LOURDES
Extraído do número 02 - 2004
E Bernadete dizia...
Bernadete nãodeixou quase nada escrito, mas os arquivos do convento de Saint-Gildard, emNevers, conservam as atas do processo canônico e os testemunhos reunidosnaquela ocasião entre as religiosas e todos os que tiveram contato com ela,sobretudo nos anos que passou no convento, entre 1866 e 1879. São lembranças,pequenos casos, respostas que ficaram impressas na memória dos interlocutores.Desse material heterogêneo, o convento de Saint-Gildard, graças ao trabalho depesquisa do teólogo René Laurentin, extraiu o conteúdo para um pequeno livro,publicado na França em 1978 com o título Bernadette disait... Publicamos aqui uma pequenaantologia de passagens do livro, da qual emerge a personalidade de Bernadete esua maneira simples e profunda de viver a fé cristã. Reproduzimos ostestemunhos na ordem cronológica, a mesma usada pelo livro, mencionando emalguns casos o contexto do episódio descrito, para facilitar sua compreensão.
LOURDES1858-1866
1858
Janeiro
Bernadete é pastorinha emBartrès.
“Diga a meus paisque aqui eu fico triste. Quero voltar a Lourdes, para ir à escola e me prepararpara a primeira comunhão.”
O PERÍODO DAS APARIÇÕES
21 de Fevereiro
Depois da sexta aparição, saindoda sala do comissário Jacomet:
“Por que vocêestá rindo?”, perguntam a ela.
“O comissáriotremia. O enfeite do seu quepe fazia tim-tim.”
23 de Fevereiro
“Um rio de gentecorre pra cá por sua causa!”
“Mas eles vêm porquê? Com certeza não sou eu que vou lá buscá-los!”
24 de Fevereiro
“Como foi que elafalou com você? Em francês ou em dialeto?”
“Ah! Essa é boa.Vocês querem que ela fale comigo em francês? Acham que eu sei francês, poracaso?”
25 de Fevereiro
Durante a nona aparição,Bernadete ouve repetidas vezes:
“Penitência...Penitência... Penitência...”
No final,acontece este diálogo:
“O que foi queela lhe disse, afinal?”
“Vá beber nafonte e se lavar.”
“E o capim quevocê comeu?”
“Ela me pediuisso também...”
“O que ela lhedisse?”
“Vá comer o capimque nasce lá.”
“Mas são osanimais que comem capim!”
“Mas por que todaessa agitação hoje? Ontem, Aquilo me disse para beijar a terra como penitênciapelos pecadores”
“Mas você nãosabe que acham que você é louca por fazer essas coisas?”
“Pelospecadores.”
25 de Março
Bernadete levanta muito cedo e seveste:
“Tenho de ir atéa gruta. Andem logo, se quiserem me acompanhar.”
“Pense só umpouco, isso vai lhe fazer mal...”
“Já estoucurada.”
“Espere ao menoso sol nascer!”
“Não, eu tenho deir, e logo.”
Na gruta, diante da aparição:
“Senhorita,poderia ter a bondade de dizer-me quem é, por favor?”
Afastando-se da gruta, Bernadeteriu:
“Você ficousabendo de alguma coisa?”
“Não diga aninguém, mas Aquilo me disse: ‘Eu sou a Imaculada Conceição’.”
27 de Março
Exame médico realizado por trêsdoutores:
“Você sente doresde cabeça, às vezes?”
“Não.”
“Já teve algumacrise nervosa?”
“Nunca.”
“Mas a sua saúdeparece precária.”
“Eu como, bebo edurmo muito bem.”
Durante o exame médico, falandosobre a Virgem:
“Claro que sim,eu a vejo como vejo vocês. Ela se move, fala comigo, estende os braços.”
“Você não ficacom medo quando vê tantas pessoas ao seu redor?”
“Não vejo nada aomeu redor.”
Maio
Bernadete está arriscada a ser presanovamente:
“Não tenho medode nada, pois sempre disse a verdade.”
4 de Junho
No dia seguinte à primeiracomunhão de Bernadete, Emmanuélite Estrade pergunta a ela: “O que a fez ficar mais feliz: a primeira comunhão ou asaparições?”
“São duas coisas que caminham juntas, mas que não se podemcomparar. Fiquei muito feliz com as duas.”
16 de Julho
Última aparição. Ao cair datarde, Bernadete se sente impelida a ir à gruta: “O que ela lhe disse?”
“Nada.”
Depois de 16 de julho, as provações:
o assédio dos visitantes
28 de Agosto
Ao abade de Fonteneau: “Eu não o obrigo a acreditar em mim, mas não posso deixar deresponder dizendo o que vi e ouvi.”
“Quer dizer, Bernadete, que a Virgem Santa lhe prometeu océu e, por isso, você não precisa mais cuidar de sua alma?”
“Oh, padre, eu só irei para o céu se me comportar como sedeve.”
17 de Novembro
Na gruta, depois dointerrogatório da comissão eclesiástica: “Estou muito cansada!”
1859
Maio
Marie deCornuijer-Lucinière a interroga a respeito dos segredos: “Você os contaria ao Papa?”
“Ele não precisa saber deles.”
1860
O abade Junqua visita Bernadete.Depoisde duas horas de conversa, diz a ela: “Eu voltarei... Lembre-se de mim! Prometa-me que vai selembrar de mim!”
“Oh, isso eu não prometo! Vejo tanta gente, e de todo tipo.”
7 de DezembroInterrogatório diante de dom Laurence,bispo de Tarbes: “Não parece ser uma idéia digna de Nossa Senhora obrigá-la acomer capim.”
“Mas nós comemos salada!”
1861-1862
O abade Bernadou querfotografar Bernadete para fixar a expressão que seu rosto assumiadurante as aparições: “Não, não está certo. Você não fazia essa cara quando NossaSenhora estava ali.”
