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EDITORIAL
Extraído do número 11 - 2003

O corajoso padre Martina



Giulio Andreotti


Padre Giacomo Martina com um exemplar de seu último livro, <I>Storia della Compagnia di Gesù in Italia (1814-1983)</I>, editado pela Morcelliana

Padre Giacomo Martina com um exemplar de seu último livro, Storia della Compagnia di Gesù in Italia (1814-1983), editado pela Morcelliana

A resenha de Civiltà Cattolica do livro de padre Martina sobre a Storia della Compagnia di Gesù in Italia 1814-1983 (História da Companhia de Jesus na Itália de 1814 a 1983) conclui-se com uma frase muito eloqüente: "Alguém poderia pensar que Martina fez seu trabalho impiedosamente, se, pelo contrário, ele não o tivesse desenvolvido sendo fiel à sua consciência de homem e historiador e à sua vocação".
Com efeito, na reconstrução de um longo período, que vai do reinício da Companhia, depois de sua supressão, até o "generalato" de padre Arrupe, a história vai alternando grandes eventos (como as relações entre a cúria dos jesuítas e o Vaticano) e posições individuais de padres dentro e fora da ordem. Sempre com a precisão e a serenidade desse grande historiador.
O pano de fundo é a análise da busca contínua de pontos de encontro entre modernidade e tradição. O preposto Janssen figura como guardião intransigente e um pouco fechado desta última, ao passo que, com padre Arrupe - sobrevivente das bombas nucleares de Hiroshima -, o salto de qualidade talvez tenha ido além dos limites.
Li, com atenção crescente, as quatrocentas e vinte e sete páginas sob a ótica de três pontos de vista: o debitum que tenho com a Companhia, por minha formação; suas relações com a política; as características de alguns padres muito contestáveis.
Freqüentei a escola - com meu status de órfão de guerra - em instituições públicas. Tive a oportunidade de dizer um dia a Fidel Castro, reconhecendo sua sutileza dialética, que ele levava vantagem sobre mim por ter estudado com os jesuítas. Mesmo assim, recebi dos padres três subsídios de formação. O primeiro na Liga Missionária dos Estudantes, onde, além da admiração e do pasmo pelas Igrejas distantes, aprendia-se a conhecer o mundo autêntico, indo muito além dos livros de geografia; e com ápices de verdadeira especialização. Cada um de nós se responsabilizava por uma área, sobre a qual deveríamos falar a todos no fim do ano. Assim, quando, depois da guerra, a Indochina se tornou um problema extremamente espinhoso, pude surpreender usando como fonte de informações uma pequena conferência minha de 1936.
Dos tempos da Liga Missionária, lembro-me também de congressos belíssimos em Mondragone e em L’Aquila, dirigidos por padre Haeck, padre Eugenio Pellegrino (que não se deve confundir com o irmão gêmeo, Francesco) e o ótimo professor Enrico Medi.
Outro elemento de formação para mim foi a congregação mariana Mater Amabilis, dirigida espiritualmente por um prelado da Secretaria de Estado - dom Antonio Colonna -, mas hospedada pelo antigo noviciado dos jesuítas, na igreja de Santo André, em Roma. Observava-se uma democracia interna e o prefeito era eleito pelos congregados por escrutínio secreto. Aqui, a um passo do Palácio Quirinal, organizei e venci minhas primeiras eleições.
Alguns professores vinham da Universidade Gregoriana para ajudar Colonna. Lembro-me dos padres Luigi Naber, austríaco, e Agostino Tesio, italiano. Quando dom Antonio Colonna morreu, foi substituído pelo jesuíta padre Giampietro: culto e muito pastoral.
A casa generalícia da Companhia de Jesus, no bairro Santo Espírito, perto da basílica de São Pedro, e a estátua de Jesus dentro do jardim

A casa generalícia da Companhia de Jesus, no bairro Santo Espírito, perto da basílica de São Pedro, e a estátua de Jesus dentro do jardim

