ORTODOXOS
Extraído do número 02 - 2004
O bispo de Roma e a unidade dos cristãos
O teólogo Bruno Forte fala sobre os temas propostos pelo patriarca ecumênico Bartolomeu I na última edição de 30Dias: “No caminho rumo à unidade, o papel de Pedro e de seus sucessores foi e é de decisiva importância para a Igreja”
de Gianni Valente

Bruno Forte
Os encontros que já aconteceram e os que já estão agendadosmesclam-se com vários aniversários históricos distribuídos ao longo deste ano.Em meados do mês de julho, completam-se 950 anos da excomunhão recíproca entreo legado papal Humberto de Silva Cândida e o patriarca de Constantinopla,Miguel Cerulário, episódio de 1054 que a historiografia aponta como data docisma entre as Igrejas do Oriente e a Igreja de Roma. Ao mesmo tempo, estãopara se completar oitocentos anos da cruzada de 1204, na qual milícias cristãsdo Ocidente saquearem a cismática Bizâncio. Mas este ano tem tambémaniversários de cunho completamente diferente, que lembram momentosimportantes do início do diálogo ecumênico, que começava cheio de expectativas.Em seu primeiro Angelus deste ano, João Paulo II lembrou o abraço entre seu predecessor, PauloVI, e o patriarca ecumênico Atenágoras, ocorrido em Jerusalém em 5 de janeirode 1964. E ainda, em novembro, por meio de um grande congresso em Frascati(Itália), organizado pelo Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos,serão celebrados os quarenta anos da promulgação da Unitatis redintegratio, o decreto sobre o ecumenismo quenasceu do último Concílio Ecumênico.
Num contexto como este, cheio de lembranças sugestivas, aampla entrevista com o patriarca ecumênico Bartolomeu I publicada na últimaedição de 30Diasrepresenta apenas o primeiro de uma série de depoimentos e artigos que nossarevista pretende dedicar ao longo do ano às razões teológicas e históricas e àsincompreensões que ainda hoje mantêm aberto o sulco que separa grande parte dasIgrejas do Oriente da Igreja de Roma. Muitas dessas razões e incompreensõesdizem respeito à função do bispo de Roma, como sucessor do apóstolo Pedro. Umaproblemática sobre a qual o próprio papa João Paulo II, por meio da encíclica Utunum sint, de 1995,promoveu uma discussão eclesial, tranqüila mas livre, definindo “significativoe encorajador que a questão do primado do Bispo de Roma se tenha tornadoatualmente objeto de estudo” (nº 89), e mostrando levar a sério “a solicitaçãoque me é dirigida para encontrar uma forma de exercício do primado que, semrenunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a umasituação nova” (nº 95).
Nessa perspectiva, até mesmo as passagens mais provocativasda entrevista citada podem levar a questões positivas. Como, por exemplo, se épossível e providencial distinguir o primado do bispo de Roma, tal como foidefinido pela Igreja, de projetos de hegemonia espiritual, cultural e política.

A vocação de Pedro e André (1601), óleo sobre tela, Londres, Hampton Court Palace, Royal Gallery Collection. A imagem foi publicada no livro de Maurizio Marini, Caravaggio; Roma, 2001. O famoso historiador da arte sir Denis Mahon, depois de uma primeira operação de limpeza, realizada recentemente, atribuiu essa tela a Caravaggio
A entrevista com o patriarca ecumênico Bartolomeu I,publicada no último número de 30Dias, deu o que falar. O senhor teve a oportunidade delê-la?
BRUNO FORTE: Sim, a entrevista me foi indicada e eu a li cominteresse. Tenho profunda estima por Sua Santidade Bartolomeu I, uma estima quenasceu há muitos anos, quando, padre recém-ordenado, fui delegado ecumênico daIgreja em Nápoles e, assim, pude convidá-lo a dar uma conferência sobre odiálogo entre o Oriente e o Ocidente, muito antes que ele fosse eleito sucessordo patriarca Dimítrius. Fiquei impressionado desde aquela época com a sua féprofunda, a sua paixão pela unidade e o grande conhecimento do mundo católico,ao lado de um singular domínio lingüístico (entre outras línguas, ele falamuito bem o italiano). Tive a oportunidade, mais tarde, de visitá-lo emConstantinopla, no bairro de Fanar, quando guiava um grupo de peregrinos peloscaminhos do apóstolo Paulo: todos fomos conquistados por sua acolhida e pelodesejo de unidade que suas palavras reavivaram em nós. Creio que suasdeclarações recentes devam ser lidas também à luz de um antigo e constante empenhopara favorecer o diálogo ecumênico: isolar algumas afirmações desse pano defundo não explicaria a estatura teológica e espiritual do atual patriarca deConstantinopla.
O que o impressionou, particularmente, na visão com aqual Bartolomeu registra as razões que alimentaram a divisão ao longo de todo osegundo milênio cristão?
FORTE: Entre as declarações contidas na entrevista, o pontoque compartilho é que a causa profunda da divisão, e do escândalo que essadivisão comporta, é o espírito de mundanalidade que se insinuou de váriasformas e em diferentes épocas à consciência dos discípulos de Cristo. Quando ocálculo do poder deste mundo substitui o único título de glória dos que crêem,que é o seguimento de Jesus crucificado para a salvação do mundo, todos osdesvios se tornam possíveis. A grande arma do Adversário para afastar os homensdo Evangelho de Cristo é dividir os cristãos: se o próprio Senhor disse que“nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelosoutros” (Jo 13,35), é evidente que a falta de amor recíproco, a divisão,esconderá do mundo o Rosto do Redentor. E nada contribui tanto para a divisãoquanto uma lógica de poder e de sucesso neste mundo que substitua a caridadevivida no dom de si até a morte. Sobre isso, Sua Santidade Bartolomeu diz umagrande verdade.

