ESTADOS UNIDOS E SANTA SÉ
Extraído do número 02 - 2004
História das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Santa Sé
Depois de 11 de setembro. A guerra no Iraque. Os vinte cinco anos de pontificado. A questão dos OGM O embaixador americano junto à Santa Sé continua a sua reconstrução da história das relações entre os EUA e a Santa Sé. A primeira parte foi publicada na 30Dias n.10 de 2002
de Jim Nicholson
organizado por G. Cubeddu

Depois de 11 de setembro.
Uma voz contra a violência
em nome da religião
Quando os Estados Unidos foram atacados em 11 desetembro de 2001, deparou-se diante de uma crise de segurança diversa de tudo oque já fora enfrentado no passado. Contrastando com Pearl Harbor – uma agressãomilitar injustificada de um país contra um outro – os ataques terroristas noslevaram a perseguir um inimigo indistinto que atuava em muitos Estados-nação,capaz de atingir os interesses americanos em pátria ou mesmo no exterior. OPresidente Bush reconheceu que tal inimigo só poderia ser derrotado com a maiorajuda internacional possível e empenhou-se em constituir uma coalizão de maisde 170 países determinados a se oporem ao terror. Nesta coalizão o sustento da SantaSé reforçou enormemente os fundamentos morais de tal esforço global paraderrotar o terrorismo.
Iraque: como justificar
a guerra a um homem de paz
Enquanto a luta contra o terrorismo global procedia enós ficávamos sabendo cada vez mais sobre as tentativas dos terroristas deobter armas de destruição de massa, os Estados Unidos começaram a focalizar comuma atenção cada vez maior os Estados com precedentes no desenvolvimento e nouso de armas de destruição de massa. O Iraque de Saddam Hussein, quedemonstrara um grande desprezo pelo próprios cidadãos, usando voluntariamentearmas biológicas e químicas contra seus vizinhos e contra os própriosiraquianos e que mantivera por muito tempo ligações com os hezbollah
A guerra justa. O papel central
de Santo Agostinho
Logo que entramos no ano novo, essa diversidade deabordagem sobre como obter o desarmamento iraquiano e promover a segurança daregião originou um debate internacional para estabelecer quando uma açãomilitar pode ser considerada oportuna para alcançar as finalidades internacionaisdesejadas. Dado que o depósito da tradição da “guerra justa” remonta a Santo Agostinho, a Santa Séencontrou-se cada vez mais como centro do debate global sobre a guerra noIraque. No seu tradicional discurso aos diplomatas acreditados junto à SantaSé, no início do ano, o Papa delineou a sua posição sobre o Iraque. Começandocom um imperativo “Não à guerra!”, o Papa continuou: “Ela nunca é umafatalidade. Ela é sempre uma derrota da humanidade”. Embora a sua oposição àguerra fosse forte, o Papa acrescentou também que “não podemos recorrer a ela,mesmo quando se trata de garantir o bem comum, a não ser como últimapossibilidade segundo condições muito rigorosas”11 – um juízo que os EstadosUnidos compartilhavam. A Santa Sé apelou a todo o mundo para ter certeza de queos três sólidos critérios da tradição da guerra justa fossem respeitados: que aguerra fosse combatida para a defesa própria ou para defender outros, que o usoda força tivesse uma razoável probabilidade de sucesso e que todos os outrosmeios não violentos já tivessem sido aplicados. A mensagem do Papa, que me foirepetida insistentemente nos meus encontros no Vaticano, era que a comunidadeinternacional tentasse todos os meios possíveis, fora a guerra, para alcançar ofim compartilhado do desarmamento iraquiano, mas que a doutrina da Igreja nãoexcluía a legitimidade do uso da força se submetida a critérios claramentedefinidos e depois que fossem esgotadas todas as alternativas. O PresidenteBush esclareceu que ele tentava manter-se fiel aos preceitos da guerra justa; todavia, no fim a Santa Sé eos Estados Unidos não concordaram sobre o fato de que todos os meios nãoviolentos já tivessem sido aplicados e que a ameaça de Saddam consentisse aindamais tempos para diálogos e inspeções.
