Que exista caridade entre as Igrejas irmãs
A Igreja Ortodoxa russa, do Concílio de 1917 até hoje, e suas relações com a Igreja Católica
de Andrea Pacini

João Paulo II e o cardeal Lubomyr Husar em Kiev, em junho de 2001
Esse período de “nova primavera” para a IgrejaOrtodoxa teve, porém, brevíssima duração: foi reprimido em 1918 pelas novas leisestabelecidas por Lenin, que privavam de personalidade jurídica todas asigrejas presentes na Rússia, impedindo, portanto, que elas operassem nasociedade, mesmo no plano da catequese. Começa a política marxista dehostilidade agressiva para com a religião, que provocará várias décadas deperseguição às Igrejas e aos crentes. Em 1925, morre o patriarca Tichon, e nãoserá permitido eleger um sucessor para a função patriarcal. Para guiar aIgreja, entra então o metropolita Sérgio, que assume o cargo de locum tenenspatriarcal (depois da deportação e execução do primeiro locum tenens eleito, ometropolita Pedro Poliansky). Apesar do metropolita Sérgio ter reconhecido alegitimidade do governo soviético, para salvaguardar a própria sobrevivência daIgreja (em 1930, chegou a negar publicamente a existência de perseguições), aépoca soviética marca o início de uma fase trágica. No período entre 1918 e1943, a perseguição às Igrejas foi ininterrupta. A Igreja Ortodoxa foi atingidade modo quase aniquilador. Em 1922, começaram o confisco dos lugares de culto eos processos sumários contra os membros do clero e os fiéis de todas asIgrejas. Bispos, padres, monges e leigos foram suprimidos de maneira sumária oudeportados para os gulag. Seguiram-se perseguições e destruição de mosteiros eigrejas: em 1939, a Igreja Ortodoxa russa tinha praticamente perdido toda a suaestrutura hierárquica. Segundo os cálculos de Dimitri Pospelovsky, cerca de 600bispos e 40 mil padres ortodoxos foram eliminados fisicamente entre 1918 e1938, ou seja, entre 80% e 85% do clero existente no momento da Revolução3.Análoga perseguição se deu também à Igreja Católica: em 1926, não restavanenhum bispo católico na Rússia, e, em 1941, só duas das mais de 1.200 igrejasexistentes em 1917 (localizadas sobretudo na Lituânia) estavam abertas aoculto.

Nas fotos sobrepostas, o encontro entre o patriarca Aléxis II e o cardeal Walter Kasper, em 22 de fevereiro de 2004, em Moscou; abaixo, o presidente russo Putin condecora o patriarca Aléxis II com a medalha dos Servidores da Pátria, por ocasião de seu 75º aniversário
Ao mesmo tempo, diante do que era considerada acondescendência do metropolita Sérgio, surge na Igreja uma forte oposição a suaautoridade, e nasce a Igreja das catacumbas, subdividida em diversas capelas.Na diáspora, forma-se depois a Igreja russa da emigração (ou fora dasfronteiras), a partir do clero e de fiéis russos que haviam tomado o caminho doexílio. Esse Igreja se considerou - e se considera - a única herdeira canônicado patriarcado de Moscou, na medida em que a hierarquia presente na Rússia,reconhecendo o poder bolchevique, havia perdido o próprio estatuto decanonicidade (caindo em heresia). As mesmas dificuldades nas relações com umahierarquia que parecia excessivamente submissa e comprometida surgiram em meioà diáspora russa na Europa Ocidental, e motivaram a formação de uma novajurisdição eclesiástica: o exarcado russo dependente de Constantinopla, queexiste ainda hoje.
A situação na Rússia conhece uma mudança importanteentre 1941 - data da invasão alemã - e 1943. A invasão de territórios russospelos alemães provoca dois eventos que produzem uma mudança nas relações entreo Estado soviético e a Igreja Ortodoxa. Diante da invasão alemã, o metropolitaSérgio faz um apelo patriótico ao povo em defesa da nação: Stalin compreendeque a Igreja pode ser útil para promover e fortalecer a resistência contra oinvasor. Ao mesmo tempo, nas regiões conquistadas pelos alemães, as Igrejasobtêm novamente liberdade de culto e de organização: Stalin teme que esseexemplo possa incentivar a Igreja Ortodoxa e os fiéis russos a não colaboraremcom a resistência. Essas duas razões convencem Stalin a abrir uma nova fase derelações com a Igreja Ortodoxa russa. Em 1943, Stalin reconhece novamente apersonalidade jurídica à Igreja Ortodoxa, restituindo-lhe uma parte dos lugaresde culto, autorizando a eleição para patriarca do metropolita Sérgio,permitindo uma reorganização da Igreja, ainda que parcial e sob estritocontrole estatal. As regiões que caíram nas mãos dos alemães serão precisamenteaquelas a gozar, mesmo depois, de uma maior facilidade para o exercício doculto, enquanto, em outras partes, a situação continuará difícil.