Na Mater Amabilis não havia traço algum de política. Colonna nos contava dois curiosos pormenores do Tratado de Latrão de 1929. Foi ele, especialista em Matemática, quem fez a atualização contábil da indenização que o Estado recusou-se a pagar depois da época da tomada da Porta Pia (1870), e iria pagar então. Como respeitado funcionário do Vaticano, participou também da cerimônia no Palácio Lateranense, encarregado de passar o fixador sobre as assinaturas do cardeal Pietro Gasparri e de Mussolini.
Já numa congregação vizinha, a Prima Primaria, no Caravita, a infiltração dos comunistas católicos foi profunda, a ponto de fazer o padre Giuliano Prosperini ser expulso da Companhia.
O terceiro elemento incisivo, para mim, foi a proximidade com alguns padres, desde o padre Garagnani, que via em suas estupendas conferências, quando eu era ainda muito jovem, até os encontros ligados à minha longa vida pública - alguns muito intensos e às vezes polêmicos.
Quando eu era jovem, um jesuíta, que me havia conhecido em Anagni, onde eu ia, vindo de Segni, com Angelo Felici e Vincenzo Fagiolo (futuros cardeais), procurou atrair-me para a Companhia. Mas eu não era feito para o celibato eclesiástico, e padre Bitetti, provincial romano, logo desistiu do propósito de me levar para Galloro. Mais ou menos naquele período, e vindo a desenvolver um esplêndido ministério, outros jovens entraram na Companhia, como Bortolotti, Pappalardo e Davanzali. Uma outra vocação, tardia, amadurecida na Liga Missionária, foi a de Felice Ricci, cujas exortações suscitavam simpatia e propósitos de vida - além de serem extremamente simples, se comparadas às que ouvi de padre Venturini e padre Miccinelli, bastante solenes.
Durante o colegial, a orientação dominante entre os professores não era tendencialmente favorável aos jesuítas: o único que escapava - mas como especialista em grego - era o respeitado padre Rocci e seu dicionário. As observações críticas à questão do Risorgimento italiano na verdade não eram examinadas com muito cuidado, embora se repetissem com freqüência.
Voltei muito mais tarde a esse assunto, aprofundando, por meio da leitura da obra fundamental do padre Martina, a figura de Pio IX. Martina retomou também o tema no ensaio que estou resenhando. Nele, conta que na véspera da queda da Porta Pia, o Papa disse ao enviado real, conde Ponza: "Não sou profeta nem filho de profetas, mas digo-lhes que não entrarão, ou, se entrarem, que não ficarão". Não sei se essa previsão possa estar ligada - apesar da longa espera - à expulsão da monarquia, setenta e seis anos depois. De qualquer forma, o Palácio Quirinal não foi propício à casa reinante: Vittorio Emanuele II morreu antes de Pio IX, com apenas cinqüenta e sete anos; Umberto I foi assassinado; Vittorio Emanuele III e Umberto II morreram no exílio. E foi tudo.
Sobre o conde Ponza, Martina anota que teve um irmão jesuíta, Alessandro; e a mesma característica é sublinhada a respeito de Nino Bixio, seguidor de Garibaldi: seu irmão, Giuseppe, foi apóstolo ativo na Califórnia e na Austrália. São essas atraentes anotações que tornam extremamente viva a prosa de padre Martina.
Mas ao papa Mastai Ferretti se deve também a fundação de Civiltà Cattolica; e na complexa e dinâmica revista oficiosa (as provas são submetidas à Secretaria de Estado) desenvolve-se, ao longo de quase dois séculos, uma crônica de extremo interesse. O sentimento de oposição inicial ao governo italiano, usurpador de uma parte do Estado Pontifício, perdurará, mas com uma sintomática ondulação de seus tons, indo muito além da tomada de Roma pelos piemonteses. O colégio de redatores de Via Ripetta não costuma fazer curvas arriscadas; a única exceção ocorreu em outubro de 1922, diante do fato novo do governo Mussolini, que, em linha de máxima, não desagradava ao Papa que vinha de Milão. O venerando diretor, padre Rosa, manteve, no entanto, todas as suas reservas; a tal ponto, que foi considerado pelos fascistas um inimigo a ser vigiado de modo especial. Veremos daqui a pouco a... compensação disso com seu confrade, padre Tacchi Venturi.
