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DOM ORIONE
Extraído do número 05 - 2004

O santo do imprevisto


Da amizade com os modernistas à política do Pater noster, a única eficaz. Dos primeiros tempos em Tortona às viagens à América Latina. Episódios da vida de padre Luís Orione que permitem perceber o fascínio que despertava


de Stafania Falasca


Dom Orione, com um grupo de amigos e benfeitores

Dom Orione, com um grupo de amigos e benfeitores

Não. Não dá mesmo para ficar distante de alguém assim.E é preciso que se diga logo: para adotar suas atitudes e seus gestosinconfundíveis, seria preciso ser ele mesmo, padre Luís Orione... em outraspalavras, algo único, providencial e, sobretudo, imprevisível. Sim. E digamoslogo isso também. Pois talvez nunca, como nesse homem, a imprevisibilidadetenha andado tão de braço dado com a santidade. Melhor ainda: era tudo umacoisa só.
Basta olhar para o quão inesperadafoi toda a sua vida sem limites, de 23 de junho de 1872 a 12 de março de 1940:um mar aberto de histórias, circunstâncias e grandes obras imprevistas, umamistura constante e surpreendente de pontífices e ex-presidiários, homens deEstado e pobres coitados, eremitas, políticos e abandonados, literatos, órfãos,santos e pessoas bem ao contrário disso. Nem o mais hábil escritor conseguiriacontar tudo isso ao mesmo tempo. Teria de segui-lo por um caminho e, a certaaltura, voltar atrás para tomar um outro, e depois mais outro ainda. E enquantoisso o protagonista percorre todos os caminhos ao mesmo tempo, sem se preocuparem saber aonde vão levá-lo. E se com ele a pena está sempre atrasada e a páginaé sempre pequena demais, invariavelmente algo acaba por ficar de fora. E nãosão apenas fragmentos. É toda uma vida que cotidianamente transborda das linhase que o vê concentrado como “servente da Providência”, a abrir portas, aescancará-las, deixando-se provocar pela realidade, lendo e antecipando ostempos com formidável perspicácia. Muitos pensaram em enquadrá-lo. Tiveram dese render ao “doido de Deus”. “Uma das personalidades mais originais eeminentes do século XX”, disseram. O escritor inglês Douglas Hyde, ateuconvertido, numa famosa biografia de Dom Orione, definiu-o “o bandido de Deus”,esse “gênio da caridade”, sobretudo porque fez obras-primas sem se dar contadisso. O certo é que esse padre de ar um pouco desajeitado, que “teve a têmperae o coração do apóstolo Paulo, impulsivo e tenaz, terno e sensível a ponto dechegar às lágrimas, incansável e corajoso até a audácia”, teve o dom deiluminar homens sem fé. Alguém observou que até os padres ele conseguia comovere fazer chorar. Parece uma coisa um tanto difícil. A pregação de Dom Orione eraacompanhada também por esse milagre. Só nos resta então tentar andar na coladele, pelas estradas da sua vida imprevista, e pedir que venha ao nossoencontro, e nos aproximarmos dele e nos deixarmos aquecer ao fogo ardente dessacaridade.
Acima, Dom Orione com padre Umberto Terenzi (o primeiro à esquerda), no santuário do Divino Amor; abaixo, com o cardeal Ildefonso Schuster, durante a cerimônia de deposição da pedra inaugural dos novos pavilhões do Pequeno Cotolengo milanês, em setembro de 1938

Acima, Dom Orione com padre Umberto Terenzi (o primeiro à esquerda), no santuário do Divino Amor; abaixo, com o cardeal Ildefonso Schuster, durante a cerimônia de deposição da pedra inaugural dos novos pavilhões do Pequeno Cotolengo milanês, em setembro de 1938


