras foramdanificadas; dentro, muito foi destruído; todo o teto foi devorado pelo fogo.Nas igrejas paroquiais de Nossa Senhora e de São Lamberto, ruíram as abóbadasdo coro; as igrejas de São Martinho, de São Clemente e de São Pedro sofreramdanos tão graves que há dúvidas sobre a possibilidade de restauração.
Na praça da catedral, foram completamentequeimadas e destruídas as cúrias do vigário e do decano da catedral e as casasde outros três cônegos capitulares da catedral, de forma que essas reverendaspessoas não conseguiram salvar nada, além de algumas peças de vestuário; entreos feridos está também o senhor cônego capitular da catedral, Franz Vorwerk,que, sem nenhuma culpa, encontra-se ainda em exílio.
Graças à misericordiosa proteção de Deus,fiquei pessoalmente ileso, exceto por algumas leves feridas, na explosão deduas bombas de impacto que atingiram e demoliram parcialmente o pátio doepiscopado; mas, no incêndio que estourou inevitavelmente, perdi todo omobiliário, todos os livros, escritos e documentos e, entre eles, as amorosascartas pessoais de Vossa Santidade, circunstância que me causa particular dor;grande parte dos paramentos pontificais e dos objetos sacros foi destruída;todavia, conseguiram-se retirar a salvo as peças de vestimenta maisnecessárias.
Ainda mais grave e cheio de repercussõesnão avaliáveis é o fato de que ficaram completamente queimados e destruídos osescritórios do Vicariato Geral e do Oficialato, além de todos os documentos aliconservados desde cerca de 1820. Já pedi a sua excelência o núncio apostólicoque me conceda por esta vez a dispensa da redação da “Relatio de statudioecesis” que deveria ser compilada este ano, já que se perderam todos os documentospreparatórios, os materiais e documentos necessários para sua redação.