Uma “estação da Via Sacra da diplomacia”
Enquanto em Nova York acendia-se o debate sobre umasegunda resolução das Nações Unidas, o Vaticano aparecia como uma encruzilhadainternacional para os líderes de ambas as partes do debate, que procuravamsustentar a sua causa diante do Papa para garantir o seu apoio moral, reforçandoassim suas próprias posições. Numerosos primeiros-ministros e ministros doexterior passaram por Roma para encontrar o Pontífice, levando o New YorkTimes a descrever oVaticano como “uma estação da Via Sacra da diplomacia”. Em duas semanas o Paparecebeu o vice-premiê iraquiano Tarek Aziz, o ministro do exterior alemãoJoschka Fischer, o secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan, oprimeiro-ministro britânico Tony Blair e o primeiro-ministro espanhol JoséMaria Aznar. Os hóspedes do Papa levaram à Cidade do Vaticano diferentesperspectivas, mas independente das teses que cada um sustentava no debate, amensagem do Papa foi clara e coerente14: primeiro, todas as partes têm aobrigação de se comprometer para a paz e a reconciliação; segundo, todas as partestêm a responsabilidade de colaborar com a comunidade internacional e adequar-seà justiça, inspirada na lei internacional e nos princípios éticos; enfim deveser dada especial atenção e consideração à situação humanitária do povoiraquiano.
A guerra
No dia 19 de março, depois de 12 anos de espera paraque Saddam Hussein cumprisse as condições impostas pelas Nações Unidas no finalda Guerra do Golfo em 1991, o Presidente anunciou que as forças dos EstadosUnidos se encaminhavam para libertar o povo iraquiano de Saddam Hussein, esustentou a sua decisão declarando: “Nós não podemos defender a América e osnossos amigos esperando que tudo corra bem. A história julgará severamente osque, mesmo vendo chegar este perigo, evitaram enfrentá-lo. No novo mundo, noqual entramos, o único caminho para a paz e a segurança é o da ação”17. OSecretário de Estado Colin Powell telefonara ao arcebispo Tauran no dia 17 demarço para avisá-lo de que se Saddam não respondesse ao apelo final doPresidente de abandonar o Iraque, a intervenção militar teria início. Garantiuao arcebispo que os Estados Unidos tinham consciência das preocupações do Papae que seria feito todo o possível para limitar as perdas e aliviar ossofrimentos. O arcebispo Tauran expressou a sua consideração pelo telefonema e afirmou,como fizera publicamente nos dias anteriores, que a avaliação do fato de quetodos os meios diplomáticos tinham sido esgotados agora passava às autoridadescivis, em conformidade com a doutrina da Igreja acerca da guerra justa.
Depois dos seus intensos esforços pessoais paraevitá-la, o Papa recebeu a notícia da explosão da guerra com “grande dor”, comodisse o seu porta-voz. A declaração acrescentava “por um lado, se lamenta que ogoverno iraquiano não tenha aceitado as resoluções das Nações Unidas e o apelodo próprio Papa, dado que ambos solicitavam o desarmamento do país. Por outro,se deplora que o caminho das negociações, segundo a lei internacional, para umasolução pacífica do drama iraquiano, tenha sido interrompido”18. Outrosfuncionários manifestaram temores de “um incêndio que poderia se propagar portodo o Oriente Médio, semeando ódio e inimizade contra a sociedade ocidentalconsiderada invasora”19 e predisseram destruição, hostilidade e odesenvolvimento de uma grave crise.
Em definitiva, enquanto os Estados Unidos e a SantaSé discordavam sobre o fato de que os meios pacíficos já tivessem sido todosempregados antes da decisão da guerra, a Santa Sé, fundamentalmente aceitavaque tais decisões coubessem à legítima autoridade civil. O arcebispo Tauransintetizou de maneira muito clara o papel da Santa Sé quando explicou à revistaitaliana Famiglia Cristiana que “a Santa Sé é uma potência moral, se assim se pode dizer, e deveser a voz da consciência. Recordamos o bem supremo da paz, da defesa da vida,da defesa dos direitos humanos e principalmente da necessidade de recorrersempre ao direito. As pessoas refletiram. Num certo momento a decisão pertenceaos responsáveis da sociedade. Eles devem estabelecer se a hora da diplomaciatenha terminado ou se tenha chegado a hora de passar à força. É deles aresponsabilidade e é a consciência deles que entra em jogo. Nós tentamosiluminar a consciência dos responsáveis”20.