Como o fascínio de um vento suave
Ele passou brilhantemente pela barreira doquarto ano ginasial, no oratório de Valdocco. E, no final de junho, chegoupontualmente para o retiro que precederia o pedido de admissão ao noviciado.Mas, ao final daquele dia, inesperadamente, abandonou a família salesiana.Ninguém acreditava: superiores, colegas. Era inútil pedir explicações aointeressado. Ele não dava nenhuma. O fato é que ele mesmo não sabia o quedizer. Era uma coisa da qual não conseguia dar razões. O que sabia, comcerteza, é que tinha de sair. Mais tarde, confessaria: “Eu, que nunca haviatido nenhuma dúvida sobre a minha vocação para ser salesiano, bem naqueles diastive um lampejo de entrar no seminário da diocese”. Assim, em 16 de outubro de1889, Luís Orione entrou no seminário diocesano de Tortona. E aquele seminaristatão obediente quanto vivo logo foi notado por seus dons, e pela multidão dejovens que o cercavam, em número cada vez maior, no oratório. Alguns de seuscolegas de seminário zombavam dele, outros o consideravam “um pouco estranho”,“um pouco louco”. Mas, em 16 de setembro de 1893, quando o viu chegar bem cedoa sua residência, o bispo teve mesmo a impressão de que Orione havia perdidoaquele “um pouco” pelo caminho, ficando apenas “louco”. O seminarista lhecontou que deveria haver uns quinze jovens pobres dispostos a entrar numcolégio interno, feito para eles... “Um dia poderão se tornar bonssacerdotes...”, arriscou. O bispo escutou, perplexo, e depois, com paciência,procurou fazer com que ele entendesse que aquilo lhe parecia uma coisa perdidanas nuvens, e não certamente algo que fosse se sustentar, assim, sobre aspróprias pernas... Mas Luís, decidido, resolveu logo a questão: “Eu tenho fé nadivina Providência”. O interlocutor, então, começou visivelmente a perder apaciência: “Afinal, o que é que você quer de mim?”. “Nada, excelência, só suaaprovação e sua bênção”, res­pondeu o outro. “Se é assim, eu lhe dou uma eoutra”, respondeu o bispo sem perder tempo, convicto de que assim interrompia oassunto para sempre e se livrava do rapaz. No entanto, a Providência acabara dereceber uma bela tarefa. O boato se espalhou pelos vales do Curone, daStaffora, do Borbera. O pequeno colégio, no bairro mal afamado de SanBernardino, em Tortona, foi aberto em 15 de novembro de 1893. Não há dúvida:esse é o núcleo originário da Pequena Obra. Luís Orione tinha apenas vinte e umanos. Em 13 de abril, dois anos depois, foi ordenado sacerdote e, no mesmo dia,seis de seus jovens recebiam o traje de seminaristas. E a aventura estavacomeçada. A partir daquele momento, encontros, casas, colégios, orfanatos,colônias agrícolas, eremitérios e institutos despontariam sem aviso prévio. Nomeio disso tudo estava presente o olhar da Providência. Que, no caso dele, érealmente tudo: “programa” e “fim específico” da Obra. Mas no meio de tudoestava presente também o seu olhar, o de um inexorável franco atirador damisericórdia de Deus. “É difícil esquivar-se desse o­lhar, que, quando cruzavacom o seu, era uma coisa que você não esquecia mais. Ficava dentro de você umaespécie de fascínio de um vento suave...’, escreve Ignazio Silone, falando deDom Orione, entre as muitas pessoas prontas a confirmar o que diz. Bastamergulhar nos testemunhos, nos itinerários secretos das muitas pessoas que oencontrarão nas estradas abertas e acidentadas de seu apostolado. E nositinerários dos personagens, algumas vezes ilustres, que, estando para morrer,não queriam padres, mas aceitavam aquele “padre estranho”. “Almas, almas... Seo Senhor me permitisse ir até o inferno, num sopro de amor, eu gostaria detirá-las de lá também”. “Almas, almas”, é o anseio que o levava a suplicar:“Põe-me, Senhor, põe-me na boca do inferno para que eu, por Tua misericórdia, afeche”. No fundo, ele havia pedido isso como graça, no dia de sua ordenação:“Pedi a Nossa Senhora uma graça particular: que todos aqueles que de algum modotivessem algo a tratar comigo se salvassem...”.