Padre Santo! Mais ainda do que essasperdas exteriores, pesa sobre mim a preocupação pela salvação das almas dosfiéis que me foram confiados e pela manutenção da religião cristã em nossopaís. É claro que ainda são milhares aqueles que, provenientes de todos osextratos sociais e profissionais, mesmo entre os jovens, são fiéis a Cristo e aSua santa Igreja; com gratidão a Deus, pude apurar como os habitantes dasregiões da nossa diocese, que, há tempos imemoriais, são na maioria católicos,dão, na provação, um grande testemunho e suportam valorosamente e comresignação as penas causadas pela guerra, oferecendo-as a Deus. Mesmo este ano,deslocando-me para as crismas e para as peregrinações, pude alegrar-me e seredificado pelo testemunho extraordinariamente vivo, na medida do possível, deum fiel sentimento católico, e pela devoção para com o Pastor que Deus deu àdiocese. Todavia, é inegável que, em geral, partes realmente consideráveis dopovo alemão olham para o cristianismo, para a verdadeira fé em Deus comindiferença, até com inimizade, abandonando cada vez mais os vínculos moraisda herança cristã comunicada até hoje. Devemos, talvez, ver na guerra deaniquilação, que pode reduzir grande parte da Europa não-cristã a uma montanhade destroços e a um território desolado, um castigo justo que se abateu sobreaqueles que “abandonaram a fonte da água viva e escavaram poços que nãosustentam a água”. Indicar a eles o caminho de volta às “fontes Salvatoris” énossa grande e difícil tarefa. Nesse meio tempo, a coisa mais necessária é quenós, ao lado de todos aqueles que permaneceram fiéis, seguindo o exemplo e afreqüente admoestação de Vossa Santidade, aceitemos das mãos de Deus, docilmentee com gratidão, as penas e privações, e as oferecemos à Majestade divina comotributo de penitência e expiação. No final destas linhas, seja-me permitidoexpressar minha profunda gratidão a Vossa Santidade por todos os ensinamentos eadmoestações que nos chegaram. Nestas últimas semanas, foi para mim fonte deconsolação e de força em especial o conteúdo da encíclica Mystici CorporisChristi, sobretudo areferência ao “tremendum sane mysterium, ac satis nunquam meditatum: multorumsalutem a mystici Iesu Christi Corporis membrorum precibus voluntariisqueafflictionibus pendere”, pois dele extraio a esperança de que nossossacrifícios e nossos sofrimentos, em unidade com a cruz de Cristo, obtenham eacelerem a misericórdia de Deus por nós, por nosso povo e por todos os povos.
Na esperança de que nossas orações e ossacrifícios por nós oferecidos possam contribuir para impetrar a VossaSantidade todo dom celeste, a liberdade e a saúde, peço humildemente para meusdiocesanos, leigos e sacerdotes, especialmente aqueles que se encontram nofront, e para nossa juventude a bênção apostólica, e permaneço, na maisprofunda veneração a Vossa Santidade, devotíssimo e obedientíssimo filho eservidor
+ C. A.
Carta de 20 de agosto de 1945 a Pio XII
Padre Santo!
Na mais profunda veneração e amor filial,ajoelho-me espiritualmente aos pés do trono papal, para saudar o sublimeVigário de Jesus Cristo, o pai comum da cristandade. Já há meses insisto aogoverno militar britânico que autorize e torne possível a livre troca epistolarcom Roma, como também uma visita pessoal a Vossa Santidade. Todavia, até hoje,não obtive sucesso! Espero agora, por ocasião da próxima Conferência Episcopalde Fulda, poder ao menos fazer chegarem estas poucas linhas a Vossa Santidade, pelaintermediação de sua excelência o núncio apostólico.
Sinto o dever e o desejo de exprimir antesde mais nada gratidão por Vossa Santidade, também em nome de meus diocesanos. Oisolamento de Roma, que já dura meses, e a impossibilidade de sermos informadossobre o estado, as palavras e as ações de Vossa Santidade não diminuíram nossoamor pelo Santo Padre nem nosso fervor em rezar por Vós, e nem mesmo nossaaspiração de receber de Vós ensinamento, direção e consolação. As primeiraspalavras de Vossa Santidade que depois de tanto tempo recebemos foram as daalocução ao Colégio Cardinalício de 2 de junho passado, recentemente expedidaspelo núncio apostólico e em seguida entregues a mim também pelo secretário dachancelaria, doutor Pünder, que finalmente voltou à pátria. O teor sincero, aolado da exposição indiscutivelmente clara do passado, da situação atual e deseus perigos, mostra-nos novamente a benévola compreensão e o imutável amor deVossa Santidade por nós, por nosso pobre povo e por nossa pátria, para com aqual quase todo o resto do mundo parece alimentar unicamente ódio, aversão esede de vingança. Até os novos jornais alemães, dirigidos pelas forças deocupação, são obrigados a publicar continuamente declarações que querem imputara todo o povo alemão, também para aqueles que nunca louvaram as errôneasdoutrinas do nacional-socialismo e, pelo contrário, segundo suaspossibilidades, lhe opuseram resistência, uma culpa coletiva e aresponsabilidade por todos os crimes cometidos por aqueles que antes detinham opoder. Parece que essa disposição de espírito seja a razão do tratamento dadoaos soldados alemães prisioneiros de guerra, que contradiz a Convenção deGenebra (falta ainda qualquer notícia daqueles que pereceram na prisão naRússia); parece ser a razão para que se permitam campanhas de furto e de saquerealizadas por trabalhadores estrangeiros a seu tempo deportados para aAlemanha, especialmente russos e poloneses, com conseqüentes incêndios dolosos,homicídios e violências carnais sobre mulheres respeitáveis e virgens; pareceser a razão, além disso, da impiedosa expulsão da população alemã de sua pátriae de suas propriedades, tal como em parte já foi realizada e, em parte,programada para o futuro. É realmente terrível que o nacionalismo exasperadoque culmina no culto da raça domine hoje também entre os vencedores, a talponto que, em Potsdam, decidiu-se expulsar toda a população alemã dosterritórios entregues à Polônia e à Tchecoslováquia (a Prússia Oriental, aPomerânia, o Brandeburgo Oriental, a Silésia, a Boêmia e assim por diante) ematá-los nos territórios alemães ocidentais já hoje superpovoados.