Depois de ter repelido a invasão alemã em 1945,Stalin concentra dentro do patriarcado de Moscou todas as estruturaseclesiásticas orientais existentes nos territórios de nova expansão soviética,incluindo as estruturas eclesiais greco-católicas. A Igreja Greco-Católica naUcrânia é suprimida por toda parte, e seus bens são confiscados pelo Estado oudevolvidos à Igreja Ortodoxa. Uma parte do clero, sob fortes pressões, aceitaintegrar-se à Igreja Ortodoxa (1947 a 1949), ao passo que uma grande porção doclero e dos fiéis se refugia na clandestinidade. Poderíamos dizer, portanto,que a política eclesiástica stalinista é caracterizada por duas atitudes diversas:de um lado, uma mudança nas relações com a Igreja Ortodoxa russa, cujasituação, por mais que ainda fosse precária, conheceu uma melhora.
De outro, uma clara oposição à Igreja Greco-Católica,que leva a sua eliminação no plano formal e a sua supressão no plano material epastoral, segundo uma política que os czares já haviam posto em prática outentado realizar nos séculos anteriores, quando os territórios habitados pelosgrecos-católicos passaram a fazer parte do Império. A situação da Igreja Católicaconhece também uma piora objetiva.
Se a política de Stalin marca, portanto, uma certamelhora para a Igreja Ortodoxa, é destrutiva para a Greco-Católica.

O patriarca Tichon
Só em 1987 e em 1988, com Gorbachov, em concomitânciacom os mil anos do Batismo da Rus’, começa o degelo, que assume ritmosimpensáveis graças ao colapso geral dos governos comunistas na Europa. Em 1990,é promulgada a nova lei sobre a liberdade religiosa, que reconhecia de modomuito amplo a todas as confissões o direito às liberdades de culto e deorganização. Nos anos seguintes, a lei sofreu diversas emendas restritivas, quepretendiam sobretudo limitar a ação missionária de confissões religiosas“estrangeiras” e de seus membros7. Essas mudanças estão ligadas aostemores que o crescente pluralismo religioso induziu em alguns setores dasociedade russa, em particular dentro da Igreja Ortodoxa. O resultado maisrecente desse processo foi a promulgação da nova lei sobre a liberdadereligiosa, em 1997, que foi objeto de muitas discussões em nível nacional einternacional, pela disparidade do tratamento instituído entre as diversasconfissões religiosas e pelos limites que, segundo os críticos, seriam impostosao livre exercício da liberdade religiosa para os membros das comunidadesreligiosas presentes na Rússia havia menos de quinze anos.
É indubitável, portanto, que, com a década de 1990,começa um novo período para a Igreja Ortodoxa russa, caracterizado por doisaspectos fundamentais: de um lado, o aspecto da liberdade reencontrada, dodesenvolvimento da própria organização e da renovada aquisição de um papelsócio-cultural reconhecido; de outro, a exigência que se impõe de enfrentar osdesafios complexos de uma situação social definida pela alta descristianização,pela modernidade cultural, tecnológica e política, e, enfim, pelo pluralismo noâmbito religioso.

O metropolita Sérgio. “Diante da invasão alemã o metropolita Sérgio fez um apelo patriótico ao povo em defesa da nação”.
