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PAULO VI
Extraído do número 12 - 2003

Mestre da palavra

Uma seleção de máximas de Paulo VI extraídas do livro de Leonardo Sapienza



de Giulio Andreotti


Leonardo Sapienza, Paolo VI, maestro della parola,  Edições Gabriele Corbo, Ferrara 2003

Leonardo Sapienza, Paolo VI, maestro della parola, Edições Gabriele Corbo, Ferrara 2003

Fiquei surpreso e muito admirado quando soube que a coletânea de máximas extraídas dos discursos e notas de Paulo VI (não das Encíclicas, que são trabalhos que tiveram também a participação de outras mãos) foi redigida pelo padre Leonardo Sapienza sem a ajuda do computador, como, ao contrário, aconteceu no caso das Summae de Santo Tomás de Aquino, aos cuidados da equipe de trabalho do padre Busa.
É um livro extraordinário. Em ordem alfabética, lá se encontram os verbetes relativos aos mais diversos temas sobre os quais se deteve a atenção de Paulo VI, com uma profundidade fora do comum e uma incrível capacidade de síntese.
Historicamente inserido entre dois papas carismáticos, João XXIII e (salvo o parêntese de João Paulo I) João Paulo II, não é fácil enquadrar Paulo VI com uma definição que o represente. Chegaram mesmo a considerá-lo "hamlético", não compreendendo adequadamente o seu profundo respeito por todo e qualquer interlocutor, a fineza de suas maneiras, a atitude de escuta e a aversão a contestações pouco caridosas.
Sem a necessidade de uma leitura forçada, pode-se entender toda a sua vida segundo o esquema com o qual ordenou o modelo de formação dos universitários católicos: leitura do Evangelho, oração das Horas, atenção rigorosa à formação profissional, especialmente nas disciplinas em que os outros se haviam encastelado e eram dominantes (Física e Filosofia). Mas uma atenção igual era dada ao contato social com os pobres, conforme o modelo das Conferências de São Vicente.
Na periferia de Roma, nós éramos chamados senhorzinhos, mesmo sendo materialmente bem pouco arranjados e só podendo oferecer um punhado de boas palavras e ajudar em algumas recuperações na escola. Mas, sobretudo na Federação Universitária Católica Italiana, vigorava o primado da amizade, a começar de uma relação esplêndida com os assistentes eclesiásticos. Por ocasião da tragédia de Aldo Moro, veio à tona essa solidariedade profunda do nosso velho Mestre, que, sob um outro perfil, todos os anos, no dia 8 de setembro, dedicava algumas horas a Jean Guitton (como fizera com Maritain, ainda que menos intensamente).
Chamado por dom Fisichella a apresentar o livro de padre Sapienza na Universidade Lateranense, ao lado do cardeal Sodano e do vaticanista Luigi Accattoli, do Corriere della Sera, nada mais pude fazer, senão extrair os verbetes que mais me haviam impressionado. Transcrevo-os aqui.

A inauguração da Galeria de Arte Sacra Moderna nos Museus Pontifícios em 23 de junho de 1973

A inauguração da Galeria de Arte Sacra Moderna nos Museus Pontifícios em 23 de junho de 1973


ÁGUA
Oh, a água! Terrível, quando inimiga; providencial e bendita, quando amiga!
(4 de julho de 1976)
AMOR
Respondam à violência homicida e destruidora com o amor operante e universal. Oponham ao desespero emergente a sua vida ancorada no Evangelho de Jesus Cristo, "nossa esperança".
(4 de junho de 1978)
AÇÃO CATÓLICA
Desejamos que a Ação Católica recupere seu vigor e adquira nova capacidade de atrair para si almas generosas, espíritos jovens e fortes, homens e mulheres de pensamento e ação, católicos desejosos de serem ouvidos e valorizados para a animação cristã da sociedade moderna.
(25 de julho de 1963)
ALEGRIA
Cristo, lembremos, é a alegria.
(19 de abril de 1972)
ARTE
A arte sacra é um sinal sensível de coisas e de belezas escondidas.
(24 de fevereiro de 1965)