Ao mesmo tempo, na Holanda, chega-se aimpedir a volta e até a visita às esposas e filhos de homens alemães que, poranos, viveram e moraram naquele país, que lá se casaram com mulheres holandesase cujas famílias lá vivem e esperam a volta do pai para casa. Semelhantedilaceração violenta das famílias lembra realmente as doutrinas raciais donacional-socialismo, que se manifestavam na perseguição dos judeus e naviolenta dilaceração de matrimônios de cristãos com judeus batizados.
Como somos gratos, em meio a semelhantepostura do mundo, pelas palavras amorosas, compreensivas, consoladoras eencorajadoras de Vossa Santidade em 2 de junho de 1945. Nós as sentimos como aspalavras do Vigário dAquele que veio ao mundo “non ut iudicet mundum, sed utsalvetur mundus per ipsum”.
Escrevo a Vossa Santidade das ruínas dacidade de Münster, que ainda nos últimos dias de guerra, em 23 e 25 de março de1945, foi novamente sepultada sob bombas de impacto e incendiárias. Naquelaocasião, ao lado da catedral, foram quase completamente destruídas e queimadasas partes antigas da cidade; das antigas igrejas, continua a poder serutilizada apenas a igreja de São Maurício, que se encontra fora da cidade. Ostrabalhos para a reconstrução, a reparação e a proteção dos restos aindautilizáveis não são mantidos pelas forças de ocupação, e, à luz da carência dehabitações, essa obra certamente deve ser adiada.
Olhamos para o futuro com a maiorpreocupação. Muitíssimos perderam, em razão dos bombardeios, casa, trabalho,atividade. Muitíssimos, no Oriente e no Ocidente, fugindo dos fronts de guerra,abandonaram sua pátria e não podem voltar a ela: isso vale sobretudo para aquelesque fugiram das tropas russas, os quais nem podem voltar nem recebem notíciasde seus familiares que lá ficaram. Nosso povo cristão da zona rural, com grandemagnanimidade, acolheu os refugiados que escaparam das cidades, das fronteiras,das zonas de guerra, reduzindo ao mínimo suas exigências, de forma a poderemassegurar aos forasteiros o alimento e a morada.
Mas, a longo prazo, a vida em comum a quese obrigam famílias que antes eram independentes, em casas pequenas e semdivisórias, com todos os espaços, móveis e utensílios domésticos em comum, põeà prova duramente não apenas a paciência e o amor, mas também as boas maneiras.A isso se acrescente a condição quase desesperada e sem perspectivas pela qualpassa nossa economia, e o perigo latente de proletarização e até de completoempobrecimento de grandes famílias que até hoje viviam com suficiente confortoe bem-estar, mesmo nas camadas mais cultas. Como será difícil preservar a fé nabondade paterna de Deus e no fiel cumprimento dos mandamentos da justiça e doamor ao próximo em todos os homens que terão de suportar o “destino proletáriode uma existência incerta”! Já hoje os apóstolos de um comunismo sem Deusdesenvolvem uma febril atividade agitadora, especialmente nas regiõesindustriais: tememos que a marcha triunfal das idéias bolcheviques se estendabem além das fronteiras da zona de ocupação russa. Infelizmente, as forças deocupação da parte ocidental, a Inglaterra e os Estados Unidos, parecem nãoperceber esse perigo, ou não ter a coragem de tomar as contra-medidasnecessárias, empreendendo uma ação eficaz contra o perigo da proletarização dopovo alemão.
Padre Santo! Peço desculpas humildementese aflijo o coração de pai de Vossa Santidade com a exposição de nossa difícilsituação. Por outro lado, posso assegurar que nosso povo fiel até agorapersevera firme na fé, que grande parte dos combatentes que voltam para casalogo voltam à tradição católica paterna, que os sacerdotes-soldados e osseminaristas dão, sem dúvida, a impressão de terem mantido sua santa vocação,passando por todos os perigos, de maneira honrosa e sem mancha. Deus sejalouvado por essas graças numerosas e reais, e pela consolação que trazem essasconstatações. Vão me servir de estímulo para uma confiança ilimitada em Deus epara o otimismo contente no trabalho e na solicitude pelo reino de Cristo.
Devo, além disso, pedir perdão se ousoescrever a Vossa Santidade de um modo que, pela forma, papel e escritura éinadequado e pouco condigno. Peço humildemente que considere como justificaçãodessa circunstância a minha indigência, pois devo me contentar com o queencontro. Seguindo o desejo filial do meu coração, ouso levar ao benévolocoração paterno no trono de Pedro meu profundo respeito e expor minhaspreocupações. Confiante na benevolência que Vossa Santidade demonstrou tantasvezes para com minha mísera pessoa, permito-me incluir ainda esta comunicação:meu irmão mais novo, Franz, criado particular de Vossa Santidade e que VossaSantidade conhece, preso pela Gestapo em agosto de 1944 e levado sem nenhumarazão manifesta, em abril foi libertado do campo de concentração deSachsenhausen, perto de Oranienburg, e em julho voltou a sua família, vivo,mesmo que debilitado e com a saúde seriamente comprometida.
Ao tomar a liberdade de incluir o texto deuma pregação feita por mim no início de julho de 1945 no santuário de Telgte,nas imediações de Münster, peço humildemente a bênção apostólica para mim, paraminha diocese, meus sacerdotes, os soldados que voltam do front, tantas famíliasdivididas e vivendo na indigência e a juventude ameaçada, e continuo a ser, comreverência filial,
Filho e servidor obedientíssimo de VossaSantidade.
+ C. A.
Bispo de Münster
Carta de 6 de janeiro de 1946 a Pio XII
Padre Santo!
Com reverência filial, ajoelho-meespiritualmente aos pés de Vossa Santidade, e em vão procuro as palavras quepossam exprimir o que sinto no mais profundo de meu coração. O rádio e depoisos jornais divulgaram que Vossa Santidade se dignou integrar o Sacro Colégiocardinalício com a nomeação de um grande número de novos membros. Chamando aosupremo Senado e Conselho do Chefe da Igreja homens de todas as partes domundo, povos e nações, Vossa Santidade demonstrou e manifestou de modoinsuperável ao mundo inteiro a supranacionalidade da santa Igreja Católica, suacoesão e sua unidade, que mostram o quanto é vergonhoso o ódio dos povos. Nemnosso pobre povo alemão, devastado pela guerra, humilhado pela derrota, e hojeesmagado por todos os lados pelo ódio e pela sede de vingança, foi esquecido,mas iluminado pela nomeação de três bispos alemães ao Colégio Cardinalício; epor isso, com coração profundamente comovido, os católicos alemães, ao lado deseus bispos e sacerdotes e também de muitos alemães não católicos agradecem aoVigário de Cristo na terra.
Se Vossa Santidade dispôs que também minhapobre pessoa esteja entre eles e deva entrar no Sacro Colégio dos cardeais,posso unicamente dizer que essa dignidade e nomeação inesperada e imerecida meconfundem e me pesam, de forma que, com Pedro, gostaria de dizer: “Exi a me,quia homo peccator sum, Domine”.

