ÁFRICA
Extraído do número 06/07 - 2004
Bispos. A Igreja na África de hoje
Simplicidade e fidelidade
São as duas características para a vida da Igreja africana sugeridas pelo presidente do Simpósio das Conferências Episcopais da África e de Madagascar
de John Olorunfemi Onaiyekan

Um momento de oração durante os trabalhos do Simpósio das Conferências Episcopais da África e de Madagascar (Secam), realizados em Dacar em outubro de 2003

A partir da esquerda, o líder líbio Muhammar Kadafi, o presidente de Moçambique Joaquim Chissano, Oumar Konare, presidente da União africana
Pode-se legitimamente afirmar que aimagem de Igreja à base dessa nossa “reconstrução” nos leve a Paulo VI e o seu“A África aos africanos”. Todo o nosso empenho é visto com um critério degrande simplicidade e, a priori, não nos comparamos à Igreja ocidental européiaou americana... Seguimos uma idéia de “reforma” da Igreja? A resposta é que à“simplicidade” citada acima, eu acrescentaria “fidelidade”. Não se começa comum programa de reforma definido. Ao contrário, o Sínodo africano nos deu a ocasião para refletir sobre oque é a Igreja. E levamos adiante tal reflexão, não criando polêmica, comalguma idéia ou realidade de Igreja, mas simplesmente ouvindo a Palavra de Deuse o que acreditamos sinceramente que Jesus Cristo queira hoje para a África. Apartir disso, chegamos em algumas evidências sobre o que poderia ser a nossaIgreja. Olhamos ao nosso redor, procurando ver quais instrumentos possuímospara trabalhar não apenas como instituição em si, mas como uma Igreja que,segundo o Sínodo africano, hoje tem na África uma missão que abrange cincograndes áreas: a proclamação, a inculturação, a justiça e a paz, o diálogo e osmeios de comunicação social. A idéia é simples; mas para colocá-la em prática épreciso saber “quem faz o quê”. Também temos que reconhecer abertamente que hámuitas coisas que não estão sob nosso controle, como a administração dosnegócios econômico-políticos da África, que não apenas nos diz respeito, masnos afligem. E que não podemos enfrentar dizendo: “Os políticos nos traíram eportanto devemos organizar governos católicos!”. Não. Não é tarefa da Igreja.Sabemos bem a atividade da Igreja depende do contexto político, econômico esocial, mas também acredito que a Igreja possa cumprir com fé a própria vocaçãode testemunha em qualquer contexto. Com certeza deve também olhar ao seu redore ler os sinais dos tempos, saber se adaptar, sempre na fidelidade à própriamissão.
Na África também nos damos conta deque no mundo católico há os que sustentam ideologicamente o choque entre o islãe os católicos, como no Sudão, na Nigéria ou em muitos outros países. NaÁfrica, com freqüência, estes choques são pagos com a vida de sacerdotes emissionários locais assassinados.

Um grafite sobre a calamidade da Aids em um mural de Johannesburgo
Na África os governos e a Igrejavivem sob a nuvem da pobreza, da insegurança, da fraqueza político-militar. Secomeçarmos a falar entre nós, pode-se ajudar a África, que no fim das contas équem sofre. Para não falar do fato que os filhos da Igreja estão em ambas aspartes, ou seja, também fazem parte do governo. Em alguns países o chefe deEstado é católico. Começamos a nos perguntar o que quer dizer chefe de Estadocatólico. As perguntas que hoje nos fazemos não são novas, mas sabemos que cabea nós mesmos procurarmos uma resposta para as nossas necessidades. Pode-setambém obter vantagens olhando o que os outros realizaram. Por exemplo,estudando a origem e a história dos partidos católicos na Europa concluí que opartido único dos católicos era uma resposta justa naquele momento e naquelecontexto, mas não é adequada à nossa situação. Devemos encontrar outrasrespostas. O objetivo é colocar à disposição da sociedade os valores cristãosdo bom governo, que é um princípio válido para todos, mas como isso se realizaé outra coisa.
Conseguimos chegar a um acordo
Na doutrina social da Igrejaencontram-se os princípios para uma boa organização da sociedade, mas devemosencontrar o modo, por exemplo na Nigéria, de torná-los acessíveis à nossa genteque não é católica, mas que reconhece a verdade quando a vê. Espero e acreditoque pouco a pouco se consiga, mas me dou conta de que quando a ConferênciaEpiscopal nigeriana faz declarações sobre a política interna, todos as lêem comatenção, não como texto de uma religião, mas principalmente como documento deum grupo social que provavelmente tem idéias claras sobre certas coisas. Temosque dizer as coisas de modo que os não católicos possam entendê-las, assim comona Nigéria, em toda a África.

Bispos africanos em procissão na Basílica de São Pedro por ocasião do Sínodo da África de 1994
Enfim um pensamento sobre a Aids naÁfrica. O papel da Igreja consiste em tentar reunir todos os recursosdisponíveis, fazer com que exista mútua colaboração entre os que se dedicam aesta calamidade, evitar polêmicas estéreis, especialmente no que se refere aosmodos de aplacar a epidemia. Sabemos de cor o “estribilho” sobre o uso dospreservativos, sempre em primeiro plano quando se fala de Aids, como se fosse aúnica solução. Mas saímos do encontro de Dacar encorajados e com mais esperançano fato que se pode colaborar também com aqueles grupos que até pouco tempoatrás contrastavam com a Igreja. Quem veio de Genebra falar em nome da Unaids (JointUnited Nations Programme on Hiv/Aids) e de Nova York em nome da Unicef (Fundo das Nações Unidaspara a Infância) reconheceu amplamente o trabalho que a Igreja está fazendo. Seolharmos concretamente, a Igreja Católica com os seus missionários é quem maistrabalhou. Por isso quem realmente quer trabalhar para ajudar as pessoas contraa Aids, e solicita um programa eficaz de educação, formação e informação – paravencer, principalmente, a discriminação contra os que têm o vírus, – não pode deixar de considerar a Igreja.Dizem que há três caminhos na luta contra a Aids: a abstinência, a fidelidade ea contracepção. São três caminhos em ordem de eficácia, porque o melhor é aabstinência, seguindo a fidelidade ao esposo e à esposa legítimos, e enfim acontracepção. Porém, deve ser admitida a verdade sobre o preservativo, semdistribui-lo com a idéia de que resolve tudo. Existem claras provascientíficas, baseadas em pesquisas realizadas pela Igreja junto com países quejulgaram seriamente os nossos argumentos, que o caminho da abstinência e o damudança de um comportamento sexual desordenado funcionam. Há o exemplo deUganda, onde o governo, ao menos nisso, uniu-se com a Igreja para comunicar aosjovens que é melhor adiar a atividade sexual. Com isso não queremos dizer quenão devem ser dados fundos aos que distribuem preservativos, mas que também osnossos projetos devem ser subvencionados. Porque não se pode fazer um programade educação e de assistência grátis: é preciso de pessoas capacitadas, épreciso de estrutura e dinheiro. Como chegar aos fundos disponíveis é uma dascoisas que começamos a estudar. Organismos como a Unicef já estão prontos paradialogar conosco. Quando se fala de Aids, é preciso reconhecer que os problemasdos países pobres são completamente diferentes dos países desenvolvidos. TerAids já é uma tragédia, mas ter Aids sem possibilidade de encontrar remédios épior ainda. Ora, eu imagino que se um ocidental é infectado pelo vírus, sabe ondeir e qual remédio é disponível, mas na Nigéria? Há possibilidade somente paraos poucos ricos que podem ir ao exterior fazer tratamentos. Nos últimos anos ogoverno nigeriano realizou um projeto piloto para 2 mil pessoas. Mas o que são2 mil pessoas em uma população de 130 milhões? Por isso na batalha contra aAids na África, a coisa mais importante é a prevenção. E antes disso há umoutro problema: o contexto socioeconômico que permite o alastramento da Aids naÁfrica, ao contrário do Ocidente, o problema da pobreza, do mau governo, dasguerras. Então, não é que os africanos tenham mais tendências sexuais do que osoutros, mas em um contexto no qual nem mesmo o controle da malária é pensável,como se pode combater a Aids? Devemos contrastar juntos a toda a situaçãopolítico-socio-econômica dos nossos países.
(texto reunido por GiovanniCubeddu)