ARGENTINA
Extraído do número 04 - 2009
BUENOS AIRES. Os padres, os traficantes, as ameaças
“São padres que rezam e trabalham”
Narcotraficantes ameaçam o pároco de uma villa miseria. E assim provocam um movimento unânime de simpatia popular por ele. Entrevista com o cardeal Jorge Mario Bergoglio
Entrevista com o cardeal Jorge Mario Bergoglio de Gianni Valente
Acontece de ele também os encontrar, os pobres
escravos do paco,
quando, de domingo, chega às vezes a pé a alguma villa miseria para celebrar a
missa, batizar e crismar, festejar o santo padroeiro. De longe, eles
já veem o colarinho branco, percebem que é um padre, e logo
vem a pergunta: “Hola, padre, tienes un peso para la coca?”
Para Jorge Mario Bergoglio, jesuíta, cardeal e arcebispo de Buenos
Aires desde 1998, é a confirmação de que nesses
lugares as pessoas “dizem a verdade”. E falam sério
também quando pedem uma saída para a escuridão
profunda de suas vidas desastrosas. Até aí, tudo bem. Mas que
ninguém tente tocar seus amigos padres de Buenos Aires. Esses mesmos
que, falando com intimidade, contam-lhe os milagres que o Senhor faz por
ali. Foi dom Jorge Mario quem trouxe a público as ameaças de
morte que os sacerdotes receberam dessa gente que ele chama “los
mercaderes de las tinieblas”, os mercadores das trevas.

Por que decidiu fazer todos saberem que um de seus
sacerdotes tinha sido ameaçado pelos traficantes de drogas?
JORGE MARIO BERGOGLIO: Essa decisão foi tomada em oração. Eu senti que esse era um problema de toda a Igreja local. E que todos os fiéis tinham de saber disso. Falei desse episódio na homilia da missa que celebrei para os agentes das escolas e das atividades educativas, em que falei também dos perigos que rondam os jovens de hoje, como as drogas. No fim da homilia, apenas acrescentei que um padre tinha sido ameaçado, sem nem dizer o nome.
Quem já teve a sorte de encontrar padre Pepe e os padres que trabalham com ele sabe que são prudentes e realistas. Eles não vestem a camisa dos “padres de fronteira” ou dos “profissionais ‘antidroga’”. O que foi que mudou? Por que os traficantes os ameaçaram?
BERGOGLIO: Eles trabalham. Não atacam ninguém. Quem disse que a droga é um perigo, não apenas nas favelas mas em toda a cidade, fui eu, naquela missa. Eu disse aos pais: fiquem de olho no que seus filhos estão fazendo, cuidem deles, porque a droga vem de toda parte, chega até a porta das escolas. Os sacerdotes das villas também trabalham na prevenção à toxicodependência e na reinserção social dos jovens drogados. Há um mês, redigiram um documento propositivo e construtivo a respeito do crescimento impressionante do tráfico de drogas. Os padres da Villa 21 abriram recentemente três casas de recuperação para jovens drogados. Fica claro que tudo isso não agradou aos traficantes. Alguém deve ter-se irritado.
Todos sabem que o senhor tem uma grande afeição pelos padres que trabalham nas villas miseria e nos bairros operários.
BERGOGLIO: Eles trabalham e rezam. São padres que rezam. E trabalham na catequese, nas obras sociais... É isso que me agrada. Dizem que esse pároco que foi ameaçado, e sei que é verdade, tem uma devoção especial por Dom Bosco. É justamente o estilo de Dom Bosco que o move.
Como foi que o resto da diocese reagiu? Tiveram ciúme?
BERGOGLIO: De jeito nenhum. Mais de quatrocentos padres de Buenos Aires assinaram uma declaração em favor de seus irmãos, e a apresentaram numa entrevista coletiva no episcopado. Foi uma iniciativa deles, não uma coisa inspirada pelos bispos. Eles viram esse episódio como um exemplo de trabalho apostólico.
A sua dedicação ao trabalho pastoral nos bairros operários e nas villas transformou-se num ponto de referência para toda a diocese.
BERGOGLIO: Sim, e eles estão felizes com isso. A sociedade e o governo também reagiram bem em favor de Pepe.