“Mas agora ela não está!”
1864
Tiram fotos de Bernadete.As fotografias são vendidas por umfranco cada... “Você acha que a vendem por um preço suficiente, Bernadete?”
“Mais do que eu valho.”
1866
Na véspera da partida paraNevers, Justine, filha de sua ama-de-leite, Marie Lagües, vaiencontrar Bernadete: “Você não fica triste por ir embora?”
“O pouco tempo que temos no mundo, é preciso que oempreguemos bem.
NEVERS 1866-1879
Testemunhos das religiosas ede pessoas que encontraram Bernadete durante a sua permanência na casa-mãe daCongregação das Irmãs da Caridade de Nevers, de 1866 até sua morte, em 16 deabril de 1879.
1866
JulhoIrmã Emilienne Duboé: Bernadete ficou sob meus cuidados desde sua chegada aonoviciado, para que se acostumasse. [...] O que lhe doía era não ver mais agruta de Lourdes. “Se você soubesse”, ela me disse, “o que eu vi de bonitoali”. Eu tinha a tentação de perguntar, mas ela me respondeu que não podiadizer nada, que a mestra das noviças a havia proibido. Dizia-me: “Se vocêsoubesse como Nossa Senhora é boa!”.
Um dia Bernadete me mostrou que eu fazia mal o sinal dacruz. Eu respondi a ela que certamente não o fazia tão bem quanto ela, que oaprendera de Nossa Senhora. “É preciso ter atenção”, ela me disse, “pois fazerbem o sinal da cruz significa muito”.
Irmã Charles Ramillon: A maneira como fazia o sinal da cruz me impressionavaprofundamente. Procuramos várias vezes fazer igual, mas sem sucesso. Entãodizíamos: “Dá pra ver como foi a própria Nossa Senhora que o ensinou a ela”.
Irmã Emilie Marcillac: Irmã Marie-Bernard tinha uma piedade doce, simples, sem nadade especial. Era muito precisa, não falhava no silêncio, mas era impressionanteo seu jeito vivo nos momentos de recreação. Não gostava de uma piedadecarregada. Um dia ela me disse rindo, apontando uma noviça que sempre fechavaos olhos: “Você vê a irmã X? Se não tivesse uma companheira que a conduz,sofreria um acidente. Por que fechar os olhos, quando é preciso mantê-losabertos?”.
Durante suas crises de asma, tinha ataques de tosse quearrebentavam o seu peito; mesmo vomitando sangue e sufocando, nunca deixavaescapar um lamento, uma reclamação. Eu só a ouvia pronunciar o nome de Jesus.Depois de dizer: “Meu Jesus!”, ela olhava para o crucifixo, e em seus olhoshavia algo inexprimível, mas que dizia tanta coisa...
Outubro
Irmã Emilie Marcillac: Em outubro, no dia 25, ela passou muito mal. [...]Pensávamos que não passaria daquela noite. [...] Fiquei muito surpresa do diaseguinte, quando fui vê-la em seu leito às quatro e meia da manhã para sabernotícias; achei que ela estaria em agonia. Em vez disso, ela me respondeu comuma voz clara: “Estou melhor, o Senhor não me quis, fui até a porta dele e Eleme disse: volta pra trás, ainda é muito cedo”.
1867
Maio
Irmã Bernard Dalias: Eu estava em Nevers havia três dias, e me confessei admiradapor ainda não conhecer Bernadete. A superiora que me havia acompanhado apontouuma noviça que estava perto dela, pequena, sorridente, e disse: “Bernadete?Olha ela aqui!”. Deixei escapar uma expressão impertinente e exclamei: “Sóisso?”. Bernadete me respondeu: “É verdade, senhorita, é só isso!”. Posso dizerque desde aquele momento demonstrou uma grande simpatia por mim.
Irmã Brigitte Hostin: Fui colega de noviciado de irmã Marie-Bernard; tive esseprivilégio durante sete ou oito meses. Pude admirar nela uma grande piedade, umhumor sempre igual - coisa rara -, uma simplicidade de menina, e, sobretudo,uma grande humildade. Quando ela era obrigada a responder às cartas que algunsgrandes personagens lhe escreviam a respeito dos favores que Nossa Senhora lhehavia concedido, essa humildade a fazia dizer: “Se não fosse por obediência, eunão responderia”.
Setembro
Irmã Joseph Caldairoulembra algumas expressões de Bernadete: “Só Deus sabe quanto me custa ter de me apresentar diantedos bispos, dos padres, das pessoas do mundo.”
“Não consigo achar bonita nenhuma imagem de Nossa Senhora,depois de ter visto a original.”
1868
Irmã Charles Ramillon: Eu estava presente, um dia, quando uma de nós lhe disse:“Você contou os segredos de Nossa Senhora à madre superiora?”. “Não.” “Nem àmestra das noviças?” “Nem a ela.” Então, acrescentei: “Mas, e se o Santo Padreperguntasse quais são esses segredos?”. Ela respondeu: “Eu pensaria no caso”.
Novembro
Conde Lafond: Dom Chigi [núncio apostólico na França, ndr.] mandou chamar irmã Marie-Bernardao parlatório. “Filhinha”, perguntou a ela, “você não teve medo quando viuNossa Senhora?”. “Oh, sim, monsenhor, muito; mas só da primeira vez; depois,era tão bonita!”
1869
Agosto
Irmã Bernard Dalias: Uma palavra dela já fazia o bem. Diante de pessoas quesofriam com a dor, ela dizia: “Vou rezar por vocês”.
Mais de uma vez a surpreendi com o rosto inundado delágrimas. Eu a interrogava com o olhar: “Oh”, ela me sussurrava, “rever agruta, uma vezinha que fosse, de noite, sem que ninguém ficasse sabendo...”.