Todavia, nunca deixou de existir uma certa autonomia de juízo. O padre Brucculeri, por exemplo, pareceu atraído pelo corporativismo por um bom tempo, mas sempre com a atenção de não se alinhar aos propagandistas da ditadura fascista.
Também nas polêmicas doutrinais, a Civiltà Cattolica refletiu, mais que o pensamento da Companhia, as diretrizes do Vaticano (atenção: nem sempre coincidentes com as diretrizes pessoais do papa, como fica evidente no que diz respeito ao controverso abade Rosmini).
Encontrei padre Rosa apenas uma vez, para lhe falar de um problema universitário. Dava pena, por uma dor no nervo trigêmeo que o atormentava, mas reservou-me grande atenção e me deu conselhos preciosos sobre como enfrentar os católicos comunistas sem cair em demonizações e ostracismos pessoais. Ao padre Rosa seguiu-se o padre Rinaldi e, depois dele, o padre Martegani, diplomata finíssimo e perfeito sacerdote. Em mais de uma ocasião serviu de mediador entre a intransigência que a cúpula desejava para com os políticos italianos católicos e a inteligente compreensão de situações difíceis, vistas de perto. Deve-se ao padre Martegani a oportuna novidade da transferência da redação para Villa Malta, sede de grande prestígio e rara possibilidade de recolhimento, em pleno centro de Roma. Martegani passou depois à cúria generalícia da Companhia, com funções importantes. O que parece extraordinário é a diversidade de tipos humanos dos diretores. Padre Sorge, por exemplo (não conheci padre Gliozzo), pareceu preocupado em não invadir o campo da política, mas na prática dedicou-se a fazer amadurecer a seu modo o "pós" de uma Democracia Cristã que percebia ir-se deteriorando. Seus contatos pessoais eram intensos. Um personagem notável - Giovanni Spagnolli, ex-presidente do Senado - depois de se aconselhar com ele, decidiu retirar-se da vida política. Eu mesmo, numa conversa em Villa Malta, tive a impressão de receber uma sugestão análoga. Não a segui, e talvez tenha feito mal. Teria poupado aos outros as muitas tentativas de me expulsar.
Depois do pontificado brevíssimo de João Paulo I (que pensava em nomeá-lo seu sucessor em Veneza, como eu soube de fonte segura), padre Sorge deixou Roma e foi destinado a Palermo, onde procurou apoiar uma nova etapa da política italiana. Mas a Sicília é uma região especial não apenas pela sua regulamentação constitucional. A própria comunidade local dos jesuítas, mesmo sendo minúscula, assistia ao confronto de dois líderes de tendências opostas. Padre Noto, diretor de um centro de estudos sociais moderado, era muito amigo de Salvo Lima; já padre Pintacuda guiava, ao lado de Leoluca Orlando, o grupo dos democratas-cristãos de oposição progressista, ao menos nas declarações. Sem alinhar-se abertamente a um dos lados, padre Sorge começou a tecer a rede de uma terceira via, abrindo-se aos chamados independentes de esquerda; mas, depois de alguns anos no sul, transferiu-se para Milão, para dirigir Aggiornamenti Sociali. Ao mesmo tempo, promoveu estudos sobre as experiências políticas que havia tido e deu vida a uma reflexão sobre uma nova maneira de se pôr diante da política, seguindo um esquema esboçado em grandes linhas, com o propósito de não elaborá-lo apressadamente.
Padre Tucci foi chamado a dirigir Civiltà Cattolica depois de padre Sorge. Era uma pessoa com grande facilidade para se comunicar e politicamente extra partes para os novos caminhos da Igreja pois com as viagens apostólicas do Papa, eram necessários colaboradores de alto nível para a preparação, tanto organizativa quanto cultural. A tarefa foi entregue primeiramente ao bispo americano Marcinkus (mais tarde envolvido, a meu ver injustamente, em polêmicas relacionadas ao Banco Vaticano, e hoje, no Arizona, sacerdote exemplar no cuidado das almas). Padre Tucci - hoje cardeal, residente em Villa Malta -, com grande delicadeza e abertura às características dos países visitados e das hierarquias locais, cuidava da preparação intelectual e política das viagens do Papa.
A ilustração de Achille Beltrame representando Pio XI com Benito Mussolini numa audiência de 11 de fevereiro de 1932

