SERMIG
Extraído do número 02 - 2004
Os quarenta anos do Sermig. Entrevista com Ernesto Olivero
“O início? Uma comoção à qual eu disse sim”
O Serviço Missionário Juvenil envolve milhares de pessoas, sobretudo jovens, que todos os dias dedicam seu tempo à acolhida dos pobres e à realização de projetos de desenvolvimento em mais de cem países no mundo. Seu fundador conta o início dessa história e fala dos amigos que encontrou ao longo do caminho, como Madre Teresa, dom Hélder Câmara e o cardeal Van Thuân. Entre os quais não faltaram personalidades leigas, como Norberto Bobbio
de Paolo Mattei

João Paulo II com Ernesto Olivero durante a audiência na Sala Paulo VI, em 31 de janeiro de 2004, na comemoração do quadragésimo aniversário do Sermig
Por ocasião do quadragésimoaniversário do Sermig, festejado por 10 mil jovens diante do Papa em 31 dejaneiro passado, dia de São João Bosco, conversamos com Ernesto Olivero, quenos descreveu alguns dos encontros fundamentais que deram vida ao “amálgama” desua obra missionária.
A história do Sermig começou comuma intuição sua. O que o impeliu a iniciar essa aventura e o que o senhorpensava fazer?
ERNESTO OLIVERO: Quando a gentecomeça uma aventura, nunca sabe onde ela vai dar. A idéia que eu tinha eracombater, não derrotar, mas combater a fome no mundo. Mas o ponto de partidafoi uma comoção, a compaixão por um pobre que não tinha um teto sob o qualpassar a noite. Acho que o início de toda aventura bonita e grandiosa, como ado Sermig, é sempre marcado por uma comoção à qual a pessoa diz “sim”. Depoisdaquele primeiro “sim”, eu disse muitos outros, e, passados quarenta anos, medei conta de que talvez já tenha pronunciado um bilhão deles, graças a Deus.
O início não foi fácil, ainda quevocês contassem com uma grande ajuda do arcebispo de Turim, o cardeal MichelePellegrino.
OLIVERO: Sim, foi ele que, em 1969,poucos anos depois da fundação do Sermig, nos ofereceu como sede a igreja narua do Arcebispado, num momento em que não sabíamos “onde descansar a cabeça”,pois não éramos bem vistos na diocese de Turim. O cardeal era um homem de Deus,um humilde homem de Igreja, que falava de justiça. Ele nos reconheceu quandonós ainda “não nos conhecíamos”. Foi nosso primeiro amigo. Por intermédio dele,conhecemos dom Hélder Câmara, com o qual organizamos, em 1972, um encontropúblico com 10 mil jovens no Ginásio de Esportes de Turim. Dom Hélder também setornou nosso amigo.
A história de vocês é marcada pormuitas amizades e muitos encontros importantes, não apenas com homens deIgreja, mas também com grandes personalidades leigas...
OLIVERO: O encontro mais importantepara a minha vida foi o que tive com Jesus. É a ele que dizemos sim no início edurante toda a aventura. O encontro com ele faz você entrar numa liberdademuito grande, pois ele é o único que tem palavras de vida eterna, o único quediz que as forças do mal não prevalecerão, o único que ouviu a toda e qualquerpessoa... Tive, sem procurar, encontros com pessoas totalmente diferentes demim. Eu as ouvi, aprendi muitas coisas, e fui corrigido muitíssimas vezes. E,se aconteceu de ter sido eu quem corrigiu algumas dessas pessoas, espero tê-lofeito com um espírito de grande abertura, ou seja, com um espírito cristão. Umadas grandes sortes do fato de ser cristão está nessa liberdade de diálogo e derelacionamento com todos.

Crianças palestinas assistem à passagem de uma manifestação de judeus ortodoxos na cidade velha de Jerusalém
OLIVERO: Uma só? Eu tenho ummonte... No dia em que ele morreu, eu estava voando de Roma para Trieste. Lia aBíblia, como faço todos os dias. Estava na passagem de Lucas que diz: “Deixai,agora, vosso servo ir em paz, conforme prometestes”. Anotei essa frase pensandoem Norberto, sem saber que seu estado de saúde era extremamente grave. Quandocheguei a Trieste, às 18h20, recebi um telefonema e fiquei sabendo que poucoantes ele havia morrido. Norberto e eu tivemos uma amizade muito bonita e muitohumana. Houve muitos conflitos, pois ele era uma pessoa verdadeira e nósdizíamos um na cara do outro tudo o que pensávamos. Ele sempre me explicava quea briga ou a discussão acesa nunca deviam “ultrapassar a noite”. Um diabrigamos e eu saí de sua casa muito bravo. Naquela mesma noite, perto doArsenal, comunicaram-me que acabara de chegar, por um pony express, uma carta dele na qual escrevia:“Desculpe-me. Voltaremos a falar disso amanhã, com mais calma. O diálogo nãointerrompe a amizade”. Era um homem bom.
Madre Teresa também foi umagrande presença na história do Sermig. Foi justamente ela quem candidatouErnesto Olivero ao Prêmio Nobel da Paz...
OLIVERO: Quando a conheci - aindamuito jovem, apresentado a ela por padre Pellegrino -, encontrei uma pessoacomo outra qualquer. A beleza e a grandeza de Madre Teresa estavam em suasimplicidade. Meu coração naquele momento me disse: “Se ela faz tudo isso, eutambém posso fazer”, pois via nela a normalidade, a simplicidade desarmada deuma mulher cristã. As mesmas características que distinguiam o cardeal VanThuân, outro grade amigo do Sermig. Determinadas pessoas, muito importantes,das quais é quase impossível se aproximar, não lhe dão vontade de se mexer, nãocomovem você. Madre Teresa, Van Thuân, com sua “aproximabilidade”, com suasimplicidade e humildade, foram realmente um dom: eu estou feliz por ter podidoencontrá-los com freqüência. Madre Teresa veio me encontrar algumas vezes emTurim; eu a reencontrei em Roma e tive a grande alegria de poder falar com elauma última vez pouco antes que fosse morrer na Índia.
Vocês deram à sua Universidade doDiálogo o nome do cardeal François Xavier Nguyên Van Thuân.
OLIVERO: Sim. Foi o Papa quem nosapresentou. A amizade com o cardeal Van Thuân foi fundamental para o meucrescimento e para o crescimento da nossa comunidade cristã. Antes de morrer,ele me deu três rosários e uma bênção que conservo no coração de maneiraparticular. Detido nas prisões de seu país durante treze anos, dos quais elepassou dez de pé numa cela escura com as mãos amarradas nas costas, Van Thuânnunca deixou de rezar por seus carcereiros. Para nós, é uma grande testemunhade paz. É também em sua memória que pedimos aos jovens que fiquem conosco.
O senhor acaba de voltar doBrasil, onde o Sermig mantém desde 1996 o Arsenal da Esperança. É do Brasil umoutro grande amigo de vocês, o arcebispo dom Luciano Pedro Mendes de Almeida.