Para compreender os traços essenciais desse novopanorama que incidem sobre as relações entre as Igrejas, é preciso em primeirolugar considerar que o fim da época comunista e a reencontrada liberdadetransformaram a maneira de viver as relações recíprocas por parte das Igrejas.Se é verdade que a partir da década de 1960 se desenvolveu um intenso processode relações ecumênicas entre a Igreja Ortodoxa russa e a Igreja Católica, étambém verdade que se tratava de um ecumenismo que só envolvia a elite, ouseja, especialistas (sobretudo altos membros do clero) que se dedicavam a isso.Mas o ecumenismo não se tornou de modo algum patrimônio geral da cultura doclero, e muito menos do povo russo. Por outro lado, se os prelados russosentravam em contato essencialmente com o Vaticano, os encarregados católicospelo ecumenismo tinham contato essencialmente com aqueles especialistas ortodoxosque tinham o mesmo encargo, ou seja, com o ambiente do patriarcado. Por maisque as relações fossem positivas - devendo todas as Igrejas fazer frente a umasituação de perseguição -, envolviam um âmbito muito restrito de pessoas.
Depois de 1990, a novidade verdadeira é que a Igrejarussa se abriu a uma multiplicidade de relações com a Igreja Católica, tanto emterritório russo quanto no exterior, relacionando-se não apenas com o Vaticano,mas também com a Igreja Católica expressa por seus vários membros e organismos(dioceses, ordens religiosas, atividades pastorais...). Foi um encontro com umaIgreja viva, já não por parte de um grupo de especialistas, mas do conjunto doclero e da população ortodoxa russa. O mesmo se pode dizer quanto à IgrejaCatólica: ela não tem mais apenas relações com o Departamento para as RelaçõesExteriores da Igreja Ortodoxa russa, encarregado das relações ecumênicas, mascom uma Igreja que tem uma hierarquia variegada e uma população perpassada pordinâmicas culturais e religiosas complexas.
Nasce, então, um encontro de característicastotalmente novas, e por isso talvez não nos devamos admirar pelo fato de teremsurgido problemas. Trata-se, realmente, de enfrentar uma época nova, para aqual não se estava suficientemente preparado.
O encontro se torna ainda mais complexo em razão dasituação social e cultural que prevaleceu na Rússia na época da transiçãopós-comunista: a sociedade é fortemente secularizada e, com freqüência, tempouquíssimas referências de valores, o que faz não ser incomum que dentro delaapareçam buscas religiosas muito individuais, que não necessariamente sereferem à ortodoxia. Por outro lado, o novo clima de liberdade permitiu aexpressão de um amplo espectro de formas de pluralismo cultural e religioso. A percepçãode uma sociedade secularizada impeliu diversas comunidades cristãs de matrizprotestante a lançarem-se na evangelização da Rússia, encontrando respostasexatamente na ausência de enraizamento religioso prévio em grande parte dapopulação. O aumento da presença de organizações católicas na Rússia faz comque o patriarcado de Moscou tema que a Igreja Católica procure também atingirobjetivos missionários análogos.
Portanto, a Igreja Ortodoxa viu-se de repente a gozarde uma liberdade plena, certamente, mas tendo também de enfrentar os complexosdesafios da modernidade e da pós-modernidade, que incluem o pluralismo culturale religioso e uma maior individualização na opção religiosa8.

Iosif Petrovych, metropolita de Leningrado, principal porta-voz da oposição ao metropolita Sérgio, levada adiante pela “Igreja das Catacumbas”
Os pontos mais evidentes que marcaram de modoconflitual estes últimos anos são conhecidos: a viagem do Papa à Ucrânia sem oacordo da Igreja Ortodoxa ucraniana com o patriarcado de Moscou, em junho de2001, e, sobretudo, a transformação dos dois vicariatos apostólicos presentesna Rússia em diocese, em 2002, além da criação das dioceses católicas noCazaquistão em 2003.
Essa série de eventos, de um lado, confirmam adecisão do Vaticano de estabelecer uma jurisdição diocesana ordinária no espaçopós-soviético para suprir o atendimento pastoral dos fiéis católicos. De outrolado, são interpretadas pelo patriarcado de Moscou como iniciativasexpansionistas em seu território canônico. De modo particular, tem-sesublinhado repetidamente como essas iniciativas foram tomadas sem préviaconsulta ao patriarcado, expressando, portanto, um comportamento que contradizo reconhecimento mútuo como “Igrejas irmãs”, tantas vezes oficialmente frisado.
Essa última observação é de particular interesse, poisexprime a visão ecumênica da Igreja Ortodoxa russa: realmente, a denominação de“Igrejas irmãs” é usada também entre as Igrejas da comunhão ortodoxa, entre asquais não raro explodem conflitos por questões de jurisdição (recentemente, naEstônia, na República Moldova, na Ucrânia). Acusar a Igreja Católica de não secomportar como “Igreja irmã” significa reconhecê-la como tal e, portanto,assumir uma perspectiva ecumênica de fundo.
