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HISTÓRIA
Extraído do número 10 - 2004

A grande Alemanha, um sonho esotérico


Entrevista com Giorgio Galli a respeito das raízes ocultistas do nazismo, que estão entre as fontes da idéia de que o “espaço vital” do Terceiro Reich deveria chegar até os Urais. Um aspecto pouco estudado pelos historiadores, do qual se voltou a falar depois da queda do muro de Berlim


de Paolo Mattei


No alto, um cartaz das SS (Schutz-Staffeln, “Esquadrões de Proteção”), com a estilização rúnica da sigla. Os símbolos rúnicos foram estudados por Guido von List, um esoterista que foi referência 
para Adolf Hitler (embaixo) nos anos de sua formação intelectual

No alto, um cartaz das SS (Schutz-Staffeln, “Esquadrões de Proteção”), com a estilização rúnica da sigla. Os símbolos rúnicos foram estudados por Guido von List, um esoterista que foi referência para Adolf Hitler (embaixo) nos anos de sua formação intelectual

O professor Giorgio Galli não se consideraapto a avaliar o esoterismo “por dentro”. Mas é um reconhecido estudioso dotema. A posição que assume, em suas palavras, “é a de um historiador epolitólogo que considera que a cultura esotérica se entrelaça com ahistoriografia e as ciências políticas mais do que essas disciplinasconsideraram até hoje”.
Foi também com esse posicionamento queestudou a história do Terceiro Reich, publicando o resultado de seu trabalhonum livro de 1989 que se tornou famoso: Hitler e il nazismo magico. Lecomponenti esoteriche del Reich millenario (Milão, Rizzoli). Galli enxerga coincidênciassignificativas no ano de 1989: é o centenário do nascimento de Hitler, mastambém o bicentenário da Revolução Francesa. Como explica no prefácio à segundaedição do livro, “esse ano de 1989 entraria para a história graças à revoluçãono Leste: exatamente um século depois do nascimento do Führer, caía o muro deBerlim, premissa de uma Alemanha novamente unida, potência hegemônica naEuropa”.
Depois de quinze anos e de tantos fatos,depois da tragédia de 11 de setembro de 2001, estopim para guerras quecontinuam até hoje, a história de violência e morte da qual Hitler e o nazismoforam protagonistas continua a suscitar perguntas inquietantes, e a impor-secomo parâmetro para medir a violência e a morte que todos os dias se espalhampelos lugares do mundo martirizados pelos conflitos. O possível subs­tratoocultista, mágico e esotérico do nazismo desperta o interesse de muita gente. Atelevisão tratou do tema várias vezes, e neste último ano ao menos dois livrostiveram razoável difusão na Itália de Giorgio Galli (Marco Dolcetta, Nazionalsocialismoesoterico, Roma, CooperCastelvecchi, 2003; Mel Gordon, Il mago di Hitler. Eric Jan Hanussen: unebreo alla corte del Führer,Milão, Mondadori, 2004).
Dirigimos algumas perguntas aohistoriador, autor, entre outros ensaios sobre esoterismo e política, de Lapolitica e i maghi(Milão, Rizzoli, 1995), Politica ed esoterismo alle soglie del 2000 (Milão, Rizzoli, 1992) e Appunti sullanew age (Milão, 2003),obra na qual analisa esse movimento cultural a partir também de documentospontifícios.