Dom Hélder Câmara e Madre Teresa de Calcutá: duas pessoas muito amigas do Sermig
O senhor também conhece bem opresidente Lula. Acha que a esperança de uma mudança positiva que ele acendeunos brasileiros antes de se tornar presidente ainda pode se realizar?
OLIVERO: Lula continua a ser Lula,não mudou quando se tornou presidente. A classe média alta é que deve seempenhar em seguir suas propostas de mudança. A esperança de Lula poderá serealizar se os brasileiros o seguirem.
Uma das características do Sermigque mais impressionam é a capacidade de atração que essa comunidade exercesobre um grande número de jovens.
OLIVERO: Minha grande dor éconstatar que os jovens são realmente os mais pobres e os menos conhecidos. Amídia, fabricada pelos adultos, fala apenas de meninas que se acotovelam parase tornar “modelos”, de adolescentes que não se adaptam e não sabem superarseus fracassos existenciais ou que são atraídos apenas por prazeres efêmeros ealienantes. Na realidade, as novas gerações procuram duas coisas simples, noentanto extremamente difíceis de encontrar: a humildade e a verdade. Lembro-mede duas datas que explicam o sentido do que estou dizendo. Em 5 de outubro, hádois anos, nós realizamos em Turim um “G8 às avessas” do qual participaram 100mil jovens. Nós o chamamos assim porque oito jovens com histórias de vidadifíceis as contaram diante de pessoas da sua idade e de representantes deinstituições. Foram 100 mil jovens, que vieram a Turim sem nenhuma campanha namídia, sem a presença de astros de rock, só a partir de telefonemas. E no finalaté limparam a praça... Depois, o encontro com o Papa em 31 de janeiro passado:nós o organizamos em vinte dias. Foram contatadas 10 mil pessoas em uma semana,e tivemos de dizer não a dezenas de milhares de outras. Se coisas desse gêneroacontecem, significa que sem dúvida a imagem que a mídia nos propõe do universojuvenil é parcial, quando não totalmente falsa.
Depois de 11 de setembro, o medoparece ter tomado o lugar da esperança. Mas a palavra esperança é importante no“vocabulário” do Sermig, entre outras coisas também na luta contra a fome nomundo...
OLIVERO: Os cristãos vivem a paz docoração. Quem vive a paz do coração vive uma inquietação positiva. Essa é aesperança que o Senhor nos doa e essa é a esperança que gostaríamos decomunicar ao mundo. Nós gostaríamos de comunicar ao mundo a nossa boainquietação por abolir a fome. Chorei diante do 11 de setembro. Ai de quembrincar dialeticamente com essa data, que representa uma imensa tragédia. Masai também de quem se esquecer de que todos os dias morrem 30 mil pessoas defome e doenças ligadas à pobreza. Todos os dias, milhares de encarcerados vivemo desespero mais profundo. A paz inquieta que vivemos nos é doada para ajudar omundo a abrir os olhos. A propósito disso, gostaria de lançar um apelo porintermédio de sua revista...
Fique à vontade...
OLIVERO: Eu gostaria de encontrarBush. E gostaria de encontrá-lo como italiano e como europeu agradecido. Estouconvencido de que temos de ajudar os amigos americanos dizendo a eles que, senão abrirem os olhos para os temas da paz e da justiça, estarão no fim de seureinado. E o fim de um reino é um desastre para todos. Eu desejo que os EstadosUnidos renasçam e, como simples homem, gostaria de encontrar Bush para lhefalar dessas coisas. Gostaria que alguns dos amigos de 30Dias me ajudasse a ir até o presidentedos EUA com alguns jovens para lhe falar de paz, para ajudar os Estados Unidosa voltarem a sua verdadeira tradição.