Talvez alguns até preferissem ocultar esses problemas, que trazem à tona a conivência e a falta de ação dos políticos, entre outros.
BERGOGLIO: Uma sensibilidade maior a esse problema apareceu há tempos na Igreja. No ano passado, a conferência episcopal preparou uma declaração. Outra veio da Comissão de Pastoral Social. Depois, o bispo Jorge Casaretto, assessor da Comisión Nacional de Justicia y Paz, fez uma pesquisa e falou várias vezes do tema. Por fim, veio o documento desses padres das villas, e em seguida a ameaça que chamou a atenção de todo o mundo. Cito tudo isso para repetir que esse documento não era um pronunciamento isolado, mas se inseria num percurso feito por toda a Igreja na Argentina, com o objetivo de dizer a todos: atenção, pois estamos diante de um perigo.
Mas a Igreja tem como tarefa principal a luta contra as drogas?
BERGOGLIO: É claro que não. É uma coisa pastoral. Uma obra pastoral. Para pedir a conversão de todos. Até dos traficantes.
![Padre José María “Pepe” Di Paola cumprimenta os dois mil fiéis que foram manifestar afeição e solidariedade a ele, ao final da missa celebrada pelo bispo auxiliar de Buenos Aires Óscar Ojea em Nuestra Señora de Caacupé, a 26 de abril de 2009 [© La Nacion]](upload/articoli_immagini_interne/1245147429292.jpg)
Padre Pepe tem uma porção de amigos
abandonasse tudo, se aquelas coisas continuassem a aparecer na televisão, “tu vas a ser boleta. Te la tienen jurada” (será eliminado, nós juramos você).
Padre José María “Pepe” Di Paola entendeu de cara qual era o problema. Antes da Páscoa, ele e os outros padres que trabalham nas villas miseria – as favelas argentinas, um meio-termo entre um amontoado de barracos e um bairro operário, cheias de imigrantes vindos da Bolívia, do Paraguai e das províncias pobres do norte do país – tinham escrito e difundido um documento em que diziam a quem quisesse ouvir que em seu bairro o tráfico de drogas é “descriminalizado de fato”: que os narcotraficantes estão transformando aqueles quarteirões cheios de gente pobre e indefesa em territórios off limits, terra de ninguém usada para dar saída às sobras da fabricação de cocaína. Uma tendência “brasileira”, que faz crescer a cada mês a contagem de mortos e feridos, roubos e crueldades diárias.
Não foi um capricho de Pepe e seus amigos, como se quisessem dar uma de heróis. O fato é que são padres ali, nas villas. Vivem em meio às histórias de desencontros e aflições daquelas vielas, entre aquelas vidas frágeis e feridas, que tantas e tantas vezes viram florescer a esperança, como um broto bem no meio do turbilhão. Viram como o Senhor tem prazer em fazer grandes coisas entre sua multidão de amigos sem poder e sem posses, Ele, que prefere sempre o humilde ao prepotente. Assim, qualquer tentativa de proteger esses pobres prediletos desencadeia sempre uma espécie de reflexo condicionado, um movimento instintivo. De geração em geração.
Nas décadas de 1960 e 1970, os primeiros padres que construíram capelas e paróquias nas villas, também para apoiar as lutas dos villeros por justiça e indicar-lhes um caminho de resgate social, renasceram no encontro com a fé e a devoção simples das pessoas que tinham ido generosamente instruir e ajudar. Esses padres – Rodolfo Ricciardelli, Carlos Mugica, Jorge Vernazza e todos os outros “pioneiros” que se aproximaram do movimento dos sacerdotes para el tercer mundo – chegaram a ter de abrir os braços desarmados para bloquear as ruas aos tratores várias vezes enviados pelo regime militar para derrubar os barracos dos villeros.