CAPELÃES MILITARES
A adequação de seus métodos pastorais, a eficácia de seu ministério, a necessidade de sua função de formadores de almas, de mestres, de guias, de amigos, de confidentes, chamados a desenvolver uma missão exclusivamente sacerdotal, no ambiente particular em que vocês se encontram.
(12 de abril de 1972)
CAPITÓLIO
O Papa no Capitólio. Este é um retorno; nós não somos forasteiros aqui dentro. Já não temos nenhuma soberania temporal para aqui afirmar. Conservamos a lembrança histórica dessa soberania, como secular, legítima e, de muitos pontos de vista, providencial instituição dos tempos passados. Mas hoje não temos por ela nenhuma saudade, nem muito menos qualquer secreta veleidade reivindicatória.
(16 de abril de 1966)
COMERCIANTES
Sois homens de palavra; de palavra sincera, leal, firme, unívoca, para dar à sua consciência uma lembrança preciosíssima. Sois razoáveis e moderados na busca do lucro de seus serviços e evitai especulações indiscretas!
(10 de abril de 1965)
Paulo VI abraça o patriarca greco-ortodoxo Atenágoras, durante a histórica visita à Turquia, em 25 de julho de 1967

Paulo VI abraça o patriarca greco-ortodoxo Atenágoras, durante a histórica visita à Turquia, em 25 de julho de 1967

CONCÍLIO
O Concílio ainda não nos deu, em muitos setores, a tranqüilidade desejada. Em vez disso, suscitou perturbações e problemas, certamente não inúteis ao incremento do Reino de Deus na Igreja e nas almas. Mas é bom lembrar: este é um momento de provação. Quem é forte na fé e na caridade pode ter proveito disso.
(15 de julho de 1970)
CONFORMISMO
O senso moral está perdido? Esperamos que não! Mas nós, cristãos, nós, católicos, devemos corrigir a tendência a nos entregar facilmente ao conformismo ideológico e prático da cultura de nossos ambientes e à sugestão vil de que, para ser modernos, é preciso que nos comportemos "como os outros".
(14 de julho de 1971)
CONSERVADORES
Não é possível ser progressista sem ser conservador.
(27 de junho de 1973)
CONSCIÊNCIA HISTÓRICA
É bonito, é um dever ouvir a voz dos séculos, quando ela é mensagem que se transmite fielmente de uma geração a outra.
(15 de maio de 1966)
CONTESTAÇÃO
Está em moda a "contestação", ou seja, o fastio, o desgosto, a revolta perante uma sociedade imperfeita e satisfeita apenas consigo mesma, privada de ideais transcendentes, que possam integrar, sustentar e aperfeiçoar continuamente as aspirações do homem, confortar a sua dor, alimentando suas esperanças.
(8 de setembro de 1968)
CRISE
Se existe hoje uma crise no mundo, é a da esperança, a da ignorância dos fins pelos quais vale a pena empenhar a enorme riqueza de meios de que a civilização moderna enriqueceu a vida humana, ao mesmo tempo em que a tornou igualmente mais pesada.
(22 de fevereiro de 1968)
CRISTIANISMO
O cristianismo não é pessimista.
(24 de fevereiro de 1971)

O cristianismo não é fácil, especialmente nos nossos dias.
(8 de agosto de 1973)
DANTE
Apesar das interpretações unilaterais, privadas de serenidade, que quiseram fazer de Dante o precursor de um impreciso laicismo rebelde ante-litteram, o sumo poeta é um orgulho da Igreja. É filho da Igreja.
(31 de janeiro de 1966)
DESPEDIDA
Adeus! Até mais ver, pela misericórdia de Deus, no paraíso!
(2 de agosto de 1969)
Paulo VI conversando com seu amigo filósofo Jean Guitton em Castel Gandolfo

Paulo VI conversando com seu amigo filósofo Jean Guitton em Castel Gandolfo

DIÁLOGO
O diálogo não pode ser uma cilada tática.
(19 de março de 1965)

DÚVIDA
Estamos como que asfixiados pela dúvida. Uma dúvida sistemática e negativa, quase nunca a da verdadeira busca, mas a do descompromisso e da demolição, a dúvida que reduz ao mínimo as certezas da fé.
(7 de julho de 1971)

