ÁFRICA
Extraído do número 03 - 2004
Moçambique. Crianças raptadas e mortas para o tráfico internacional de órgãos
O massacre dos inocentes
Na África, o número de menores que cada ano acaba na rede de traficantes de “mercadoria humana” está assumindo proporções assustadoras, a ponto de superar os lucros do tráfico de armas. A denúncia dos religiosos de Moçambique
de Giovanni Ricciardi
Foi necessário o sangue dos missionários para desvendar a tragédia deMoçambique. Doraci Julita Edinger, 53 anos, missionária da Igreja evangélicaLuterana do Brasil, há seis anos no país, no dia 21 de fevereiro teve umdestino infelizmente anunciado. Foi barbaramente assassinada a marteladas.Junto com as irmãs do convento Mater Dei das Servas de Maria, denunciara oscasos cada vez mais freqüentes de desaparecimento de crianças e adolescentes emNampula, no norte de Moçambique. Onde, há dois anos, com o silêncio da imprensainternacional e até mesmo das Organizações Não-Governamentais, está seconsumando um verdadeiro “massacre de inocentes”.

Os meninos de rua são um fenômeno comum emmuitos países do Terceiro Mundo, mas a sua exploração neste paupérrimo ânguloda África está assumindo dimensões terrificantes, principalmente porque estãoligadas, além da prostituição e da escravidão, também ao tráfico internacionalde órgãos. A morte da religiosa levou a “rede” missionária de Moçambique atentar de todos os modos romper a sombra de silêncio que até algumas semanasatrás pairava sobre os acontecimentos.
O número de menores que todos os anosacaba na rede de traficantes de “mercadorias humanas” na África está assumindoproporções assustadoras, a ponto de superar os lucros do tráfico de armas. EMoçambique, como muitos outros países míseros da África austral, é o centrodeste fenômeno. Em Nampula e nas zonas circundantes, a partir de 2002, odesaparecimento de menores multiplicaram-se. E, com isso, o descobrimento decorpos mutilados e privados de órgãos internos. O caso de Sarima Iburamo, umamenina de 12 anos desaparecida dia 12 de outubro de 2002, cujo corpo dilaceradofoi encontrado por Rufina Omar, a rainha das tribos da zona de Namipoco, nosarredorres da cidade, é emblemático. Mas os missionários já falavam há muitotempo de desaparecimento e de tráfico de órgãos. Doraci Edinger tinha lançado oalarme em 2001. Além da missionária assassinada e da leiga consagradabrasileira Elilde dos Santos, as religiosas do convento Mater Dei reunirammuitos testemunhos de raptos, desaparecimentos e macabros descobrimentos. PadreClaudio Avallone, da ordem dos Servos de Maria, conta que, neste último anonessa região, “as crianças desaparecidas são mais de 120. A grande maioria sãomeninos de rua que viviam no mercado, ao redor da catedral e em outros lugarespróximos. No almoço de Natal, preparado como todos os anos pela ordemhospitaleira de São João de Deus, apenas 15 dos 95 jovens previstosapresentaram-se”. Moisés, pastor da Igreja Evangélica, relata: “no ano passadoeu acompanhava mais de 150 meninos de rua, oferecendo-lhes comida, vestiáro ecadernos de aula: desde janeiro posso acompanhar apenas 9”.
Mas padre Cláudio viu muitas outras coisascom seus próprios olhos. “Um senhor idoso, chamado Pastola Cocola, guiou-me atéo local onde foram enterrados uma mulher, um homem e duas crianças encontradospela população sem os órgãos internos. Os cadáveres antes de serem sepultadospermanecem apodrecendo no local onde os criminosos os abandonaram. A populaçãonão avisa a polícia porque quem comunica a descoberta de um corpoautomaticamente é considerado suspeito e interrogado por vários dias: como umatortura psicológica. Além das irmãs, eu falei com muitas pessoas que viram cadáveressem olhos e sem órgãos, com pais que ainda esperam encontrar seus filhosdesaparecidos”.
A polícia local liquidava estes casosatribuindo-os a práticas tribais e à magia dos bruxos locais. Depois, em 13 desetembro de 2003, a arquidiocese de Nampula enviou uma denúncia à ConferênciaEpiscopal de Moçambique, assinada pelo arcebispo Dom Tomé Makhweliha, peloreitor do Seminário Interdiocesano da cidade e pelas religiosas presentes noterritório, que logo foi passado para o presidente da República JoaquimChissano.

