História das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Santa Sé
Introdução de Giulio Andreotti
A nova edição do brilhante estudo escrito para nós de30Dias pelo embaixadorJim Nicholson sobre a história das relações EUA-Santa Sé está enriquecida pordois importantes prefácios, do secretário de Estados Colin Powell e do cardealJean-Louis Tauran. É uma comprovação não apenas do valor da monografia, mastambém da utilidade e atualidade da mesma. Em julho de 1963, quando o presidente JohnKennedy veio fazer uma visita oficial a Roma, pude perguntar-lhe, em umaocasião mais íntima no Palácio Taverna, as razões da não conclusão doestabelecimento de relações diplomáticas entre eles e o Vaticano. Respondeu-mesem equívocos que poderia propor o problema se fosse reeleito. E que deviatomar cuidado para não criar uma “questão católica”. Infelizmente, o novo quadriênionão foi seu. Quatro meses depois do nosso encontro aqui em Roma foi assassinadoem Dallas. Deveria passar ainda muitos anos antes que o Congresso e o governochegassem à elevação do representante pessoal a um verdadeiro e próprioembaixador. Bill Wilson, amigo pessoal do presidente Reagan, realizou umeficiente trabalho preenchendo um vazio que tinha se tornado cada vez maisevidente, aumentando a rede diplomática da e com a Santa Sé. Ao lado do enviadooficial os Estados Unidos continuaram a ter, com as suas freqüentes visitas aoVaticano, uma relação oficiosa através do general Vernon Walters, que, nas suasvárias atribuições, constituiu sempre um ponto de referência e uma autênticafonte de recíproca informação, com suas freqüentes visitas romanas. Durante a Segunda Guerra Mundial osdiplomatas dos países que se tornaram inimigos da Itália tiveram que ficar detidos dentro doVaticano. O fato de que o representante pessoal da presidência americana nãofosse acreditado formalmente não era levado em conta pela maioria, enquanto quepara os especialistas parecia um fato bastante anômalo. Mas – recordo umaobservação análoga ouvida a propósito disso – na Sociedade das Nações emGenebra, idealizada pelo presidente Wilson, os Estados Unidos não participavam,pois assim decidira o Senado. Por outro lado, sabia-se que, além darepresentação para-diplomática, havia um papel de ligação por nada marginalrealizado pelo cardeal arcebispo de Nova York, Francis Spellman, coadjuvadopelo conde Enrico Pietro Galeazzi, contando também com o apoio da estrutura dosCavaleiros de Colombo. Spellman, que tinha trabalhado na Secretaria de Estado econhecia muito bem Roma, foi, mais tarde, muito útil para nós italianos notrabalho de recuperação de uma amizade conatural com os americanos, queMussolini tinha prejudicado e a declaração de guerra tinha rompido. No decorrer do conflito houve um momentodelicado entre Washington e a Santa Sé. O representante pessoal transmitira opedido de uma declaração substancialmente de simpatia ou até mesmo de apoiopara os Aliados, que combatiam contra Hitler, acérrimo inimigo da cristandade.Mas fora-lhe respondido que a Igreja, zelosa portadora de paz, jamais tomapartido no decorrer de uma guerra (Bento XV fora criticado severamente por terdefinido “inútil tragédia” o primeiro conflito mundial). A esta chamada àtradição acrescenta-se a previsão de Pio XII de que se os Aliados tivessemvencido na Europa não teriam dominado os anglo-americanos, mas Stalin. Nesteponto, interpretando-o capciosamente como um juízo dos nazistas como “malmenor”, depois se teria construído o que até hoje se insinua como uma injustacampanha contra Pio XII, que chegou a ser definido por um ensaísta americanoaté mesmo como o “Papa de Hitler”. O trabalho atento e perspicaz doembaixador Nicholson foi particularmente útil no decorrer da crise iraquianapara evitar que a posição do Papa, contrária ideologicamente às guerras,criasse uma marcada diferenciação da forte iniciativa política do presidentejusto. O embaixador Nicholson revelou-se o homemcerto no lugar certo.