Hoje em dia a ameaça não são mais as topadoras mandadas pelos militares para limpiar la ciudad, para purgar Buenos Aires de gente que, segundo os líderes do regime, “não mereciam” viver ali. Já há alguns anos, o monstro é mais infame e devastador. Queima os cérebros, apaga os olhares, necrosa os corações dos jovens, dos adolescentes, das crianças. Eles o chamam el paco, ou pasta-base de cocaína (PBC). É feita com o resíduo químico da elaboração do pó branco. A droga de qualidade é mandada para a Europa e os EUA. A “normal” é destinada aos bairros nobres de Buenos Aires. A partir de 2001, ano da derrocada econômica argentina, os traficantes descobriram que os refugos também podiam render bem, se fossem infiltrados como mercadoria de massa nas villas. Uma dose custa menos de um dólar e meio; aliás, as primeiras são de graça. A droga entorpece mais que a maconha, mas o efeito dura pouquíssimo, e a pessoa logo quer experimentar de novo. Basta um dia para virar dependente. O estado de angústia que se segue a cada tragada é insuportável; a abstinência é povoada de paranoias e alucinações. A ânsia por arranjar dinheiro para novas doses leva à loucura. Em poucos dias, jovens e adolescentes tranquilos viram zumbis vorazes, a ponto de matar qualquer um que passe pela frente, por alguns pesos, sem nem se dar conta. São chamados muertos vivos. Esquecem-se de comer. Passam semanas inteiras sem dormir. Vagam sem rumo, com os olhos injetados, ou tombam em alguma calçada, os lábios queimados pelos cachimbos de lata improvisados com que aspiram o fumo.
![Padre Pepe [© La Nacion]](upload/articoli_immagini_interne/1245147429370.jpg)
Pepe também cruza com eles, quando passa pelas
esquinas mais afastadas da villa. Conhece alguns deles, do bairro, desde que eram
crianças. Às vezes o cumprimentam, perguntam se tem um
rosário e até uma moeda para eles. E Pepe responde que agora
não tem, mas que, se passarem um instante pela paróquia,
poderá fazer alguma coisa. E coisas a fazer ele já tem
muitas. Desde que chegou a Caacupé, há doze anos, floresceu
uma trama de vida cristã surpreendente em torno da rede de capelas
que formam a paróquia, com a ajuda da Virgem e dos santos –
Santo Expedito, São Pantaleão, São Caetano e todos os
outros –: são missas de cura e restaurantes populares,
rosários e escolas profissionais, peregrinações e
cursos de corte e costura, acampamentos a Bariloche e retiros espirituais
para os casais, ambulatórios médicos e noites passadas em
claro preparando o churrasco. Muita gente daria uma parada para gozar essas
pequenas e grandes vitórias no labirinto de pobreza e criminalidade
das villas, desviando
o olhar do destino dos drogacitos. Até se achando cheia de razão. Como se esse
fosse um sacrifício humano inevitável que tivessem de ceder
ao mal do nosso tempo. Mas Pepe e seus amigos não conseguem fazer
isso. Não conseguem deixar de apostar que o contágio de vida
boa que veem se expandir na villa possa alcançar até os mais perdidos. E
quem sabe fechar o turbilhão que a tantos engole.
Em 2008, vendo que os jovens villeros quase sempre fracassavam em suas tentativas de se desintoxicar nos centros de assistência da cidade, experimentaram começar um projeto local de recuperação, articulado em três fases ancoradas à rede de relações sociais da villa. Os responsáveis por isso são padre Charly e o misionero Gustavo, com a ajuda concreta de toda a comunidade. Os paroquianos ofereceram dezenas de fins de semana de trabajo solidario para construir uma fazenda no campo, na estrada para Luján, onde se realiza a segunda fase do percurso de recuperação: alguns meses de retiro, com um ritmo cadenciado de trabalho e repouso, longe da cidade. Mas o caminho começa no Hogar de Cristo, centro de acolhida diurno aberto nas proximidades da Villa 21: poucos cômodos, uma cozinha, um campinho de futebol. Até os meninos de rua, os chamados ninõs de Belén, vão lá para comer, tomar banho e assistir juntos a algum bom filme de heróis bondosos. É lá que algum dos dependentes do paco começam a procurar por alguém que possa expulsar a noite de suas vidas. O símbolo do Hogar é uma cruz