MYSTERIUM LUNAE
Extraído do número 09 - 2009
A Igreja é comparada à lua
Luz refletida
A Igreja é comparada à lua, porque não resplandece por luz própria, mas graças à luz de Cristo. Fulget Ecclesia non suo sed Christi lumine, escreve Santo Ambrósio
de Lorenzo Cappelletti
![O afresco de Giusto de Menabuoi, do século XIV, que decora a abóbada do Batistério da Catedral de Pádua <BR>[© Departamento de Bens culturais da diocese de Pádua]](upload/articoli_immagini_interne/1259684244956.jpg)
O afresco de Giusto de Menabuoi, do século XIV, que decora a abóbada do Batistério da Catedral de Pádua
[© Departamento de Bens culturais da diocese de Pádua]
Hugo Rahner, grande patrólogo jesuíta, irmão do famoso (pelo menos até alguns anos atrás) Karl Rahner, dedicou-se nesses mesmos anos a estudar algumas dessas imagens da Igreja nos Padres gregos e latinos. De modo particular, enfrentou o problema da relação estabelecida pelo cristianismo antigo com conhecimentos e mitos relativos ao sol e à lua, tomados como imagem de Cristo e da Igreja. Rahner o fez em textos que depois apareceram como capítulos de duas obras suas, intituladas, respectivamente, Miti greci nell’interpretazione cristiana, de 1957 (edição italiana de 1980, que chamaremos Miti) e Simboli della Chiesa. L’ecclesiologia dei Padri, de 1964 (reedição italiana de 1994, que chamaremos Simboli). Para simplificar, diremos que, como rezam os títulos dados a esses capítulos, o tema de “O mistério cristão do sol e da lua” é Cristo como verdadeiro sol, e o de “Mysterium lunae”, a Igreja como verdadeira lua. Não pretendemos resumir os dois textos. Não nos seria possível, nem teria qualquer utilidade. Estão à disposição de quem os quiser ler. O que queremos, simplesmente, é extrair deles algumas reflexões.
Começamos por dizer que a exegese cristã se apropria de tudo o que a ciência e a poesia antigas, a partir da observação mais comum de todos os dias, desenvolveu em torno do sol e da lua, para ilustrar o grande mistério de Cristo e da Igreja, como o chama Paulo na Carta aos Efésios (5, 32); ou pelo menos podemos dizer que isso é feito por parte da exegese grega, além de Ambrósio e Agostinho, que de certo modo tomam essa exegese como referência. E dizemos que a tomam de certo modo como referência porque, mais que os perigosos meandros da alegoria, os dois santos usam o método da analogia, remontando da criação para o Criador, das figuras para a realidade. Para a ilustração desse “grande mistério”, provavelmente foram extremamente evocativas, ao lado de muitas outras, as palavras de Empédocles, transmitidas por Plutarco, “o sol tem raios que vivamente dardejam, enquanto graciosa é a luz da lua”; ou as de Prisciano, que diz que “a lua é frágil, e por isso é fecunda”; ou, ainda, as de Anaxágoras, retomadas por Platão e mais tarde por Hipólito Romano: “A lua não possui uma luz própria, mas a recebe do sol” (cf. Simboli, pp. 160-162).
Contrariamente a uma opinião que tende a ver na adoção de imagens próprias do mundo pagão um sinal de fraqueza da fé cristã, “graças à fé indestrutível na real ressurreição de Cristo, o cristão, que pensava segundo o espírito da Antiguidade” – escreve Rahner –, “gozava da magnífica liberdade de introduzir no belo círculo de imagens que povoavam seu mundo o mistério da morte, do repouso sepulcral e da ressurreição do Senhor” (Miti, p. 132).
Como todos sabem, o primeiro dia depois do sábado, o dia da ressurreição do Senhor, era o dia do Sol, segundo o calendário pagão. Os cristãos antigos logo viram nisso uma coincidência providencial. Basta pensar no que significou para o imperador Constantino, antigo adorador do Sol, que graças a essa coincidência pôde assumir e promover não apenas a celebração do domingo, mas também a solene celebração dominical da Páscoa e da Vigília Santa em todo o Império. Mais ainda, essa coincidência não foi desdenhada nem mesmo por Agostinho, “que reconheceu a inutilidade de se opor ao uso da denominação astral para os dias da semana” (Miti, p. 125), ou de Jerônimo, que escreve: “O dia da ressurreição, esse é o nosso dia. E, se os pagãos o chamam dies Solis, nós aceitamos de bom grado essa denominação: hoje surgiu a luz, hoje se levantou o Sol de justiça” (Miti, p. 127). Mais que fé e cultura, quase diríamos fé na realidade da ressurreição e liberdade. Mas prossigamos.
