O santo do imprevisto
Da amizade com os modernistas à política do Pater noster, a única eficaz. Dos primeiros tempos em Tortona às viagens à América Latina. Episódios da vida de padre Luís Orione que permitem perceber o fascínio que despertava
de Stafania Falasca

Dom Orione, com um grupo de amigos e benfeitores
Basta olhar para o quão inesperadafoi toda a sua vida sem limites, de 23 de junho de 1872 a 12 de março de 1940:um mar aberto de histórias, circunstâncias e grandes obras imprevistas, umamistura constante e surpreendente de pontífices e ex-presidiários, homens deEstado e pobres coitados, eremitas, políticos e abandonados, literatos, órfãos,santos e pessoas bem ao contrário disso. Nem o mais hábil escritor conseguiriacontar tudo isso ao mesmo tempo. Teria de segui-lo por um caminho e, a certaaltura, voltar atrás para tomar um outro, e depois mais outro ainda. E enquantoisso o protagonista percorre todos os caminhos ao mesmo tempo, sem se preocuparem saber aonde vão levá-lo. E se com ele a pena está sempre atrasada e a páginaé sempre pequena demais, invariavelmente algo acaba por ficar de fora. E nãosão apenas fragmentos. É toda uma vida que cotidianamente transborda das linhase que o vê concentrado como “servente da Providência”, a abrir portas, aescancará-las, deixando-se provocar pela realidade, lendo e antecipando ostempos com formidável perspicácia. Muitos pensaram em enquadrá-lo. Tiveram dese render ao “doido de Deus”. “Uma das personalidades mais originais eeminentes do século XX”, disseram. O escritor inglês Douglas Hyde, ateuconvertido, numa famosa biografia de Dom Orione, definiu-o “o bandido de Deus”,esse “gênio da caridade”, sobretudo porque fez obras-primas sem se dar contadisso. O certo é que esse padre de ar um pouco desajeitado, que “teve a têmperae o coração do apóstolo Paulo, impulsivo e tenaz, terno e sensível a ponto dechegar às lágrimas, incansável e corajoso até a audácia”, teve o dom deiluminar homens sem fé. Alguém observou que até os padres ele conseguia comovere fazer chorar. Parece uma coisa um tanto difícil. A pregação de Dom Orione eraacompanhada também por esse milagre. Só nos resta então tentar andar na coladele, pelas estradas da sua vida imprevista, e pedir que venha ao nossoencontro, e nos aproximarmos dele e nos deixarmos aquecer ao fogo ardente dessacaridade.

Acima, Dom Orione com padre Umberto Terenzi (o primeiro à esquerda), no santuário do Divino Amor; abaixo, com o cardeal Ildefonso Schuster, durante a cerimônia de deposição da pedra inaugural dos novos pavilhões do Pequeno Cotolengo milanês, em setembro de 1938

Dom Orione colaborou com os organismos vaticanos como mediador pela conciliação entre Estado e Igreja na Itália
Em 1907, com a encíclica Pascendi
Mas devemos imaginar oclima de caça às bruxas que veio a se instaurar depois da Pascendi

Dom Orione a bordo do navio Conte Grande, que o levaria, em setembro de 1934, à Argentina

Dom Orione em Claypole, com o núncio Cortesi, abençoa a pedra inaugural do Pequeno Cotolengo argentino, em abril