Em seu ensaio sobre o Nazismo mágico, o senhor identifica uma “ponteesotérica” entre a Inglaterra e a Alema­nha, entre teorias e sociedadesesotéricas e ocultistas presentes nas duas nações na passagem do século XIXpara o XX. Essa ponte chegaria até os fundadores do nazismo. Como seria isso?
GIORGIO GALLI: Entre o final do século XIXe o início do século XX, as tradições esotéricas ganharam novo vigor tanto naAlemanha quanto na Inglaterra. Efetivamente, uma “ponte esotérica” entre osdois Estados, a ponte da Ordem Rosa-cruz, remonta já ao século XVII, inseridano quadro de uma cultura ocultista que não foi estranha à Guerra dos TrintaAnos, que devastou a Alemanha. Nas últimas décadas do século XIX, as relaçõesentre os grupos esotéricos ingleses e alemães recobram sua força, eestabelecem-se laços estreitos entre pessoas influentes - baseados numaconcepção “mágica” da realidade -, laços que se transmitem por algumasgerações. Há também elementos inquietantes nessa reconstituição. Um delesconsiste na chamada “magia sexual”, ou seja, a conquista de poderes “especiais”derivados de práticas sexuais: em 1888, ano seguinte ao da fundação da HermeticOrder of the Golden Dawn, Londres foi agitada por uma série de crimes sexuais,cometidos por Jack, o estripador. O mistério a respeito dele dura até hoje.Alguns personagens e algumas relações marcam significativamente essa reimersãoda cultura esotérica na Europa, como o encontro, em Londres, entre o ocultistafrancês Eliphas Levi, pseudônimo bíblico de Alphonse-Louis Constant, umex-seminarista que depois se tornou revolucionário em Paris em 1848, e EdwardBulwer-Lytton, que teria um papel crucial no desenvolvimento da sociedadeRosa-cruz na hermética Golden Dawn. Depois de várias peripécias, entreatividades políticas e ocultistas, Levi escreveria um livro, A raça vindoura: nele, o autor fala do “Vril”, a forma deenergia que viria a dar o nome a uma sociedade que, ao lado da atividade dofundador do Instituto de Geopolítica de Berlim, Karl Haushofer, forneceria umacontribuição fundamental para a elaboração da ideologia nazista, no que dizrespeito à idéia de raça ariana e de “espaço vital”, o Lebensrau­m.
Qual é o precedente cultural e quaissão as teorias comuns a esses grupos?
GALLI: Em primeiro lugar, uma concepçãosegundo a qual a história que conhecemos é apenas uma parte da história dahumanidade. Só algumas elites de iniciados conhecem “toda” a história. Ahistória antiqüíssima de civilizações puras e incorruptas. Esse saber e essesconhecimentos, dos quais é possível haurir mediante práticas e ritosocultistas, transmitem um poder particular aos iniciados, que devem desempenhartambém um papel político para administrar o futuro de uma humanidade decaídacujos dotes e características perdidos com o tempo é preciso restituir. Oscomponentes dessa sociedade se consideram depositários de uma antiga sabedoriaprimordial, que se manifesta muitas vezes em ritos particulares. Um fatointeressante é que alguns adeptos de grupos esotéricos ocupam funções tambémnos serviços secretos de seus países. Um personagem chave, nesse sentido, é oalemão Theodor Reuss, da sociedade ocultista Ordo Templi Orientis, mestre doinglês Aleister Crowley. Crowley, também mestre do ocultismo e ao mesmo tempoagente do serviço secreto inglês, no final do século XIX adere à célebre GoldenDawn - uma derivação, como eu já disse, da Sociedade Rosa-cruz - e depois fundauma seção inglesa da Ordo Templi Orientis. A Golden Dawn, por sua vez, estáligada a associações alemãs conectadas à doutrina secreta da russa madame ElenaBlavatskij - fundadora da Sociedade Teosófica, em Nova York, em 1875 - e àantroposofia de Rudolph Steiner.
Mas a história de Hitler e do nazismose desenvolve depois desses episódios...
GALLI: Minha hipótese é de que essa“ponte”, que, como expliquei, unia a cultura esotérica, as ordens herméticas eos serviços secretos ingleses e alemães entre os séculos XIX e XX, tenhacontinuado a existir também no período imediatamente posterior, de modo tal quea formação intelectual de Hitler e de parte do grupo dirigente nazista se dánesse tipo de cultura ocultista. Reuni dados que me permitem dizer também queesse grupo, que chegou à cúpula do Terceiro Reich, discute em seu âmbito comopôr em prática uma estratégia derivada daquela cultura, ou seja, a reconquistada “sabedoria ariana”. Da mesma forma, tenho condições de afirmar que a decisãode Hitler de entrar em guerra, convicto de que a Inglaterra não interviria,possa ser compreendida na ótica daquela cultura esotérica, a respeito da qualambientes na cúpula da vida política inglesa estavam também informados. Toda ahistória do nazismo, a meu ver, deve ser lida levando em conta esse fatortambém.
No alto, Hitler reconstitui o Partido Nacional-Socialista (cassado depois do putsch de 1923), em Munique, no ano de 1925; o primeiro, a partir da esquerda, é Alfred Rosenberg; o primeiro, a partir da direita, é Heinrich Himmler, chefe das SS desde 1929, idealizador e organizador dos campos de extermínio; embaixo, o ocultista Aleister Crowley, agente do serviço secreto inglês e membro da Golden Dawn