Dom Orione colaborou com os organismos vaticanos como mediador pela conciliação entre Estado e Igreja na Itália

Dom Orione colaborou com os organismos vaticanos como mediador pela conciliação entre Estado e Igreja na Itália

No terremoto modernista
Na aurora de 28 de dezembro de 1908,Messina não existia mais. Um terremoto a havia engolido. Ficaram só os destroçose aqueles que permaneceram na cidade. Dom Orione pegou um trem direto paraMessina em 4 de janeiro de 1909. Lançou-se sem reservas naquelas ruínas dedesespero. Quem se aproximou dele naqueles dias concorda que uma pessoa não otenha visto agir ali, em meio àquela desolação, não consegue entender quem éDom Orione. Mas, entre os destroços daquele terremoto, ele se viu logo em meioaos revezes de uma outra tempestade.
Em 1907, com a encíclica Pascendi, de Pio X, e o decreto Lamentabili, do Santo Ofício, a Igreja haviacondenado o modernismo. Em março de 1909, constitui-se a “Associação Nacionalpelos Interesses da Itália Meridional”, com o objetivo de ajudar as populaçõesatingidas pelo desastre de Messina. Fazia parte da associação um bom grupo de modernistas,particularmente aqueles que dirigiam a revista lombarda Il Rinnovamento, excomungada pela autoridadeeclesiástica. Lá estavam Aiace Alfieri, Antonio Fogazzaro, cujo romance IlSanto havia sido posto noíndex, e outros expoentes do pensamento católico liberal, como o literatoerudito Tommaso Gallaratti-Scotti. Dom Orione, como não podia deixar de ser,conhecia a todos eles. E alguns eram amigos bem próximos. E foi bem ali, emMessina, que teve a oportunidade de encontrar os modernistas da Associação, nãodeixando de lhes manifestar sua estima e seu apoio. E não eram esses os únicosmodernistas com quem tinha relações. Ele era ligado por amizade fraternal amuitos sacerdotes que haviam infringido diversas medidas eclesiásticas por suasidéias modernistas: Romolo Murri, padre Brizio Casciola, padre GiovanniGenocchi, padre Giovanni Semeria, padre Giovanni Minozzi, padre ErnestoBuonaiuti. Alguns eram amigos seus de velha data. Em 1904, ele havia escrito aRomolo Murri pedindo-lhe um artigo para sua revista, La Madonna: “Você precisa me escrever algo bonito,repleto da sua fé e da sua alma: eu gostaria que fosse algo como ‘Nossa Senhorae a democracia’, ou alguma coisa nesse sentido; olhe bem, que esse é um campoextremamente amplo, aberto e ainda inexplorado. Será também a homenagem quevocê vai fazer a Nossa Senhora este ano!”. Em fevereiro de 1905, quando pensavanuma obra em favor dos menores que saíam da prisão, escreveu a padre BrizioCasciola: “Você vai me ajudar muito; Semeria, Murri, todos vocês precisam meajudar muito...”.
Mas devemos imaginar oclima de caça às bruxas que veio a se instaurar depois da Pascendi, e, sobretudo, depois da introdução dojuramento antimodernista entre os sacerdotes e da instituição das comissõesdiocesanas de vigilância sobre a ortodoxia doutrinal. Naquele momento, até asimples suspeita já equivalia a uma condenação. Os chamados “soldados debatina”, cuja ocupação era cortar as cabeças dos modernistas mais acesos, nãopecavam por sutileza e manejavam a pena como uma espada, molhando-a comvontade, muitas vezes, em veneno. Assim, dom Letterio D’Arrigo, arcebispo deMessina, escreveu também a Dom Orione uma bela carta de acusação, que chegourapidamente às mãos do cardeal De Lai, prefeito do Santo Ofício. A carta acusatória,na qual o padre de Tortona era definido “homem de meia consciência que sabe sedar bem com todos”, foi passada a Pio X, e Dom Orione foi convidado a seapresentar. Mas, quando Pio X viu a seus pés o “estranho padre”, ficou atécomovido. E, em resposta, quis dar um sinal de sua extrema confiança nomeando-onada menos que vigário-geral da diocese de Messina, coisa que deixou sempalavras o pobre Dom Orione, para o qual o cargo significaria depois três anosde inferno nas forna­lhas ardentes do ciúme clerical. Mas não foi só isso: opróprio autor da Pascendi deu a Dom Orione liberdade total para se relacionar com os modernistas.
Dom Orione a bordo do navio Conte Grande, que o levaria, em setembro de 1934, à Argentina

Dom Orione a bordo do navio Conte Grande, que o levaria, em setembro de 1934, à Argentina