Eu era encarregada de entoar o canto para a oferta darecreação. Irmã Marie-Bernard chegou um dia, depois da oração, e me disse:“Qualquer hora, cante ‘Com minha mãe estarei’”. E nisso seus olhos assumiramuma expressão de desejo, de tristeza indefinível, e vi duas lágrimas rolarem...
Bastava ouvi-la dizer, com plena convicção: “Rezem por mim,pobre pecadora, sobretudo na hora da morte”, para entender que sabiaperfeitamente bem que teria de invocar o crédito que a Virgem lhe prometera porsua fidelidade.
Irmã Emilienne Robert: Falava sobre nós nos corrigirmos dos nossos defeitos, e eulhe disse que isso é difícil. Ela então arregalou os olhos e me respondeuvivamente: “Mas, como?! Receber com tanta freqüência o pão dos fortes e não sermais corajosa!”.
Outubro
Conde Lafond: O abade de M. lhe disse, na minha presença, que estavachegando de Lourdes e havia encontrado o padre Hermann e o senhor Lasserre,ambos agraciados com o dom da visão. Irmã Marie-Bernard abriu seus grandesolhos, até então abaixados. “Eu vi”, acrescentou o abade, “a imagem que puseramna gruta. Tem as mãos juntas, deste jeito. Era assim mesmo que Nossa Senhoraaparecia?” “Sim, padre. Mas quando ela me disse: ‘Sou a Imaculada Conceição’,fez assim.” E fez um gesto de tamanha beleza que nos comovemos até as lágrimas.Parecia que víamos uma cópia viva da Rainha do Céu, quando apareceu sobre arocha de Massabielle.
Uma senhora de Nevers perguntou um dia a ela: “Você nuncamais reviu a Virgem depois das dezoito aparições?”. Duas lágrimas enormesencharcaram suas pálpebras: foi a única resposta.
Irmã Cécile Pagès: Eu dizia a irmã Marie-Bernard que muitas pessoas eramcuradas pela água de Lourdes, depois de uma novena. “Oh”, ela disse, “talvez aVirgem queira que rezem bastante. Houve uma pessoa que só foi curada depois denove novenas”.
1870
Abril
Irmã Angèle (na época,postulante): Irmã Marie-Bernard me perguntou: “Senhorita, o que vocêtem?”. Eu lhe respondi: “Acabo de receber uma notícia ruim: minha mãe está paramorrer; talvez a esta hora já esteja morta”. Então irmã Marie-Bernard me disse,com um sorriso que jamais esquecerei e aquele seu olhar penetrante: “Nãochore, Nossa Senhora vai curá-la; vou rezar por ela”.
Agosto
Irmã Madeleine Bounaix: Em 15 de agosto de 1870, eu estava com ela na enfermaria SãoJosé; ela havia me dado uma fruta para o lanche; nós conversávamos sobre afesta daquele dia e eu lhe disse: “Irmã, você vai rezar por mim hoje?”. “Sim,mas com uma condição: que você também o faça por mim. Todos precisamos deorações.” Eu, então, acrescentei: “Como deve ser bonita a festa no céu, e NossaSenhora, como deve ser bonita também”. “Oh, sim”, ela disse, “depois que agente a vê, não consegue mais ficar apegada à terra!”.
Algum tempo depois, irmã Marie-Bernard recebeu uma carta depadre Peyramale, pároco de Lourdes, na qual havia uma fotografia da Basílica.Olhando para a foto, ela me perguntou: “Você conhece Lourdes?”. Quando eurespondi que não, ela me disse: “Pegue, esta é a foto da Basílica”, e, com odedo, apontava a gruta. Perguntei: “Onde você estava quando Nossa Senhora lheapareceu?”. Ela me indicou o lugar, com toda a simplicidade. Acrescentei: “Éuma lembrança doce demais para você, irmã”. Assumindo um ar grave, quasetriste, irmã Marie-Bernard me respondeu: “Oh, sim! Mas eu não tinha nenhumdireito a essa graça”.
Dezembro
Conde Lafond: Irmã Marie-Bernard... essa irmã não serve para nada, noentanto é considerada o tesouro de Saint-Gildard; olham para ela como obaluarte da cidade episcopal e lhe atribuem a salvação durante a invasão de1870; os prussianos estavam em todos os condados vizinhos e quase às portas deNevers. O cavalheiro Gougenot des Mousseaux, que viu Bernadete na época,fez-lhe algumas perguntas: “Na gruta de Lourdes, ou depois dela, você obtevealguma revelação relativa ao futuro e ao destino da França? A Virgem não aencarregou por acaso de transmitir advertências ou ameaças à França?”. “Não.”“Os prussianos estão chegando: você não tem medo?” “Não.” “Não há nada a temer,então?” “Eu só tenho medo dos maus católicos.” “Não tem medo de mais nada?”“Não, de nada.”
1871
Madre Marie-ThérèseBordenave: No final de 1870 ou no início de 1871, ainda haviaenfermarias militares de campo na casa-mãe; um dia, a farmácia pegou fogo; anoviça de plantão ficou tão impressionada que sofreu de dores terríveis durante24 horas. Irmã Marie-Bernard, com pena, disse a uma irmã, depois que haviamesgotado todas as possibilidades de remédio: “Vou tentar lhe dar água deLourdes; rezem comigo e façam-no com fervor”. Fizeram isso: alguns minutosdepois, as dores haviam cessado.