A ilustração de Achille Beltrame representando Pio XI com Benito Mussolini numa audiência de 11 de fevereiro de 1932

Atualmente, o padre Salvini dirige a revista: jovem, alheio a vocações ligadas à política, muito aberto intelectualmente, mas nunca citado nas crônicas dos jornais. Cada edição da revista traz hoje informações e opiniões de grande interesse sobre a vida da Igreja e do mundo. A relação fé-ciência também é tratada com uma profundidade e uma abertura extraordinárias. O caráter oficioso é hoje certamente menos marcado do que no passado; mas o proveito disso é uma missão orientadora mais dialética e objetivamente atraente.

Um segundo aspecto do livro de padre Martina diz respeito à relação dos jesuítas com a evolução e as involuções da política italiana, também na realidade do segundo pós-guerra. Os tempos novos libertavam os padres tanto do envolvimento secular em questões opináveis - como a difícil polêmica pós-temporal -, quanto de condicionamentos às vezes difíceis no sistema italiano ditatorial. Com relação ao partido político formado por católicos declarados, era necessária uma benévola atenção, mas nada além disso._É aqui que se insere também a questão da atitude que Pio XII teve para com o presidente De Gasperi. Na resenha de um de meus livros, padre Martina observou que eu procuro minimizar o conflito; e isso talvez seja verdade, dada a minha posição de afeto pelo presidente e ao mesmo tempo grande devoção ao papa Pacelli, para equilibrar também as muitas críticas injustas que continuam a ser dirigidas a ele.
Sobre os elevados dotes morais da pessoa de De Gasperi, a admiração de Pio XII foi expressa durante a audiência pelos vinte anos do Tratado de Latrão, na mensagem que lhe dirigiu, cuja minuta preparou com extremo cuidado. Não agradava ao Papa, todavia, a colaboração do governo com os laicistas declarados, nem era considerado suficiente o anticomunismo democrático. Pelas cartas do então bispo (depois cardeal) Pietro Pavan, que realizou junto a De Gasperi uma missão que lhe foi confiada pelo Pontífice em 1952, vemos que se pediam ao presidente explicações sobre por que não havíamos agido como os alemães, pondo o Partido Comunista fora da lei. Coloca-se nessa linha a bênção papal à inoportuna Operação Sturzo, como ficou conhecida, no mesmo ano de 1952. Propusera-se a despolitização das eleições para a prefeitura de Roma, fazendo com que democratas-cristãos, monarquistas e membros do MSI (Movimento Sociale Italiano, partido de direita; ndt.) confluíssem para uma única chapa anônima de conservadores. Sem falar no pequeno interesse das próprias direitas, o apoio do Papa foi imediatamente retirado quando tive a oportunidade de fazer chegar até ele - mediante a fiel madre Paschalina - um bilhete sobre as conseqüências desastrosas que o evento teria para a subsistência do governo De Gasperi. Anotarei mais adiante a parte que teve nessa confusão o padre Riccardo Lombardi, sobre o qual Martina tem - e expressa - opiniões muito severas.
No ano seguinte, 1953, De Gasperi entrou em crise por ser abandonado por seus aliados históricos, com os quais o eleitorado havia sido, para usar a expressão de Saragat, "cínico e trapaceiro". O oitavo governo De Gasperi, já sem a confiança popular, foi sucedido pelo ministério unipartidário de Pella, aprovado no Legislativo graças ao apoio dos monarquistas, negado a De Gasperi. É aqui que entra em cena, como conselheiro político, o padre Giuseppe Messineo, não apenas panegirista do novo primeiro ministro, mas fustigador de toda a política de De Gasperi, por meio de um duro artigo.
De Gasperi havia compartilhado a idéia de Einaudi de confiar o governo ao ministro das Finanças, numa linha quase técnica. E quis que eu continuasse no Ministério do Interior, como sinal de continuidade. Ao redor de Pella, porém, formou-se uma estranha coalizão de consensos, que exaltava cotidianamente o homem forte: a explosão de entusiasmo se deu quando o governo ordenou o alinhamento de tropas na fronteira oriental, levando a sério uma notícia de agência que atribuía ao marechal Tito planos agressivos. Infelizmente, Taviani, ministro da Defesa, caiu na armadilha também, favorecendo com isso o culto à pessoa de Pella naqueles dias, cujo momento culminante foi um discurso no Capitólio que suscitou o renascimento de perigosos focos de nacionalismo itálico. De Gasperi pediu em vão que se anunciasse ao menos a decisão de apresentar ao Legislativo a ratificação do Tratado para a Comunidade Européia de Defesa.
Algumas semanas mais tarde, estourou um conflito entre o governo e os dois grupos parlamentares democrata-cristãos. Com o propósito de um remanejamento, Pella havia designado como ministro da Agricultura o deputado Aldisio, perfeito democrata e artífice do Estatuto de Autonomia da Sicília. De fato, a escolha parecia uma antítese ou ao menos uma forte correção da política reformadora de Segni: veio daí o veto democrata-cristão, agravado por uma tomada de posição do Quirinal que contestava os grupos parlamentares, não levando em conta que estava nas mãos deles a "confiança", o direito a excluir candidaturas.
Com realismo, Pella não endureceu, apesar do estímulo de padre Messineo a "manter-se duro, assim terão de vir de joelhos se desculpar". Os labirintos da vida política são complexos e algumas vezes incompreensíveis até mesmo para quem vive dentro deles. Improvisado como conselheiro do príncipe, o bom padre Messineo exerceu uma influência perniciosa. Enquanto isso, quem minava o governo técnico não eram nem De Gasperi nem os deputados e senadores democrata-cristãos, mas os ex-aliados do governo da DC, arrependidos por terem saído de cena ao derrubar De Gasperi. Não encontraram, porém, nenhuma correspondência no próprio De Gasperi, e enquanto isso Mario Scelba, atiçando o fogo num discurso em Novara, trabalhou intensamente no projeto de restauração do quadripartido - numericamente possível, ainda que com margens estreitas. De Gasperi não havia sido avisado, por isso não compartilhou a manobra. Atribuir a ele a liquidação de Pella é historicamente um erro. De qualquer forma, Scelba, que em julho de 1953 fora maltratado (com seu deslocamento - que recusou - do ministério do Interior para a Defesa), não se beneficiou de imediato da liquidação de Pella. Dentro da DC, o ressentimento para com Saragat e os coveiros de De Gasperi era muito forte. Não eram poucos os que se perguntavam por que os ex-aliados arrependidos não apoiavam o retorno de De Gasperi ao comando do governo (uma preocupação em parte verdadeira, mas, numa parte maior ainda, pretextuosa). Nasceu assim a entrega do cargo a Fanfani, para a formação de um ministério unipartidário que, segundo conselheiros despreparados, viria a obter a não-beligerância tanto por parte dos monarquistas quanto dos socialistas. Para minha grande surpresa e preocupação, Fanfani quis a mim no Ministério do Interior e foi a De Gasperi pedir-lhe que me convencesse.
Fanfani, homem de um dinamismo extraordinário, introduziu uma nova forma de apresentação contextual do governo e de projetos de lei para a realização do programa. Mas os votos de confiança que havia recebido se demonstraram inconsistentes. Poucas horas antes do discurso de apresentação de seu programa, fui até ele para lhe dizer que estava contente por ter aceito, pois, do contrário, ele poderia acreditar que eu não queria compartilhar a derrota. Ele se mostrou admirado com meu pessimismo e eu, por minha vez, disse que, se minhas informações sobre o insucesso acabassem sendo inexatas, eu não seria apto não apenas a ser ministro do Interior, mas até mesmo deputado. Não sei quem lhe garantia seu apoio; mas ele, certamente, havia tido intensos contatos nos últimos dias - diretos e mediados - tanto com Pietro Nenni quanto com Alfredo Covelli.
Pio XII

