VATICANO. Uma conferência do secretário para as Relações com os Estados
O possível renascimento de um continente
A África dos conflitos, das epidemias e da fome é parte integrante da história da humanidade e espera que se evidenciem também luzes para seu caminho e esperanças de que possam se transformar em iniciativas concretas
de Giovanni Lajolo

Refugiados congoleses deixam seu país rumo a um acampamento da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, no vilarejo de Rugombo em Burundi. Em junho de 2004, quase 25 mil pessoas deixaram a República Democrática do Congo dirigindo-se para o vizinho Burundi
Não é minha intenção apresentar, aqui, um quadrocompleto da situação política da África. Eu me contentarei em delinear algumasdas sombras e das luzes que atravessam o continente. De fato - como lembra oSumo Pontífice -, apesar de “em alguns países a situação interna não se terainda infelizmente consolidado e a violência ter tido muitas vezes opredomínio, não se pode admitir uma condenação geral que envolva todo um povoou toda uma nação, pior ainda, todo um continente” (Ecclesia in Africa
As sombras
Muitos países da África viveram a devastadoraexperiência da guerra: Ruanda e Burundi, com 800 mil e 300 mil mortos,respectivamente, continuam a ser casos emblemáticos. Entre os conflitos queainda mancham de sangue o continente, são particularmente dramáticos, por suaduração, os que estão em andamento no norte de Uganda, na República Democráticado Congo e no Sudão. Quem sofre as conseqüências mais graves é o povo,padecendo com as mortes, os abusos e a fome. São guerras caracterizadas porepisódios de violência e crueldade nunca vistos.
Além das guerras, o interesse pelos recursos econômicosdo continente africano (sobretudo minerais e petrolíferos) desencadearam umassalto desordenado por parte daqueles que, mesmo nos países industrializados,querem tomar posse de tais recursos. Essa situação política e social dramáticaé agravada pela difusão de novas e antigas epidemias, pelo alto percentual demortalidade infantil e pela dívida externa. Apesar das iniciativas pelo perdãoda dívida externa de alguns países, a África continua a ser o continente maisendividado em proporção a seu Produto Interno Bruto. Infelizmente, enormescapitais são gastos com armas. Um verdadeiro escândalo! Basta pensar nas armaspara a guerra entra a Etiópia e a Eritréia.

Refugiados sudaneses provenientes da região de Darfur esperam em fila diante de uma bomba d’água, no campo de refugiados de Mornay. No Sudão, mais de 80 mil refugiados chegaram a essa cidade para fugir dos massacres realizados pelas milícias pró-governistas na região de Darfur
Esses dramas desembocam numa indiferença quase geral,que só se reverte quando no meio das questões aparecem cidadãos ou interessesdo norte do mundo. Uma prova disso é o fato de que o Programa Alimentar Mundialse vê obrigado a um trabalho constante de sensibilização junto aos paísesdoadores, a fim de que garantam a ajuda para a subsistência de dezenas demilhões de africanos que, sem essa ajuda, estariam destinados a morrer de fome.
Depois do ignóbil ataque terrorista sofrido pelos EUAem 11 de setembro de 2001, as condições de vida de muitos países africanospioraram decididamente. O Sub-Saara é a região do mundo que paga o preço maiscaro, com seus milhões de pobres e a ausência de uma rede de assistênciaeficaz.
A situação da África deve ser lida, hoje mais do quenunca, a partir desses últimos acontecimentos dramáticos. À luz do queaconteceu, parece no mínimo necessário criar condições que evitem tensões econflitos entre áreas desenvolvidas, áreas que arrancam para sair da própriacondição de precariedade econômica e áreas de fome e miséria. O mundo Ocidentaldeve ter consciência de que, se não for tomado o caminho de um autênticodesenvolvimento, os povos “excluídos” acabarão por acreditar que não têm outraescolha a não ser o terrorismo. E essa poderia vir a ser uma nova forma defazer guerra.
Efetivamente, não se deve subestimar a difusão dofundamentalismo islâmico pelas regiões do Sahel, do Saara e da África Oriental.
A África dos conflitos, das epidemias e da fome éparte integrante da história da humanidade e espera que se evidenciem tambémluzes para seu caminho e esperanças de que possam se transformar em iniciativasconcretas.