Bartolomeu I e João Paulo II em 29 de junho de 1995, na Basílica de São Pedro
FORTE: O ponto sobre o qual tomo a liberdade de apresentarminhas reservas é o acento que o patriarca põe na responsabilidade exclusiva daIgreja do Ocidente no que diz respeito a esse pecado de mundanalidade: a Igrejado Ocidente teria baseado “sua esperança na sua força mundana”, diferentementedo homem ortodoxo, que “põe sua esperança principalmente em Deus”. Mesmoadmitindo os erros cometidos pelos filhos da Igreja Católica - e João Paulo IIo fez decididamente durante o Jubileu de 2000, dando um extraordinário exemplode confiança na força da Verdade que liberta e salva - parece-me impossívelpensar que Satanás tenha tomado facilmente apenas os cristãos do Ocidente. Narealidade, a tentação do poder e da mundanalidade apresentou-se ao longo dosséculos na cristandade inteira, tanto no Ocidente quanto no Oriente: sequiséssemos procurar exemplos históricos, creio que não seria difícilencontrá-los entre os cristãos ortodoxos, tal como não foi difícilidentificá-los entre os cristãos católicos. Enfim, o Maligno está à espreita detodos os lados e infelizmente ninguém pode invocar para uma parte da Igreja ainocência do Éden ou o perfeito seguimento da Cruz, vendo no outro lado todasas culpas e o erro de ceder à lógica da mundanalidade. Em relação a esse ponto- que me parece evidente -, a entrevista de Sua Santidade Bartolomeu I pareceno mínimo incompleta, a menos que tenha havido um involuntário mal-entendido natranscrição jornalística de suas palavras. Sobretudo, gostaria de dizer comtodas as letras que a esperança da Igreja Católica, como a da Igreja Ortodoxa,também não se encontra neste mundo, mas em Cristo, morto e ressuscitado pornós. Se não fosse assim, não apenas não se explicaria o extraordinárioflorescimento de santos no Ocidente, da mesma forma como no Oriente, mas seriatambém completamente incompreensível a própria sobrevivência da Igreja atravésdos séculos, um fato singular que superou as parábolas de grandeza e dedeclínio dos poderes deste mundo, que se revezaram durante os dois mil anos decristianismo.
Na entrevista, Bartolomeu relativiza o episódio que,segundo a história conhecida, teria ocasionado o cisma. De qualquer forma, aolongo do segundo milênio a divisão várias vezes degenerou em conflitos queconservam a áspera irreversibilidade dos fatos históricos.
FORTE: Sua Santidade o patriarca de Constantinopla tem razãoquando vê o fato da divisão que se consumou em 1054 como a ponta do iceberg deum processo mais amplo e arraigado nas consciências: eu gostaria, aliás, deprecisar que essa me parece ser exatamente a posição do cardeal Walter Kasper,que tive igualmente o privilégio de conhecer há anos, tanto por meio de seusimportantes textos de teologia quanto pessoalmente. Ele nunca reduziu o cisma auma simples dissonância de caráter entre os dois protagonistas, o legado papalHumberto de Silva Cândida e o patriarca Miguel Cerulário, ainda que sejaevidente que o peso das personalidades em questão não pode ter sido estranho àprecipitação dos eventos. A divisão, depois, cresceu favorecida por erroshumanos, dos quais todos temos de ter consciência e pelos quais a Igreja pedeperdão, fazendo sua a voz das vítimas, em obediência à verdade: penso nasvítimas da crueldade que se realizou com o saque de Constantinopla, em 1204, aoqual o patriarca Bartolomeu faz referência, mas penso também nas muitas vítimasda barbárie stalinista, que quis simplesmente eliminar a Igreja greco-católicanos territórios do império soviético, unindo-a à força com Moscou. Num caso eno outro, é importante que os responsáveis eclesiásticos peçam perdão pelapossível conivência com esses fatos, diante dos quais não fizeram tudo o que podiamou deviam fazer para deter a barbárie e defender os oprimidos, tanto entre oscatólicos quanto entre os ortodoxos.
Na entrevista com o patriarca Bartolomeu, um consenso arespeito do papel do bispo de Roma aparece também como decisivo para a plenacomunhão. O patriarca ecumênico diz, entre outras coisas, que “a superioridadede Pedro perante os outros apóstolos é posta em evidência para justificar umprimado de poder”. Na sua opinião, o que pode ajudar a desenvolver um diálogosobre esse ponto?

O abraço entre Atenágoras e Paulo VI em Jerusalém, em 5 de janeiro de 1964
Na entrevista com Bartolomeu, há uma menção a um dado queé também compartilhado por grande parte da historiografia católica, segundo oqual a reforma gregoriana fez com que surgisse uma forma de estruturaeclesiástica no Ocidente que contribuiu para tornar mais profundo odesentendimento com o Oriente. O senhor concorda com esse julgamento doshistoriadores?

O encontro entre o patriarca, Aléxis II e o cardeal Walter Kasper, em 22 de fevereiro de 2004 em Moscou