No alto, Hitler reconstitui o Partido Nacional-Socialista (cassado depois do putsch de 1923), em Munique, no ano de 1925; o primeiro, a partir da esquerda, é Alfred Rosenberg; o primeiro, a partir da direita, é Heinrich Himmler, chefe das SS desde 1929, idealizador e organizador dos campos de extermínio; embaixo, o ocultista Aleister Crowley, agente do serviço secreto inglês e membro da Golden Dawn

De que forma Hitler entrou em contatocom as experiências esotéricas? Quem foram seus mentores?
GALLI: O ponto de referência i­nicial podeser a revista Ostara,da qual Hitler foi leitor assíduo, nos anos que passou em Viena. A publicação -que leva o nome de uma antiga deusa germânica da primavera, denotando,portanto, a ligação com a tradição nórdica e com as velhas divindades pagãsanteriores à difusão do cristianismo na Alemanha - foi fundada em 1905 por umex-frade, Jörg Lanz von Liebenfels, que, entre outras coisas, instituiu umasede em Werfenstein, o “Castelo da Ordem”, onde provavelmente, com o apoiofinanceiro de industriais, começou a patrocinar uma organização baseado nateoria da superioridade da raça ariana. Outro ponto de referência para aformação esotérica do futuro Führer é Rudolf von Sebottendorff, estudioso dacabala, de textos alquímicos e rosa-crucianos e das práticas ocultistas dosdervixes, e promotor, em Munique, no ano de 1918, da Thule Gesellschaft,associação derivada da Germanorden, uma sociedade que nasceu nos primeiros anosda década de 1910, fortemente caracterizada por elementos de anti-semitismo eracismo. Ao redor da Thule gravitaram Hitler, Rudolf Hess, Karl Haushofer e HansFrank, o futuro governador-geral da Polônia. Era uma associação na qualdominavam a cultura ocultista e as doutrinas secretas amadurecidas nas décadasanteriores. A Thule - a mítica Atlântida, pátria dos hiperbóreos - foi,portanto, a matriz do grupo de intelectuais que está na origem do nazismo. VonSebottendorff, além disso, publicou um livro em 1933, Antes que Hitlerchegasse, no qual,desejando reacender o debate em torno das origens esotéricas do nazismo, contater sido o mestre ocultista do Führer. Mas aquele grupo de intelectuais, entãojá no poder, decidira havia tempo que era conveniente manter ocultos oselementos esotéricos e ocultistas a que fazia referência, para pôr em primeiroplano a organização política. Hitler, no ano da publicação do livro de VonSebottendorff, já era chanceler do Reich. O ensaio, por isso, foi retirado daslivrarias.
Quais são as característicasfundamentais do grupo esotérico a que Hitler faz referência?
GALLI: É preciso dizer como premissa queuma das dificuldades quando se trabalha neste campo é o fato de que ahistoriografia oficial, a historiografia acadêmica, ocupa-se pouco dessascoisas. O trabalho sobre o setor da cultura esotérica é deixado às vezes aestudiosos minoritários ou até a personagens muito extravagantes, que dequalquer forma elaboram freqüentemente pesquisas marginais. O fato de ahistoriografia oficial não se empenhar nessa direção torna mais difícil oencontro de documentos seguros. Estou convencido de que, se houvesse maisinteresse, alguma coisa se encontraria. Mas respondo a sua pergunta. Mencioneicivilizações e patrimônios sapienciais antiquíssimos - a Atlântida é areferência mais importante -, um componente cultural baseado na históriafantástica, na geografia fantástica, na cosmogonia fantástica e nas leisocultas que as guiaram. Hitler considera que as razões fundamentais de sua açãopolítica se encontram nesse passado distante, numa sabedoria mágica que deveser recuperada e na qual está o instrumento para forjar o futuro luminoso. Ogrupo de intelectuais da Thule, que na década de 1920 decide transformar aseita ocultista em partido político de massas, crê convictamente nessas coisas.Existem, portanto, duas dinâmicas: a profunda convicção dos iniciados quetrabalham nesses grupos e, ao mesmo tempo, uma certa influência que eles, pormotivações amplamente aprofundadas pelos estudiosos, exercem em alguns momentoshistóricos sobre os movimentos políticos. Hitler, Himmler, Hess, Rosenberg,Frank: eles se consideram os herdeiros de uma sabedoria antiga que lhespermitirá serem construtores de uma nova civilização. Deve-se dizer que até umhistoriador muito admirado e “tradicional” identificou e valorizou algunsdesses filões esotéricos: foi George Mosse, que, nas Origens culturais doTerceiro Reich, apontaexplicitamente para o esoterista Guido von List e sua simbologia rúnica como umdos pontos de referência de Hitler. Das runas estudadas por Von List provém asigla das SS, as milícias que Himmler utilizará para pôr em prática seusprojetos elaborados no âmbito da cultura ocultista.
No alto, Adolf Hitler com Rudolf Hess numa foto de 1939; embaixo, militares ingleses removem os restos do aeroplano com o qual, em maio de 1941, Hess voou à Grã-Bretanha para tentar um acordo pouco antes da invasão alemã à Rússia