As luzes

João Paulo II em audiência ao presidente de Moçambique, Joaquim Alberto Chissano, em 17 de abril de 2004. No seu discurso, o arcebispo Lajolo afirma que estão sendo feitas negociações para o acordo diplomático entre Moçambique e Santa Sé, seguindo os passos do acordo assinado com o Gabão em 1997
A África é o berço da humanidade. Isso nos leva alembrar que o continente é repleto de lugares inseridos pela Unesco na lista dopatrimônio mundial, reconhecidos oficialmente como valor a ser admirado epreservado, e como bens que pertencem não apenas aos africanos, mas àhumanidade inteira. Como se não bastasse, em maio de 2001 a Unesco compilou umalista de obras-primas que devem ser tuteladas como parte do “patrimônio oral eimaterial da humanidade”. Entre as formas de expressão cultural selecionadascomo “fatores vitais para a identidade cultural, a promoção da criatividade e apreservação da diversidade cultural, que exercem um papel essencial nodesenvolvimento nacional e internacional, na tolerância e na interaçãoharmoniosa entre as culturas” (como reza a motivação da Unesco) figura atradição oral e artística inerente ao conjunto da sociedade gelede (existenteem Benin, na Nigéria e no Togo).
Há sinais positivos na sociedade africana, que ohistoriador burquinense Joseph Ki Zerbo identifica na juventude, nossindicatos, no engajamento da mulher, na economia popular e no heroísmo decertos grupos sociais; essa realidade tem algo a dizer também aos outros povos.Não se deve subestimar também o laço estreito que a religião tem com a vida detodos os dias (inclusive a política). O povo não vê dificuldades em invocar aajuda de Deus por meio da oração nas mais variadas situações. Onde quer quehaja vida, existe uma relação com o que transcende essa mesma vida. Essacapacidade africana de exprimir sua fé em qualquer aspecto da vida social é umvalor que nós, ocidentais, perdemos, e que a África pode orgulhosamentereapresentar ao mundo inteiro.
Os líderes da África, depois da independênciapolítica, deram vida, em 1963, à Organização pela Unidade Africana (OUA),fundada sobre o princípio da “não ingerência nos negócios internos de cadaEstado”. Esse princípio, no entendimento dos interessados, tornou-se, numprimeiro momento, sinônimo de indiferença e, mais tarde, de imobilismo napolítica pan-africana.
Os acontecimentos sócio-político-econômicos se deramcomo se a OUA não existisse.
Em 11 de julho de 2001, depois de 38 anos de“honrado” serviço, a OUA se transformou em União Africana (UA). O documentofinal da 37ª e última cúpula da OUA tem um título emblemático: Novainiciativa africana. Nelese declara que a meta é enfrentar os males endêmicos do continente: desde o fimdos conflitos até o desenvolvimento econômico, passando pela erradicação dapobreza e das doenças, em primeiro lugar da Aids.
Os líderes africanos estão convencidos de que devemlutar juntos nessas “batalhas”, não tanto com palavras, mas com fatos. A idéiaé deixar para trás a era da descolonização e iniciar uma fase de reconstrução,dotando os Estados da África de instrumentos e estratégias comuns, a partir domodelo europeu, como uma Comissão Executiva, um Parlamento, um Banco Central e,em perspectiva, uma moeda única.
Em 18 de março passado, a senhora Gertrude Mongella,de 59 anos e origem tanzaniana, foi eleita presidente do primeiro ParlamentoPan-Africano. Trata-se certamente de um sinal de maturidade democrática e de umexemplo concreto de promoção da igualdade entre os sexos. Além disso, cadaEstado deverá apresentar ao menos uma mulher entre os cinco membros doParlamento.
Merece ser lembrada também a New EconomicPartnership for Africa’s Development (Nepad), um programa de desenvolvimento idealizadopelos africanos. Os projetos de desenvolvimento do passado falharam porque eramimpostos de fora, porque os africanos não se sentiam responsáveis e porque ohomem africano não havia sido posto no centro desses programas. Se um projetonão decolava, punha-se a culpa nos peritos brancos. Com a Nepad, os africanos decidiramassumir a responsabilidade pelo sucesso de seus projetos, feitos sob medidapara eles.

Crianças são vacinadas contra pólio numa escola de Lagos, na Nigéria
Merecem menção particular os catequistas Gildo eDaudi, originários do norte de Uganda e beatificados em outubro de 2002. Elesconstituem um modelo “de responsabilidade, perdão e pacificação” para todos osafricanos.
O florescimento da santidade é um sinal claro de queo continente africano possui em si potencialidades e riquezas tais quefavorecem o renascimento da África.