Antes de Agosto
Irmã Madeleine Bounaix: Eu ficava impressionada com a sua retidão e sinceridade. Nãocreio que tenha mentido alguma vez, e, sobre isso, lembro-me de um episódio queconfirmou minha opinião. Um dia falávamos de Lourdes e de Bartrès, e ela medisse: “Você não pode imaginar como eu era ignorante. Imagine que meu pai,vindo me encontrar, me viu guardando o rebanho, muito triste. Quando ele meperguntou o motivo daquilo, eu lhe respondi: ‘Olha só as minhas ovelhas, váriasdelas têm as costas verdes’. E ele, rindo: ‘É o capim que elas comeram que jáestá saindo pelas costas: talvez elas morram’. E então chorei de verdade, e meupai, me vendo tão cheia de dor, me consolou e me explicou que aquela era amarca do comerciante ao qual eles as haviam vendido”. Ouvindo essa história,pus-me a rir e disse a ela: “Como assim? Você era tão ingênua a ponto deacreditar numa coisa como aquela?”. Ela me respondeu: “Minha querida, como eunão sabia mentir, acreditava em tudo o que me diziam”.
Um dia falávamos das práticas de piedade para com NossaSenhora. Eu lhe disse que havia uma de que eu gostava muito: rezar dozeave-marias em honra dos doze privilégios da Mãe de Deus. Ela me respondeu comum ar feliz e satisfeito: “Continue com essa prática; agrada muito a NossaSenhora”.
Agosto
Irmã Vincent Garros, denome secular Julie Garros, amiga de infância de Bernadete: Em Lourdes, havia uma congregada, conhecida pelo nome desenhorita Claire, muito pia, que sofria havia muito tempo. Quando cheguei àcasa-mãe, Bernadete quis saber notícias dela, e eu lhe disse: “Ela não apenassofre pacientemente, mas diz também estas palavras, que me deixam realmentesurpresa: ‘Eu sofro muito, mas se isso não basta, que o Senhor me acrescentemais sofrimento ainda!’”. Irmã Marie-Bernard fez uma reflexão: “É bem generosa;eu não faria a mesma coisa. Eu me contento com aquilo que ele me manda”.
Ela gostava também de me contar que, do rebanho do qualcuidava, tinha uma predileção particular por um carneirinho branco. Quando elaconseguia armar o seu altar de flores no campo, ele vinha e o demolia com umachifrada; e quando estava conduzindo o rebanho, o carneirinho começava a correre, com uma chifrada abaixo de seus joelhos, fazia-a cair, o que a divertiamuito. Para puni-lo, Bernadete lhe dava pão com sal, que ele adorava.
No noviciado, eu dizia a Bernadete, quando ela estavadoente, na enfermaria: “Você sofre muito, não é?. Ela me respondia: “O que vocêquer? Nossa Senhora me disse que eu não seria feliz neste mundo, mas no outro”.
Ela nos aconselhava freqüentemente que perdoássemos, que nãoesquecêssemos a invocação do Pai Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim comonós perdoamos...”.
Ela me disse também: “Quando você passa na frente da capelae não tem tempo para parar, encarregue seu anjo da guarda de levar sua mensagemao Senhor no tabernáculo. Ele vai levá-la e depois a alcançará de novo”.
Acredito que Bernadette meditava os mistérios, pois um dia,quando eu lhe disse que não conseguia rezar ou meditar, ela me sugeriu quefizesse assim: “Transporte-se até o Monte das Oliveiras ou até os pés da cruz,e fique por lá: o Senhor vai lhe falar e você o escutará”. Às vezes eu lhedizia: “Eu estive lá, mas o Senhor não me disse nada”. Mesmo assim, eu continuaa rezar.
Um dia eu lhe disse: “Como é que você consegue ficar tantotempo em ação de graças?”. Ela me respondeu: “Penso que é Nossa Senhora que medá o Menino Jesus. Eu o pego no colo. Falo com ele e ele fala comigo”.
Sei que, entre os santos, Bernadete tinha uma devoçãoparticular por São José. Ela repetia estas invocações: “Dá-me a graça de amarJesus e Maria como eles querem ser amados. São José, reza por mim. Ensina-me arezar”. E me dizia: “Quando não conseguimos rezar, devemos nos dirigir a SãoJosé”.
Ela me dizia também: “Quando você está diante do Santíssimotem, de um lado, Nossa Senhora, que lhe inspira o que você deve dizer aoSenhor, e, do outro, o seu anjo da guarda, que anota as suas distrações”.
Bernadete dizia: “Temos de receber bem o Senhor. Temos todoo interesse de lhe dar uma boa acolhida, uma acolhida amável, pois então eleterá de nos pagar o aluguel”.
Ela me dizia que antes de realizar qualquer ação é precisopurificar a intenção. Eu lhe observava que isso era difícil. Ela me respondia:“É preciso fazê-lo, pois assim se age melhor e custa menos”.
Ela dizia: “Se você trabalha para as criaturas, não terárecompensa e ficará muito mais cansada”.
Numa outra oportunidade, na enfermaria, ela me disse: “Voulhe dar um bom lanche”. Havia frutas em conserva. Ela me serviu e disse: “Hojeé sábado, eu não vou comer; farei esta pequena mortificação por Nossa Senhora”.
Bernadete, eu tenho certeza, sempre controlou seus impulsosinteriores. A respeito disso, ela me dizia: “O primeiro impulso não nospertence, mas o segundo, sim”.
Quando tinha crises de asma - freqüentes, infelizmente -dava pena. Nunca se lamentou. Quando passava a crise, dizia: “Obrigado,Senhor!”.
A Virgem lhe havia pedido que rezasse pelos pecadores; eladevia fazer isso, certamente. Mais de uma vez, me disse: “Rezemos pela famíliatal, para que a Virgem a converta”.
Muitas vezes, depois da oração, Bernadete acrescentava:“Senhor, livrai as almas do purgatório”. De vez em quando, rezávamos juntas orosário dos defuntos e acabávamos assim: “Doce Coração de Jesus, sede o meuamor, doce Coração de Maria, sede a minha salvação. Meu Jesus, misericórdia!Concedei o repouso eterno às almas dos fiéis defuntos”.