Pio XII

Passando por essas duas experiências difíceis e pelo interregno administrativo de Pella, por assim dizer, a legislatura devia finalmente chegar a uma certa estabilidade. E foi Scelba o candidato natural. Padre Messineo foi obrigado a reconhecer que ninguém havia ido em peregrinação pedir desculpas a Pella pelo caso Aldisio.
De Gasperi, mesmo em condições físicas muito deterioradas, dedicou-se intensamente aos problemas europeus e a recompactar a Democracia Cristã. Scelba e Fanfani (governo e partido) eram elementos de estabilidade; mas, dentro da Democracia Cristã, operavam fermentos de conflito apenas aparentemente superados no Congresso Nacional de Nápoles, no final de junho. Com um esforço físico enorme, De Gasperi falou durante muitas horas, ditando um autêntico testamento político-moral.
Nesse meio tempo, porém, o próprio De Gasperi havia percebido a existência de manobras sutis contrárias a ele, inspiradas talvez pelo temor de uma possível candidatura sua em 1955 à sucessão de Einaudi.
Insere-se nesse quadro a falsa "carta armadilha" em que caiu Guareschi, sobre um pedido aos Aliados em 1944 para que bombardeassem Roma. Mas houve infelizmente também um artigo da Civiltà Cattolica em março de 1954, intitulado solenemente "Os católicos e a vida política", tendo como autor o padre Messineo, mas com o anunciado apoio pessoal do Papa.
Raramente vi De Gasperi tão amargurado. Telefonou-me de manhã cedo, quando eu estava em Castel Gandolfo, e o achei agitadíssimo. Havia enchido algumas páginas de notas polêmicas e comentários e me encarregou de escrever um artigo em que respondesse ao padre com firmeza.
Em outra ocasião, logo depois do fim da ocupação nazista, escrevi, a seu pedido, definindo a DC como partido de centro que se move para a esquerda, uma frase que entrou para a historiografia política. Mas nesse caso era diferente. Explodia nele todo o ressentimento por tanta incompreensão e invasões do campo político. E era preciso chamar de volta à ordem os pretensos políticos, que invadiam nosso campo. O caráter oficioso da Civiltà Cattolica era mais evidente do que nunca. O esclarecimento da questão diretamente com o Santo Padre, a que De Gasperi se dispusera, falando com dom Pavan, não havia acontecido.
No entanto, ele havia deixado bem claro qual teria sido sua postura nas três hipóteses possíveis. Se o Papa se convencesse de que suas teses eram boas, muito bem. Se dissesse que deixava a ele, com sua responsabilidade específica, a elaboração das linhas-mestras, muito bem também. Se, no entanto, exprimisse sua divergência, ele, católico observante, sairia do caminho. Mais do que isso era impossível.
Ver-se agora contestado totalmente era demais.
Eu lhe disse - e era verdade - que ainda não havia lido o artigo e que me dedicaria com cuidado à redação da resposta. Sabia que, deixando passar um dia, sua ira justa se atenuaria e poderia dar lugar a uma réplica menos polêmica. Foi o que aconteceu. No dia seguinte, voltei a Castello e pude sugerir que era melhor desistir da réplica. Na verdade, o escrito do padre Messineo era petulante e presunçoso, mas não tão politicamente ofensivo como lhe parecera.
Por uma carta do padre Messineo ao padre Martina, vinte anos mais tarde, vejo que o escritor tinha entre outras coisas atribuído a De Gasperi um discurso em Novara, confundindo-o com o discurso de Scelba, que já citei.
A mensagem de saudação de Pio XII a Alcide De Gasperi por ocasião de sua visita ao Vaticano, em 11 de fevereiro de 1949, pelo vigésimo aniversário do Tratado de Latrão