No alto, Adolf Hitler com Rudolf Hess numa foto de 1939; embaixo, militares ingleses removem os restos do aeroplano com o qual, em maio de 1941, Hess voou à Grã-Bretanha para tentar um acordo pouco antes da invasão alemã à Rússia

Hitler é descrito muitas vezes como umhomem ignorante, um homem sem qualidades. Como consegue se impor no grupoesotérico do qual faz parte?
GALLI: A tendência muito difundida adesigná-lo como um ignorante caracteriza também o trabalho de Joachim Fest, obiógrafo do Führer, que foi consultor deste último filme sobre Hitler que saiuna Alemanha, Der Untergang (A queda). Fest compôs uma excelente biografia de Hitler, mas tende arepresentá-lo como um líder de batalhão e homem de poucas leituras, limitadas aopúsculos de propaganda anti-semita. Isso não é exato. Hitler leu Nietzsche eSchopenauer. Ele se destaca no grupo de Rosenberg, Hess, Himmler e Frank porquepossui duas características que podem até prescindir da cultura esotérica. É umorador extremamente eficaz e um hábil organizador. Talvez tenha aprendido com omago Hanussen a primeira característica, a forma quase hipnótica de secomunicar com os ouvintes. Sabemos, com segurança, que Hitler tomava aulas dedicção com Hanussen. Mas aprendeu alguma coisa a mais daquele mago. Hanussenera um personagem dotado de capacidades hipnóticas, e o livro de Mel Gordonreconstrói bastante bem essa história. Em Mein Kampf, Hitler propõe, além de uma ideologiaesotérica, também programas precisos de organização, que dão a idéia de queforam elaborados por um bom político. Himmler, o burocrata do extermínio, temcaracterísticas organizativas semelhantes, mas não é de modo algum um bomcomunicador. Tal como Hess também não é. Rosenberg é apenas um escritor muitoeficaz... Desse grupo ligado à cultura esotérica, ninguém tinha, enfim, os doisdotes específicos que Hitler possuía.
No Mein Kampf são indicados os objetivos prefixadospor Hitler: a criação de uma Eurásia de fronteiras orientais indefinidas, um“condomínio” mundial com a Inglaterra...
GALLI: Sim, é uma estratégia esotérica, naqual se entrelaçam ocultismo e geopolítica. Haushofer é quem elabora as teoriasrelativas ao “espaço vital”. Baseado em considerações místicas e espirituaisque identificam a nação alemã como o centro do mundo, mas também fazendoreferência a outros teóricos de geopolítica - como o inglês Halford JohnMackinder, que havia identificado a Europa Oriental e a Rússia européia como o“coração da terra” -, Haushofer está convencido de que para reconstituir acivilização ariana seja preciso construir uma grande área que vá da EuropaOcidental aos Urais. O espaço vital - o Lebensraum - da nova sociedade ariana. A Alemanha éo fundamento dessa organização geopolítica que prenuncia a criação de uma novacivilização e de um homem novo que recupere as antigas virtudes perdidas. Osjudeus, que têm um sonho hegemônico mundial contraposto a este, sãomarginalizados e, depois, eliminados. Portanto, o Drang nach Osten nasce desse projeto de naturezaesotérica.
Mas há homens na cúpula do TerceiroReich que não compartilham da mesma cultura de Hitler e de seus companheiros...
GALLI: É verdade, mas eles também sãoinfluenciados pelo ocultismo: o pragmático Göring interessa-se pela teoria da“terra oca”, Goebbels fica intrigado com Nostradamus... De qualquer forma,Goebbels e Göring compartilham o programa de Hitler justamente porque, de ummodo ou de outro, são sugestionados por suas convicções esotéricas.
Chegamos à viagem de Hess à Escócia, emmaio de 1941. Essa travessia acontece também sob signo esotérico...
GALLI: O projeto de condomínio com aInglaterra, com base no Lebensraum como premissa para a construção de uma novahumanidade, nunca foi deixado de lado, nem mesmo depois do início da guerra,quando ficou evidente que a previsão de neutralidade da Grã-Bretanha não sehavia realizado. A “ponte” ainda estava de pé. O episódio da prisão dos tanquesalemães em Dunquerque, em 1940, que permitiu a fuga dos anglo-franceses, podeser interpretado também com essa chave de leitura: seria uma tentativa dechegar a um acordo com os interlocutores esotéricos presentes na Ilha. Em 10 demaio de 1941, Hess voa para a Escócia para tentar convencer essesinterlocutores a não intervirem no momento da invasão da URSS. Provavelmente,quer encontrar os herdeiros de sociedades do tipo da Golden Dawn, com os quaisse pode discutir, e que têm relações com a Família Real. Seja como for, é oduque de Hamilton que Hess busca, sem dúvida. Ele é uma pessoa de confiança dorei da Inglaterra. É filonazista e há muito tempo tem relações com Hess e acúpula do Reich. A decisão dessa viagem nasce provavelmente depois de um debatena cúpula esotérica nazista; portanto, é plausível que Hitler estivesse a par dela.A operação recebe a cobertura de um maciço esquema de desinformação. Mas Hess eos nacional-socialistas se iludem: aquela “ponte” ainda existe, mas já estáfraca demais para permitir que passe por ela uma espécie de acordo entre aAlemanha e a Inglaterra a respeito do Drang nach Osten. Em maio de 1941, os aristocratasingleses também já estão “resig­nados” a declarar guerra contra a Alemanha.
Hans Frank, governador-geral da Polônia nos anos do Terceiro Reich, fez parte do grupo que gravitava em torno da associação esotérica Thule Gesellschaft, matriz do grupo de intelectuais que deu vida ao nazismo