Pelo que expus sumariamente até aqui, parece evidenteque a África, como sublinhavam os bispos americanos em 2001, não é umcontinente de desesperados, mas uma terra povoada de pessoas que lutam parasuperar velhos problemas e desafios atuais, de modo a construir um futuro cheiode esperança e oportunidades. Não é um continente imóvel, mas que caminha.
A Igreja e a África
Partindo dessa leitura realista da situação, épossível apresentar a solicitude do papa João Paulo II e da Santa Sé em favorda África, e a obra da Igreja Católica no continente.
João Paulo II e a África
Pode-se afirmar que o Pontífice demonstrou edemonstra uma atenção privilegiada pelo continente africano. Os discursospronunciados durante as várias viagens pastorais ao continente, aos bispos emvisita ad limina, aosembaixadores creditados junto à Santa Sé e ao corpo diplomático, as cartas aresponsáveis políticos, as mensagens enviadas por ocasião de aniversários ecelebrações, os apelos à comunidade internacional constituem, se posso dizerassim, o sólido magistério pontifício “africano” ao qual devemos prestarouvidos e do qual devemos partir para qualquer discussão sobre o futuro daÁfrica.
Merece uma menção particular a celebração do SínodoAfricano, em 1994, definido na Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia inAfrica, “um momentohistórico de graça, um acontecimento providencial” (cf. nº 9). De fato, aassembléia sinodal, tomando em exame cinco temas fundamentais (o anúncio da boanova da salvação, a inculturação, o diálogo, a justiça e a paz, os meios decomunicação social) prefigurou a arquitetura da Igreja africana do terceiromilênio.
Com o olhar iluminado pela esperança, o Pontífice, noano passado, dirigindo-se ao corpo diplomático e sublinhando alguns dosprogressos do continente africano ainda em andamento, pôde afirmar: “Também aÁfrica nos oferece hoje a ocasião para nos alegrarmos: a Angola começou a suareconstrução; o Burundi empreendeu o caminho que poderia conduzir à paz eespera da comunidade internacional compreensão e ajuda financeira; [...] oSudão também deu provas de boa vontade, mesmo se o caminho para a paz é longo edifícil”.
Se essas esperanças foram depois em grande partedecepcionadas, resta o fato positivo de um caminho tomado para alcançar areconciliação e a paz.
No discurso de 10 de janeiro de 1998, o Papa dizia:“Os africanos não devem esperar tudo da ajuda exterior. Entre eles, muitasmulheres e homens têm todas as aptidões humanas e intelectuais para enfrentaros desafios da nossa época e administrar as sociedades de maneira adequada. Masé necessária mais solidariedade ‘africana’, para sustentar os países emdificuldade, e também para que não lhes sejam impostas medidas ou sançõesdiscriminatórias. [...] É preciso que os países do continente favoreçam apacificação e a reconciliação, se for necessário por meio de forças de pazcompostas de soldados africanos. Então, a credibilidade da África será maisconcreta aos olhos do resto do mundo e a ajuda internacional tornar-se-á semdúvida mais intensa, no respeito da soberania das nações. É urgente que ascontrovérsias territoriais, as iniciativas econômicas e os direitos do homemmobilizem as energias dos africanos para encontrar soluções eqüitativas epacíficas, que ponham a África em condições de enfrentar o século XXI commaiores possibilidades e confiança”.
Essa perspectiva já se tornou patrimônio dosafricanos. O presidente da UA e de Moçambique, Joaquim Chissano, durante suarecente visita à Itália (15 a 17 de abril), agradeceu à Europa pela ajudaenviada à África, mas depois acrescentou: “Mas os nossos recursos é que serãofundamentais, pois queremos um modelo de desenvolvimento político, social eeconômico nosso, um projeto para todo o continente. Pois, se você é um pai defamília, não quer outros é que digam como educar seus filhos”. Para que essaaspiração legítima se torne realidade, é preciso um bom governo, democracia emudanças estruturais.
A Santa Sé e a África
A Santa Sé não perdeu e não perde oportunidades paralembrar aos governos dos países industrializados e às organizaçõesinternacionais que a situação de vários países é tão difícil que não permiteatitudes de indiferença e falta de engajamento. Por ocasião das conferências edos fóruns globais, das reuniões que se desenvolvem em Nova York, Genebra,Viena, Estrasburgo, e em outros lugares, convidados e observadores pontifíciospedem há muito tempo que se redefinida a arquitetura financeira global, que sefacilite o acesso das exportações africanas ao mercado global, eliminandosubsídios aos produtos agrícolas nos países industrializados, reduzindo adisparidade entre as tecnologias digitais, favorecendo e reforçando programas einstituições que permitam aos países africanos obterem recursos suficientes eterem acesso aos bens e aos serviços globais.