ECUMENISMO
Não estabelecer uma fronteira, mas abrir uma porta. Não encerrar um diálogo, mas mantê-lo aberto. Não destacar os erros do outro, mas procurar as virtudes. Não esperar aqueles que não vieram nos últimos quatro séculos, mas ir procurá-los fraternalmente.
(8 de março de 1964)

ESCUTAR
É preciso saber escutar. Ninguém se admire com esse convite insistente. Somos péssimos ouvintes. Admitimos mais a chamada civilização da imagem que a comunicação do pensamento e da palavra.
(26 de fevereiro de 1967)

EUROPA
íodos vemos como o grande problema da Europa é a sua efetiva e orgânica unificação, respeitando, ou, melhor ainda, levando em conta os interesses de cada uma das nações, que já têm clara e definida a sua personalidade étnica e cultural.
(23 de fevereiro de 1969)
FOME
Não hesitamos em renovar, adaptando-o, o apelo que lançamos da tribuna das Nações Unidas: Nunca, nunca mais a guerra, dizíamos então, e hoje dizemos: Nunca, nunca mais a fome!
(9 de novembro de 1974)
GENIALIDADE
Desta vez estamos de acordo com a genialidade do nosso século, que é uma genialidade operativa. Às vezes, a Igreja a estimula e a precede.
(9 de outubro de 1974)
GUERRA
A guerra não resolve os problemas, apenas cria outros, novos e mais complexos. A salvação está na negociação franca, honesta e leal.
(24 de junho de 1965)
HUMANISMO
Nosso humanismo se faz cristianismo e nosso cristianismo se faz teocêntrico. Tanto, que podemos dizer: para conhecer a Deus, é preciso conhecer o homem.
(7 de dezembro de 1965)
IGREJA
A Igreja não pede privilégios, mas não se esquiva dos problemas nem distorce a verdade: ela é chamada a servir o homem, e assim o ilumina e o chama.
(21 de maio de 1976)
Paulo VI  saúda um grupo de jovens no final da audiência

Paulo VI saúda um grupo de jovens no final da audiência


JOVENS
Saúde a vocês, jovens do tempo novo, jovens do seu tempo.
(23 de julho de 1972)
JUVENTUDE
Juventude, ave e salve!
Juventude, você é feliz? Ouvíamos a resposta: sim, porque estou num caminho em que se sobe. Coragem, portanto, avante! O corpo está em seu momento de plena eficiência, mas quando domado pela energia e pela virtude do espírito.
(27 de agosto de 1972)

LAICISMO
O laicismo, ou seja, o propósito de eliminar a Deus, é a fórmula que hoje está em moda. O mundo suficiente para resolver por si mesmo os seus problemas, para conquistar o equilíbrio, a própria moral: é o que se afirma hoje, com caracteres tão seguros e peremptórios que tornam paradoxal, para não dizer inútil e anacrônica, a inserção da Igreja no processo da vida moderna.
(22 de maio de 1968)

LEIGOS
Vocês não são eremitas que se retiraram do mundo para melhor se dedicarem a Deus. É no mundo, na própria ação, que vocês devem se santificar.
(15 de outubro de 1967)


LEMBRANÇAS
Antigamente, nós sabemos, as famílias, na noite de Todos os Santos, se reuniam em torno da fogueira, experimentavam o vinho novo e descascavam as castanhas cozidas, rezavam juntas o Rosário; e depois conversavam. Falavam devagar, com uma voz doce e boa: você se lembra? Você se lembra?
(1� de novembro de 1965)

LIBERDADE
Não é a religião que sufoca a liberdade; é a falta de liberdade que sufoca a religião.
(22 de março de 1972)
A Igreja é só exigência e desejo da verdadeira liberdade.
(21 de junho de 1976)

MORTE
A morte é sempre grande, profunda e obscura como um oceano noturno.
(2 de novembro de 1966)
A morte é sempre um fato grave e misterioso.
(28 de agosto de 1972)

O Papa visitando os pobres do bairro Tondo  em Manila, no final da sua viagem às Filipinas em novembro de 1967

O Papa visitando os pobres do bairro Tondo em Manila, no final da sua viagem às Filipinas em novembro de 1967


NÔMADES
Ánde quer que vocês parem, são considerados inoportunos e estranhos; e ficam intimidados e temerosos. Aqui, não. Aqui, vocês são bem acolhidos, aqui são esperados, cumprimentados e festejados.
(26 de setembro de 1965)

