ISLÃ
Extraído do número 09 - 2004
É o momento de distinguir
“Não se pode perder a distinção entre o povo dos crentes e os que instrumentalizam a linguagem religiosa”. Encontro com o reitor da Universidade Islâmica Al-Azhar
de Gianni Valente

Alguns estudantes em aula na Universidade Al-Azhar
O que fazem os líderes muçulmanos para excomungaros terroristas que dizem agir em nome do islã?
AHMAD AL-TAYYIB: O islã é a religião da paz. É aúnica religião que indica os princípios morais no modo de tratar os inimigos.Mesmo durante a guerra, proíbe aos vencedores a morte de crianças, mulheres,velhos e de todos os que não participaram concretamente aos combates. Proíbe ogolpe de graça ao inimigo ferido. É proibido até mesmo extirpar as árvores esaquear as plantações do inimigo. Se uma religião proíbe de derrubar árvores,imagine se pode permitir o ato de terrorizar e matar pessoas inocentes. Paranós são coisas tão obvias que nos sentimos embaraçados quando nos perguntamporque o islã justifica o terror. Mas ao mesmo tempo, e peço desculpas pelafranqueza, parece-me que existe confusão entre coisas diferentes. Uma coisa é oterrorismo que mata inocentes, e outra coisa é etiquetar como terrorismo umaação que é apenas uma reação de autodefesa para se proteger de alguma coisa,como no caso da resistência para com as forças de ocupação. Gostaria de deixarbem clara essa distinção. Os franceses, que fizeram ações semelhantes quandohavia a ocupação nazista são considerados heróis, não terroristas.

No alto, os delegados do congresso “Religiões e culturas. A coragem de um novo humanismo”, seguindo para a Piazza del Duomo, para a cerimônia conclusiva, Milão, 7 de setembro de 2004. Abaixo, a cerimônia de enceramento do congresso
AHMAD AL-TAYYIB: Os palestinos não um povo que nãotêm nada. Gente pobre que é morta todos os dias. Desde o início da intifada
O fato é que depois de 11 de setembro e dosatentados de Madri, no ocidente o terrorismo é sinônimo de fundamentalismoislâmico...
AHMAD AL-TAYYIB: A pergunta sobre o que pensamos doterrorismo é uma pergunta inútil. Nós fomos os primeiros a pagar pelofundamentalismo, e um preço bem alto. No Egito mataram o presidente Sadat.Depois Mubarak foi o primeiro a dar o alarme, em uma época em que os paísesocidentais davam direito de asilo aos fundamentalistas, pois assim podiamensangüentar o Oriente Médio com suas ações preparadas no Ocidente. Eu moro emLuxor. A mesquita de Luxor está bem próxima da minha casa. Ainda hoje, muitosentre os habitantes da zona estão sendo seguidos por psiquiatras devido aochoque que levaram no dia do atentado.
Como o senhor explica os que instigam açõesterroristas citando versos do Alcorão?
AHMAD AL-TAYYIB: Os cruzados também foram matar osmuçulmanos em nome de Deus. Papa Urbano II falava em nome do Evangelho, quandochamava para combater contra os descrentes. E o mesmo se pode dizer em relaçãoà Irlanda, onde se instrumentaliza a religião para justificar os atentados. Masnem por isso dizemos que o cristianismo é a religião do terrorismo. Quero dizerque é muito fácil desfrutar a religião para outros objetivos. Mas não se deveperder a distinção entre o povo dos crentes e os que, ao invés, usam em seufavor a linguagem religiosa. Esperamos que essa consciência não deixe deexistir também entre os nossos irmãos no Ocidente.