A mensagem de saudação de Pio XII a Alcide De Gasperi por ocasião de sua visita ao Vaticano, em 11 de fevereiro de 1949, pelo vigésimo aniversário do Tratado de Latrão


Uma propensão óbvia de minha parte a sublinhar aspectos políticos não me impede de agradecer ao padre Martina por ter trazido à luz figuras belíssimas de seus confrades empenhados fortemente no cuidado das almas como heróicos capelães militares. São também comoventes as páginas reservadas aos jesuítas na Albânia, onde um dos padres foi fuzilado sob o pérfido regime comunista.
Mas devo reservar alguma atenção a três figuras de destaque na história da Companhia: o padre Tacchi Venturi, o padre Arrupe e o padre Riccardo Lombardi.
O primeiro, que viveu todo o tormento da Companhia incluindo o exílio, é citado como o eclesiástico que tinha livre acesso ao Palácio Veneza e, às vezes, definido "o confessor de Mussolini".
O fato é que, tratando da possível aquisição da Biblioteca Chigiana, que o Estado havia adquirido em 1919 com o palácio homônimo, viu-se falando com Mussolini em pessoa, poucos dias depois deste chegar ao poder. Com um gesto generoso, tão logo soube do interesse do Papa pela questão, Mussolini decretou a doação da preciosa Coleção à Santa Sé. Um mediador tão excelente veio a ter, como conseqüência, grande e prestigiosa notoriedade. Veio daí, três anos depois, o encargo que lhe foi dado pelo cardeal Gasparri de negociar com padre Sturzo o abandono da Secretaria do Partido Popular e, logo depois, a saída da Itália.
A intervenção e mediação do padre ao longo dos anos seguintes foram requisitados em muitíssimos casos pessoais, com resultados ora positivos, ora negativos. Não foi brilhante seu comportamento diante de Buonaiuti, mas o ostracismo do pobre padre Ernesto continuou, mesmo com dois ministros "leigos" no ministério da Educação.
O padre Tacchi Venturi foi um respeitado colaborador da Enciclopédia Italiana.

