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Ambrósio e Teodósio. Da comoção à penitência ao respeito pelas
autoridades públicas
HISTÓRIA DA IGREJA
Extraído do número 01 - 2010
Ambrósio e Teodósio.
Da comoção à penitência ao respeito pelas
autoridades públicas
de Lorenzo Cappelletti

Federico Barocci, O perdão de Ambrósio a Teodósio, Catedral de Milão
A tela seiscentista de Van Dyck retoma, portanto, a lenda, acentuando seu caráter emblemático de contraposição entre Igreja e Estado mediante a fileira de personagens em vestes eclesiásticas, à direita, que surge contra Teodósio e seu séquito militar, à esquerda, de onde desponta, acompanhando esse último grupo, um cão, com o valor simbólico de recusa de Cristo (e talvez com o valor real de uma citação da invectiva “cão!” que Ambrósio, ainda segundo a lenda, teria dirigido a Rufino, conselheiro de Teodósio).
Mesmo no recente seriado sobre Agostinho exibida pela emissora italiana Rai, entre 31 de janeiro e 1º de fevereiro deste ano, por mais que de um modo um tanto equilibrado, sempre, de qualquer forma, se acentuava a contraposição entre Igreja e Estado.
É preciso acrescentar que com o passar dos séculos, a partir da baixa Idade Média, Ambrósio cada vez mais é representado, estando a cavalo ou sentado em seu trono, com um açoite na mão, como seu principal atributo iconográfico. Basta lembrar a pala de altar quatrocentista conservada em Avignon, ou a representação quinhentista de Figino, na igreja de Santo Eustórgio, em Milão, e, também em Milão e da mesma época, o gonfalão civil do Castelo Sforzesco. O atributo remete a sua defesa intrépida da fé trinitária contra os arianos, mas também a uma prodigiosa aparição “político-religiosa” que teria impedido a entrada das tropas do imperador Ludovico, o Bávaro, em Milão, na primeira metade do século XIV.
Assim, Santo Ambrósio aparece no imaginário como uma espécie de matamouros (de mataalemanos, deveríamos dizer, em seu caso...), comparável a São Tiago, a quem foi assinalado esse papel na península ibérica a partir da época da desforra medieval contra o Islã.
No entanto, erraria quem pensasse em Ambrósio como um fustigador inflexível, e na relação de Ambrósio com Teodósio como a de alguém que rivaliza com a autoridade imperial. Ambrósio provinha das mais altas magistraturas públicas e tinha um forte senso de Estado, tanto quanto sentia o dever de agir com misericórdia, enquanto sacerdote: “Nem sempre devemos agir com dureza contra aqueles que pecaram; muitas vezes a clemência tem maior utilidade: para ti, serve para adquirir paciência, e, para o pecador, para corrigir-se” (In Lucam 7, 27). Sobretudo, não é um fustigador das autoridades. Pelo contrário, afirma que não devem ser repreendidas, a não ser em casos gravíssimos. “Os reis não devem ser atacados temerariamente pelos profetas de Deus e pelos sacerdotes, quando não há pecados muitos graves dos quais devam ser acusados; quando esses pecados existem, ainda assim não devem ser desculpados, mas é preciso corrigir com reprimendas adequadas” (Comentário ao Salmo 37, 43).
É o caso do massacre de Tessalônica. Mas também nessa ocasião Ambrósio não deixa de lado sua atitude de clemência e respeito. Releiamos algumas passagens da carta que escreve a Teodósio em 390, para exortá-lo à penitência (a Epístola 51 da edição dos padres maurinos). “Escrevo-te, não para humilhar-te, mas para que os exemplos dos reis te levem a eliminar esse pecado de teu reinado. Eliminá-lo-ás humilhando tua alma diante de Deus”. Não é por um artifício retórico que Ambrósio faz essa inversão do sujeito agente, depois de ter citado a penitência a que se submeteu por seu pecado o rei Davi, cuja natureza impetuosa evocava, para ele, a de Teodósio. Sua intenção não é humilhar o imperador, mas que ele se humilhe diante de Deus. Realmente, isso não diminui sua autoridade. Também não é um artifício retórico (ou melhor, não é apenas um artifício retórico, pois em Ambrósio a palavra tem bem seu lugar de honra) dizer: “Não tenho diante de ti nenhum motivo de hostilidade; tenho temor: não ouso oferecer o sacrifício, se tens a pretensão de participar dele”. Não é por mera retórica que diz que não quer impedir Teodósio, mas, em vez disso, sente-se impedido de celebrar o santo sacrifício. Afinal, dizer isso significava afirmar a indisponibilidade do sacramento. Um sonho – já antes de Freud o inconsciente avisava de São José a São Pedro, de Constantino a Ambrósio – confirmou-lhe a necessidade de não ir adiante: “Não por um homem, nem mediante um homem, mas diretamente me foi dirigida essa proibição. Quando estava preocupado, na mesma noite em que me preparava para partir, pareceu-me que tu viesses à igreja, mas não me foi possível oferecer o sacrifício”. A defesa a um só tempo do santo sacramento do altar, do pecador e da penitência conclui-se com a lembrança da oração como a oferta mais humilde e agradável: “Até a simples oração é um sacrifício: gera o perdão, uma vez que contém a humildade, ao passo que a oferta gera o desdém, por conter o desprezo. De fato, Deus diz preferir a observação de seus mandamentos à oferta do sacrifício. É o que Deus proclama, é o que Moisés anuncia ao povo, é o que Paulo prega aos gentios. Fazei o que no momento entenderdes ser mais agradável ao Senhor. ‘Prefiro’, diz Deus, ‘a misericórdia ao sacrifício’. Afinal, não são mais cristãos aqueles que condenam seu pecado que aqueles que creem ter de justificá-lo?”