Com aquela nomeação, essepadre bem conhecido por sua ortodoxia e fidelidade ao papa correu o risco deparecer, aos olhos de certos modernistas, alguém zeloso, que procurariaconvertê-los, um importuno... Mas não foi nada disso. Eles reconheciam como eleera autêntico, leal. E mais: buscavam a relação fraterna com ele, não hesitandoem pôr em suas mãos suas dificuldades e indicando a outras pessoas que fizessemo mesmo. Dom Orione escreveu a Murri depois da suspensão a divinis: “Eu beijo seus pés e suas mãos santas ebenditas... Não voltaremos a nos ver tão cedo, mas eu abrirei caminho paravocê. E estarei com você, estarei sempre com você diante de Deus”. Lá estavaele pronto a ajudar, com discrição, remendando os rasgos, servindo de ponte.Era uma referência amada e buscada por muitos padres borderline, no fio da navalha, suspensos adivinis, excomungados emultiexcomungados. Basta mergulhar na densa rede de correspondência trocada poraqueles personagens para ver a estima e a proximidade insistente, e as nuançasde delicadeza a que chegou Dom Orione para com eles, e vice-versa.Gallarati-Scotti testemunha: “Eu devo dizer que a única pessoa que foi aberta ecompreensiva, com quem eu podia ter momentos de dúvida e de tormento a respeitode certos problemas críticos, naquele momento, talvez tenha sido Dom Orione[...]. Ele sentia essa necessidade de conciliar, não de conciliar na confusão,como outros poderiam desejar, mas numa distinção amorosa, num calor de amorautêntico e de consciência fervorosa, que é, no fim das contas, tudo o querealmente é bom e tudo o que tem um reflexo de Deus, mesmo que aparentemente,algumas vezes, esteja distante de Deus. Há algo na alma humana que responde aotoque do santo; é algo tão profundo e tão secreto, mas vibra quando ouve a vozdessa caridade que fala. Essa foi a primeira grande experiência que eu tivedele e que jamais esquecerei”.
Dom Orione em Claypole, com o núncio Cortesi, abençoa a pedra inaugural do Pequeno Cotolengo argentino, em abril

Dom Orione em Claypole, com o núncio Cortesi, abençoa a pedra inaugural do Pequeno Cotolengo argentino, em abril

Ernesto Buonaiuti tambémnunca o esqueceu. “Meu amigo amado”, escreveu a Dom Orione, “a lembrança daspalavras você que me disse, em horas inesquecíveis, está sempre viva efrutifica em meu coração. [...] Eu estou sempre sedento de sua lembrança. Rezepor mim, meu caríssimo amigo”. Buonaiuti viveu até o fim sua condição deexcomungado vitandus.Uma testemunha lembra: “Buonaiuti dizia que Dom Orione sempre quis o bem dele,que lhe declarara acreditar em sua boa fé e estar seguro de que morreria emcondições de se salvar. Essa certeza, naquela alma atormentada, era o maiorconforto de sua vida”. Dom Orione esteve sempre a seu lado. Quando recebeu anotícia de que o amigo tinha sido declarado excomungado vitandus, uma decisão extrema que havia sidoacelerada pela intervenção do padre Agostino Gemelli, ele a comentou assim numacarta ao senador Schiapparelli: “O padre Gemelli talvez não fosse a pessoa maisindicada a tratar com ele. [...] No fundo, não é tanto a cultura que obtém eabre o espírito: era preciso um homem de coração, e que unisse à cultura e aocoração humildade de espírito, sinceridade e a ciência de Jesus Cristo. [...]Não é o silogismo que age, mas a caridade de Jesus Cristo e a graça do Senhoracima de tudo”. E fez de tudo para defender Buonaiuti e permitir suareintegração ao sacerdócio, envolvendo também nesse apoio um grandíssimo amigoseu: o jesuíta padre Felice Cappello, o “confessor de Roma”.

