ANO SACERDOTAL
Extraído do número 05 - 2009
O Cura d’Ars e a confissão
de Gianni Valente

João Maria Vianney diante de seu confessionário; tela de Paul Borel conservada no santuário de Ars
Para o Cura d’Ars – como extraímos de suas aulas de catecismo –, uma boa confissão deve ser humilde, simples, prudente e total. É preciso “evitar todas as acusações inúteis, todos os escrúpulos que nos fazem dizer cem vezes a mesma coisa, que levam o confessor a perder tempo e irritam as pessoas que estão na fila esperando para se confessar”. É preciso “confessar aquilo que é incerto como incerto, e aquilo que é certo como certo”. O essencial é “evitar qualquer simulação: que o coração de vocês esteja em seus lábios. Vocês até podem enganar seu confessor, mas lembrem-se de que jamais enganarão ao bom Deus, que vê e conhece seus pecados melhor que vocês mesmos”. O próprio Vianney passava pouco tempo com os que se iam ajoelhar a seu confessionário, fosse quem fosse, a fim de que houvesse tempo suficiente para todos. Confissões breves, palavras breves. No entanto, não havia um só dos penitentes que não se sentisse objeto de uma atenção particular, de uma dedicação sempre pronta a aproveitar qualquer mínima abertura à ação do Espírito, que, “como um jardineiro, nunca termina de trabalhar a terra” (Caratgé), mesmo a dos corações mais endurecidos. A propósito da reparação que é pedida aos penitentes, Jean-Marie dizia: “Vou-lhes dizer a minha receita. Dou uma pequena penitência a eles, e faço o resto em seu lugar”. O que conta, diz o Cura, é ter ao menos um pouco de contrição por nossos pecados. Com uma contrição perfeita, a pessoa é perdoada “antes ainda de receber a absolvição”. Portanto, “é preciso dedicar mais tempo a pedir a contrição que ao exame de consciência”.
Para o Cura, a confissão é a dádiva inimaginável que Deus dá de surpresa para salvar seus filhos em perigo: “Meus jovens, é impossível compreender a bondade que Deus teve ao instituir esse grande sacramento. Se tivéssemos de pedir uma graça a Nosso Senhor, jamais imaginaríamos pedir-lhe essa. Mas ele previu nossa fragilidade e nossa inconstância no bem, e seu amor o levou a fazer o que nós nunca teríamos ousado pedir-lhe”.
Mais ainda, é um dom que revela de maneira mais íntima a própria natureza do mistério da Trindade. Recluso em seu confessionário, o coração simples do Cura experimenta de modo incomparável o mistério do próprio coração de Deus. O perdão imperfeito dos homens parece às vezes uma dádiva concedida a custo, algo que fazemos quando queremos parecer bons. O perdão de Deus é uma outra coisa. “Como poderíamos perder a esperança de Sua misericórdia, se Seu maior prazer é nos perdoar?”, escreve o Cura. Por isso, o tesouro da misericórdia divina é inesgotável, e não pode passar pela cabeça de ninguém contar os dons da graça, como se fossem dívidas que cedo ou tarde pagaremos, ficando quites com nossas ações. Afinal, para Deus perdoar é o prazer maior. E isso o faz tornar-se mendicante do coração do homem. “Sua paciência nos espera”, garante o Cura. Mais: “Não é o pecador que volta a Deus para lhe pedir perdão; é Deus que corre atrás do pecador e o faz voltar a Ele”.