Hans Frank, governador-geral da Polônia nos anos do Terceiro Reich, fez parte do grupo que gravitava em torno da associação esotérica Thule Gesellschaft, matriz do grupo de intelectuais que deu vida ao nazismo

Em seu livro, o senhor explica comoHitler procura chegar a um acordo com a Inglaterra até o último minuto.
GALLI: Sim. Depois da derrota na Rússia,Hitler, em vez de tentar combater a contra-ofensiva russa, desloca as divisõesblindadas do front oriental para o ocidental. A tática é sempre a mesma:“Obrigar a Inglaterra à paz pela força”, como ele mesmo parece ter dito. Hitleracredita até o fim que aquela “ponte” esotérica possa ser reconstruída.
Como é possível que a partir deexperiências esotéricas se consiga chegar a um poder tão grande como o quedetiveram Hitler e seus sócios na Alemanha?
GALLI: Eu sempre procurei evitarprivilegiar exclusivamente a chave de leitura do esoterismo para explicardeterminados fatos. Como eu já disse, certamente esse é um aspecto importante enegligenciado. Mas Hitler chega ao consenso por razões que a historiografia jáestudou abundantemente e que eu não ponho em discussão: a humilhação alemãdepois da Primeira Guerra Mundial, as frustrações que derivaram da derrota e doTratado de Versalhes, a crise econômica de 1929, que produz 6 milhões dedesempregados, a política de Weimar, que não consegue exprimir uma respostaeficaz a esses problemas. Essas são as principais razões que permitem a Hitlertomar o poder. Hitler consegue enfrentar o desemprego mesmo antes dorearmamento, por meio de grandes obras públicas, aceitando os conselhos dofinancista e político Hjalmar Schacht, que é um keynesiano. Por outro lado,Hitler, no Mein Kampf,apresenta um projeto político que têm aspectos normais, como, justamente, aluta contra o desemprego.
August von Galen, bispo de Münsterdurante o período nazista, definido pelo New York Times como “o opositor mais obstinado doprograma nacional-socialista anticristão”, falou do nazismo como um “enganoreligioso”...
GALLI: De certa forma, é mesmo. Pio XItambém demonstrou sua forte preocupação por meio da publicação da MitBrennender Sorge. Elefalava do neopaganismo. Na realidade, pode-se falar de algo mais que oneopaganismo. Todas as cerimônias nacional-socialistas seguem um modeloreligioso: as luzes, o Führer que aparece como uma revelação mágica. Todas têmum caráter de liturgia mágica.
Parece que Churchill, o grande opositordos programas esotéricos do Führer, também não desdenhava da companhia dosocultistas...
GALLI: Em meu livro La politica e imaghi, eu explico comoaté mesmo Churchill acreditava em videntes. Churchill era um conservadorabsoluto e um anticomunista absoluto. Não nos esqueçamos de que colaborou com oPopolo d’Italia deMussolini. Em sua visão de mundo, só os povos de língua inglesa estão à alturada democracia. Para os outros povos, serve qualquer forma de regime. Para ele,a história do Ocidente coincide com a história dos povos anglófonos. Hitler,portanto, poderia até tê-lo agradado, como agradava a certos setoresconservadores da sociedade inglesa. Mas, a meu ver, Churchill tinha relaçõescom sociedades esotéricas que lhe haviam fornecido certo número de informaçõesrelativas à “contra-iniciação do Führer”.
Karl Haushofer, fundador do Instituto de Geopolítica de Berlim e principal idealizador da teoria nazista do Lebensraum, o “espaço vital”