Novembro
Irmã Eléonore Bonnet: No dia de Todos os Santos, eu soube que Bernadete estavadoente. Conhecendo seu amor pelas flores, colhi violetas, que, apesar da época,haviam florescido perto da parede da cozinha, e mandei-as a ela por intermédiode uma noviça que trabalhava na enfermaria.
Madre Marie-ThérèseBordenave: Um dia, uma superiora lhe perguntava se não tinha experimentadoum sentimento de satisfação pelos favores que a Virgem lhe concedera. “O que asenhora pensa de mim? Quer que eu não saiba que, se Nossa Senhora me escolheu,é porque eu era a mais ignorante? Se tivesse encontrado uma mais ignorante, elaa teria pego, e não a mim”.
Irmã Joseph Ducout: Eu a vi sofrer moral e fisicamente. No sofrimento, nuncadisse uma palavra que exprimisse sua dor. Pegava o crucifixo, olhava para ele,e pronto.
LOURDES1858-1866
1858
Janeiro
Bernadete é pastorinha emBartrès.
“Diga a meus paisque aqui eu fico triste. Quero voltar a Lourdes, para ir à escola e me prepararpara a primeira comunhão.”
O PERÍODO DAS APARIÇÕES
21 de Fevereiro
Depois da sexta aparição, saindoda sala do comissário Jacomet:
“Por que vocêestá rindo?”, perguntam a ela.
“O comissáriotremia. O enfeite do seu quepe fazia tim-tim.”
23 de Fevereiro
“Um rio de gentecorre pra cá por sua causa!”
“Mas eles vêm porquê? Com certeza não sou eu que vou lá buscá-los!”
24 de Fevereiro
“Como foi que elafalou com você? Em francês ou em dialeto?”
“Ah! Essa é boa.Vocês querem que ela fale comigo em francês? Acham que eu sei francês, poracaso?”
25 de Fevereiro
Durante a nona aparição,Bernadete ouve repetidas vezes:
“Penitência...Penitência... Penitência...”
No final,acontece este diálogo:
“O que foi queela lhe disse, afinal?”
“Vá beber nafonte e se lavar.”
“E o capim quevocê comeu?”
“Ela me pediuisso também...”
“O que ela lhedisse?”
“Vá comer o capimque nasce lá.”
“Mas são osanimais que comem capim!”
“Mas por que todaessa agitação hoje? Ontem, Aquilo me disse para beijar a terra como penitênciapelos pecadores”
“Mas você nãosabe que acham que você é louca por fazer essas coisas?”
“Pelospecadores.”
25 de Março
Bernadete levanta muito cedo e seveste:
“Tenho de ir atéa gruta. Andem logo, se quiserem me acompanhar.”
“Pense só umpouco, isso vai lhe fazer mal...”
“Já estoucurada.”
“Espere ao menoso sol nascer!”
“Não, eu tenho deir, e logo.”
Na gruta, diante da aparição:
“Senhorita,poderia ter a bondade de dizer-me quem é, por favor?”
Afastando-se da gruta, Bernadeteriu:
“Você ficousabendo de alguma coisa?”
“Não diga aninguém, mas Aquilo me disse: ‘Eu sou a Imaculada Conceição’.”
27 de Março
Exame médico realizado por trêsdoutores:
“Você sente doresde cabeça, às vezes?”
“Não.”
“Já teve algumacrise nervosa?”
“Nunca.”
“Mas a sua saúdeparece precária.”
“Eu como, bebo edurmo muito bem.”
Durante o exame médico, falandosobre a Virgem:
“Claro que sim,eu a vejo como vejo vocês. Ela se move, fala comigo, estende os braços.”
“Você não ficacom medo quando vê tantas pessoas ao seu redor?”
“Não vejo nada aomeu redor.”
Maio
Bernadete está arriscada a ser presanovamente:
“Não tenho medode nada, pois sempre disse a verdade.”
4 de Junho
No dia seguinte à primeiracomunhão de Bernadete, Emmanuélite Estrade pergunta a ela: “O que a fez ficar mais feliz: a primeira comunhão ou asaparições?”
“São duas coisas que caminham juntas, mas que não se podemcomparar. Fiquei muito feliz com as duas.”
16 de Julho
Última aparição. Ao cair datarde, Bernadete se sente impelida a ir à gruta: “O que ela lhe disse?”
“Nada.”
Depois de 16 de julho, as provações:
o assédio dos visitantes
28 de Agosto
Ao abade de Fonteneau: “Eu não o obrigo a acreditar em mim, mas não posso deixar deresponder dizendo o que vi e ouvi.”
“Quer dizer, Bernadete, que a Virgem Santa lhe prometeu océu e, por isso, você não precisa mais cuidar de sua alma?”
“Oh, padre, eu só irei para o céu se me comportar como sedeve.”
17 de Novembro
Na gruta, depois dointerrogatório da comissão eclesiástica: “Estou muito cansada!”
1859
Maio
Marie deCornuijer-Lucinière a interroga a respeito dos segredos: “Você os contaria ao Papa?”
“Ele não precisa saber deles.”
1860
O abade Junqua visita Bernadete.Depoisde duas horas de conversa, diz a ela: “Eu voltarei... Lembre-se de mim! Prometa-me que vai selembrar de mim!”
“Oh, isso eu não prometo! Vejo tanta gente, e de todo tipo.”
7 de Dezembro
“Mas nós comemos salada!”
1861-1862
O abade Bernadou querfotografar Bernadete para fixar a expressão que seu rosto assumiadurante as aparições: “Não, não está certo. Você não fazia essa cara quando NossaSenhora estava ali.”
“Mas agora ela não está!”
1864
Tiram fotos de Bernadete.
“Mais do que eu valho.”