Quando padre Martina escreve sobre padre Riccardo Lombardi, confirma um juízo não positivo que sempre cultivei. É preciso, porém, muita precisão a esse respeito.
Era sugestiva a meta, que prometia sempre a si mesmo, de renovar profundamente tanto a Igreja quanto a Itália. Nos escritos sobre o primeiro desses projetos se encontram vários dos chutes iniciais para o Concílio que viria a se realizar logo depois. Infelizmente, considerava-se, para usar uma expressão canônica, submetido imediatamente apenas a si mesmo, recebendo seus estímulos diretamente de Jesus. Tanto que chegou a elevar a voz bruscamente, ao considerar em erro o patriarca Roncalli; mas teve um surto colérico também na audiência com Pio XII, que foi obrigado a lembrar-lhe quem era o Papa.
A cruzada do padre Lombardi se desenvolveu não apenas pelas praças da Itália - lotadas, excitadas e aplaudindo -, mas em muitos outros países, na língua local. Anunciava por toda parte um grande resgate social, profetizando que o poder seria conquistado pelas plebes. Padre Martina observa que o efeito desses discursos nos Estados Unidos era limitado pelo pequeno conhecimento do inglês. Mas o embaixador do Brasil observou que, por azar, Lombardi acreditava falar também português.
Estava convencido de que a Itália estivesse em pedaços, estigmatizando muitas vezes os trezentos mil (?) mortos nos dias do fim da ocupação nazista. Durante o Congresso Eucarístico de Assis (1952), preocupando o cardeal Schuster, legado pontifício, deplorou que toda Turim já fosse comunista. Tive de interrompê-lo, uma vez que o prefeito era o democrata-cristão Peyron: perguntou-me se eu estava certo daquilo e continuou, imperturbável.
Dizia-se que sua antipatia por De Gasperi e um pouco por todo o sistema pós-bélico derivavam também da limpeza política_que atingira seu pai, respeitado professor e senador do Reino. Outro modo de ver as coisas, no entanto, tinha sua irmã Pia, distinta parlamentar democrata-cristã. Ao irmão, Gabrio, deveu-se, mais tarde, o referendo contra o divórcio, iniciativa por si só impossível de censurar ("não podemos vetar", disse Paulo VI, "o recurso a um meio legítimo para retirar uma lei que consideramos injusta"), mas causa de um forte enfraquecimento do peso político dos católicos. A hostilidade ao divórcio foi percentualmente mais forte no Legislativo que no voto popular, não excluída a cidade de Roma.
Seria, porém, incorreto estigmatizar globalmente o padre Lombardi, não reconhecendo - além da sua boa fé - a positividade de algumas de suas iniciativas, a começar pelas Exercitações_por um mundo melhor. Inovando, a partir do esquema inaciano dos exercícios, onde os fiéis observam em clausura vários dias de rigoroso silêncio, ouvindo meditações e reformas do orientador espiritual (lembro-me do solene padre Marchetti), o modelo de padre Lombardi era um debate intenso entre todos os participantes, escolhidos normalmente em categorias homogêneas. Participei duas vezes de um encontro para os políticos e devo dizer que foram dias fascinantes e construtivos.
Diferente era o padre Lombardi nas coisas terrenas. Na noite do fracasso da Operação Sturzo, repreendeu-me longamente ao telefone, afirmando que eu devia encontrar de qualquer jeito a fórmula para restaurar o projeto que se dizia ser de Sturzo (na verdade, era seu e de Gedda). Eu estava cansado e muito tenso pelo risco a que a vida política fora exposta e, quando acabou de falar, eu lhe disse secamente que não sabia o que ele pretendia fazer, mas que eu ia dormir. Desliguei bruscamente o telefone, e o padre, com grande caridade, não demostrou em seguida guardar lembrança da descortesia.
À recordação de padre Lombardi se liga a de padre Rotondi, que foi seu "braço direito" durante muitos anos, mas que conquistou autonomia progressivamente, até dar vida a um movimento de intensa espiritualidade (o Oásis). Por uma combinação de fatores, eu havia assistido muitos anos antes, no Leoniano de Anagni - onde Virginio era seminarista-, à barulhenta reação de seus familiares quando ele lhes anunciava a decisão de entrar na Companhia.
Padre Rotondi era um bom mediador. Foi ele quem degelou (mais exatamente, quem tentou degelar) as relações entre Pio XII e o presidente Gronchi, acompanhando este último a Castel Gandolfo com seu carrinho sem escolta e intrometidos. Seja como for, a dupla Lombardi-Rotondi constitui uma realidade atípica na história dos jesuítas italianos, incisiva e rica em relacionamentos benéficos.
Aos motivos já ilustrados de reconhecimento pessoal, devo acrescentar um, singular, vivido pouco depois da minha nomeação a presidente da Federação Universitária Católica Italiana (FUCI). Em vista do Congresso Nacional da FUCI, tínhamos o hábito de pedir_contribuições, pois deveríamos hospedar gratuitamente grande parte dos membros. A cúria generalícia dos jesuítas nos deu grande respaldo, compartilhando nossa iniciativa e os temas que havíamos programado, e anunciando que seriam celebradas cem missas pelo sucesso do Congresso. Este, apesar das enormes dificuldades com a guerra, caminhou bem. O ensinamento de que o homem não vive só de pão impressionou muito a mim e a toda a presidência.

Entre os grandes distúrbios do pós-guerra, houve também a tempestade interna da Companhia. Correntes profundas de renovação eclesial movimentaram a Igreja em muitas regiões do mundo. Impulsos contrapostos se cruzaram, na tentativa de construir barreiras tanto às correntes dessacralizadoras do comunismo internacional, quanto à aridez espiritual de uma sociedade capitalista cada vez mais desumana.
Tropas escolhidas para as batalhas de Deus, os jesuítas sofreram mais do que quaisquer outros com a conjuntura. Impunha-se a eles que adotassem inovações efetivas, mas sem comprometer as linhas-mestras da tradição.
Se na América Latina desencadearam-se dentro da Igreja os chamados movimentos de libertação, simbolizados a um só tempo pelo Evangelho e pelo fuzil, um pouco por toda parte fermentos muito intensos sacudiram as várias situações, pondo em crise especialmente os sujeitos mais fracos e provocando dolorosas saídas.
O funeral de padre Arrupe, em 9 de fevereiro de 1991. Na foto se vêem, entre outros, Carlo Maria Martini, padre Peter-Hans Kolvenbach e Giulio Andreotti

O funeral de padre Arrupe, em 9 de fevereiro de 1991. Na foto se vêem, entre outros, Carlo Maria Martini, padre Peter-Hans Kolvenbach e Giulio Andreotti

