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“Aos seus pés, a admirá-la, a menina quer aprender o sinal da cruz a bem fazer”
LOURDES
Extraído do número 02 - 2004
“Aos seus pés, a admirá-la, a menina quer aprender o sinal da cruz a bem fazer”
Das atas do processo de canonização da menina a quem Nossa Senhora apareceu em Lourdes, uma antologia de lembranças, episódios, respostas impressas na memória de seus interlocutores
seleção de trechos organizada por Giovanni Ricciardi

Uma representação da aparição de Nossa Senhora a Bernadete

Bernadete numa foto de 1858
O abade Pomian, vigário de Lourdes, se admiraria maistarde por essa menina não conhecer “nem o mistério da Trindade”. Apesar disso,Bernadete viveu mergulhada numa sociedade que, de uma forma ou de outra, aindaestava embebida das formas de piedade popular. Carregava no bolso o rosário dedois tostões, que rezava quando levava as ovelhas para o pasto. E quando a“Senhora” lhe apareceu pela primeira vez, seu gesto instintivo, determinadopelo medo, foi justamente pôr a mão no rosário. A resposta de Maria foi umsorriso e uma ternura que Bernadete nunca mais esqueceria. Mas a menina nãoperguntou o nome daquela senhora. Não sabia quem era, iria chamá-la, em seudialeto, “Aqueró”,“Aquilo”. Só mais tarde a senhora iria revelar seu nome, na aparição de 25 demarço: “Eu sou a Imaculada Conceição”, usando as palavras do dogma definido porPio IX quatro anos antes, em 1854, há exatamente 150 anos. Uma expressão queBernadete, naquele momento, não compreendeu. O que sabia era que, depois doprimeiro instante de espanto, “Aquilo” a atraiu e a encheu de uma paz que nuncahavia conhecido. Ela a veria 18 vezes até a última aparição, em 16 de julho.Maria lhe revelou três segredos, convidou-a a dizer a todos que rezassem pelaconversão dos pecadores, pediu aos sacerdotes, por meio de Bernadete, queconstruíssem uma capela perto da gruta. Bernadete executou tudo com precisão.
“Eu me contento com o que Ele me manda”
Naquele período, as freiras de Nevers a acolheram emseu pensionato em Lourdes, para lhe dar um “alojamento” mais decoroso eprotegê-la do assédio dos curiosos. E no momento de escolher que caminho iriatomar na vida, Bernadete decidiu tornar-se religiosa no instituto delas, com onome de irmã Marie-Bernard. Não recebeu uma educação regular, não “servia paranada”, como diria seu bispo. Mas na véspera da partida para Nevers, quando lheperguntaram se não ficava triste por deixar Lourdes, respondeu: “O pouco tempoque temos no mundo, é preciso que o empreguemos bem”. Ela tinha plenaconsciência de que a graça que recebera não a eximia de procurar viver como boacristã o tempo que lhe era dado. Na casa-mãe da congregação, depois de repetiràs irmãs, pela última vez, o relato das aparições, a superiora proibiu que asfreiras lhe fizessem outras perguntas sobre os fatos de Lourdes.

O moinho de Boly, a casa em que nasceu
As pessoas continuavam a procurá-la, a bater à portado convento para falar com ela. A algumas dessas pessoas, os bispos e ospadres, ela não podia dizer não. Mas sua simpatia se dirigia para outro lado,por exemplo para uma companheira como Bernard Dalias, que, no terceiro dia denoviciado, pedindo que lhe apontassem Bernadete, havia dito: “Só isso?”. Comela, Bernadete podia estar à vontade, sem se sentir olhada, segundo suaexpressão, “como um animal raro”. “Pude admirar nela uma grande piedade”,contou irmã Brigitte Hostin, “um humor sempre igual - coisa rara -, umasimplicidade de menina, e, sobretudo, uma grande humildade. Quando ela eraobrigada a responder às cartas que alguns grandes personagens lhe escreviam arespeito dos favores que Nossa Senhora lhe havia concedido, essa humildade afazia dizer: ‘Se não fosse por obediência, eu não responderia’”.
Devoção a São José
Enquanto isso, Bernadete ia trabalhar na enfermaria.Ao longo de muitos anos, enquanto seu estado de saúde o permitiu, realizou essetrabalho com precisão e caridade, sorridente, disponível, afável. Depois, nosúltimos anos, a tuberculose, que a minava havia muito tempo, impediu-a cada vezmais de trabalhar ativamente. Bernadete gostava daquele trabalho, mas não fezdaquilo um problema. Conta irmã Casimir Callery, que cuidou dela nas últimasfases da doença: “Irmã Hélène me havia dado ovos de Páscoa para decorar comtinta. Eu desenhava. Irmã Marie-Bernard raspava, para produzir os modelos. Umdia me lamentei porque aquele trabalho me deixava nervosa. Ela me disse: ‘Queimportância pode ter o fato de ganhar o céu raspando os ovos ou fazendoqualquer outra coisa!’”.
“Por que fechar os olhos?”
“Irmã Marie-Bernard tinha uma piedade doce, simples”,lembra uma irmã, “sem nada de especial. Era muito precisa, não falhava nosilêncio, mas era impressionante o seu jeito vivo nos momentos de recreação.Não gostava de uma piedade carregada. Um dia ela me disse rindo, apontando umanoviça que sempre fechava os olhos: ‘Você vê a irmã X? Se não tivesse umacompanheira que a conduz, sofreria um acidente. Por que fechar os olhos, quandoé preciso mantê-los abertos?’”.

Os pais de Bernadete, Luísa Castérot e Francisco Soubirous
“Pegava o crucifixo, olhava para ele, e pronto”
“Se você soubesse o que eu vi de bonito ali”, disseuma vez a irmã Emilienne Duboé. “Depois que a gente a vê, não consegue maisficar apegada à terra!” Talvez por isso Nossa Senhora tenha-lhe dito que nãoseria feliz neste mundo. Mas Bernadete não se arrogou direitos especiais emvista do céu. Uma superiora lhe perguntou um dia se nunca havia experimentadoum sentimento de satisfação pelos favores que a Virgem lhe havia concedido. “Oque a senhora pensa de mim? Quer que eu não saiba que, se Nossa Senhora meescolheu, é porque eu era a mais ignorante? Se tivesse encontrado uma maisignorante, ela a teria pego, e não a mim.”