O problema, porém, é que entre Igreja Católica eIgreja Ortodoxa russa não há comunhão plena, e por isso a denominação “Igrejairmã” não pode ter o mesmo significado quando aplicada às outras IgrejasOrtodoxas ou à Igreja Católica. Em particular, a falta de uma comunhão plenaimplica a existência de jurisdições eclesiais paralelas no mesmo território.Por isso, a Igreja Católica institui dioceses na Rússia para seus fiéis,exatamente como a Igreja Ortodoxa russa instituiu dioceses próprias no exterior- fora de suas fronteiras tradicionais - para os fiéis ortodoxos.
As autoridades do patriarcado de Moscou estãoconscientes disso, e quando invocam o princípio das “Igrejas irmãs” o fazem emreferência à postura com a qual as decisões teriam sido tomadas pelosresponsáveis católicos, ou seja, sem prévia informação e consulta aos ortodoxos.
É difícil fazer uma avaliação desses eventos, queescapam à análise. Creio que se possa dizer, de um lado, que o diálogocertamente é falho “no andamento da obra”, e, de outro, que as posições deambos os interlocutores têm corrido o risco de serem rígidas demais.
Todavia, se permanecermos no plano jurisdicional, nãoconseguiremos resolver a questão, pois, ficando nesse nível, todas as Igrejastêm o direito de erigir estruturas pastorais próprias quando seus fiéis estãopresentes, de modo mais ou menos consistente.

O patriarca Aleksij Simanskij preside o Santo Sínodo de outubro de 1945. Depois da guerra, Stalin adota uma política religiosa mais tolerante. É restaurada a estrutura eclesiástica, e o Concílio de 1945 elege patriarca Aleksij Simanskij
Levando em conta esse aspecto também, que está longede constituir uma pré-condição positiva para o diálogo, assumem uma determinadaimportância as modalidades com as quais as várias iniciativas pastorais sãorealizadas. Não foi por acaso que o cardeal Kasper, durante sua recentíssimavisita à Rússia (janeiro de 2004), frisou mais de uma vez a necessidade deextrair conseqüências da questão teológica de considerar a Igreja Ortodoxa uma“Igreja irmã”. O cardeal deve-se nesse ponto de grande importância e delicadezatanto por ocasião da conferência pública proferida em Moscou no salão daCatedral católica - dirigida a um público essencialmente católico - quanto noencontro privado ocorrido com o patriarca Aléxis II. O fato de que, naconferência pública, o cardeal Kasper tenha sublinhado que reconhecer a IgrejaOrtodoxa como “Igreja irmã” implica abster-se de ações de proselitismo é umclaro convite aos católicos a que tenham um estilo diferente na relação com opovo russo11. Esse estilo diferente poderia, no mínimo, semanifestar na abstenção de atividades decididamente orientadas para aevangelização nos ambientes de matriz ortodoxa - com relação aos quais épreciso reconhecer o papel de responsabilidade pastoral da Igreja Ortodoxarussa. Um estilo mais declaradamente ecumênico poderia, porém, concretizar-seno início de obras compartilhadas, ao menos no plano caritativo, âmbito em queas estruturas católicas são muito ativas. Essas iniciativas poderiam ser muitoeficazes na construção de pontes com a ortodoxia, se as instituições católicasnão agissem de forma autônoma, mas procurando sinergias com as diocesesortodoxas. Nesse sentido, a tão temida presença de congregações religiosas(sublinhadas em detalhes pelo patriarcado de Moscou e publicadas num relatórioem meados de 2003, como prova do proselitismo) deveria provavelmente ser alvode uma sensibilidade mais ampla. Por outro lado, a Igreja Ortodoxa deveriatambém tomar consciência de que as atividades caritativas são expressão econcretização de uma fé vivida (isso é evidente na tradição católica), e porisso não podem ser imediatamente interpretadas como proselitismo.
O pressuposto para que se chegue a uma distensão dasrelações - a grande obra a ser realizada, portanto - é justamente ainteriorização da categoria de “Igreja irmã” por parte dos responsáveishierárquicos, do clero e dos fiéis de ambas as Igrejas: a condição fundamentale irrenunciável para que isso possa acontecer é voltar a dar prioridade aoplano da caridade, que só nos faz reconhecer na outra Igreja uma “irmã” na fé,e permite gerar conseqüências concretas desse reconhecimento, tantas vezesafirmado com autoridade pelo magistério pontifício.