Uma característica da Companhia é a fidelidade indiscutível ao Papa. Era forte ainda o eco do caso Billot, que se concluíra, contra o parecer da Santa Sé, com a renúncia à púrpura do jesuíta francês simpatizante da Action Française. Dessa vez, porém, não eram casos isolados, mas a exigência muito confusa, especialmente nos padres mais jovens, de rediscutir até mesmo os pontos essenciais da preparação e do apostolado na Companhia.
A eleição do padre Arrupe a superior-geral deu início a uma virada. Formado na experiência japonesa já atípica, mas absolutamente única, pela história trágica do holocausto nuclear, esse jesuíta podia pilotar a Companhia rumo a uma forte renovação, mas em continuidade com os pontos firmes desejados pelo fundador. Tinha de combater em duas frentes: o impulso inquieto dos jovens e os contínuos e duros chamados de atenção por parte do Vaticano.
Já lembrei em outro texto as conversas com padre Arrupe em minha casa, da qual se vê do outro lado do rio a estátua do Cristo no topo da cúria generalícia. O motivo imediato das visitas reservadas eram problemas particulares da Companhia que deviam ser enfrentados sem a rigidez das relações formais Igreja-Estado. Mas talvez não desagradasse ao padre poder desabafar sem o risco de indiscrições e com alguém que compreenderia seu drama, como ele intuía.
Mais tarde, também em minha casa, tive a oportunidade de conhecer de perto uma das crises pessoais que tanto angustiavam o superior-geral. Num grupo de jovens, amigos de meus filhos, havia também alguém um pouco mais velho do que eles, vestido sempre de jeans e camisa de malha. Eu soube que era um importante jesuíta brasileiro e fiquei conscientemente contente por saber que houvesse um assistente eclesiástico naquele grupo. Um dia, meus filhos me disseram que o "padre" havia dito a eles que a Igreja não era mais fascinante como antigamente; e que ele, por assim dizer, abandonava as vestes, uma vez que nunca o vi usá-las. Talvez tenha agido mal, mas comentei, lembrando o que dizia Pio XI diante das crises dos sacerdotes: "Como ela se chama?". Os jovens se escandalizaram, mas, entristecidos, poucos meses depois, me disseram que o padre estava se casando.
Seria tolo atribuir a grande crise que padre Arrupe teve de enfrentar a um problema com mulheres. Havia uma perturbação confusa, cultural e social, para com a qual era necessário compreensão e respeito. Não era possível fustigar homens que, com fidelidade e sacrifício, haviam-se formado e trabalhado por muitos anos a serviço de Deus. Era preciso ter prudência, moderação, confiança.
Essa era, de meu pequeno ponto de vista pessoal, a experiência vivida pelo padre Arrupe, diante de cujo túmulo, na Igreja do Jesus, paro algumas vezes para refletir e rezar.
Um dos dias mais sofridos de sua vida foi aquele em que teve de ler o severo chamado de atenção que, mesmo num pontificado brevíssimo, João Paulo I dirigiu à ordem, para que os padres "não substituíssem os leigos, negligenciando seu dever específico da evangelização".
Em 7 de agosto de 1981, ao voltar de uma viagem ao Extremo Oriente, padre Arrupe, acometido de uma apoplexia, designava vigário-geral o americano padre O’Keefe, um livre-pensador do momento (foi péssima uma de suas entrevistas a um jornal holandês). Mas o Papa interveio, nomeando o padre Dezza (mais tarde cardeal) como delegado especial, encarregado de organizar a congregação geral, convocada para 2 de setembro de 1981. No dia seguinte, era aceita a demissão de padre Arrupe e eleito em seu lugar o padre Peter-Hans Kolvenbach, até hoje à frente da Companhia.
Certamente foram anos de grande tormenta os que padre Arrupe, que morreu em 1991, sofreu em dezoito anos no bairro Santo Espírito. Mas seu sucessor também não teve sempre vida fácil com o Vaticano. Padre Martina o ilustra de uma maneira eficaz, ainda que alguns conflitos não sejam fáceis de compreender de fora (como a oposição à generalização do quarto voto, o voto especial da obediência ao papa).
O ensaio de padre Martina frisa fortemente a nomeação do cardeal Carlo Maria Martini a arcebispo de Milão, lembrando o único precedente de diocese italiana confiada a um jesuíta (Boetto, em Gênova, durante a guerra). São destacados os grandes dons de Martini, também como biblista, à luz do que sofre atualmente a Terra Santa.
Nesta panorâmica sobre cento e sessenta e nove anos da vida movimentada dos jesuítas na Itália, impressionou-me um episódio. No dia de Natal de 1913, o Papa enviava uma carta na qual, logo depois do reconhecimento de seus méritos seculares, admoestava a Companhia a "manter-se longe do contágio pestilencial do mundo" e a evitar "um espírito mundano, uma leviandade na alma, o estudo de novidades temerárias".
O superior-geral Wernz respondeu com uma missiva apaixonada, em 13 de julho de 1914, mas o diálogo não continuou. Pio X morreu em 20 de agosto; poucas horas antes, o padre Wernz o precedeu no mundo melhor. Sic transit gloria mundi.


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