Em 9 de abril, enquanto o subsecretário de EstadoJohn Bolton, a pedido da Casa Branca, fazia uma visita para começar a discutirsobre a possibilidade de uma cooperação pós-bélica com a Santa Sé no Iraque,Bagdá rendia-se e iniciavam as derrubadas das estátuas de Saddam. A Santa Sémanifestou o seu alívio pelo baixo número de mortes e fez uma declaração no dia10 de abril, definindo a queda do regime de Hussein “uma significativaoportunidade para o futuro da população”. Depois do encontro com osubsecretário Bolton, o Vaticano sublinhou a sua determinação em trabalharconosco para as necessidades pós-bélicas do povo iraquiano, evidenciando que “aIgreja Católica está pronta para prestar a necessária assistência através dassuas instituições sociais e de caridade”21.
Kissinger e a Pacem in terris
Ao concluir a primeira etapa das operações militarese tendo a nossa atenção dirigida à construção de um Iraque pacífico,democrático e tolerante, eu refletia sobre o meu papel como representante dopovo americano junto à Santa Sé durante este período histórico. A minharesponsabilidade e a dos meus colegas no corpo diplomático é a de favorecer osinteresses nacionais dos Estados Unidos, construindo um apoio internacionalpara as ações que acreditamos que possam criar um ambiente mundial estável paraos americanos para os outros povos. Para fazer isso, efetivamente, como HenryKissinger evidenciou, temos necessidade de estabelecer um consenso moralinternacional, deixando claro que os interesses dos Estados Unidos e os deoutros países podem ser obtidos da melhor maneira trabalhando para os valorescompartilhados de liberdade, de dignidade humana e de paz. Os meus esforçoscomo embaixador foram dirigidos para modelar um consenso moral sobre o Iraque.Embora a Santa Sé, no final, não tenha concordado com a decisão de recorrer àação militar, ela partilhava das nossas finalidades pela segurança regional einternacional e para acabar com a opressão do povo iraquiano. Enfim, não havianenhuma dúvida, em nenhuma das partes, que no Iraque de Saddam as condiçõespara uma verdadeira paz fossem ausentes.
Foi muito significativo que no início dessetumultuado ano, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, o Papa tenharecordado o modelo de paz delineado pela primeira vez pelo Papa João XXIII na Pacemin terris. O Papaidentificou quatro colunas fundamentais da paz: a verdade, a justiça, o amor ea liberdade. No caso do Iraque, não havia nenhuma dessas condições. Em vez doamor para com o próximo, Saddam usava armas químicas contra as populaçõesvizinhas e contra seus próprios cidadãos. Em vez da justiça, assistia-se aomassacre dos curdos, com inteiras famílias colocadas em fila diante de fossascomuns e fuziladas. Em vez da verdade, assistíamos ao engano para com acomunidade internacional. Em vez da liberdade, víamos opressão e medo. O ódio,a injustiça, o engano e o medo: não são esses os fundamentos da paz.
Administrar o pós-guerra.
Colin Powell no Vaticano
Aceitando a falta de qualquer fundamento para a paz,a questão que a comunidade internacional devia enfrentar era como criar ascondições para estabelecer premissas de paz para o futuro. Era este o desafioque o Presidente Bush e o resto do mundo tinham diante de si. Ao perigo e àinjustiça representados pelo regime de Saddam Hussein, os Estados Unidos comovoz predominante da paz e segurança deviam definir uma resposta queestabelecesse o fundamento daquela paz autêntica que todos nós procuramos. OPresidente Bush tinha ouvido com atenção os conselhos morais recebidos pelasautoridades religiosas ao modelar o seu critério de prudência nas respostas àsnovas ameaças presentes nessa época de terrorismo insensato. O própriopresidente é um homem de profunda fé. Por ocasião do National Prayer Breakfastde fevereiro de 2003 explicou a origem da sua decisão de agir: “Acreditamos nacausa dos Estados Unidos no mundo. A nossa nação é consagrada ao igual einegável valor de cada pessoa. Os ideais de liberdade e dignidade humana nãosão uma propriedade nossa... mas os apoiamos e os defenderemos”22.
