RELATÓRIO FAO
Extraído do número 12 - 2003
A promessa de diminuir a fome pela metade até o ano 2015 foi adiada para o próximo século
Diminuir a fome pela metade? Falaremos disso daqui a cem anos
O dramático Relatório 2003 deste órgão da ONU sobre o Estado de Insegurança Alimentar no mundo. Em todo o planeta, 842 milhões de pessoas passam fome. A situação piora principalmente na África. Um sinal positivo chegou de Maputo, onde os países pertencentes à União Africana decidiram acelerar a atuação do Programa Global de Desenvolvimento Agrícola
de Paolo Mattei

Crianças que se nutrem com ajudas alimentares no Sudão

Uma imagem de pobreza nas ruas de Calcutá, Índia
Porém, já é claro que se trata de um trabalho que os Estados, por si, não têm condições de levar adiante. Assim como é claro que nem mesmo um mercado desenfreado, na atual perspectiva de absoluta liberdade de circulação global das mercadorias, possui a força necessária para originar o círculo virtuoso de uma distribuição equilibrada das riquezas.
Na declaração final da World Food Summit “Five years later”, chamada “Aliança Internacional contra a Fome”, que retomava uma idéia lançada em 2001 pelo presidente alemão, E. Johannes Rau, os chefes de Estado esperavam a participação da “sociedade civil”, cuja ação para enfrentar o drama da desnutrição, em parceria com o mundo político, era considerada de capital importância. Esse auspício foi novamente confirmado também em 16 de outubro, durante o Dia Mundial da Alimentação. A Aliança - entre produtores agrícolas e consumidores, governos locais e líderes das comunidades, cientistas, mundo acadêmico, grupos religiosos, ONGs, políticos, - deve, disse Diouf, tornar-se o quanto antes uma realidade operativa. Mas, naturalmente, isso não pode se substituir aos compromissos econômicos que cada nação assume internacionalmente. Infelizmente, são compromissos raramente mantidos. A coleta de recursos para o Terceiro Mundo, com efeito, é um falimento. Se dez anos atrás os países ricos destinavam 16 milhões de dólares à agricultura das nações pobres, hoje este valor desceu para 9 milhões, 40% a menos.
“Mesmo diante destes dados eu não acredito que a política seja completamente falimentar”, declara à 30Dias Giulio Albanese, comboniano, diretor da agência jornalística missionária Misna. “Há muitos políticos de boa vontade no panorama internacional. Infelizmente, com freqüência, são isolados e não conseguem um lugar de destaque nas agendas dos próprios governos e Parlamentos para a questão das ajudas econômicas aos países pobres. Por isso, considero muito positiva a iniciativa da Aliança Internacional contra a Fome. Penso que com um diálogo operativo entre políticos e representantes da sociedade civil é possível começar a estabelecer gradualmente estratégias de intervenção comum”. As ãracas iniciativas nacionais, segundo padre Albanese, não podem ser reforçadas senão dentro de uma perspectiva de redefinição das regras da economia mundial: “A partir da época de Nixon nos encaminhamos na direção de uma total deregulation econômica. Vivemos em um mundo sem regras, em um mercado sem controle, que ninguém consegue governar, nem mesmo os magnatas das multinacionais, nem mesmo os especuladores. É preciso reformular as normas, não apenas para combater a fome, mas também para relançar o mercado de modo mais racional. Digo isso no interesse do empresariado. Se mais de um bilhão de pessoas não consegue ganhar nem mesmo 1 dólar por dia, quem comprará produtos?”. O diretor da agência Misna concorda plenamente com o Papa que, na mensagem ao secretário da FAO, distingue também na “gestão administrativa” e na “difusão de sistemas ideológicos e políticos afastados do conceito de solidariedade” o atual agravamento das injustiças socioeconômicas no mundo.
Monsenhor Renato Volante, observador permanente da Santa Sé na FAO, no Ifad (Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola) e no PAM (Programa Alimentar Mundial), não concorda com os críticos exasperados do mercado global, os que vêem escondida por trás da globalização econômica de mercadorias uma “mente maldosa” que opera estrategicamente para oprimir os pobres e enriquecer-se cada vez mais tirando proveito do bem comum: “As coisas são bem mais complicadas”, explica à 30Dias. “Ao analisar o problema da má nutrição, não se pode não considerar as questões logísticas, como o transporte dos bens produzidos, ou as questões climáticas. Na África Oriental, por exemplo, especialmente na Etiópia, atualmente há um alarme pela seca que coloca em risco a vida de muita gente. Na África Ocidental, há situações incontroláveis de guerras e desordens sociais. Esses fatos colocam diariamente em risco estratégias e programas mesmo bem planificados. Portanto, não é possível atribuir a culpa da impossibilidade de resolver o problema da fome apenas à má vontade das políticas nacionais dos vários Estados, ou senão apenas ao mercado globalizado. Mesmo porque há sinais positivos, como no caso da Índia, que neste ano, pela primeira vez, teve condições de doar ao PAM cerca de um milhão de toneladas de bens alimentares para serem distribuídos entre os países limítrofes necessitados”. Monsenhor Volante também avalia de modo positivo a iniciativa da Aliança Internacional contra a Fome: para resolver esses problemas, é preciso que se empenhem não apenas os vários governos que representam os próprios cidadãos, mas também as Organizações não Governamentais às quais todo cidadão pode participar de modo voluntário, prescindindo da própria nacionalidade”.
A iniciativa da FAO parece ter tido um bom sucesso. O Santo Padre na mensagem a Diouf afirma que “a Igreja com as suas várias instituições e organizações deseja desempenhar o seu papel nesta Aliança Mundial contra a Fome”. Os pobres do planeta esperam que não se trate de outra promessa irrealizável.