fincada quebrando uma corrente. Um pouco naïf. Mas é para dizer que ninguém se salva sozinho, se Jesus não o ajudar. Não dá para viver sem Ele: é como tentar viver sem pão, como o que é assado no forno da escola pelos cozinheiros da rua Pepiri, que abastece os comedores e alimenta as crianças da villa. Miriam viu isso muito bem. Garota bonita, há dois anos dormia jogada como um trapo no meio dos contêineres de lixo; tinham levado suas duas filhas e ela passava dia e noite procurando dinheiro para o paco, de todas as formas possíveis. “Eu não acreditava mais que houvesse salvação para mim. Mas sempre cruzava com o padre pela rua, e ele me dizia: Dios te ama”. Hoje é professora de catecismo, quer se tornar colaboradora terapêutica para os toxicodependentes e rever suas filhas, “mas não agora, só quando ficar mais forte”. Raúl também viu tudo isso; uma vez, até conseguiu largar a droga, mas voltou a usar logo depois (“eu me senti una mierda. Um ano de esforço, e em poucas horas tudo vai por água abaixo”). Há alguns meses, frequenta o Hogar, participa dos cursos de eletricidade e carpintaria na escola da rua Pepiri e percebe, mesmo confusamente, que alguma coisa está mudando. Charly e Gustavo têm um montão de histórias como essas. Fracassos e recomeços. Descarrilamentos e novas partidas. Vidas que são salvas palmo a palmo. Muertos vivos que voltam à vida. Existe milagre maior do que esse? Há esperança até para aqueles que vendem a droga, que poderiam parecer irredimíveis. Quando Charly ou Pepe passam pela calle, os pequenos atravessadores da villa os cumprimentam; no fundo, muitos pensam estar fazendo um trabalho como qualquer outro, para sustentar a família, e nem se dão conta do mal que fazem.

A Igreja, como dom Jorge Mario Bergoglio diz sempre,
não é um lugar apenas para os bons. O cardeal de Buenos Aires
voltou a repetiu isso na homilia da festa de São Caetano:
“Alguém aqui é mandado embora porque é mau?
Não, pelo contrário; nós o acolhemos com mais
afeição. Foi Jesus quem ensinou”. O cardeal, quando
quer se animar, vai ver as vitórias de Jesus nas villas. Na Quinta-Feira Santa de 2008,
na missa da Ceia do Senhor, foi lavar os pés de doze jovens que
frequentavam o Hogar de Cristo. Naquele dia, os apóstolos eram eles.
No início, o único dinheiro que o Hogar de Cristo recebia
vinha das ofertas recolhidas nas missas da diocese de Buenos Aires,
além de uma doação do governo basco. Todos sabem do
amor que Bergoglio tem por essa obra. Assim, quando soube das
ameaças a Pepe, o cardeal as revelou a todo o mundo, publicamente,
numa missa que era transmitida pela televisão. Depois disso, houve
um reboliço em todo o país, com muita gente querendo estar ao
lado dos padres das villas, para testemunhar estima e apoio a seu trabalho. Governo,
políticos, sindicatos, jornalistas, movimentos da sociedade civil.
Ninguém quis ficar de fora. Um imenso escudo de
proteção, diante do ódio cego de pessoas que disparam
às vezes sem saber o que fazem e o que estão perdendo. Como
bons irmãos, mais de quatrocentos sacerdotes de Buenos Aires
subscreveram um documento para expressar com toda a força que
estão ao lado dos padres villeros. Em 26 de abril, o bispo auxiliar Óscar Ojea celebrou
uma missa emocionada em Nuestra Señora de Caacupé, diante de
dois mil fiéis que compareceram para manifestar a
afeição popular que cerca padre Pepe. “No se va y Pepe
no se va”, cantavam todos.
É claro que Pepe não vai embora. “Esta é a minha casa e vocês são a minha família. Queremos que todos os jovens cresçam na fé, frequentem a escola, tenham metas e objetivos”, disse ele ao final da missa. Em seu coração, não vê a hora de que passe o turbilhão deste tempo de entrevistas, tevê, conferências. Não vê a hora de voltar a montar sua bicicleta. E correr ao encontro dos dias bagunçados e abençoados que o esperam, com todos os amigos da Villa 21.
Como ajudar padre Pepe
Para doações ao programa de recuperação dos toxicodependentes iniciado pelos sacerdotes da Villa 21 entrem em contato com o escritório contábil da paróquia
Nuestra Señora de Caacupé: Calle Osvaldo Cruz, 3470, Barracas, Buenos Aires.