ONU
Vocês se reconhecem e se distinguem uns dos outros para unir uns aos outros. São uma ponte entre os povos. Que ninguém, enquanto membro da sua união, seja superior aos outros. Um nunca esteja acima do outro. Vocês não são iguais, mas aqui se fazem iguais. Uns nunca se coloquem contra os outros, não mais, nunca mais! Contra a guerra, pela paz! Trabalha-se aqui como irmãos para que os Estados se tornem capazes de trabalhar uns pelos outros.
(4 de outubro de 1965)

OTIMISMO
Há tanto bem possível no mundo moderno, mas há também tanto mal possível, que os destinos da humanidade parecem inexoravelmente comprometidos. Nós ainda somos otimistas.
(21 de junho de 1978)

PERMISSIVISMO
Vivemos numa sociedade permissiva, que parece já não conhecer fronteiras. O resultado está bem debaixo dos olhos de todos: a expansão do vício em nome de uma liberdade mal entendida, que, ignorando o grito indignado das consciências retas, zomba e viola os valores da honestidade, do pudor, da dignidade, do direito alheio, ou seja, os valores sobre os quais se sustenta qualquer consórcio civil ordenado.
(3 de outubro de 1976)

REFORMA LITÚRGICA
Antes, bastava assistir, hoje é preciso participar. Antes, bastava a presença, hoje são necessárias a atenção e a ação. Antes, alguém podia tirar uma soneca ou quem sabe jogar conversa fora; hoje, não, tem de escutar e rezar.
(17 de março de 1965)

RENOVAÇÃO
A Igreja precisa de renovação.
(8 de novembro de 1972)


TEMPO
O que é o tempo, senão uma corrida para a morte?
(12 de fevereiro de 1964)
Com os operários  no canteiro de obras da estrada Roma-Florença sob o Monte Soratte, na noite deNatal de 1972

Com os operários no canteiro de obras da estrada Roma-Florença sob o Monte Soratte, na noite deNatal de 1972

TRABALHADORES
Com muita freqüência, nos ambientes de trabalho, tem-se difundido a opinião contrária: a Igreja não tem simpatia pelas pessoas que trabalham, geralmente pessoas das classes humildes, o povo pobre. A Igreja, dizem, não nos conhece, a Igreja está com os ricos, com os poderosos. A Igreja é conservadora, a Igreja prega os deveres dos fracos e os direitos dos fortes. A Igreja se ocupa dos valores morais e religiosos, e se desinteressa pelos valores econômicos e temporais. A Igreja cuida de seus interesses, de seus privilégios; é avara, é egoísta, não pensa em nós, trabalhadores subordinados, explorados, abandonados.
(1� de maio de 1972)
UNIVERSIDADE
A universidade é a alta escola dos cérebros, é a oficina das idéias, é o laboratório superior do saber, tanto na sua expressão racional e espiritual, quanto na sua pedagogia formadora da classe dirigente. Por isso, a universidade é instituição de suma importância e de interesse geral e popular.
(16 de janeiro de 1977)
VATICANO
Poderíamos comparar este centro da catolicidade, que chamamos Vaticano, a um daqueles aparelhos que registram as oscilações, os movimentos, os cedimentos de um dado conjunto territorial ou mecânico, posto sob observação. Que registros tristes chegam a toda hora a esse manômetro central!
(29 de janeiro de 1964)

VIDA MODERNA
É preciso observar, é preciso conhecer a vida moderna. É um dever novo, que nos faz sair do hábito (não pretendemos dizer "da tradição"!), do empirismo, do formalismo rotineiro. Temos de nos tornar melhores conhecedores das almas, dos espíritos do nosso tempo.
(19 de junho de 1971)


Não foi fácil para mim extrair as máximas aqui transcritas, dos seiscentos e oitenta e três verbetes que padre Sapienza retirou dos dezesseis volumes (21.781 páginas) dos Ensinamentos de Paulo VI. Nenhum deles contém conceitos genéricos, superficiais, repetitivos. O título é mais do nunca apropriado: Paulo VI. Mestre da palavra.
É uma fonte inesgotável de meditação, de propósitos, talvez até de saudades.


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