O fato de que, durante os encontros do cardeal Kaspercom as supremas hierarquias do patriarcado de Moscou, tenha-se concordado emconstituir comissões mistas com a Igreja Católica, para enfrentar e discutirjuntos os problemas, é uma clara opção por trabalhar concretamente numaperspectiva ordenada ao diálogo e à fraternidade: não faltarão problemas epontos de vista diferentes, talvez até conflituais, mas o método escolhido é ocorreto, o método do diálogo, coerente com o reconhecimento mútuo como Igrejasirmãs.

O patriarca Aleksij com a delegação do Concílio de Leópolis que, em março de 1946, aprovou a supressão da Igreja unida na Ucrânia
Nessa situação, cuja história já tem uma década,inserem-se acontecimentos mais recentes, interpretados com temor pelopatriarcado de Moscou. O último deles é a recente transferência (em dezembro de2003) da sé primacial do arcebispo maior da Igreja Greco-Católica, o cardealLubomyr Husar, da sé histórica de Leópolis para Kiev, capital da Ucrânia. A transferêncialevantou temores e polêmicas do lado ortodoxo. Kiev, de fato, é o berçohistórico da ortodoxia russa, pois aqui, no século X, realizou-se aevangelização da antiga Rus’ - evento que culminou no batismo do príncipeVladimir de Kiev, em 988 - e o povo russo recebeu sua identidade cristã. Porséculos, Kiev foi sede do primaz da Igreja russa, até sua transferência paraMoscou, no século XVI. Circunstâncias históricas deslocaram mais para o norte obaricentro político do povo russo, exatamente para o principado de Moscou, doqual brotaria o império russo, com Moscou como capital. Ainda que a séprimacial da Igreja russa também tenha seguido o deslocamento do baricentropolítico, Kiev continua a ser uma cidade carregada de herança simbólica.
A recente transferência do arcebispado maiorgreco-católico para Kiev foi, portanto, interpretada, erradamente ou com razão,como o último gesto da Igreja Greco-Católica ucraniana antes de proclamar seupatriarcado. De fato, sabe-se como há tempos essa Igreja pede o reconhecimentoda condição patriarcal. Essa eventualidade, todavia, é fortemente contestadanão apenas pelo patriarcado de Moscou, mas também por todas as Igrejasortodoxas13. Como demonstração da espinhosidade da questão, opróprio patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, escreveu uma carta pessoalao Papa em janeiro de 2004, na qual frisa a absoluta inoportunidade deinstituir um patriarcado greco-católico em Kiev14. Essa instituição,de fato, poria a Igreja Greco-Católica no mesmo plano canônico do patriarcadode Moscou, com relação ao qual representaria a porção católica da antiga Rus’.É claro que essa evolução daria novo combustível à questão do uniatismo, que jáconstitui o ponto principal do conflito entre as Igrejas ortodoxas e a IgrejaCatólica. Foi justamente sobre a questão das Igrejas Greco-Católicas queencalhou o trabalho da comissão internacional conjunta greco-ortodoxa dediálogo teológico no encontro de Baltimore (julho de 2000). A criação de umpatriarcado na Ucrânia poderia dar um duro golpe nas relações com toda aortodoxia. Nesse sentido, o nó ucraniano, que há uma década está tornando muitotensas e complexas as relações entre a Igreja Católica e o patriarcado deMoscou - também pela presença das duas Igrejas ortodoxas cismáticas no territórioucraniano, uma das quais se proclamou patriarcado ortodoxo de Kiev -, estáassumindo um potencial avassalador para a inteira ortodoxia.

João XXIII com Vitalij Borovoj e Vladimir Kotljarov, dois observadores da Igreja Ortodoxa russa que participam do Concílio Vaticano II
(Sobre o mesmo tema, Andrea Pacini proferiu em 20 demaio de 2004 uma conferência na Biblioteca Ambrosiana, em Milão, durante ocongresso “Catolicismo e Igreja Ortodoxa russa. Passado e presente”, conduzidopor dom Gianfranco Ravasi, prefeito da Biblioteca Ambrosiana.)
