Martin Luther King e Reinhold Niebuhr. Um encontro possível
Martin Luther King, protagonista da luta pela emancipação dos negros americanos, confrontou-se por longo tempo, num período decisivo de sua formação, com o pensamento de Reinhold Niebuhr, um dos principais expoentes do realismo político liberal. Apesar das diferenças de posições, os dois se influenciaram mutuamente
de Gianni Dessì
![Uma imagem de Martin Luther King durante o famoso discurso “I have a dream”, pronunciado em Washington, a 28 de agosto de 1963 [© Associated Press/LaPresse]](/upload/articoli_immagini_interne/1245148215355.jpg)
Uma imagem de Martin Luther King durante o famoso discurso “I have a dream”, pronunciado em Washington, a 28 de agosto de 1963 [© Associated Press/LaPresse]
Além disso, em setembro de 1958, num escrito que se tornaria parte do livro Stride Toward Freedom, King dedicaria uma seção, “An encounter with Niebuhr”, à tentativa de esclarecer que aspectos o faziam sentir-se atraído pelas posições do teólogo2.
Em resumo, de abril de 1952 a junho de 1954, King se empenhou, como jovem estudioso de Teologia, na análise das posições de Niebuhr; em 1958, voltou a refletir sobre sua relação com o teólogo Niebhur.
Pode parecer singular, hoje, que o principal protagonista da luta pela emancipação dos negros americanos, autor do famoso discurso “I have a dream”, pronunciado em 28 de agosto de 1963, em Washington – no qual exprimia o sonho de uma completa igualdade racial –, tenha-se confrontado por um longo tempo, num período decisivo de sua formação, com Niebuhr, uma das principais referências do realismo político liberal. Na realidade, porém, o fato de um jovem estudioso de Teologia se confrontar com Niebuhr na América da década de 1950 era completamente normal.
Em março de 1948, Niebuhr tinha sido capa da Time: o artigo “Faith for a Lenten Age” apresentava-o como uma inquietante figura que, “com todos os músculos de seu ser”, dizia não à “consciência fácil e ao otimismo fácil do protestantismo”3.
Niebuhr estava no ápice de sua notoriedade: sua posição parecia à altura de fazer frente à difícil e inédita situação de incerteza que o povo americano vivia nos anos imediatamente seguintes ao final da Segunda Guerra Mundial. A ruptura da aliança com a Rússia e o risco iminente de destruição total que uma guerra atômica produziria criavam uma situação espiritual que contrastava com o otimismo do protestantismo liberal, e lançava uma interrogação, ao menos no espírito de Niebuhr, sobre o significado da grande difusão de valores religiosos na cultura americana da década de 19504. O autor do artigo da Time escrevia que a fé de Niebuhr “claramente não é uma fé para espíritos fracos. É uma fé para uma era de provação”5.
Não nos deve surpreender, portanto, que naqueles anos King se interessasse por Niebuhr: a ideia de uma separação clara e esquemática entre o realista Niebuhr e o sonhador King não resiste a uma análise um pouco mais aprofundada de alguns dos temas dos dois maiores pensadores religiosos da América do século XX, como de resto evidenciou também Enrico Beltramini6.
Por outro lado, é inegável que, mesmo compartilhando alguns juízos sobre a sociedade e a religiosidade americanas daqueles anos, tenha havido divergências entre os dois, que se deveram tanto às diferentes histórias pessoais quanto a algumas posições teóricas específicas.
Essas divergências não impediram, porém, que um se comparasse com o outro: tanto é que, se pode parecer possível falar de uma influência de Niebuhr sobre King, talvez o contrário também seja verdade.
![Reinhold Niebuhr durante uma aula no Union Theological Seminary de Nova York, numa foto de 1952 [© Getty images/Laura Ronchi]](/upload/articoli_immagini_interne/1245148215495.jpg)
Reinhold Niebuhr durante uma aula no Union Theological Seminary de Nova York, numa foto de 1952 [© Getty images/Laura Ronchi]
Em poucos anos, King obteria resultados impensáveis pouco tempo antes: em dezembro de 1956, a Corte Suprema dos Estados Unidos declarou inconstitucional a segregação nos meios de transporte públicos; em 1963, King guiou a marcha pelos direitos civis em Washington, da qual participaram mais de duzentas mil pessoas; em 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz e foi recebido por Paulo VI.
King, durante esse período, referindo-se a Gandhi, propôs o método da não-violência, o que parecia conflitar explicitamente com as posições de Niebuhr, que em 1939 abandonara o Partido Socialista Americano, que propunha uma posição neutra diante da Segunda Guerra Mundial.
Para Niebuhr, ao menos durante os primeiros anos de sua atividade, a questão racial era secundária em relação à percepção que tinha do otimismo religioso superficial e da injustiça que marcavam a sociedade americana: como pastor de uma pequena comunidade de Detroit entre 1915 e 1928, ele estava impressionado com os resultados negativos da industrialização sobre a vida de seus fiéis, do ponto de vista social e moral.
Niebuhr, que desde 1928 lecionava na Columbia University de Nova York, não tinha uma experiência direta da questão racial tal como esta era vivida nos Estados do Sul.
No entanto, comprometeu-se publicamente ao apoiar cooperativas de meeiros do Estado do Arcansas que lutavam por uma política inter-racial, e em 1937 publicou Meditações do Mississipi, um ensaio no qual, depois de uma viagem a alguns Estados do Sul, denunciava o enforcamento de dois jovens de cor: esse escrito é cos em muitas cidades do Sul. Em tal situação, o medo aumenta o egoísmo de uma raça, e o que disso deriva é a crueldade”7.