E-mail: info@ceosnet.com.ar; telefone: +54-11-42418570

O cardeal Bergoglio na procissão de Nossa Senhora do Carmo, em Ciudad Oculta, villa miseria do bairro de Mataderos, em Buenos Aires
JORGE MARIO BERGOGLIO: Essa decisão foi tomada em oração. Eu senti que esse era um problema de toda a Igreja local. E que todos os fiéis tinham de saber disso. Falei desse episódio na homilia da missa que celebrei para os agentes das escolas e das atividades educativas, em que falei também dos perigos que rondam os jovens de hoje, como as drogas. No fim da homilia, apenas acrescentei que um padre tinha sido ameaçado, sem nem dizer o nome.
Quem já teve a sorte de encontrar padre Pepe e os padres que trabalham com ele sabe que são prudentes e realistas. Eles não vestem a camisa dos “padres de fronteira” ou dos “profissionais ‘antidroga’”. O que foi que mudou? Por que os traficantes os ameaçaram?
BERGOGLIO: Eles trabalham. Não atacam ninguém. Quem disse que a droga é um perigo, não apenas nas favelas mas em toda a cidade, fui eu, naquela missa. Eu disse aos pais: fiquem de olho no que seus filhos estão fazendo, cuidem deles, porque a droga vem de toda parte, chega até a porta das escolas. Os sacerdotes das villas também trabalham na prevenção à toxicodependência e na reinserção social dos jovens drogados. Há um mês, redigiram um documento propositivo e construtivo a respeito do crescimento impressionante do tráfico de drogas. Os padres da Villa 21 abriram recentemente três casas de recuperação para jovens drogados. Fica claro que tudo isso não agradou aos traficantes. Alguém deve ter-se irritado.
Todos sabem que o senhor tem uma grande afeição pelos padres que trabalham nas villas miseria e nos bairros operários.
BERGOGLIO: Eles trabalham e rezam. São padres que rezam. E trabalham na catequese, nas obras sociais... É isso que me agrada. Dizem que esse pároco que foi ameaçado, e sei que é verdade, tem uma devoção especial por Dom Bosco. É justamente o estilo de Dom Bosco que o move.
Como foi que o resto da diocese reagiu? Tiveram ciúme?
BERGOGLIO: De jeito nenhum. Mais de quatrocentos padres de Buenos Aires assinaram uma declaração em favor de seus irmãos, e a apresentaram numa entrevista coletiva no episcopado. Foi uma iniciativa deles, não uma coisa inspirada pelos bispos. Eles viram esse episódio como um exemplo de trabalho apostólico.
A sua dedicação ao trabalho pastoral nos bairros operários e nas villas transformou-se num ponto de referência para toda a diocese.
BERGOGLIO: Sim, e eles estão felizes com isso. A sociedade e o governo também reagiram bem em favor de Pepe.
Talvez alguns até preferissem ocultar esses problemas, que trazem à tona a conivência e a falta de ação dos políticos, entre outros.
BERGOGLIO: Uma sensibilidade maior a esse problema apareceu há tempos na Igreja. No ano passado, a conferência episcopal preparou uma declaração. Outra veio da Comissão de Pastoral Social. Depois, o bispo Jorge Casaretto, assessor da Comisión Nacional de Justicia y Paz, fez uma pesquisa e falou várias vezes do tema. Por fim, veio o documento desses padres das villas, e em seguida a ameaça que chamou a atenção de todo o mundo. Cito tudo isso para repetir que esse documento não era um pronunciamento isolado, mas se inseria num percurso feito por toda a Igreja na Argentina, com o objetivo de dizer a todos: atenção, pois estamos diante de um perigo.
Mas a Igreja tem como tarefa principal a luta contra as drogas?
BERGOGLIO: É claro que não. É uma coisa pastoral. Uma obra pastoral. Para pedir a conversão de todos. Até dos traficantes.