Karl Haushofer, fundador do Instituto de Geopolítica de Berlim e principal idealizador da teoria nazista do Lebensraum, o “espaço vital”

Como assim?
GALLI: Na cultura esotérica, existe umadiferença fundamental entre “iniciação” e “contra-iniciação”. A iniciação - amaçônica, para dar um exemplo claro - seria positiva. A contra-iniciação, porsua vez, teria algo de diabólico: Churchill ficou sabendo que Hitler era um“contra-iniciado”. Churchill, portanto, estando a par do precedente“esotérico-diabólico” da contra-ini­ciação de Hitler, temia que, por trás dosobjetivos negociáveis - mão livre na Europa e no Leste da Alemanha e garantiade continuidade do Império inglês -, que provavelmente ele poderia aceitar,houvesse objetivos não negociáveis: o império do mal. Hitler não queria apenasum império de tipo geopolítico. Queria um império sobre as consciências,baseado numa série de valores que até o conservador anticomunista Churchill viacomo negativos e inegociáveis. O fato é que a profecia de Hitler sobre o fim doimpério britânico substancialmente se realizou. Hitler profetizou que Churchilldestruiria o império inglês e entregaria o cetro imperial aos Estados Unidos.
Uma última pergunta, professor. RenéGirard disse recentemente numa entrevista que “o desprezo nazista pela ternuracristã para com as vítimas não tem origem na história”. O professor francêsafirmou também temer que “no futuro alguém tente reformular o princípio demaneira mais politicamente correta, talvez revestindo-o de cristianismo”. O queo senhor diz disso?
GALLI: Girard é um grande estudioso,documentado e de intuições muito ricas. Creio que seja possível pensar numnazismo “revestido de cristianismo”, mesmo porque o nazismo, com suascaracterísticas específicas, é irrepetível. Eu não acredito que a democraciarepresentativa possa ser posta em crise por movimentos autoritários como os dasdécadas de 1920 e 1930. Existe, porém, o risco de que nas democraciasocidentais se mantenha a forma da democracia, sem a substância. Os partidos jánão serão postos fora da lei, as liberdades civis serão garantidas em certamedida, mas, ao mesmo tempo, pode haver o risco de que só restem as fórmulas dademocracia e se elimine a substância. Poderia haver uma não-democraciadisfarçada de democracia. Da mesma forma, a intuição de Girard é plausível: talcomo é possível que uma antidemocracia se apresente com fórmulas aparentementedemocráticas, do mesmo modo é possível que um anticristianismo que despreza asvítimas como fez o nazismo possa, na realidade, agir revestido de formascristãs. Eu não gostaria de entrar demais num campo que não conheço, mas seique existem, e são cada vez mais difundidas, publicações que exprimemtendências que eu creio possam ser definidas como “integralismo apocalíptico”.Essas tendências poderiam de alguma forma prefigurar um risco como esse de quefala Girard. Algumas das características isoladas que concorreram para adifusão do nazismo poderiam reaparecer nesse contexto.


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