Niebuhr insistia na necessidade de criar estruturas alternativas às existentes, como as cooperativas de meeiros Delta Farm e Providence Farm.
Nos escritos daqueles anos, ele expressava dois aspectos que retornariam sempre em sua reflexão. O primeiro é a crítica ao perfectismo. Para ele, não existia organização social nem ideologia que pudesse realizar a aspiração ao amor perfeito presente em cada homem. O segundo diz respeito ao apreço carregado de simpatia humana e participação por toda e qualquer tentativa de expressão existencial, social ou política do humano.
Nos anos seguintes, de modo particular na década de 1950, seu tema central passou a ser a política externa americana: só na década de 1960 voltou explicitamente a considerar as lutas pelos direitos civis.
Os escritos do jovem King a respeito de Niebuhr permitem perceber, também de um ponto de vista mais teórico, a distinção entre as posições dos dois.
Em 1952, King escrevia que “a força da posição de Niebuhr se encontra em sua crítica da consciência fácil e da complacência de algumas formas de perfectismo. Ele está correto, me parece, ao insistir que devemos ser realistas a respeito da relatividade de toda escolha moral e ética. Sua análise da complexidade da situação social é de fato profunda, e em nada discordo dela. Mas existe uma fraqueza na posição ética de Niebuhr que percorre todos os seus escritos. A fraqueza está na incapacidade de seu sistema de se confrontar de modo adequado com a perfeição relativa, que é um fato da vida cristã”8.
King concorda com a crítica de Niebuhr ao perfectismo e ao otimismo: não se dá na história uma plena realização dos ideais humanos, nem dos ideais religiosos. Acreditar que isso seja possível conduz a diversas formas de otimismo e de superficialidade no juízo sobre a existência individual e, ainda mais, sobre a coletiva. Na abordagem de Niebuhr, que King parece compartilhar, não há espaço para o utopismo.
![O presidente Barack Obama, com crianças de uma escola, fala com os astronautas da Estação Espacial Internacional, em Washington, a 24 de março de 2009 [© Associated Press/LaPresse]](/upload/articoli_immagini_interne/1245148215511.jpg)
O presidente Barack Obama, com crianças de uma escola, fala com os astronautas da Estação Espacial Internacional, em Washington, a 24 de março de 2009 [© Associated Press/LaPresse]
Enfim, Niebuhr parecia mais determinado pela exigência de evitar o risco de que uma realização histórica particular, individual ou social, pudesse pretender ser absoluta e se tornasse, assim, idolátrica; King, mais determinado pela experiência da comunidade negra e pela presença, nela, da lei cristã do amor.
Esses elementos de diversidade não eliminam o fato de que, embora de longe, até pelas circunstâncias históricas a que nos referimos, tenha havido entre os dois ao menos um encontro intelectual.
King, no ensaio de 1958 já recordado, escreveu: “Fascinavam-me os elementos proféticos e realistas presentes na complexa posição intelectual de Niebuhr, que ele expressava com um estilo apaixonado; tornei-me a tal ponto atraído por sua ética social, que quase caí na armadilha de aceitar acriticamente qualquer coisa que ele escrevesse”10.
Niebuhr, numa carta de 1963, escrevia que o discurso proferido por King em Washington, “I have a dream”, “era um dos mais eloquentes dos últimos anos. Esse discurso não poderia influenciar o núcleo duro dos racistas, mas influenciaria a nação”11.
Concluindo, parece-nos que a relação entre King e Niebuhr não seja caracterizada principalmente pela oposição entre o idealismo do primeiro e o realismo do segundo: em verdade, ambos viveram, de modos diferentes, um cristianismo ao mesmo tempo realista e profético.
Notas
1 Carson, C. (senior editor) The Papers of Martin Luther King, Jr., vol. II. Volume editors: Luker, R. E., Russel, P. A., Holloran, P. Berkeley–Los Angeles, University of California Press, 1994, pp. 139-279.
2 Carson, C. (senior editor) The Papers of Martin Luther King, Jr., vol. IV. Volume editors: Carson, S., Clay, A., Shadron, V., Taylor, K. Berkeley–Los Angeles, University of California Press, 2000, pp. 473-484.
3 Chambers, W. “Faith for a Lenten Age”. In: Time, 8 de março de 1948, p. 70.
4 Cf. Niebuhr, R. “Is there a Revival of Religion?” In: New York Times Magazine, novembro de 1950, p. 62.
5 Time, 8 de março de 1948.
6 Beltramini, E. “Niebuhr, il teologo realista amato da Barack Obama”. In: Il Riformista, 25 de fevereiro de 2009.
7 Niebuhr, R. “Meditations from Mississippi”. In: Christian Century, 10 de fevereiro de 1937, pp. 183-184. Hoje em: Dessì, G. Le organizzazioni contadine nell’America degli anni Trenta. Socialismo e cristianesimo in Reinhold Niebuhr. Roma, Edizioni Lavoro, 1995, p. 120.
8 The Papers of Martin Luther King, Jr., vol. II, cit., p. 150.
9 Giussani, L. Grandi linee della teologia protestante americana. Profilo storico dalle origini agli anni Cinquanta. Milão, Jaca Book, 1988, p. 139 (1ª edição: 1969).
10 The Papers of Martin Luther King, Jr., vol. IV, cit., p. 478.
11 Carta de R. Niebuhr a William Scarlett, 4 de setembro de 1963. Library of Congress, Niebuhr Papers, box 33.