![Padre José María “Pepe” Di Paola cumprimenta os dois mil fiéis que foram manifestar afeição e solidariedade a ele, ao final da missa celebrada pelo bispo auxiliar de Buenos Aires Óscar Ojea em Nuestra Señora de Caacupé, a 26 de abril de 2009 [© La Nacion]](upload/articoli_immagini_interne/1245147429292.jpg)
Padre José María “Pepe” Di Paola cumprimenta os dois mil fiéis que foram manifestar afeição e solidariedade a ele, ao final da missa celebrada pelo bispo auxiliar de Buenos Aires Óscar Ojea em Nuestra Señora de Caacupé, a 26 de abril de 2009 [© La Nacion]
abandonasse tudo, se aquelas coisas continuassem a aparecer na televisão, “tu vas a ser boleta. Te la tienen jurada” (será eliminado, nós juramos você).
Padre José María “Pepe” Di Paola entendeu de cara qual era o problema. Antes da Páscoa, ele e os outros padres que trabalham nas villas miseria – as favelas argentinas, um meio-termo entre um amontoado de barracos e um bairro operário, cheias de imigrantes vindos da Bolívia, do Paraguai e das províncias pobres do norte do país – tinham escrito e difundido um documento em que diziam a quem quisesse ouvir que em seu bairro o tráfico de drogas é “descriminalizado de fato”: que os narcotraficantes estão transformando aqueles quarteirões cheios de gente pobre e indefesa em territórios off limits, terra de ninguém usada para dar saída às sobras da fabricação de cocaína. Uma tendência “brasileira”, que faz crescer a cada mês a contagem de mortos e feridos, roubos e crueldades diárias.
Não foi um capricho de Pepe e seus amigos, como se quisessem dar uma de heróis. O fato é que são padres ali, nas villas. Vivem em meio às histórias de desencontros e aflições daquelas vielas, entre aquelas vidas frágeis e feridas, que tantas e tantas vezes viram florescer a esperança, como um broto bem no meio do turbilhão. Viram como o Senhor tem prazer em fazer grandes coisas entre sua multidão de amigos sem poder e sem posses, Ele, que prefere sempre o humilde ao prepotente. Assim, qualquer tentativa de proteger esses pobres prediletos desencadeia sempre uma espécie de reflexo condicionado, um movimento instintivo. De geração em geração.
Nas décadas de 1960 e 1970, os primeiros padres que construíram capelas e paróquias nas villas, também para apoiar as lutas dos villeros por justiça e indicar-lhes um caminho de resgate social, renasceram no encontro com a fé e a devoção simples das pessoas que tinham ido generosamente instruir e ajudar. Esses padres – Rodolfo Ricciardelli, Carlos Mugica, Jorge Vernazza e todos os outros “pioneiros” que se aproximaram do movimento dos sacerdotes para el tercer mundo – chegaram a ter de abrir os braços desarmados para bloquear as ruas aos tratores várias vezes enviados pelo regime militar para derrubar os barracos dos villeros.
Hoje em dia a ameaça não são mais as topadoras mandadas pelos militares para limpiar la ciudad, para purgar Buenos Aires de gente que, segundo os líderes do regime, “não mereciam” viver ali. Já há alguns anos, o monstro é mais infame e devastador. Queima os cérebros, apaga os olhares, necrosa os corações dos jovens, dos adolescentes, das crianças. Eles o chamam el paco, ou pasta-base de cocaína (PBC). É feita com o resíduo químico da elaboração do pó branco. A droga de qualidade é mandada para a Europa e os EUA. A “normal” é destinada aos bairros nobres de Buenos Aires. A partir de 2001, ano da derrocada econômica argentina, os traficantes descobriram que os refugos também podiam render bem, se fossem infiltrados como mercadoria de massa nas villas. Uma dose custa menos de um dólar e meio; aliás, as primeiras são de graça. A droga entorpece mais que a maconha, mas o efeito dura pouquíssimo, e a pessoa logo quer experimentar de novo. Basta um dia para virar dependente. O estado de angústia que se segue a cada tragada é insuportável; a abstinência é povoada de paranoias e alucinações. A ânsia por arranjar dinheiro para novas doses leva à loucura. Em poucos dias, jovens e adolescentes tranquilos viram zumbis vorazes, a ponto de matar qualquer um que passe pela frente, por alguns pesos, sem nem se dar conta. São chamados muertos vivos. Esquecem-se de comer. Passam semanas inteiras sem dormir. Vagam sem rumo, com os olhos injetados, ou tombam em alguma calçada, os lábios queimados pelos cachimbos de lata improvisados com que aspiram o fumo.