Os antigos cristãos não apenas souberam ver no sol (Hélio) a imagem resplandecente do verdadeiro Sol de justiça, mas, nisto também confortados por muitas passagens na Escritura, viram na lua (Selene) “o símbolo da entidade maternalmente acolhedora, humildemente receptiva da luz, que se tornou uma realidade viva em Maria e na Igreja” (Miti, p. 176).
É para a lua, precisamente, que voltaremos nossa atenção, como também para as características suas que os Padres consideraram atribuíveis às da Igreja, características que ainda hoje podem evocar uma imagem correspondente a sua natureza e a sua tarefa.
![Cristo, representado com as características de Hélio (o Sol), que sobe para o céu em seu carro, mosaico do século III na abóbada do Mausoléu dos Júlios, dentro da Necrópole Vaticana, próximo ao túmulo de Pedro [© Fabbrica di San Pietro no Vaticano]](upload/articoli_immagini_interne/1259684187721.jpg)
Cristo, representado com as características de Hélio (o Sol), que sobe para o céu em seu carro, mosaico do século III na abóbada do Mausoléu dos Júlios, dentro da Necrópole Vaticana, próximo ao túmulo de Pedro [© Fabbrica di San Pietro no Vaticano]
Rahner trata primeiramente da lua minguante como imagem de Cristo e da Igreja.
De Cristo, porque o crescimento e o decrescimento da lua não são um defeito, mas, antes, algo estabelecido por Deus para regular o crescimento de sementes e plantas, como também a ocorrência de orvalhos e marés. Como escreve Ambrósio no Exameron (IV, 8, 32), “a lua decresce para preencher os elementos. Isso é um grande mistério. Quem lhe deu essa faculdade foi aquele que a todos doou a graça. A fim de que possa preencher aniquilou-a [exinanivit] aquele que aniquilou a si mesmo para descer até nós; desceu até nós para levar-nos todos a subir: ‘Ascendeu para os céus’, diz a Escritura, ‘para preencher todas as coisas’. Aquele que fora aniquilado encheu os Apóstolos de sua plenitude. Por isso, um e”. De fato, seu desaparecimento é, na realidade, uma diminuição de intensidade luminosa. “A lua tem uma diminuição de luz, não de corpo [...]. O disco lunar mantém-se íntegro” (IV, 2, 7). A Igreja não está destinada a uma dialética de morte e ressurreição. O que ocorre, simplesmente, é que seu destino histórico pode ser comparado às fases da lua: “No fenômeno das fases lunares é representado simbolicamente o mistério da Igreja luminosa e minguante” (Simboli, p. 173). Para a Tradição, tanto oriental, representada, por exemplo, por Cirilo de Alexandria, quanto ocidental, representada por Ambrósio, o morrer da Igreja não significa que esta some ou se torna supérflua. Essa ideia, no entanto, apresentou-se em Orígenes, que, numa antecipação indevida da escatologia, correu o risco de levar a desaparecer o valor da Igreja no tempo e, especularmente, de eliminar a distância entre os cristãos iluminados por Cristo e o próprio Cristo. Ambrósio, em vez disso, “exalta a Igreja como verdadeira lua: ‘Quando a lua, em que vemos a imagem da Igreja, baseando-nos nas palavras dos profetas, renasce para realizar seu percurso noturno, fica inicialmente escondida pelas sombras tenebrosas. Mas lentamente suas pontas são invadidas pela luz e, quando mais tarde se põe diante do sol, resplandece pelo fulgor da centelha deste’” (Miti, p. 190).
Mais ainda que por suas fases, portanto, a lua é imagem da Igreja porque brilha, sim, mas não por luz própria. Cirilo: “A Igreja é iluminada pela luz divina de Cristo, que é a única luz no reino das almas. Há, portanto, uma só luz: nessa única luz resplandece, todavia, também a Igreja, que não é porém o próprio Cristo” (Simboli, p. 197). E Ambrósio, por sua vez: “A lua certamente não é pouco importante, já que traz a imagem da Igreja tão amada [dilecta]. [...] A Igreja não refulge por luz própria, mas pela luz de Cristo, e toma seu esplendor do Sol de justiça, de modo que pode dizer ‘já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim’. Realmente, feliz és tu, ó lua, que mereceste ser tão grande sinal! És feliz, não por teus novilúnios, mas por seres sinal da Igreja. Com os novilúnios, prestas serviço [servis]; mas, como sinal da Igreja, és amada [diligeris]”. É por isso que a verdadeira lua é a Igreja: porque, como Ambrósio parece querer dizer, nela passamos da condição de servos à bem-aventurança de sermos amados. Enfim, mais que por suas fases alternadas, a lua é imagem da Igreja porque recebe a luz do sol, do qual deriva também sua fecundidade (Exameron, IV, 8, 32).