Além disso, a Santa Sé manifestou concretamente seuinteresse pela África quando assinou, em dezembro de 1997, o primeiro acordonormativo sobre as relações Igreja-Estado com o Gabão. Com efeito, pareceoportuno que a presença da Igreja na África não dependa mais da boa vontade dosresponsáveis políticos, mas, dentro de um quadro jurídico estável e claro, sejaassegurada à Igreja local a liberdade de organização e de movimento, além dapossibilidade de continuar suas obras educativas e de caridade protegida dequalquer arbítrio. Atualmente, a Secretaria de Estado tem negociado com outrosdois países africanos (Etiópia e Moçambique) para chegar a acordos análogos.
A Igreja Católica na África
Na África, há cerca de 137 milhões de católicos, querepresentam 16,6% de uma população total de 830 milhões de habitantes. A IgrejaCatólica está presente em todos os países da África, pondo-se ao lado dosoprimidos, fazendo-se voz daqueles que não têm voz, alinhando-se semcompromissos ao lado dos pobres e trabalhando pelo desenvolvimento integral dapessoa, pela paz, pela justiça e pela melhoria das condições de vida.
Os números falam por si: há 85 mil centros pastorais;5 mil hospitais e clínicas; 500 casas de acolhida para pessoas portadoras dedeficiências; 13 milhões as crianças recebendo educação básica, sem distinçõesreligiosas, étnicas ou econômicas; 3 mil escolas primárias, acolhendo 10milhões de alunos; 7 mil escolas secundárias, educando cerca de 2 milhões dejovens; diversas instituições educativas de nível superior, acolhendo cerca de30 mil estudantes.
Além disso, a Igreja já ofereceu à África uma pesadacontribuição em vidas humanas: bispos, entre os quais um núncio apostólico,sacerdotes, missionários, religiosos, religiosas e fiéis leigos forambrutalmente perseguidos e mortos.
Pode-se afirmar com razão, portanto, que a ajuda daIgreja à África foi e é incalculável, e que sem a evangelização a situação docontinente se apresentaria ainda mais problemática. De fato, a Igreja nãosomente se empenhou em iniciativas de promoção humana, mas, com o anúncio doEvangelho, libertou do medo, proclamou a dignidade da pessoa, ensinou o amorpelo trabalho e a solidariedade.
Não surpreende, então, que a Igreja tenha merecido oamor das populações africanas. O homem africano é apegado à Igreja, que percebecomo única instituição que o ama pelo que ele é. E, para ele, amar a Igrejasignifica amar o Papa, que atravessou seu continente, e que muitos viram deperto graças às várias viagens apostólicas.
A Igreja mereceu não apenas o amor das populaçõesafricanas, mas também o apreço e a estima das comunidades dos Estados. Governose instituições internacionais, em número cada vez maior, pedem a colaboração daIgreja Católica/Santa Sé para realizar projetos de desenvolvimento na África ereconhecem o papel das Igrejas locais na prevenção dos conflitos e nos processosde pacificação.
Esse “reconhecimento” deriva do fato de que a Igrejatem como sua primeira preocupação a formação da pessoa inteira. Tem consciênciade que “dar, sem educar, não basta”. Como conseqüência, põe no centro de seusprogramas de desenvolvimento não um homem abstrato, mas o homem africano. Eisso explica por que suas intervenções incidiram e incidem na sociedade.
João Paulo II, na encíclica Redemptoris missio
Concluindo, gostaria de refazer a esta assembléia oconvite à esperança dirigido por Sua Santidade aos homens e mulheres da Áfricaem 4 de outubro de 2001: “Dans les situations difficiles que vous vivez, lesrayons de lumière ne manquent pas, le Seigneur ne vous a pas abandonnés! Pourconstruire le monde réconcilié auquel tous aspirent, c’est d’abord auxafricains eux-memes qu’il revient de prendre en mains l’avenir de leursnations” (Message du Sceam, nº 5).
O texto do arcebispo Giovanni Lajolo publicadonestas páginas, com pequenos retoques de atualização feitos por