Mesmo que houvesse pecados que não pudessem ser lavados pelas lágrimas do próprio arrependimento – escreverá Ambrósio em outra ocasião –, “chorará por ti a mãe Igreja, que intervém por cada um como uma mãe viúva pelo filho único. A Igreja sente compaixão, por uma espécie de dor espiritual congênita, quando vê seus filhos se aproximarem da morte em consequência de vícios mortais” (In Lucam 5, 92).
O modo de sentir de Ambrósio, compassivo e respeitoso, tanto perante o sacramento quanto ante a autoridade política, se vale por razões propriamente de fé perante Teodósio, imperador católico, vale também, mutatis mutandis, diante dos imperadores que promoveram o arianismo.

Mestre da Pala de Altar Sforzesca, Santo Ambrósio na Batalha de Milão, Musée du Petit Palais, Avignon
Ambrósio afirma, isto sim, cultivar uma forma sua de tirania: “A tirania do sacerdote é a fraqueza. Quando sou fraco, diz Paulo, então sou forte”. Paradoxal o quanto quisermos, essa fraqueza é realmente forte. De fato, as crianças “em suas brincadeiras”, continua Ambrósio na mesma carta à irmã, “enquanto nós passáramos todo aquele dia na angústia, tinham arrancado as cortinas”, ou seja, tinham arrancado o aparato preparado na basílica em vista da presença imperial e, portanto, da ocupação da igreja pelos arianos. Esse gesto despretensioso era profético. Ou, unido às orações e à pressão espontânea dos fiéis, talvez até tinha sido algo mais. Induziu prontamente o imperador a repensar. Efetivamente, no dia seguinte, a quinta-feira santa de 386, “o dia em que o Senhor entregou-se a si mesmo por nós”, chegava a ordem que punha fim ao assédio militar às basílicas. Para alegria dos próprios soldados, em primeiro lugar, que “apressavam-se a dar a notícia e iam correndo para os altares, para beijá-los em sinal de paz”. Era o que Ambrósio havia esperado contra toda a esperança, quando comentara, durante o assédio angustiante, o versículo inicial do Salmo 78: “Venerunt gentes in hereditatem tuam” (os pagãos tomaram parte, ó Deus, na tua herança). “Aqueles que tinham vindo apossar-se da herança se tornaram herdeiros de Deus. Tenho como defensores aqueles que eu cria inimigos, tenho como aliados aqueles que considerava adversários. Cumpriu-se o que o profeta Davi predisse do Senhor Jesus: ‘Sua morada é na paz’ e ‘Rompeu a força dos arcos, o escudo, a espada, a guerra’. De quem é esse dom, de quem é essa obra, senão tua, Senhor Jesus? A morte estava diante de meus olhos, mas, para que não fosse cometido nenhum gesto de loucura, puseste-te no meio, Senhor, e de dois fizeste uma só coisa. [...] Graças te sejam dadas por isso, ó Cristo. Não um embaixador, não um mensageiro, mas tu, Senhor, salvaste o teu povo, ‘despedaçaste o cerco e me cingiste de alegria’”.
Na seção “Cartas dos mosteiros, dos seminários e das missões” de nossa revista, é possível ler privada de qualquer ênfase, a confirmação atual e inesperada dessas palavras.
Ex ore infantium et lactentium perfecisti laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum et ultorem.