Santas amizades
Sim, padre Cappello, um santo. E ele nãofoi o primeiro que Dom Orione encontrou na sinuosidade incomum de seus dias.Aqui se abre um outro caminho de trilhas imprevisíveis e imprevistas: a dassantas amizades de Dom Orione. Um outro entrelaçamento denso de histórias. Umaoutra intrincada rede de relacionamentos e ajudas mútuas, que serve para documentartambém como, se muitas dessas pessoas não eram conhecidas na época, elas todasse conheciam entre si, se procuravam e queriam o bem uma das outras. Bem nomeio do alvoroço de Messina, Dom Orione teve a seu lado Aníbal Maria DiFrancia. Padre Umberto Terenzi, fundador dos Filhos do Divino Amor, estavaligado também a ele por uma amizade estreita, como também padre GiovanniCalabria, padre Luigi Guanella, o cardeal Ildefonso Schuster, para não falar dePio X, de Dom Bosco e de muitos outros depois canonizados ou candidatos àshonras dos altares. Padre Pio estava também nessa rede. E essa é realmente umaamizade que nos deixa aturdidos, pois essas duas almas, que também se conheciammuito profunda e intimamente, não apenas nunca se encontraram como também nuncatrocaram nem mesmo duas linhas. A incrível história, que se desenrola na décadade 1923-1933, anos da tormenta desencadeada em torno do santo de Pietrelcina, éminuciosamente documentada por padre Flavio Peloso, postulador do processo decanonização do padre de Tortona. Nela, vemos mais uma vez Dom Orione lançar luzsobre as sombras morais de eclesiásticos implicados nessa questão controversa eservir de ponte para resgatar Padre Pio das acusações. Leiamos mais um trechoescrito por Gallarati-Scotti: “Compreensão, compreensão e inteligência. Eletinha uma inteligência extraordinária. Conseguia penetrar no coração e na mentedos outros e entendia tudo: entendia as coisas impuras da maneira como elas sópodem ser entendidas pelos puríssimos, nunca tocados pela impureza; entendia ostormentos do espírito e da inteligência, da maneira como os pode entender quemtem uma fé absolutamente pura, resistente às dúvidas, às oscilações, firme naverdade que vive. E foi essa certeza sobre o lugar em que podia pisar, eudiria, que fez de Dom Orione um mediador para muitos errantes de seu tempo, masnão só para eles”.
Acima, durante uma palestra na Aula Magna da Universidade Católica de Milão; abaixo, numa foto de grupo na paróquia de Todos os Santos, no bairro Appio, de Roma, para onde o papa Pio X o havia mandado

Acima, durante uma palestra na Aula Magna da Universidade Católica de Milão; abaixo, numa foto de grupo na paróquia de Todos os Santos, no bairro Appio, de Roma, para onde o papa Pio X o havia mandado

Ele seria chamado de opadre certo para as circunstâncias difíceis. O padre das tempestades, pelaforma como agia com extraordinária sensibilidade e falta de preconceitos e,sobretudo, com a delicadeza com que se portava na soleira da casa de Pedro, numtão audacioso quanto prudente e discreto trabalho de comunhão dentro da própriaIgreja. Portanto, surpreende, mas não espanta, que em documentos reservados dasdiversas congregações vaticanas tenham sido encontradas, no final de páginas dequestões graves, anotações de próprio punho de Pio XI como estas: “Sobre isto,consultem Dom Orione”; “Para isto, recomendo que mandem Dom Orione”. Ainteligência de Dom Orione, não se pode negar, é também intuitiva, capaz de leros acontecimentos em transparência, capaz de decifrar os tempos. De dentrodeles. Um exemplo, entre muitos, foi a questão romana. Muitos talvez não saibamque Dom Orione esteve envolvido em primeira pessoa na complexa negociação entreo Estado italiano e a Santa Sé que levou ao Tratado de Latrão.