![Padre Pepe [© La Nacion]](upload/articoli_immagini_interne/1245147429370.jpg)
Padre Pepe [© La Nacion]
Em 2008, vendo que os jovens villeros quase sempre fracassavam em suas tentativas de se desintoxicar nos centros de assistência da cidade, experimentaram começar um projeto local de recuperação, articulado em três fases ancoradas à rede de relações sociais da villa. Os responsáveis por isso são padre Charly e o misionero Gustavo, com a ajuda concreta de toda a comunidade. Os paroquianos ofereceram dezenas de fins de semana de trabajo solidario para construir uma fazenda no campo, na estrada para Luján, onde se realiza a segunda fase do percurso de recuperação: alguns meses de retiro, com um ritmo cadenciado de trabalho e repouso, longe da cidade. Mas o caminho começa no Hogar de Cristo, centro de acolhida diurno aberto nas proximidades da Villa 21: poucos cômodos, uma cozinha, um campinho de futebol. Até os meninos de rua, os chamados ninõs de Belén, vão lá para comer, tomar banho e assistir juntos a algum bom filme de heróis bondosos. É lá que algum dos dependentes do paco começam a procurar por alguém que possa expulsar a noite de suas vidas. O símbolo do Hogar é uma cruz fincada quebrando uma corrente. Um pouco naïf. Mas é para dizer que ninguém se salva sozinho, se Jesus não o ajudar. Não dá para viver sem Ele: é como tentar viver sem pão, como o que é assado no forno da escola pelos cozinheiros da rua Pepiri, que abastece os comedores e alimenta as crianças da villa. Miriam viu isso muito bem. Garota bonita, há dois anos dormia jogada como um trapo no meio dos contêineres de lixo; tinham levado suas duas filhas e ela passava dia e noite procurando dinheiro para o paco, de todas as formas possíveis. “Eu não acreditava mais que houvesse salvação para mim. Mas sempre cruzava com o padre pela rua, e ele me dizia: Dios te ama”. Hoje é professora de catecismo, quer se tornar colaboradora terapêutica para os toxicodependentes e rever suas filhas, “mas não agora, só quando ficar mais forte”. Raúl também viu tudo isso; uma vez, até conseguiu largar a droga, mas voltou a usar logo depois (“eu me senti una mierda. Um ano de esforço, e em poucas horas tudo vai por água abaixo”). Há alguns meses, frequenta o Hogar, participa dos cursos de eletricidade e carpintaria na escola da rua Pepiri e percebe, mesmo confusamente, que alguma coisa está mudando. Charly e Gustavo têm um montão de histórias como essas. Fracassos e recomeços. Descarrilamentos e novas partidas. Vidas que são salvas palmo a palmo. Muertos vivos que voltam à vida. Existe milagre maior do que esse? Há esperança até para aqueles que vendem a droga, que poderiam parecer irredimíveis. Quando Charly ou Pepe passam pela calle, os pequenos atravessadores da villa os cumprimentam; no fundo, muitos pensam estar fazendo um trabalho como qualquer outro, para sustentar a família, e nem se dão conta do mal que fazem.

Os muraleros da paróquia de Nuestra Señora de Caacupé, na Villa 21, pintam o mural em que figura padre Daniel de la Sierra, primeiro pároco da villa
É claro que Pepe não vai embora. “Esta é a minha casa e vocês são a minha família. Queremos que todos os jovens cresçam na fé, frequentem a escola, tenham metas e objetivos”, disse ele ao final da missa. Em seu coração, não vê a hora de que passe o turbilhão deste tempo de entrevistas, tevê, conferências. Não vê a hora de voltar a montar sua bicicleta. E correr ao encontro dos dias bagunçados e abençoados que o esperam, com todos os amigos da Villa 21.
Como ajudar padre Pepe
Para doações ao programa de recuperação dos toxicodependentes iniciado pelos sacerdotes da Villa 21 entrem em contato com o escritório contábil da paróquia
Nuestra Señora de Caacupé: Calle Osvaldo Cruz, 3470, Barracas, Buenos Aires.
E-mail: info@ceosnet.com.ar; telefone: +54-11-42418570