1866
Na véspera da partida paraNevers, Justine, filha de sua ama-de-leite, Marie Lagües, vaiencontrar Bernadete: “Você não fica triste por ir embora?”
“O pouco tempo que temos no mundo, é preciso que oempreguemos bem.
NEVERS 1866-1879
Testemunhos das religiosas ede pessoas que encontraram Bernadete durante a sua permanência na casa-mãe daCongregação das Irmãs da Caridade de Nevers, de 1866 até sua morte, em 16 deabril de 1879.
1866
Julho
Um dia Bernadete me mostrou que eu fazia mal o sinal dacruz. Eu respondi a ela que certamente não o fazia tão bem quanto ela, que oaprendera de Nossa Senhora. “É preciso ter atenção”, ela me disse, “pois fazerbem o sinal da cruz significa muito”.
Irmã Charles Ramillon: A maneira como fazia o sinal da cruz me impressionavaprofundamente. Procuramos várias vezes fazer igual, mas sem sucesso. Entãodizíamos: “Dá pra ver como foi a própria Nossa Senhora que o ensinou a ela”.
Irmã Emilie Marcillac: Irmã Marie-Bernard tinha uma piedade doce, simples, sem nadade especial. Era muito precisa, não falhava no silêncio, mas era impressionanteo seu jeito vivo nos momentos de recreação. Não gostava de uma piedadecarregada. Um dia ela me disse rindo, apontando uma noviça que sempre fechavaos olhos: “Você vê a irmã X? Se não tivesse uma companheira que a conduz,sofreria um acidente. Por que fechar os olhos, quando é preciso mantê-losabertos?”.
Durante suas crises de asma, tinha ataques de tosse quearrebentavam o seu peito; mesmo vomitando sangue e sufocando, nunca deixavaescapar um lamento, uma reclamação. Eu só a ouvia pronunciar o nome de Jesus.Depois de dizer: “Meu Jesus!”, ela olhava para o crucifixo, e em seus olhoshavia algo inexprimível, mas que dizia tanta coisa...
Outubro
Irmã Emilie Marcillac: Em outubro, no dia 25, ela passou muito mal. [...]Pensávamos que não passaria daquela noite. [...] Fiquei muito surpresa do diaseguinte, quando fui vê-la em seu leito às quatro e meia da manhã para sabernotícias; achei que ela estaria em agonia. Em vez disso, ela me respondeu comuma voz clara: “Estou melhor, o Senhor não me quis, fui até a porta dele e Eleme disse: volta pra trás, ainda é muito cedo”.
1867
Maio
Irmã Bernard Dalias: Eu estava em Nevers havia três dias, e me confessei admiradapor ainda não conhecer Bernadete. A superiora que me havia acompanhado apontouuma noviça que estava perto dela, pequena, sorridente, e disse: “Bernadete?Olha ela aqui!”. Deixei escapar uma expressão impertinente e exclamei: “Sóisso?”. Bernadete me respondeu: “É verdade, senhorita, é só isso!”. Posso dizerque desde aquele momento demonstrou uma grande simpatia por mim.
Irmã Brigitte Hostin: Fui colega de noviciado de irmã Marie-Bernard; tive esseprivilégio durante sete ou oito meses. Pude admirar nela uma grande piedade, umhumor sempre igual - coisa rara -, uma simplicidade de menina, e, sobretudo,uma grande humildade. Quando ela era obrigada a responder às cartas que algunsgrandes personagens lhe escreviam a respeito dos favores que Nossa Senhora lhehavia concedido, essa humildade a fazia dizer: “Se não fosse por obediência, eunão responderia”.
Setembro
Irmã Joseph Caldairoulembra algumas expressões de Bernadete: “Só Deus sabe quanto me custa ter de me apresentar diantedos bispos, dos padres, das pessoas do mundo.”
“Não consigo achar bonita nenhuma imagem de Nossa Senhora,depois de ter visto a original.”
1868
Irmã Charles Ramillon: Eu estava presente, um dia, quando uma de nós lhe disse:“Você contou os segredos de Nossa Senhora à madre superiora?”. “Não.” “Nem àmestra das noviças?” “Nem a ela.” Então, acrescentei: “Mas, e se o Santo Padreperguntasse quais são esses segredos?”. Ela respondeu: “Eu pensaria no caso”.
Novembro
Conde Lafond: Dom Chigi [núncio apostólico na França, ndr.] mandou chamar irmã Marie-Bernardao parlatório. “Filhinha”, perguntou a ela, “você não teve medo quando viuNossa Senhora?”. “Oh, sim, monsenhor, muito; mas só da primeira vez; depois,era tão bonita!”
1869
Agosto
Irmã Bernard Dalias: Uma palavra dela já fazia o bem. Diante de pessoas quesofriam com a dor, ela dizia: “Vou rezar por vocês”.
Mais de uma vez a surpreendi com o rosto inundado delágrimas. Eu a interrogava com o olhar: “Oh”, ela me sussurrava, “rever agruta, uma vezinha que fosse, de noite, sem que ninguém ficasse sabendo...”.
Eu era encarregada de entoar o canto para a oferta darecreação. Irmã Marie-Bernard chegou um dia, depois da oração, e me disse:“Qualquer hora, cante ‘Com minha mãe estarei’”. E nisso seus olhos assumiramuma expressão de desejo, de tristeza indefinível, e vi duas lágrimas rolarem...
Bastava ouvi-la dizer, com plena convicção: “Rezem por mim,pobre pecadora, sobretudo na hora da morte”, para entender que sabiaperfeitamente bem que teria de invocar o crédito que a Virgem lhe prometera porsua fidelidade.
Irmã Emilienne Robert: Falava sobre nós nos corrigirmos dos nossos defeitos, e eulhe disse que isso é difícil. Ela então arregalou os olhos e me respondeuvivamente: “Mas, como?! Receber com tanta freqüência o pão dos fortes e não sermais corajosa!”.