Somente o princípio que, na medida dopossível, pretendi honrar ao longo de toda a minha existência, de considerarqualquer desejo do Papa um mandamento dAquele que o pôs como Pastor universalleva-me a proferir humildemente meu “Adsum”, como já no dia de minhaconsagração sacerdotal, e a aceitar a dignidade e a honra que me sãoconferidas. Consola-me poder distinguir um reconhecimento da conduta corajosada maioria dos católicos da diocese de Münster que me foi confiada, os quais,nos anos da perseguição e da opressão, se mantiveram fiéis a Cristo, a Suasanta Igreja, ao Santo Padre, e por meio de sua força de espírito e de suaconduta tornaram possível que, também publicamente, eu pudesse defender osdireitos de Deus e da Igreja, e os direitos dados por Deus à pessoa humana. Asincessantes manifestações de amizade que chegaram de meus diocesanos quando doanúncio da notícia de minha nomeação, os inúmeros cumprimentos advindos de todaa diocese e de toda a Alemanha me dão o direito de interpretar nesse sentido eaceitar esse gesto de graça de Vossa Santidade.
E é por isso que, com abandono filial,exprimo a Vossa Santidade, em nome dos fiéis de minha diocese e também doscatólicos alemães, minha mais deferente gratidão por essa renovada, imerecidacomprovação de benevolência e amor paterno. Com isso renovo o voto solene deimutável fidelidade, de assídua obediência e de amor filial ao Chefe da Igreja,ao Vigário de Cristo na terra e à sublime pessoa de Vossa Santidade, pela qual,em nossas pobres orações, procuramos diariamente impetrar a graça, a proteção ea assistência de Deus.
Na feliz esperança de poder cedoajoelhar-me aos pés de Vossa Santidade, e com o humilde pedido da bênçãoapostólica para mim e para meus diocesanos, permaneço, na mais profundadeferência, filho e servidor mais obediente de Vossa Santidade.
+ C. A.

Clemens August von Galen
Carta de Von Galen de 4 de novembro de 1943 a Pio XII

Desabrigados entre as ruínas da cidade de Aachen, destruída pelos bombardeios em outubro de 1944

Os B-17, as famosas “fortalezas voadoras” americanas, durante um bombardeio sobre a Alemanha
Carta de 20 de agosto de 1945 a Pio XII

Refugiados alemães na estação ferroviária de Berlim, em 1945
Carta de 6 de janeiro de 1946 a Pio XII

A longa procissão para os funerais de Von Galen atravessa as ruas de Münster