Uma denúncia pormenorizada com nomes esobrenomes, diante da qual as autoridades nacionais demonstraram-se bastantesembaraçadas. Assim, foi sugerida a hipótese de que a iniciativa das autoridadeseclesiásticas quisesse obter o efeito de instigar a população contra ogovernador da província de Nampula, que é muçulmano.
O fato é que as religiosas do conventoMater Dei acusam abertamente um homem, Gary O’Connor, sul-africano de origemirlandesa, junto com a mulher dinamarquesa Tanja Skitte, de serem oscoordenadores de uma rede de traficantes que raptam as crianças e as mantêmprisioneiras até o momento da execução e a extração do órgão. O’Connor, chamadocom temor e tremor de “O Branco” pela população local, foi expulso do Zimbábueanos atrás e é o proprietário de uma fazenda de 300 hectares limítrofe com oconvento das servas de Maria. Oficialmente mantém uma criação de galinhas, que,segundo as irmãs, seria apenas de cobertura. De uma pista particular da fazendapartem com freqüência aviões para a África do Sul. Ali se encontra o epicentrodeste gênero de tráfico. As cidades sul-africanas de Durban e Pietermaritzburgsão os lugares onde os transplantes são materialmente efetuados a favor dosque, na Europa e nas Américas, podem-se permitir as despesas para obter umórgão sob “encomenda”. No final de 2003, a polícia sul-africana desmantelou umarede internacional de traficantes de órgãos que se “apoiava” em um hospitalparticular de Durban, o Saint Augustin Hospital. Os “doadores” de órgãos, nestecaso, recrutados nos Estados mais pobres do Brasil, submetiam-sevoluntariamente à extração de um rim recebendo em troca cerca de 3 mil dólares.A organização pagava a viagem e o serviço, mas parece que o “mercado”moçambicano é mais próximo e menos custoso.
Agora, depois da morte da missionáriabrasileira, teme-se pelo destino das outras irmãs presentes em Nampula. Tantoque o Conselho permanente da Cirm, a Conferência dos Religiosos e dasReligiosas de Moçambique, publicou no dia 29 de fevereiro passado um documentooficial, assumindo as denúncias das religiosas e solicitando a intervenção dacomunidade internacional. O documento conta com a assinatura dos responsáveisde nove congregações presentes em Moçambique.
Quanto a O’Connor, o sul-africano declaraser inocente e, segundo ele, vítima de uma engrenagem organizada pelo “altoescalão” da Igreja Católica e das irmãs para tirar-lhe a terra – como foi dito,o convento Mater Dei é contíguo à fazenda de O’Connor – e obter fundos.
O procurador-geral, senhor Madeira, que em12 de fevereiro tinha negado publicamente a existência de um tráfico de menorese de órgãos, nos últimos dias declarou, ao invés, que o tráfico existe, que éadministrado por uma rede internacional e que foram descobertas crianças seqüestradase mantidas prisioneiras nas cidades de Nacala e Nampula. E enquanto na imprensainternacional, principalmente portuguesa, mas também espanhola e francesa, anotícia teve uma grande repercussão – o jornal El País justamente no dia 11 de março, dia datragédia de Madri, mas também o Le Monde e a BBC, publicaram amplamente a notícia – , na Itália osmeios de comunicação parecem ignorar o caso. As únicas exceções foram uminquérito publicado por Lorenzo Sani no jornal Resto del Carlino e o espaço concedido pelo programaradiofônico da RAI, Zapping, ao padre Benito Fusco dos Servos de Maria, que está tentando despertarinteresse e atrair a opinião pública internacional. Uma campanha que começa adar os seus primeiros frutos. O Ministério das Relações Exteriores da Itáliaestá fazendo pressão sobre o governo de Moçambique para que estes esclareçam aquestão: os fundos para os projetos de cooperação e desenvolvimento foramcongelados. “O nosso embaixador”, declarou o ministro do exterior italianoFrattini, “recebeu pessoalmente a missão especial de permanecer sempre emcontato e de fornecer informações constantes sobre o andamento dasinvestigações, justamente porque o governo italiano não quer deixar nenhumespaço não investigado sobre a exploração que está ocorrendo”. E acrescentou:“Não há dúvidas de que para esclarecer os contornos dessa história é preciso deuma investigação séria e aprofundada. Nós solicitamos com firmeza, em viaoficial, ao governo de Moçambique. Um assunto tão delicado não pode deixar margensde dúvidas. Se por um lado há os que sustentam que as denúncias não foramdemonstradas, e que até agora não obtiveram nenhuma confirmação, por outrosublinhamos que para nós esta resposta não é suficiente. E mandamos dizer aoprocurador-geral de Moçambique: os órgãos judiciários e de polícia deMoçambique devem fornecer uma prova convincente e segura de que tudo aquilo nãoé verdadeiro. Não se pode pensar em resolver um caso como este solicitandoo objeto da prova aos que fizerama denúncia”.
Uma comissão parlamentar moçambicana foiaté Nampula para acertar a consistência das acusações. E os religiosos deMoçambique chamaram mais uma vez a atenção sobre o caso no dia 24 de março, diaem que a Cirm convidou todos a jejuar para denunciar o “massacre dos inocentes”de Moçambique e de todo o Terceiro Mundo, no aniversário do “martírio”, comoreza o documento dos religiosos, de Oscar Arnulfo Romero.

Um grupo de meninos de rua hospedados na casa de acolhida adminstrada pelas irmãs combonianas em Nampula

A partir da esquerda, irmã Angelina Zenti, responsável pelas sessenta combonianas em Moçambique, irmã Juliana, priora do convento Mater Dei das Servas de Maria, e Elilde dos Santos enquanto conversam com uma jovem de Nampula