Nesse período a Santa Sé continuava a admitir que nãohavia as colunas da paz e que Saddam Hussein representava uma ameaça para a suagente e para a região. Com efeito, o cardeal Laghi referira-se às quatrocolunas da paz no seu encontro com o Presidente. As nossas discussões,contrariando a percepção de “gelo nas relações” sugeridas pela mídia, foramsempre formuladas em base ao comum reconhecimento das culpas do Iraque e docomum interesse por um Iraque pacífico, desarmado e tolerante e, com efeito,sempre foram amistosas e concentradas em objetivos morais partilhados. Como oarcebispo Tauran explicou a um jornalista que o entrevistava sobre asdiscussões com os Estados Unidos quando o debate internacional estava no auge:“Estamos discutindo, mas com calma e serenidade. Diria que os Estados Unidosestão perseverando na defesa de sua posição”23. Além disso, contrariando aspercepções de antiamericanismo que surgiram neste período, eu sempre encontreia Santa Sé aberta às nossas opiniões e agradecida pelos nossos esforços emsustentar os valores que compartilhávamos. Como disse o arcebispo Tauran à FamigliaCristiana, a idéia de umsentimento antiamericano dentro da Santa Sé “não corresponde à verdade”. Edepois acrescentou: “O povo americano é um grande povo. Conta com umacomunidade católica muito engajada na vida social, cultural, na caridade. Sãovalores que o Papa e a Santa Sé consideram muito”.
Demonstrando a profundidade das nossas relações e avastidão dos interesses compartilhados em levar a esperança a regiões do mundoque só conheceram o desespero, o Secretário Powell veio a Roma em junho de 2003para uma audiência com o Papa e para um encontro com altas personalidades, ocardeal Sodano e o Arcebispo Tauran. Nos seus encontros o Secretário Powelldiscutiu sobre as modalidades com as quais os Estados Unidos e a Santa Sépoderiam colaborar para ajudar o povo iraquiano, para promover a liberdadereligiosa no Iraque e em outros lugares, para levar adiante o processo de pazno Oriente Médio, para sustentar o diálogo e a compreensão inter-religiosas,para combater a desnutrição e a fome através da difusão de alimentostransgênicos e para derrotar a epidemia de Aids na África. A visita reafirmoupublicamente o que nós, em particular, entendemos como uma relação bilateralestreita, vibrante e reciprocamente benéfica, que ajuda a promover em todo omundo a dignidade humana.
A questão moral do alimento transgênico
Com efeito, durante todo o tempo dedicado ao Iraque,pude ter vários encontros frutuosos com a Santa Sé sobre uma questão moral, umtema vital que me é muito caro – sobre a fome no mundo. Desde que conheci opotencial representado pelo alimento transgênico para diminuir a desnutrição ea fome, decidi trabalhar com a Santa Sé para tentar fazer com que se ouvissesua poderosa voz moral sobre este tema, assim como foi feito recentemente sobrea questão do tráfico de seres humanos, na conferência de maio de 2002,organizada pela minha embaixada com o apoio do Vaticano.
A questão do alimento transgênico mostrou toda a suagravidade no final de 2002, quando as ajudas alimentares americanas oferecidasatravés do Word Food Program foram recusadas pelo governo da Zâmbia, poispoderia conter um pequeno percentual de alimento transgênico. Um sacerdotejesuíta tinha tratado de encorajar o governo da Zâmbia para a assumir essa posição,e passo a passo conseguiu influenciar os bispos zambianos, contribuindo assim àconfusão que colocava a vida de milhões de zambianos em risco. O Summit Mundialsobre a Alimentação realizado em Roma em junho de 2002 declarou que 800 milhõesde pessoas no mundo são desnutridas e que a cada cinco segundos uma criançamorre de fome. O alimento, quando necessário para sustentar a vida, torna-seclaramente uma questão moral e por isso, mesmo reconhecendo que cada Estado temo soberano direito de aceitar ou recusar a assistência de bens de primeiranecessidade, os Estados Unidos sustentam que cada Estado tem o dever degarantir que seus cidadãos tenham alimentos suficientes para ser manter.Resumindo, consideramos que o alimento sustenta a vida, e que a vida sejapreciosa, portanto, que esta seja uma questão moral, especialmente aos queinvocam a “cultura da vida” como o Vaticano.
Tomando conhecimento do juízo positivo expresso pelaPontifícia Academia das Ciências sobre o alimento transgênico, encorajei os expoentespara que compartilhassem as conclusões com o maior número possível de bispos enúncios, ajudando assim a superar a desinformação que paralizara os esforços doWord Food Program na Zâmbia. O Secretário Powell repropôs a questão em um apeloao Arcebispo Tauran e, como resultado, a Santa Sé consentiu compartilhar demodo mais difuso e completo as informações com as autoridades religiosas nospaíses interessados.
Conhecendo os benefícios que a biotecnologia podeoferecer ao mundo em desenvolvimento, consideramos que a voz moral da Santa Sésobre a segurança no consumo dos alimentos e sobre a potencialidade de taisalimentos para acabar com a fome e a desnutrição possa ajudar a acabar com aslendas sobre o alimento transgênico em todo o mundo subdesenvolvido.