NOTAS
1 Cf. o verbete “Mohileff”, in: TheCatholic Encyclopedia, Volume X, 1911. Às dioceses relacionadas acima seacrescenta a diocese de Vladivostok, criada em 1923. A diocese metropolitana deMogilev teve, ao longo de sua história, vinte e sete bispos, dos quais oúltimo, dom Jan Cepliak, foi condenado à morte e expulso em 1923, durante aofensiva de Lenin contra as Igrejas. A diocese de Mogilev foi criada pelaimperatriz Catarina II, em 1772, e depois reconhecida pelo papa Pio VI. Adiocese foi transformada a diocese metropolitana em 1782 pela imperatriz, ereconhecida pelo Papa em 1783, por meio da bula Onerosa pastoralis officii.
2 A. Nivière, Les Orthodoxes russes,Maredsous, 1993, pp. 48-50.
3 Id., ibid., p. 50.
4 Cf. M. Skarovskij, La croce e il potere.La Chiesa russa sotto Stalin e Chruscev, Segrate, 2003.
5 A participação da Igreja Ortodoxa russano Conselho Ecumênico das Igrejas tornou possível à Igreja sair do isolamentoem que o regime soviético a mantinha, e foi também um fator positivodeterminante para a Igreja, apesar de essa participação ter sidoinstrumentalizada pelo regime, que queria receber dela um suporte nas relaçõesinternacionais: cf. I. Pavlov, “Lo stato attuale e le prospettive della Chiesaortodossa in Russia”, in: VV.AA., La nuova Russia. Dibattito culturale emodello di società in costruzione, Turim, 1999, pp. 265-286 (aqui, pp.274-275).
6 Para uma apresentação detalhada donascimento, florescimento e repressão da dissensão ortodoxa, cf. J. Ellis, LaChiesa ortodossa russa, Bolonha, 1989, pp. 491-747.
7 J. Ellis, The Russian Orthodox Church:Triumphalism and Defensivness, Londres, 1996, pp. 157-190.
8 Cf. A. Roccucci, “La chiesa ortodossarussa nel XX secolo”, in: A. Pacini (org.), L’Ortodossia nella Nuova Europa.Dinamiche storiche e prospettive, Turim, 2003, pp. 237-283; A. Krindac, “LaRussia nella sua dimensione religiosa”, in: V. Kolossov, La collocazionegeopolitica della Russia. Rappresentazioni e realtà, Turim, 2001, pp. 185-226.
9 O movimento ecumênico desenvolveu-sedentro das Igrejas cristãs ao longo das primeiras seis décadas do século XX,justamente durante o período soviético, que foi para a Igreja russa uma épocade sobrevivência difícil. Não admira, portanto, que na Rússia o ecumenismo tenhapermanecido limitado, como se dizia, a uma dimensão elitista, e não se tenhadesenvolvido mais difusamente no plano da teologia, da espiritualidade e davida eclesial comum. Por outro lado, o católico era e é tradicionalmenteidentificado como o “não ortodoxo”, portanto não como um verdadeiro crente. Essapercepção é disseminada ainda hoje, dado o atraso teológico no campo ecumênico,devido às circunstâncias históricas do século XX.
10 Sobre os preconceitos herdados dahistória passada que incidem negativamente sobre as relações entre católicos eortodoxos na Rússia, cf. M. Sevèenko, “La chiesa cattolica vista dalla Russia”,in: Limes, junho de 2002.
11 O discurso proferido pelo cardeal W.Kasper em Moscou, na Catedral católica, em 18 de fevereiro de 2004, foipublicado em Il Regno-Documenti, 5, 1º de março de 2004, pp. 134-139.
12 A. Pacini, Le Chiese ortodosse, Turim,2000, pp. 88-90; A. Kolodnyj, “Lo stato odierno della cristianità ortodossadell’Ucraina come risultato del suo sviluppo storico”, in: G. De Rosa e F.Lomastro, L’età di Kiev e la sua eredità nell’incontro con l’Occidente, Roma,2003, pp. 249-262.
13 As reações contrárias expressas pelasdiversas igrejas ortodoxas foram publicadas em Il Regno-Documenti, 5, 1º demarço de 2004, pp. 131-134.
14 Op. cit., pp. 129-131.
15 O próprio cardeal Kasper, numaentrevista recente, situa-se com clareza nessa linha: cf. “Ritorno a Mosca”(entrevista com o cardeal Walter Kasper), in: Il Regno, 4, 15 de fevereiro de2004, pp. 83-86.