Acima, durante uma palestra na Aula Magna da Universidade Católica de Milão; abaixo, numa foto de grupo na paróquia de Todos os Santos, no bairro Appio, de Roma, para onde o papa Pio X o havia mandado
Essa carta é uma peçaimportante para entender o papel desempenhado por Dom Orione nas preliminares eno início das próprias negociações. Está documentado que Dom Orione foi um dosprimeiros a intuir, em 1923, que o novo clima político nacional poderiaencerrar a controvérsia entre Estado e Igreja, e está documentado também queele esteve presente na primeira reunião preparatória, ao lado de padreGenocchi, realizada na casa dos condes Santarelli, em Roma. Nessa carta éinterpretada como a própria expressão da Santa Sé, que quis entregar a umsacerdote de confiança e de reconhecido valor moral para a opinião pública, umamensagem clara ao governo italiano, sem comprometer a própria autoridade.
De fato, não se sabe se posthoc ou propter hoc
Uma lucidez, uma visão delongo alcance, isso está claro. O que é preciso dizer é que por esses dons eleera ouvido não somente pelos papas, mas também pelos políticos. Em Roma, naresidência de Via delle Sette Sale, batiam à sua porta personalidades comoGaetano Salvemini, o senador Zanotti Bianchi e também aquele “osso duro deroer” que era Achille Malcovati, grande personagem da indústria e eminênciaparda de muitos políticos de destaque. Só para citar alguns. Iam encontrá-lo eele, com todas as letras, dizia que não entendia nem pretendia ocupar-se deprogramas políticos, obstinado como era em seguir a “sua” política: “A políticado Pater noster”. Aúnica eficaz. A única que não se limita entre fronteiras e “é plenamenterealizável”, explicava. A única pela qual estava disposto a cruzar até ooceano. Depois dos terremotos na Sicília e em Marsica, em 1915, que o fizeramafundar os braços e o coração nos destroços das misérias humanas, ele nãoescondia o desejo de embarcar como missionário para as Américas. Um dia contouesse desejo ao próprio Pio X, e este, em resposta, enviou-o rapidamente à“Patagônia romana”, a periferia abandonada a leste de Roma. Mas chegou o dia emque realmente partiu.
Para dizer a verdade, jáhavia posto os pés no continente em 1921. E na ocasião também não passoudespercebido, esse padre que não se pode catalogar, com seus tons às vezesexplosivos, que não usa meios termos quando se trata de denunciar os abusos depoder e a injustiça social, e que prega que a verdadeira revolução se faz dejoelhos, diante do tabernáculo.
No Brasil, deixou o cleroatônito com sua “pastoral dos negros”. Mais uma vez, havia apenas antecipado ostempos. Quem insistiu para que ele fizesse aquela viagem foi uma de suas filhasespirituais: madre Teresa Michel, uma “doida” como ele, temível concorrente emtermos de fé na Providência, à qual Dom Orione era grato por ter recebido delaconselhos e conforto em circunstâncias difíceis.
Nesta nova viagem, na popado “Conte Grande”, que o levou à Argentina, estava também o futuro Pio XII, queviajava para o Congresso Eucarístico Internacional. O cardeal Pacelli, durantea travessia, teve oportunidades para manifestar sua estima. Dom Orione conheciabem seu irmão, o advogado Francesco, que fizera parte das negociações oficiaisda Concordata. Mas “o confessor do Conte Grande”, como o haviam rebatizado nonavio, esquivo aos triunfos, quando chegou a Buenos Aires manteve os olhosarregalados para um enorme panorama de misérias. Lembra padre Dutto: “Elecomeça a procurar nos barracos, nas vielas, em bairros mal-afamados, paraencontrar aleijados, acidentados, doentes incuráveis, alcoolizados, dementes:elege-os seus senhores, lava as chagas deles com as próprias mãos, serve-os”.Na rua Carlos Pellegrini, em Buenos Aires, na casa que lhe fora doada por umanobre senhora, e que compartilhava com um ex-padre, um menino surdo-mudoacompanhado pela irmã doente e pela mãe viúva, nem é preciso dizer que vinhabater à sua porta um batalhão de pessoas cada vez maior e mais diversificado:pobres coitados, ricos proprietários de terras, profissionais, religiosos,oficiais. Em 1936, hospedou ali Jacques Maritain, manteve contatos com oarcebispo Copello, com o núncio e também com o chefe de Estado. Seus noviciadose casas foram se abrindo um atrás do outro; assim, como sempre, floresciam asobras que ele sempre deixava por onde passava: a partir de um gesto concreto,de uma resposta imediata, de uma intuição, de um encontro fortuito, de umacircunstância rocambolesca. E as obras iam se realizando com um dinheiro queparecia sair diretamente das barbas de São José e dos bolsos daqueles ricosque, confiantes, não hesitavam em pôr seu dinheiro em segurança nos bolsosfurados de Dom Orione. Ele parecia ter fixado raízes naquela terra de espaçosamplos e grandes horizontes, e de nada valiam os convites para que voltasse àItália, que iam se tornando cada vez mais insistentes depois de algum tempo.Ele, indiferente, continuava a abrir portas. Pedia mais pessoal. O bom padreSterpi, do outro lado do oceano, que fora designado para dirigir a Congregação,não