A Santa Sé também pode desencorajar a propagação, porobra de expoentes da Igreja ou de grupos vizinhos a ela, de informações erradasque colocam em perigo as vidas das pessoas. No mundo há muita gente que passafome, cujos destinos não deveriam ser considerados reféns de mesquinhariaspolíticas por parte de gente bem nutrida que vive em países desenvolvidos. Demodo significativo, em novembro de 2003, a Santa Sé organizou uma conferênciainternacional, “Organismos geneticamente modificados, ameaça ou esperança?”,manifestando tanto um forte interesse em ser bem informada sobre essa inegávelquestão moral, quanto a vontade de estudar a potencialidade de tais alimentospara diminuir a fome e a desnutrição entre os mais necessitados no mundo.
Este é apenas um exemplo de como os Estados Unidos ea Santa Sé continuem a colaborar de perto para melhorar as condições de vida nomundo. Protegendo a santidade da vida, promovendo a dignidade humana,sustentando a causa da liberdade, também religiosa, chamando a atenção sobre otráfico de seres humanos ou nutrindo os que passam fome no mundo. A relação,sólida nos seus fundamentos, entre os Estados Unidos e a Santa Sé garante queos objetivos comuns acima citados, que formam as nossas respectivas políticasexternas, continuarão a ter prioridade entre as coisas a serem feitas em favorda dignidade humana em todo o mundo.
Os Estados Unidos e a Santa Sé continuarão acompartilhar o cenário internacional nos anos futuros. Do mesmo modo, suasvozes continuarão a regular a agenda internacional. Mesmo que haja, quase comcerteza, diferenças sobre o melhor modo de alcançar algumas das finalidades quetemos em comum, o primado da dignidade humana iluminará o longo caminho diantede nós. Enquanto celebramos o vigésimo aniversário das nossas relaçõesdiplomáticas formais, tenho confiança de que o nosso diálogo meditadocontinuará a melhorar a dignidade do gênero humano e continuará a alimentar odesejo comum de que cada pessoa, prescindindo da raça, da cor e do credo possaviver em paz em uma sociedade livre e possa usufruir os talentos que Deus lhedeu.
Festejando os vinte anos
de plenas relações diplomáticas
E assim, festejando o vigésimo aniversário das nossasplenas relações diplomáticas, devemos refletir muito bem sobre as palavras doPapa e do Presidente Bush sobre o caminho já percorrido e o caminho apercorrer. O Papa, dirigindo-se ao presidente durante sua visita ao Vaticano emjulho de 2001, observou: “Estou convicto de que, sob o seu governo, a sua Naçãohá-de continuar a servir-se da sua tradição e dos seus recursos para ajudar aconstruir um mundo em que cada membro da família humana possa florescer e viverde uma forma que seja digna da sua dignidade inata. Com estes sentimentos,invoco cordialmente sobre Vossa Excelência e o querido povo norte-americano asbênçãos divinas da sabedoria, da fortaleza e da paz”24.
O presidente Bush correspondeu o seu respeito eestima pelo Papa João Paulo II por ocasião da sua visita à Polônia em maio de2003. Falando em Cracóvia, a cidade natal-espiritual do Papa, o Presidente Bushcomentou: “Durante os anos da Segunda Guerra Mundial... um jovem seminarista,Karol Wojtyla, viu a bandeira com a suástica tremulando sobre as muralhas doCastelo de Wawel. Este homem compartilhou o sofrimento do seu povo e foimandado aos trabalhos forçados. Da experiência e da fé desse padre nasce umideal: toda pessoa deve ser tratada com dignidade, pois toda pessoa é conhecidae amada por Deus. Com o tempo, o ideal e a coragem desse homem fariam com que otiranos tremessem e levariam o seu amado país à liberdade à libertação de meiocontinente. Hoje, o Papa João Paulo II fala em favor da dignidade de toda vidahumana e reflete as mais altas aspirações da cultura que nós compartilhamos”25.
Depois de vinte anos de plena parceria diplomática,as relações entre essas duas grandes superpotências – uma temporal e a outramoral – estão amadurecendo e fundando-se em valores comuns e juntas levarão paze dignidade aos povos do mundo. Na qualidade de embaixador do Presidente juntoà Santa Sé e de interlocutor do Papa, é um grande privilégio fazer parte dessahistória e dessa oportunidade.