![A mulher vestida de sol, detalhe do afresco que representa o capítulo 12 do Apocalipse, na parede ao fundo da Basílica de São Pedro no Monte, em Civate (Lecco) [© T.P. FotoGrafica di Emanuele Tonoli]](upload/articoli_immagini_interne/1259684187768.jpg)
A mulher vestida de sol, detalhe do afresco que representa o capítulo 12 do Apocalipse, na parede ao fundo da Basílica de São Pedro no Monte, em Civate (Lecco) [© T.P. FotoGrafica di Emanuele Tonoli]
Na medida em que é amada por Cristo, a Igreja gera. Só é fecunda porque unida a Ele. A lua também pôde constituir uma imagem fascinante dessa verdade dogmática. De fato, estava bem presente no imaginário grego e romano, em decorrência da simples observação das marés e dos ciclos naturais, a relação que a lua tem com tudo o que é úmido (ligado à água) e quente, e, por conseguinte, com a fecundidade da criação. Nós o vemos desde o imaginário filosófico-científico até o poético. De Aristóteles a Plutarco, de Apuleio a Macróbio, a lua é “mediadora maternal entre a intensa e fulgurante luz do sol e a terra escura; é dispensadora do orvalho noturno, senhora e mãe de tudo o que nasce e cresce” (Simboli, p. 232).
Nesse caso, porém, os Padres não tinham referências na Escritura a sua disposição, como se dava no caso da lua minguante; além disso, tiveram de abrir caminho em meio à ideia idolátrica amplamente difundida entre os pagãos de que a lua teria uma natureza divina (o que fizeram mostrando, no comentário ao Livro do Gênesis, que o sol e a lua foram criados depois dos animais e das plantas: sinal de que o nascimento e o crescimento destes depende, em primeiro lugar, da bondade do Criador, não da influência lunar). Mas, tanto para a investigação científica quanto para a observação comum, estava tão evidente que tudo o que tem uma relação qualquer com a água, e portanto com a fecundidade, depende da lua (cf. Simboli, p. 253), que essa simbologia também ganhou corpo, para se identificar com a força de vida que a Igreja dispensa no batismo. É algo que podemos ver sobretudo em alguns Padres gregos, como Metódio de Filipos ou Anastácio Sinaíta, para quem o próprio nome Selene deriva de selas nepion, que significa, em grego, “luz das crianças”; mas também em Ambrósio e em Máximo de Turim, a partir de quem a simbologia da lua parturiente chegaria até a Idade Média e a Dante.
Mas a lua é dispensadora maternal de uma água fecunda porque, “por sua vez, é dominada pela penetrante e radiante luz de Hélio” (Simboli, p. 258). Tal como o poder fecundante da água lunar está no fato de ser tépida, ou em sua relação com o sol, também no batismo a água só é geradora porque inflamada por Cristo. “O cristão vem à luz graças à ‘água inflamada’ (Firmico Materno) do batismo, que o Sol, Cristo, tornou fecunda e Selene, a Igreja, difundiu” (Miti, p. 194).
É justamente em razão do renascimento batismal que a Páscoa não é celebrada numa data fixa, mas de acordo com a lua nova da primavera. Agostinho o explica na Epístola 55, em resposta a uma pergunta específica que lhe haviam dirigido: “Tendo em vista, justamente, o início de uma nova vida; tendo em vista, justamente, o homem novo de que nos ordenam revestirmo-nos despojando-nos do velho, purificando-nos do velho fermento para sermos uma massa nova, uma vez que Cristo, nossa Páscoa, foi imolado; tendo em vista, justamente, essa novidade de vida é que foi atribuído a essa celebração o primeiro mês do ano, que, assim, se chama o mês das novas colheitas [mensis novorum]” (3,5). E Rahner comenta: “O mistério pascal da morte e ressurreição se dá sobretudo pelo fato de não ser uma simples comemoração histórica da ação salvífica de Jesus, ocorrida num certo mês de Nisan, mas algo sobrenaturalmente presente, de modo que a luz do novo sol é comunicada numa iniciação sacramental” (Miti, p. 143). A Páscoa não é um convite inane a recordar o passado, mas a passagem da morte à vida no sacramento.