sabia mais a quem recorrer, e suplicava, rogava que Dom Orione voltasse.Além de tudo, começavam a soprar ventos de guerra, e havia problemas com obispo de Tortona. No fim, depois de se esgotar todo tipo de argumentoconvincente, Dom Orione escreveu a padre Sterpi: “Por mais que suas cartas mesejam extremamente caras, peço-lhe que não me escreva mais, pois, dando-menotícias das casas novas que se abrem cada vez mais, você me mata”. Em trêsanos, percorreu uma distância dez vezes superior à que existe entre a Itália ea Argentina, “rezando ao Senhor que multiplicasse Suas obras”, num mergulhoconstante na realidade, que não conhecia obstáculos. “Eu gostaria de ter cem,mil braços, para chegar aonde ninguém quer ir”, e dar vida e mais vida àquelefogo indomável que o queimava por dentro. A Argentina jamais o esquecerá.
De volta das Américas,convidaram-no a proferir palestras. Ele não tinha mesmo nenhuma intenção deesconder as obras da Providência. Em vez disso, alérgico a homenagens, o queescondia era a sua pessoa, quando isso dependia dele. Durante uma de suaspalestras, na Aula Magna da Universidade Católica de Milão, foi obrigado aouvir o orador oficial, que discorreu longamente sobre seus méritos. As pessoaspróximas o viram cobrir o rosto com as mãos, agitar-se na cadeira, como seestivesse sofrendo uma tortura. E de repente, sem a mínima ostentação, com todaa veemência de seu caráter impetuoso, explodiu: “Mas que Dom Orione que nada!Que Dom Orione, esse camponês de Pontecurone! Não acreditem no que ele estádizendo! Não acreditem!”. Outra vez, na inauguração do instituto São Filipe, emRoma, coube-lhe o mesmo suplício. Aninhado na terceira fila, franzindo a testa,ouvia as expressões que o senador Cavazzoni empregava para elogiá-lo. Olhava emvolta para ver se havia uma passagem por onde escapar. Nada. No salãosuperlotado estavam presentes também o presidente do Senado, o cardeal Salottie grande número de autoridades. No final, ele foi chamado ao palco. A voz traíaa timidez sincera e o esforço para não dizer palavras pouco oportunas; e então começouassim: “Eu não sei falar. Eu só sei fazer confusão... e estou certo de queentre todos os padres aqui presentes não há nenhum mais pecador do que eu”. Edepois, dirigindo-se ao orador: “Meu caro senador, quem foi que lhe disse todasessas bobagens a meu respeito?”. E, levantando então a voz, de modo a serentendido: “A verdade é esta, e eu quero que ela seja viva e presente a todos:eu não sou fundador de nada! Eu não conto absolutamente nada!”. E como chegarahavia pouco tempo da Argentina, recorreu ao espanhol de São João da Cruz,dizendo “Nada! Nada!”, em vez do “Niente” italiano. “Pois, se eu tive de rodarmeio mundo, indo até as distantes Américas, é porque é assim que se faz com ummiquinho de circo ou com um macaco qualquer.” Mas Dom Orione não agia assimquando se tratava de assumir alguma falta; nesses casos ele sempre estavapronto a dar um passo à frente, reconhecendo até publicamente seus erros.Esclarecia: “Se existe algo de bom na Pequena Congregação, é tudo obra ebondade da divina Providência. Se existe algo de defeituoso e desajeitado, étudo coisa minha, só minha, e talvez também de algum de vocês, ó meus carosfilhinhos!”. Se os louvores o feriam, as injúrias também, mas estas ele astomava como um bem. Conta padre De Paoli: “Um de seus filhinhos, quando iaabandonar a Congregação, cobriu-o de insultos e maldades. Eu estava presente.Dom Orione então lhe deu dinheiro, abraçou-o com ternura, beijou-o na testa,desejou-lhe todo o bem e quis que nós rezássemos por ele como por um benfeitor”.
No pé de uma foto que oimortaliza durante a subida do monte Soratte, quando ia visitar seus eremitasna garupa de um asno, Dom Orione escreveu: “Ele e eu somos dois”. Só paralembrar, com sua ironia simples, que não se levava em conta de jeito nenhum.Enquanto isso, em Tortona, as águas se agitavam de novo. O bispo se lamentava.Maldades, indiscrições, acusações, calúnias. E ainda hostilidade e tormentos.Dom Orione mandou um bilhete a um amigo que vivia em Roma: “Eu perdôo a todos efico bem contente por estar longe das intrigas e da balbúrdia de Tortona. Meussacerdotes rezam, se calam e esperam comigo, fidentes in Domino
“Nossa caridade é umdulcíssimo e louco amor por Deus e pelos homens que não é deste mundo”, haviaescrito quando ia para a Argentina. Alguns anos depois, seu coração começava alhe pregar peças. Em 1939, teve um grave ataque de angina do peito; em fevereirode 1940, outro. Em 8 de março, em Tortona, na Casa Mãe, pediu os últimossacramentos e cumprimentou a todos com o último “boa noite”. No dia seguintepartiu para San Remo, de onde sabia que não voltaria mais, indo ao encontro damorte como se estivesse abrindo uma outra porta: “Jesus, Jesus... estou indo”.E essa, no fundo, foi a maior peça que o seu coração nos pregou: para falardele, é preciso necessariamente abrir espaço a um Outro. Deus é admirável emseus santos. Quanto a si mesmo, na epígrafe esculpida em seu túmulo estáescrito: Aloysius Orione Sacerdos. Te Christus in Pace