Outubro
Conde Lafond: O abade de M. lhe disse, na minha presença, que estavachegando de Lourdes e havia encontrado o padre Hermann e o senhor Lasserre,ambos agraciados com o dom da visão. Irmã Marie-Bernard abriu seus grandesolhos, até então abaixados. “Eu vi”, acrescentou o abade, “a imagem que puseramna gruta. Tem as mãos juntas, deste jeito. Era assim mesmo que Nossa Senhoraaparecia?” “Sim, padre. Mas quando ela me disse: ‘Sou a Imaculada Conceição’,fez assim.” E fez um gesto de tamanha beleza que nos comovemos até as lágrimas.Parecia que víamos uma cópia viva da Rainha do Céu, quando apareceu sobre arocha de Massabielle.
Uma senhora de Nevers perguntou um dia a ela: “Você nuncamais reviu a Virgem depois das dezoito aparições?”. Duas lágrimas enormesencharcaram suas pálpebras: foi a única resposta.
Irmã Cécile Pagès: Eu dizia a irmã Marie-Bernard que muitas pessoas eramcuradas pela água de Lourdes, depois de uma novena. “Oh”, ela disse, “talvez aVirgem queira que rezem bastante. Houve uma pessoa que só foi curada depois denove novenas”.
1870
Abril
Irmã Angèle (na época,postulante): Irmã Marie-Bernard me perguntou: “Senhorita, o que vocêtem?”. Eu lhe respondi: “Acabo de receber uma notícia ruim: minha mãe está paramorrer; talvez a esta hora já esteja morta”. Então irmã Marie-Bernard me disse,com um sorriso que jamais esquecerei e aquele seu olhar penetrante: “Nãochore, Nossa Senhora vai curá-la; vou rezar por ela”.
Agosto
Irmã Madeleine Bounaix: Em 15 de agosto de 1870, eu estava com ela na enfermaria SãoJosé; ela havia me dado uma fruta para o lanche; nós conversávamos sobre afesta daquele dia e eu lhe disse: “Irmã, você vai rezar por mim hoje?”. “Sim,mas com uma condição: que você também o faça por mim. Todos precisamos deorações.” Eu, então, acrescentei: “Como deve ser bonita a festa no céu, e NossaSenhora, como deve ser bonita também”. “Oh, sim”, ela disse, “depois que agente a vê, não consegue mais ficar apegada à terra!”.
Algum tempo depois, irmã Marie-Bernard recebeu uma carta depadre Peyramale, pároco de Lourdes, na qual havia uma fotografia da Basílica.Olhando para a foto, ela me perguntou: “Você conhece Lourdes?”. Quando eurespondi que não, ela me disse: “Pegue, esta é a foto da Basílica”, e, com odedo, apontava a gruta. Perguntei: “Onde você estava quando Nossa Senhora lheapareceu?”. Ela me indicou o lugar, com toda a simplicidade. Acrescentei: “Éuma lembrança doce demais para você, irmã”. Assumindo um ar grave, quasetriste, irmã Marie-Bernard me respondeu: “Oh, sim! Mas eu não tinha nenhumdireito a essa graça”.
Dezembro
Conde Lafond: Irmã Marie-Bernard... essa irmã não serve para nada, noentanto é considerada o tesouro de Saint-Gildard; olham para ela como obaluarte da cidade episcopal e lhe atribuem a salvação durante a invasão de1870; os prussianos estavam em todos os condados vizinhos e quase às portas deNevers. O cavalheiro Gougenot des Mousseaux, que viu Bernadete na época,fez-lhe algumas perguntas: “Na gruta de Lourdes, ou depois dela, você obtevealguma revelação relativa ao futuro e ao destino da França? A Virgem não aencarregou por acaso de transmitir advertências ou ameaças à França?”. “Não.”“Os prussianos estão chegando: você não tem medo?” “Não.” “Não há nada a temer,então?” “Eu só tenho medo dos maus católicos.” “Não tem medo de mais nada?”“Não, de nada.”
1871
Madre Marie-ThérèseBordenave: No final de 1870 ou no início de 1871, ainda haviaenfermarias militares de campo na casa-mãe; um dia, a farmácia pegou fogo; anoviça de plantão ficou tão impressionada que sofreu de dores terríveis durante24 horas. Irmã Marie-Bernard, com pena, disse a uma irmã, depois que haviamesgotado todas as possibilidades de remédio: “Vou tentar lhe dar água deLourdes; rezem comigo e façam-no com fervor”. Fizeram isso: alguns minutosdepois, as dores haviam cessado.
Antes de Agosto
Irmã Madeleine Bounaix: Eu ficava impressionada com a sua retidão e sinceridade. Nãocreio que tenha mentido alguma vez, e, sobre isso, lembro-me de um episódio queconfirmou minha opinião. Um dia falávamos de Lourdes e de Bartrès, e ela medisse: “Você não pode imaginar como eu era ignorante. Imagine que meu pai,vindo me encontrar, me viu guardando o rebanho, muito triste. Quando ele meperguntou o motivo daquilo, eu lhe respondi: ‘Olha só as minhas ovelhas, váriasdelas têm as costas verdes’. E ele, rindo: ‘É o capim que elas comeram que jáestá saindo pelas costas: talvez elas morram’. E então chorei de verdade, e meupai, me vendo tão cheia de dor, me consolou e me explicou que aquela era amarca do comerciante ao qual eles as haviam vendido”. Ouvindo essa história,pus-me a rir e disse a ela: “Como assim? Você era tão ingênua a ponto deacreditar numa coisa como aquela?”. Ela me respondeu: “Minha querida, como eunão sabia mentir, acreditava em tudo o que me diziam”.