Jusepe de Ribera, A Imaculada Conceição, Columbia Museum of Art, Colúmbia (Carolina do Sul, EUA)
Mas a regeneração batismal é apenas o início: a meta do mistério da Igreja é a ressurreição da carne. Em outras palavras, o mistério da Igreja visível e terrena é de ordem escatológica. Sua realidade terrena só pode ser realmente percebida se lançamos um olhar para seu fim último. “O permanere cum sole final, para Agostinho, é a essência da esperança cristã” (Simboli, p. 269).
No que diz respeito a essa verdade, os Padres também se valeram das imagens oferecidas pela lua. Eles contestaram, em primeiro lugar, as superstições e crenças grosseiras que se desenvolviam em torno da lua, mas, ao mesmo tempo, aproveitaram-se delas para comunicar a esperança da realização.
De fato, Selene, na antiga cosmologia, era a estrela que marcava a fronteira entre as regiões da terra e do céu. Tudo o que está acima dela era considerado santo e imutável, mas tudo o que está abaixo dela parecia dominado pelo fado, marcado pela corrupção e pela mutabilidade, a ponto de os pagãos temerem que nos eclipses a própria lua pudesse ser envolvida numa escuridão definitiva. Com isso, se entregavam a amuletos e a magos para obter alguma segurança, para ser libertados dos demônios e do fado.
O anúncio cristão é que no batismo começamos a viver, desde já, como que “acima da lua”, e não apenas com o espírito. A providência de Cristo toma o lugar do fado sublunar. “Já o Vidente de Patmos ensinou a considerar a Igreja a grande mulher posicionada sobre a lua, acima de qualquer mutabilidade, da corruptibilidade terrena, das leis do fado, acima do reino do espírito deste mundo” (Simboli, p. 278). E isso, justamente, porque essa mulher, que é ao mesmo tempo Maria e a Igreja, “é revestida de sol, do Sol de justiça que é Cristo”, como escreve Agostinho no Comentário ao Salmo 142, 3 (cf. Miti, p. 184). “A Igreja está livre de qualquer poder demoníaco, na medida em que toma parte do mistério da imutabilidade de Cristo. ‘Onde todos os dias cantamos o cântico de Cristo, não têm nenhuma eficácia os encantadores’ (Ambrósio, Exameron, IV, 8, 33). De fato, como diz Ambrósio usando uma expressão um tanto audaciosa, a Igreja, a Selene espiritual, ‘tem por encantador o seu Senhor Jesus’” (Simboli, p. 281). A Igreja subsiste e resiste apenas graças à “atração que é Jesus”, como poderíamos dizer, usando palavras ambrosianas de cunho mais recente.
Mas, em segundo lugar – e assim voltamos às palavras do arcebispo Montini com que abríamos o artigo –, “a extinção e a renovação da lua, ‘mesmo para os homens simples, é uma clara figura da Igreja, na qual cremos na ressurreição dos mortos’. As mudanças contínuas da lua representam muito bem a natureza mortal de nosso corpo” (Simboli, p. 284). A realização plena não pertence à terra, ainda que esperemos, com toda a criação, a redenção definitiva de nosso corpo. “A Igreja pôde, assim, voltar o olhar de seus fiéis para o bem-aventurado reino do mundo do além, onde resplandece unicamente o fogo etéreo de Cristo” (Simboli, p. 285).
Como podemos ver, o mysterium lunae oferece muitas sugestões pelas quais compreender qual é a natureza própria da Igreja e, portanto, a maneira de agir que lhe convém. A Igreja não pode pretender ser o termo último do olhar dos homens. De fato, a luz que a Igreja faz transparecer não é sua, e a água que a Igreja continua a dispensar vem do alto. Jamais poderemos relacionar à Igreja e a sua autoridade a imagem do sol, embora, em alguns momentos de sua história, esse perigoso deslize tenha ocorrido (cf. uma obra recente de Glauco Maria Cantarella, de 2005, Il sole e la luna. La rivoluzione di Gregorio VII papa).
No ângelus de 4 de outubro passado, Bento XVI, referindo-se à segunda Assembleia Sinodal para a África, que acabara de abrir, dizia com a simplicidade sem equívocos que lhe é natural: “Isto não é um congresso de estudos, nem uma assembleia programática. Ouvimos conferências e depoimentos no auditório, discutimos nos grupos, mas todos sabemos muito bem que não somos nós os protagonistas: é o Senhor, seu Santo Espírito, quem guia a Igreja”.