A visão ampla de “sua” política
No arquivo geral da Congregação Orionianafoi encontrado um documento excepcional. É a carta que Dom Orione escreveu eenviou a Mussolini em 22 de setembro de 1926. Nela se lê: “Creio que VossaExcelência, se quiser, poderá, com a divina ajuda, acabar com o amargo efunesto dissídio que existe entre a Igreja e o Estado. E é o que eu lhe peçohumildemente, como sacerdote e como italiano. Encontre uma base razoável epropo­nha uma solução. Cabe ao Governo italiano estender nobremente a mão aoVencido”.
Essa carta é uma peçaimportante para entender o papel desempenhado por Dom Orione nas preliminares eno início das próprias negociações. Está documentado que Dom Orione foi um dosprimeiros a intuir, em 1923, que o novo clima político nacional poderiaencerrar a controvérsia entre Estado e Igreja, e está documentado também queele esteve presente na primeira reunião preparatória, ao lado de padreGenocchi, realizada na casa dos condes Santarelli, em Roma. Nessa carta éinterpretada como a própria expressão da Santa Sé, que quis entregar a umsacerdote de confiança e de reconhecido valor moral para a opinião pública, umamensagem clara ao governo italiano, sem comprometer a própria autoridade.
De fato, não se sabe se posthoc ou propter hoc, poucos dias depois daquela carta de DomOrione as negociações foram declaradas oficiais e os trabalhos começaram deverdade. O resto é história conhecida. Veio o dia 11 de fevereiro de 1929, datada assinatura do Tratado de Latrão. O L’Osservatore Romano, que desde 1870 saía com uma tarja negra,naquele dia finalmente foi impresso sem o sinal de luto. Dois dias depois, PioXI comentou: “É com profunda satisfação que acreditamos ter, com a Concordata,reentregue Deus à Itália e a Itália a Deus”. Essa página da história pareceacabar cheia de glória, com todos satisfeitos. No entanto, Dom Orione, quetanto se empenhou pela solução da questão, não exultou tanto assim naquelemomento. Quando soube da assinatura do Tratado, exclamou, beijando a foto dePio XI reproduzida no jornal que trazia a notícia: “Pobre Papa! Que dor eledeve estar sentindo!”. “A Conciliação tinha de ser feita”, explicou, “mas não dessaforma. Não me parece, nesse momento, uma solda que agüente. Eu gostaria deestar errado, mas vocês verão dias ruins”. No entender de Dom Orione, haviaalguns pontos fracos a respeito de certos temas. Ele temia particularmente queMussolini aproveitasse o novo prestígio que obtivera para dar início a novas einjustas intervenções, com prejuízo para a Igreja na Itália. E naquele mesmodia, numa reunião da Congregação, disse a seus sacerdotes: “Quando os fascistasentrarem nos Institutos para pegar os jovens, o Senhor inspirará em nós o queteremos de fazer”. Ele entendeu logo. E foi exatamente o que aconteceu. Maltinham acabado os vivas à Concordata quando Mussolini retomou a políticavexatória para com as organizações católicas.
Uma lucidez, uma visão delongo alcance, isso está claro. O que é preciso dizer é que por esses dons eleera ouvido não somente pelos papas, mas também pelos políticos. Em Roma, naresidência de Via delle Sette Sale, batiam à sua porta personalidades comoGaetano Salvemini, o senador Zanotti Bianchi e também aquele “osso duro deroer” que era Achille Malcovati, grande personagem da indústria e eminênciaparda de muitos políticos de destaque. Só para citar alguns. Iam encontrá-lo eele, com todas as letras, dizia que não entendia nem pretendia ocupar-se deprogramas políticos, obstinado como era em seguir a “sua” política: “A políticado Pater noster”. Aúnica eficaz. A única que não se limita entre fronteiras e “é plenamenterealizável”, explicava. A única pela qual estava disposto a cruzar até ooceano. Depois dos terremotos na Sicília e em Marsica, em 1915, que o fizeramafundar os braços e o coração nos destroços das misérias humanas, ele nãoescondia o desejo de embarcar como missionário para as Américas. Um dia contouesse desejo ao próprio Pio X, e este, em resposta, enviou-o rapidamente à“Patagônia romana”, a periferia abandonada a leste de Roma. Mas chegou o dia emque realmente partiu.

Coisas do outro mundo
Zarpou para a América Latina em 24 desetembro de 1934.
Para dizer a verdade, jáhavia posto os pés no continente em 1921. E na ocasião também não passoudespercebido, esse padre que não se pode catalogar, com seus tons às vezesexplosivos, que não usa meios termos quando se trata de denunciar os abusos depoder e a injustiça social, e que prega que a verdadeira revolução se faz dejoelhos, diante do tabernáculo.
No Brasil, deixou o cleroatônito com sua “pastoral dos negros”. Mais uma vez, havia apenas antecipado ostempos. Quem insistiu para que ele fizesse aquela viagem foi uma de suas filhasespirituais: madre Teresa Michel, uma “doida” como ele, temível concorrente emtermos de fé na Providência, à qual Dom Orione era grato por ter recebido delaconselhos e conforto em circunstâncias difíceis.
Nesta nova viagem, na popado “Conte Grande”, que o levou à Argentina, estava também o futuro Pio XII, queviajava para o Congresso Eucarístico Internacional. O cardeal Pacelli, durantea travessia, teve oportunidades para manifestar sua estima. Dom Orione conheciabem seu irmão, o advogado Francesco, que fizera parte das negociações oficiaisda Concordata. Mas “o confessor do Conte Grande”, como o haviam rebatizado nonavio, esquivo aos triunfos, quando chegou a Buenos Aires manteve os olhosarregalados para um enorme panorama de misérias. Lembra padre Dutto: “Elecomeça a procurar nos barracos, nas vielas, em bairros mal-afamados, paraencontrar aleijados, acidentados, doentes incuráveis, alcoolizados, dementes:elege-os seus senhores, lava as chagas deles com as próprias mãos, serve-os”.Na rua Carlos Pellegrini, em Buenos Aires, na casa que lhe fora doada por umanobre senhora, e que compartilhava com um ex-padre, um menino surdo-mudoacompanhado pela irmã doente e pela mãe viúva, nem é preciso dizer que vinhabater à sua porta um batalhão de pessoas cada vez maior e mais diversificado:pobres coitados, ricos proprietários de terras, profissionais, religiosos,oficiais. Em 1936, hospedou ali Jacques Maritain, manteve contatos com oarcebispo Copello, com o núncio e também com o chefe de Estado. Seus noviciadose casas foram se abrindo um atrás do outro; assim, como sempre, floresciam asobras que ele sempre deixava por onde passava: a partir de um gesto concreto,de uma resposta imediata, de uma intuição, de um encontro fortuito, de umacircunstância rocambolesca. E as obras iam se realizando com um dinheiro queparecia sair diretamente das barbas de São José e dos bolsos daqueles ricosque, confiantes, não hesitavam em pôr seu dinheiro em segurança nos bolsosfurados de Dom Orione. Ele parecia ter fixado raízes naquela terra de espaçosamplos e grandes horizontes, e de nada valiam os convites para que voltasse àItália, que iam se tornando cada vez mais insistentes depois de algum tempo.Ele, indiferente, continuava a abrir portas. Pedia mais pessoal. O bom padreSterpi, do outro lado do oceano, que fora designado para dirigir a Congregação,não sabia mais a quem recorrer, e suplicava, rogava que Dom Orione voltasse.Além de tudo, começavam a soprar ventos de guerra, e havia problemas com obispo de Tortona. No fim, depois de se esgotar todo tipo de argumentoconvincente, Dom Orione escreveu a padre Sterpi: “Por mais que suas cartas mesejam extremamente caras, peço-lhe que não me escreva mais, pois, dando-menotícias das casas novas que se abrem cada vez mais, você me mata”. Em trêsanos, percorreu uma distância dez vezes superior à que existe entre a Itália ea Argentina, “rezando ao Senhor que multiplicasse Suas obras”, num mergulhoconstante na realidade, que não conhecia obstáculos. “Eu gostaria de ter cem,mil braços, para chegar aonde ninguém quer ir”, e dar vida e mais vida àquelefogo indomável que o queimava por dentro. A Argentina jamais o esquecerá.

Um padre e tão-somente isso
Dom Orione desembarcava no porto deNápoles em agosto de 1937.
De volta das Américas,convidaram-no a proferir palestras. Ele não tinha mesmo nenhuma intenção deesconder as obras da Providência. Em vez disso, alérgico a homenagens, o queescondia era a sua pessoa, quando isso dependia dele. Durante uma de suaspalestras, na Aula Magna da Universidade Católica de Milão, foi obrigado aouvir o orador oficial, que discorreu longamente sobre seus méritos. As pessoaspróximas o viram cobrir o rosto com as mãos, agitar-se na cadeira, como seestivesse sofrendo uma tortura. E de repente, sem a mínima ostentação, com todaa veemência de seu caráter impetuoso, explodiu: “Mas que Dom Orione que nada!Que Dom Orione, esse camponês de Pontecurone! Não acreditem no que ele estádizendo! Não acreditem!”. Outra vez, na inauguração do instituto São Filipe, emRoma, coube-lhe o mesmo suplício. Aninhado na terceira fila, franzindo a testa,ouvia as expressões que o senador Cavazzoni empregava para elogiá-lo. Olhava emvolta para ver se havia uma passagem por onde escapar. Nada. No salãosuperlotado estavam presentes também o presidente do Senado, o cardeal Salottie grande número de autoridades. No final, ele foi chamado ao palco. A voz traíaa timidez sincera e o esforço para não dizer palavras pouco oportunas; e então começouassim: “Eu não sei falar. Eu só sei fazer confusão... e estou certo de queentre todos os padres aqui presentes não há nenhum mais pecador do que eu”. Edepois, dirigindo-se ao orador: “Meu caro senador, quem foi que lhe disse todasessas bobagens a meu respeito?”. E, levantando então a voz, de modo a serentendido: “A verdade é esta, e eu quero que ela seja viva e presente a todos:eu não sou fundador de nada! Eu não conto absolutamente nada!”. E como chegarahavia pouco tempo da Argentina, recorreu ao espanhol de São João da Cruz,dizendo “Nada! Nada!”, em vez do “Niente” italiano. “Pois, se eu tive de rodarmeio mundo, indo até as distantes Américas, é porque é assim que se faz com ummiquinho de circo ou com um macaco qualquer.” Mas Dom Orione não agia assimquando se tratava de assumir alguma falta; nesses casos ele sempre estavapronto a dar um passo à frente, reconhecendo até publicamente seus erros.Esclarecia: “Se existe algo de bom na Pequena Congregação, é tudo obra ebondade da divina Providência. Se existe algo de defeituoso e desajeitado, étudo coisa minha, só minha, e talvez também de algum de vocês, ó meus carosfilhinhos!”. Se os louvores o feriam, as injúrias também, mas estas ele astomava como um bem. Conta padre De Paoli: “Um de seus filhinhos, quando iaabandonar a Congregação, cobriu-o de insultos e maldades. Eu estava presente.Dom Orione então lhe deu dinheiro, abraçou-o com ternura, beijou-o na testa,desejou-lhe todo o bem e quis que nós rezássemos por ele como por um benfeitor”.
No pé de uma foto que oimortaliza durante a subida do monte Soratte, quando ia visitar seus eremitasna garupa de um asno, Dom Orione escreveu: “Ele e eu somos dois”. Só paralembrar, com sua ironia simples, que não se levava em conta de jeito nenhum.Enquanto isso, em Tortona, as águas se agitavam de novo. O bispo se lamentava.Maldades, indiscrições, acusações, calúnias. E ainda hostilidade e tormentos.Dom Orione mandou um bilhete a um amigo que vivia em Roma: “Eu perdôo a todos efico bem contente por estar longe das intrigas e da balbúrdia de Tortona. Meussacerdotes rezam, se calam e esperam comigo, fidentes in Domino... Que os inimigos me arranquem até osolhos; basta que deixem o coração para amá-los...”. Um de seus religiosos, aoqual dera encargos de confiança, escreveu-lhe uma carta “feia e mentirosa”. DomOrione ficou mal com isso. Padre Cribellati o interpelou, para que adotasseprovidências. Dom Orione respondeu: “Que nada... Diante dessas pessoas: a) sereza a Deus; b) se perdoa; c) se ama”.
“Nossa caridade é umdulcíssimo e louco amor por Deus e pelos homens que não é deste mundo”, haviaescrito quando ia para a Argentina. Alguns anos depois, seu coração começava alhe pregar peças. Em 1939, teve um grave ataque de angina do peito; em fevereirode 1940, outro. Em 8 de março, em Tortona, na Casa Mãe, pediu os últimossacramentos e cumprimentou a todos com o último “boa noite”. No dia seguintepartiu para San Remo, de onde sabia que não voltaria mais, indo ao encontro damorte como se estivesse abrindo uma outra porta: “Jesus, Jesus... estou indo”.E essa, no fundo, foi a maior peça que o seu coração nos pregou: para falardele, é preciso necessariamente abrir espaço a um Outro. Deus é admirável emseus santos. Quanto a si mesmo, na epígrafe esculpida em seu túmulo estáescrito: Aloysius Orione Sacerdos. Te Christus in Pace. Nada mais do que isso. Sacerdos. Essa é realmente a única coisa quetalvez aceitasse que dissessem dele, aquilo que ele é e foi, simplesmente: umpadre, e tão-somente isso. Que São Luís Orione nos perdoe.


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