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RESSURREIÇÃO DE JESUS
Extraído do número 05 - 2004

“Um acontecimento que precedia o pensamento e a vontade deles”


A introdução do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé à nova tradução do pequeno livro de Heinrich Schlier sobre a ressurreição de Jesus Cristo, que será lançado na Itália, organizado por 30Dias em colaboração com a editora Morcelliana


Cardeal Joseph Ratzinger


<I>Jesus ressuscitado e Maria Madalena</I>. Giotto, Capela degli Scrovegni, Pádua

Jesus ressuscitado e Maria Madalena. Giotto, Capela degli Scrovegni, Pádua

Alegro-me de que 30Giorni torne acessível ao público italiano, numanova tradução, o pequeno livro sobre a ressurreição de Jesus que HeinrichSchlier publicou pela Johannes Verlag - editora fundada e dirigida por Hans Ursvon Balthasar - em 1968, num momento em que teorias, que circulavam em ambienteprotestante havia diferentes tempos e com diferentes variantes, eramapresentadas na teologia católica como algo novo, aquisição científica segura àqual se acabara de chegar. Teorias para as quais Jesus teria ressuscitado“dentro do kerygma”(segundo a fórmula de Bultmann), ou seja, a ressurreição nada mais significariasenão o reconhecimento por parte dos discípulos de que “a causa de Jesuscontinua” (como dizia Willi Marxsen). Schlier era um seguidor destacado deRudolf Bultmann. Em 1953, surpreendendo o Mestre, converteu-se à IgrejaCatólica e disse que essa sua conversão acontecera segundo uma modalidadeinteiramente protestante, ou seja, por meio de sua relação com a Escritura.Schlier foi grato a Bultmann pelo resto da vida, por tudo o que aprendeu comele sobre a maneira de abordar os textos bíblicos, e ficou também pelo resto davida estreitamente ligado ao pensamento filosófico de Martin Heidegger.Portanto, estamos diante de um mestre de exegese que não conheceu os problemasda modernidade apenas de fora, mas que cresceu neles e encontrou seu caminho noconfronto constante com eles.
Poderia se revelar útil ao leitor atualcomeçar a ler o livro pelas duas últimas páginas, nas quais a consciênciametódica do autor aparece de maneira muito concisa, mas, exatamente por isso,também muito precisa. Schlier se dava conta perfeitamente de que a ressurreiçãode Jesus dos mortos representa um problema-limite para a exegese; mas nele setorna particularmente claro que a interpretação do Novo Testamento, se quiserchegar ao coração da questão, deverá lidar sempre com problemas-limite. A fé naressurreição presente nos Escritos neotestamentários põe o exegeta diante deuma alternativa que exige dele uma decisão. Certamente, o exegeta podecompartilhar a opinião de que há homogeneidade em toda a história (opinião quese tornou visão de mundo na historiografia), segundo a qual só pode terrealmente acontecido algo que puder acontecer sempre. Mas, assim, é obrigado anegar a ressurreição como evento e tem de procurar esclarecer o que há por trásdela, como é que podem surgir idéias como essa. Ou, em vez disso, pode sedeixar arrastar pela evidência de um fenômeno que interrompe a sérieconcatenada dos eventos, para depois procurar entender o que isso podesignificar. O pequeno livro de Schlier, no fim das contas, mostra simplesmenteisto: que os discípulos se deixaram arrastar por um fenômeno que se manifestavapara eles, por uma realidade inesperada, inicialmente até incompreensível, eque a fé na ressurreição brotou desse ser arrastados, ou seja, de umacontecimento que precedia o pensamento e a vontade deles, que, mais do queisso, virava esse pensamento e essa vontade de ponta-cabeça.
Quem quer que leia o livro de Schlier veráque o autor fez a mesma experiência dos discípulos: ele mesmo é alguémarrastado “pela evidência de um fenômeno que, por si mesmo, se manifestou comnaturalidade”; em outras palavras, é alguém que crê, mas alguém que crê demaneira razoável. Toda a sua vida foi deixar-se arrastar pelo Senhor que oguiava. Schlier não reduz banalmente o fenômeno da ressurreição à ordinariedadede um fato qualquer. A originalidade desse acontecimento, que se espelha nosrelacionamentos tão singulares instaurados pelo Ressuscitado, aparececlaramente em seu livro. Não é um evento como todos os outros, mas algo queescapa ao que ordinariamente acontece como história. Nasce daqui a dificuldadede uma interpretação objetiva; é daqui que se entende também a tentação de anularo evento como evento, para reinterpretá-lo como fato mental, existencial oupsicológico. Apesar de Schlier - como já dissemos - deixar intacto em suaparticularidade o que a ressurreição tem de singular, ou seja, o que tem deincompreensível para nós em última análise, manteve firme de qualquer forma -fiel ao testemunho dos textos e à evidência daquele início - “airreversibilidade e a irredutibilidade da seqüência ‘aparição doRessuscitado’-‘kerygma’-‘fé’”;entendendo, por ressurreição, “um evento, ou seja, um acontecimento históricoconcreto”; ou, dito de outra forma, que “a palavra daqueles que vêem oRessuscitado é a palavra de um evento que vai além das testemunhas”.
Sendo que as tentações de 1968 não sãohoje menos atuais do que naquela época, este continua a ser ainda hoje um livrobastante útil, que, espero, tenha muitos leitores.


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