Um dia falávamos das práticas de piedade para com NossaSenhora. Eu lhe disse que havia uma de que eu gostava muito: rezar dozeave-marias em honra dos doze privilégios da Mãe de Deus. Ela me respondeu comum ar feliz e satisfeito: “Continue com essa prática; agrada muito a NossaSenhora”.
Agosto
Irmã Vincent Garros, denome secular Julie Garros, amiga de infância de Bernadete: Em Lourdes, havia uma congregada, conhecida pelo nome desenhorita Claire, muito pia, que sofria havia muito tempo. Quando cheguei àcasa-mãe, Bernadete quis saber notícias dela, e eu lhe disse: “Ela não apenassofre pacientemente, mas diz também estas palavras, que me deixam realmentesurpresa: ‘Eu sofro muito, mas se isso não basta, que o Senhor me acrescentemais sofrimento ainda!’”. Irmã Marie-Bernard fez uma reflexão: “É bem generosa;eu não faria a mesma coisa. Eu me contento com aquilo que ele me manda”.
Ela gostava também de me contar que, do rebanho do qualcuidava, tinha uma predileção particular por um carneirinho branco. Quando elaconseguia armar o seu altar de flores no campo, ele vinha e o demolia com umachifrada; e quando estava conduzindo o rebanho, o carneirinho começava a correre, com uma chifrada abaixo de seus joelhos, fazia-a cair, o que a divertiamuito. Para puni-lo, Bernadete lhe dava pão com sal, que ele adorava.
No noviciado, eu dizia a Bernadete, quando ela estavadoente, na enfermaria: “Você sofre muito, não é?. Ela me respondia: “O que vocêquer? Nossa Senhora me disse que eu não seria feliz neste mundo, mas no outro”.
Ela nos aconselhava freqüentemente que perdoássemos, que nãoesquecêssemos a invocação do Pai Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim comonós perdoamos...”.
Ela me disse também: “Quando você passa na frente da capelae não tem tempo para parar, encarregue seu anjo da guarda de levar sua mensagemao Senhor no tabernáculo. Ele vai levá-la e depois a alcançará de novo”.
Acredito que Bernadette meditava os mistérios, pois um dia,quando eu lhe disse que não conseguia rezar ou meditar, ela me sugeriu quefizesse assim: “Transporte-se até o Monte das Oliveiras ou até os pés da cruz,e fique por lá: o Senhor vai lhe falar e você o escutará”. Às vezes eu lhedizia: “Eu estive lá, mas o Senhor não me disse nada”. Mesmo assim, eu continuaa rezar.
Um dia eu lhe disse: “Como é que você consegue ficar tantotempo em ação de graças?”. Ela me respondeu: “Penso que é Nossa Senhora que medá o Menino Jesus. Eu o pego no colo. Falo com ele e ele fala comigo”.
Sei que, entre os santos, Bernadete tinha uma devoçãoparticular por São José. Ela repetia estas invocações: “Dá-me a graça de amarJesus e Maria como eles querem ser amados. São José, reza por mim. Ensina-me arezar”. E me dizia: “Quando não conseguimos rezar, devemos nos dirigir a SãoJosé”.
Ela me dizia também: “Quando você está diante do Santíssimotem, de um lado, Nossa Senhora, que lhe inspira o que você deve dizer aoSenhor, e, do outro, o seu anjo da guarda, que anota as suas distrações”.
Bernadete dizia: “Temos de receber bem o Senhor. Temos todoo interesse de lhe dar uma boa acolhida, uma acolhida amável, pois então eleterá de nos pagar o aluguel”.
Ela me dizia que antes de realizar qualquer ação é precisopurificar a intenção. Eu lhe observava que isso era difícil. Ela me respondia:“É preciso fazê-lo, pois assim se age melhor e custa menos”.
Ela dizia: “Se você trabalha para as criaturas, não terárecompensa e ficará muito mais cansada”.
Numa outra oportunidade, na enfermaria, ela me disse: “Voulhe dar um bom lanche”. Havia frutas em conserva. Ela me serviu e disse: “Hojeé sábado, eu não vou comer; farei esta pequena mortificação por Nossa Senhora”.
Bernadete, eu tenho certeza, sempre controlou seus impulsosinteriores. A respeito disso, ela me dizia: “O primeiro impulso não nospertence, mas o segundo, sim”.
Quando tinha crises de asma - freqüentes, infelizmente -dava pena. Nunca se lamentou. Quando passava a crise, dizia: “Obrigado,Senhor!”.
A Virgem lhe havia pedido que rezasse pelos pecadores; eladevia fazer isso, certamente. Mais de uma vez, me disse: “Rezemos pela famíliatal, para que a Virgem a converta”.
Muitas vezes, depois da oração, Bernadete acrescentava:“Senhor, livrai as almas do purgatório”. De vez em quando, rezávamos juntas orosário dos defuntos e acabávamos assim: “Doce Coração de Jesus, sede o meuamor, doce Coração de Maria, sede a minha salvação. Meu Jesus, misericórdia!Concedei o repouso eterno às almas dos fiéis defuntos”.
Novembro
Irmã Eléonore Bonnet: No dia de Todos os Santos, eu soube que Bernadete estavadoente. Conhecendo seu amor pelas flores, colhi violetas, que, apesar da época,haviam florescido perto da parede da cozinha, e mandei-as a ela por intermédiode uma noviça que trabalhava na enfermaria.
Madre Marie-ThérèseBordenave: Um dia, uma superiora lhe perguntava se não tinha experimentadoum sentimento de satisfação pelos favores que a Virgem lhe concedera. “O que asenhora pensa de mim? Quer que eu não saiba que, se Nossa Senhora me escolheu,é porque eu era a mais ignorante? Se tivesse encontrado uma mais ignorante, elaa teria pego, e não a mim”.
Irmã Joseph Ducout: