HISTÓRIA DE SIMPLES PADRES
Extraído do número 03 - 2009
Padre Primo Mazzolari. O sacerdote da paróquia às margens do rio
O dom da fé, “a mais pobre das missas”, as polêmicas geradas por seus artigos e livros, o afeto de seu bispo, os encontros com Montini e o papa João XXIII
de Paolo Mattei
![Padre Primo Mazzolari com os jovens de Bozzolo <BR>[© Fondazione Mazzolari]](upload/articoli_immagini_interne/1242048019808.jpg)
Padre Primo Mazzolari com os jovens de Bozzolo
[© Fondazione Mazzolari]
“Para mim”, dizia, “os clássicos da pregação cristã são as Sagradas Escrituras, os Padres e os escritos dos santos e dos místicos, cujo conhecimento traria consistência e amplitude à doutrina. A teologia nos dá os conhecimentos; já a alma, essa nós precisamos encontrar em outros lugares.” Pregador havia muitos anos, padre Primo Mazzolari respondia aos chamados que já recebia de toda a Itália. Seu desejo fora sempre conversar com todos munido de uma “autoridade caridosa” e de um “sentimento paternal”; estava convencido de que era preciso “sentir as pessoas a quem nos dirigimos como próximas e queridas, ler sua alma”. Ele sempre dialogava com todos, sem pretensões ou fechamentos ideológicos e religiosos, pois sabia que “uma pessoa não pode dar a fé a si mesma, nem pode dá-la a ninguém. Eu posso dá-la a conhecer, posso dar testemunho dela, mas ‘o óleo da lâmpada’ vem do ‘Pai das luzes’. É realmente surpreendente que, ao mesmo tempo em que podemos dar tudo, pois tudo é posto nas mãos do homem para que faça de todas as coisas uma dádiva fraternal, ninguém, além de Deus, pode dar a fé”. “Nós cremos”, continuava padre Primo, “porque amamos (crer sem amar seria o inferno), e o nosso amor, que serve de apoio ao consentimento da fé, nada mais é que uma resposta: a resposta a um apelo, a uma iniciativa de Deus, que, sob o doce e misericordioso nome de graça, predispõe o homem à ‘novidade’”. Suas palavras sempre foram capazes de suscitar não apenas polêmicas, mas também o fervor e a esperança em muitos homens, cristãos e não cristãos.
Naquela quarta-feira, no fim de janeiro de 1959, padre Primo Mazzolari, sacerdote de sessenta e sete anos, originário de Boschetto, um distrito da província de Cremona, estava sereno, até porque estava para encontrar um homem cuja inteligência e paternal afeição por ele já conhecia: Giovanni Battista Montini, arcebispo de Milão, que mais de um ano antes lhe pedira que pregasse durante a Missão para a Cidade, realizada em novembro de 1957 na metrópole ambrosiana. E lhe havia pedido isso bem em meio a um dos muitos momentos de tempestade em que padre Primo acabara por se meter, um momento que ficara ainda mais pesado, naquela vez, por outra das tantas convocações do Santo Ofício, em razão de certas declarações suas favoráveis à liberdade de voto dos católicos franceses, como também de sua colaboração com o jornal quinzenal Adesso, do qual fora inspirador, havia quase dez anos.
Padre Primo pedira uma audiência com Montini depois de saber que a Conferência dos Bispos da Lombardia tinha a intenção de desautorizar publicamente o jornal Adesso, cuja sede administrativa se encontrava em Milão. A linha e os “tons” da publicação não eram compartilhados por muitos daqueles prelados, particularmeWnte irritados com a recente publicação de uma “Carta aos bispos do Vale do Pó”, que os exortava a alinhar-se com as lutas sociais dos camponeses e dos boias-frias, e também com a divulgação do inédito “Discurso aos bispos” – “defensores da cidade”, “dos pobres” e “da liberdade” – pronunciado pelo cardeal Suhard no Advento de 1948. Talvez também a resenha de Adesso – positiva, sim, mas não livre de reservas – ao livro Esperienze pastorali, de padre Milani, tenha tido pouca aceitação por parte do episcopado lombardo.
Padre Primo vinha falar ao coração bom e à inteligência viva de Montini. Alguns dias antes daquele encontro, escrevera ao cardeal arcebispo: “Se Vossa Eminência não tivesse interferido, com uma bondade pela qual sempre lhe serei grato, chamando-me à Missão de Milão, ninguém [...] se daria conta de que não é possível condenar perpetuamente um padre que sempre amou a Igreja, mais que a si mesmo”.
Montini conhecia bem aquele homem e sua incansável atividade de pregador. Mas conhecia também sua silenciosa e humilde vida de pároco, consumida em meio ao povo simples de pequenas paróquias às margens do rio Pó; conhecia sua história de pároco de aldeia, que desejava – como o próprio padre Primo dissera uma vez – oferecer a seus paroquianos um testemunho feito “mais de silêncio que de protestos, mais de orações que de violência, mais de espera que de arroubos”.
![Padre Primo como capelão dos Alpinos [© Fondazione Mazzolari]](upload/articoli_immagini_interne/1242047912918.jpg)
Padre Primo como capelão dos Alpinos [© Fondazione Mazzolari]
Era 1º de janeiro de 1922 quando dom Giovanni Cazzani, bispo de Cremona, nomeou-o pároco de Cicognara; padre Primo ficaria dez anos nesse pequeno povoado na margem esquerda do Pó. Lá moravam pouco mais de mil almas, muitas das quais, exasperadas pela miséria, tinham feito de tudo para expulsar o pároco anterior, por quem aquela gente não morria de amores, provavelmente mais pela gestão pouco generosa das gordas rendas territoriais de que gozava a paróquia que por um anticlericalismo difuso. Dom Giovanni tinha certeza de que padre Primo saberia orientar-se com agilidade num território hostil a tudo o que se assemelhasse, mesmo de longe, a um padre. Afinal, alguns anos antes o bispo o havia enviado, como delegado episcopal, a Bozzolo, uma cidadezinha de sentimentos socialistas e anticlericais, na qual, além de tudo, a população estava dividida entre duas igrejas tradicionalmente rivais. Ali, padre Primo pusera em prática seu “estilo pastoral”: nada de associacionismo católico segundo os velhos esquemas, para evitar novas divisões, e o máximo de abertura a todos os habitantes, qualquer que fosse o credo político ou religioso que tivessem como referência. Ele visitava todas as famílias, tanto as socialistas quanto as católicas, via com simpatia as lutas sindicais dos operários, condenava do púlpito as primeiras violências fascistas, abolia as costumeiras tarifas do serviço litúrgico, cuidava da assistência aos doentes no hospital. Mas raramente se pronunciava nas reuniões dos párocos da região. E, naquela “cidade sem muros” – como padre Primo gostava de definir sua paróquia –, celebrava a missa, “o dom mais importante”: “Não uma missa pontifical, não uma missa na basílica ou numa abadia beneditina, mas a mais pobre das missas, celebrada pelo mais pobre dos sacerdotes, a minha missa dominical”. Ali realmente não era preciso inventar nada: “Na missa, não sou um inventor, mas um repetidor. [...] Devo, portanto, ler a missa e o Evangelho como eles são. [...] Quando prego a meu povo pobre, sou o repetidor da palavra de um Outro; devo repetir o que Jesus disse: não o meu Evangelho, mas o Evangelho da por Geremia Bonomelli – bispo de ideias católico-liberais e conciliadoras – e fora ordenado em 1912. Começava a gostar desse jovem sacerdote que às vésperas do primeiro conflito mundial fora viver como missionário entre os trabalhadores italianos na Suíça: lá, em meio aos emigrados, que estavam voltando para a pátria, com a iminência da guerra, padre Primo – que crescera nos anos da crise modernista, lendo Hugo, Tolstoi, Duchesne, Péguy, e que se fascinara pela abertura aos “que estão longe” e aos pobres recomendada à Igreja por seu bispo, Bonomelli – se havia deparado com uma miséria mais profunda que aquela em que viviam os camponeses da região de Cremona. Depois, nos anos seguintes, conheceria o tormento que a Primeira Guerra Mundial infligia aos corações e aos corpos de civis e soldados. Não demorou para que seu coração também fosse atormentado pelo falecimento do irmão, Peppino, morto no front em 1915. Assim, em 1916, escrevia em seu diário: “Às vezes, quando estou sozinho e penso na inutilidade de minha vida e no embrutecimento a que estou condenado, choro e choro por horas inteiras, não porém por tristeza, mas porque sou levado naturalmente às lágrimas por me ver um pouco mais semelhante a Jesus do que antes, e pela comoção de sofrer diretamente, com Jesus, pelos pecados meus e dos outros irmãos. Nos desígnios da Providência, não há nada que não tenha valor e finalidade: se nem um nem outro ficam evidentes para nós, aceitamos os fatos com docilidade, à espera de conhecer seu significado”.
![Um retrato de padre Mazzolari [© Fondazione Mazzolari]](upload/articoli_immagini_interne/1242048019886.jpg)
Um retrato de padre Mazzolari [© Fondazione Mazzolari]
“O paganismo retorna e nos afaga, e poucos sentem vergonha dele.” Padre Primo anotava essa frase já em 1922, pensando no apoio cada vez mais convicto que muitos católicos davam ao regime que se ia instalando. De sua paróquia, em Cicognara, ele via a tudo isso com preocupação. Em 1929, depois da assinatura do Tratado de Latrão (“nós vamos nos casar, mesmo ‘sem amor’”), comentava com um amigo: “O que eu penso? Só isto: Ludit Deus in orbe terrarum. A verdadeira política, para nossa sorte, é feita lá em cima, não por nós, pequenos mortais, que, quanto mais nos cremos fazedores de história, mais nos tornamos ridículos”.
No ambiente nada fácil de Cicognara, ele soubera conquistar a simpatia de muita gente, sobretudo dos socialistas e anticlericais. Também ali, como ocorrera antes em Bozzolo, depois do surgimento de uma amizade entre o sacerdote e o povo da cidade, iam acontecendo pequenos fatos que quase sempre desagradavam não apenas os aliados locais do regime, mas também os filofascistas clericais. De fato, desde o início Mazzolari se associara à revolta político-econômica de seu povo, aderira à festa de 1º de maio, criara para as crianças uma colônia de férias fluvial não confessional e sem o patrocínio do Partido. Em Cicognara, também não se preocupava em promover o associacionismo católico, pois não queria etiquetar as poucas e simples iniciativas paroquiais, como a festa de fim de estação que todos os anos, em 15 de agosto, a população de Cicognara celebrava às margens do Pó.
“Eu falo durante cinco minutos. O Senhor sabe o que eu disse, pois foi Ele quem me inspirou essas palavras, e eu não me lembro de mais nada. Só sei que quando a massa, convidada por mim, se levanta como um homem só para rezar o pai-nosso, muitos de nós começam a chorar.” Foi assim que padre Primo contou a seu bispo o que acontecera no vilarejo, em novembro de 1925, depois que se recusara a rezar o Te Deum na igreja em agradecimento pelo fracasso do atentado contra a vida do Duce. Os fascistas tinham obrigado a população a se reunir na igreja para o evento solene que o sacerdote teria de presidir. Padre Primo chegou por último e, pegando de surpresa as autoridades da cidade, conseguiu, com o simples gesto de rezar o pai-nosso com os fiéis ali presentes, não se submeter à ordem que lhe fora dada e despedir a todos pacificamente. “A que conclusão eu chego?”, conta na carta a dom Giovanni Cazzani: “A uma só: que o Senhor me quer muito bem”. O bispo sabia disso; e dom Giovanni, que também lhe queria muito bem, fez o que pôde para defendê-lo diante dos magistrados, que gostariam de liquidá-lo como subversivo antifascista. Mas o maior perigo a sua integridade física seria corrido por padre Primo alguns anos depois, em agosto de 1931, ao ser atingido de raspão por três tiros de revólver disparados por dois matadores de aluguel.

João XXIII: o papa Roncalli recebeu padre Primo em audiência a 5 de fevereiro de 1959
No início da década de 1940, padre Primo publicou uma dezena de livros, e a fama do sacerdote pregador, que nesse meio-tempo voltara a Bozzolo como arcipreste e pároco, transbordou para além dos limites da diocese. Padre Primo pregava também em congressos organizados por universitários católicos em Camáldoli, Florença, Pádua, San Remo, Milão, encontros anuais nos quais enfrentava temas que viria a desenvolver amplamente no pós-guerra, como o da popularidade do comunismo, diante do qual exorta a Igreja e os católicos a deixarem de lado sua atitude característica, de rígida hostilidade, e a distinguirem o erro da pessoa que erra (“combato o comunismo, mas amo os comunistas”), convidando-os a meditar, isso sim, sobre por que essa ideologia conseguia “durar e fincar pé entre povos para os quais não vale a desculpa da primitividade ou da servidão”, ou sobre o fato de “os humildes e os honestos” começarem a se “amotinar em resposta às condições desumanas de vida”.
Nas obras publicadas naqueles anos, padre Primo falava também de seu desejo de reforma da ação evangelizadora da Igreja, aprofundando os temas da abertura aos “que estão longe” e da atenção aos pobres e aos marginalizados. Abertura e atenção a todos os homens. Escreve: “E quando digo ‘quero ver o homem’, não me refiro ao homem dos filósofos, que não me interessa, como também não me interessa o deus dos filósofos. Refiro-me ao homem real, ao homem verdadeiro, em carne e osso: alguém que eu posso tocar. E esse homem que eu posso tocar e que pede piedade sou eu mesmo. O pobre é o homem, todo homem. Não pelo que não tem, mas pelo que é, pelo que não lhe basta, e que o faz mendicante em qualquer lugar, quer estenda a mão, quer a feche”.
Foi justamente um desses livros, La più bella avventura. Sulla traccia del “prodigo” – fruto das pregações em missões populares que realizara entre 1929 e 1932, e publicado em 1934 com o imprimatur da cúria de Bréscia –, que proporcionou a padre Mazzolari a primeira severa censura por parte da Congregação do Santo Ofício, então chamada “Suprema”. O livro, que Ernesto Buonaiuti definiu “de uma altura e uma densidade intensíssimas”, despertara o alarme sobretudo por sua difusão entre as comunidades protestantes da região, e o Santo Ofício o julgou, laconicamente, “errôneo”. Era um duro golpe para padre Primo, que assim se dirigiu a seu bispo: “Excelência, eu deploro de todo o coração que alguém abuse de meu livro. Mas já abusaram e abusam de tudo nesta vida: até de São Paulo, de Santo Agostinho, até do Evangelho. Respeito qualquer opinião pessoal, mas só me inclino em obediência ao juízo da Igreja”. Dom Giovanni Cazzani responde: “Caro arcipreste, não se avilte por ser feito objeto de uma recomendação de especial vigilância; ofereça humildemente a Deus esta provação [...]. Eu gostaria que o senhor pudesse ler em meu coração o vivo amor – de padre e de pastor – que tenho por sua pessoa, e também minha trepidação cheia de amor pelo senhor nesta provação dolorosa”. Cazzani reuniria depoimentos positivos de párocos e bispos das dioceses em que Mazzolari tinha pregado naqueles anos, e os enviaria ao Santo Ofício, acrescidos de suas garantias pessoais a respeito do comportamento do sacerdote (“por sua caridade, ele estaria pronto a abraçar e levar a todos para a igreja, até os mais distantes, e isso o dispõe a uma abertura talvez excessiva aos que estão longe...”). O bispo de Cremona teria de fazer esse trabalho com frequência, dali por diante.

A página de 13 de novembro de 1956 da agenda de padre Mazzolari, em que está anotada uma conversa com Giulio Andreotti, durante a qual o então ministro lhe falou do livro Anch’io voglio bene al papa; abaixo, uma carta de Giulio Andreotti a padre Mazzolari, datada de 11 de novembro de 1954: Andreotti pede ao sacerdote um artigo para a primeira edição da revista Concretezza
A atividade do pároco de Bozzolo teria raros momentos de descanso, tal como poucas vezes o Santo Ofício deixaria de dar uma atenção – muitas vezes superficial – a seus escritos.
Nos meses que se seguiram aos armistício, padre Primo – que tivera até de abandonar a paróquia por um certo período, por ser perseguido pelos fascistas – veio a tomar contato com os dirigentes da futura Democracia Cristã de Milão e Mântua, e a estreitar relações com a Resistência.
Depois da Libertação, não deixou de ir aonde quer que o chamassem, naqueles anos de reconstrução e de recomeço.
“As penalizações de todo gênero que recebi por escrever e falar valem, perante meus filhinhos, para que eu possa ser perdoado por um desleixo que nunca existiu na intenção e na alma de seu pároco. Voltar a Bozzolo, para mim, foi sempre voltar para casa, e ficar aqui, uma alegria tão afetuosa e risonha, que já encaro a possibilidade de ir embora para sempre como o pedágio mais custoso que terei de pagar”: quando redigia, em 1954, essa passagem do Testamento spirituale, no coração de padre Primo vinham à tona todos aqueles anos cheios de trabalho e atividade muitas vezes frenética; os anos das primeiras eleições políticas de 1948, quando percorreu a Itália para a campanha eleitoral em favor da DC, com o desejo de que voltasse a ser “como aquela que conhecemos nos felizes tempos de nossa juventude”; os anos das acusações e das calúnias que recebera sobretudo das pessoas “de casa” e de alguns colaboradores próximos; os anos de Adesso, com o qual atraíra para si as censuras do Santo Ofício pelos “tons” com que enfrentava, nos artigos assinados com o próprio nome ou com pseudônimos transparentes, os temas que ia pregando ao longo da vida toda, denunciando as injustiças sociais, defendendo os pobres e criticando a DC, que parecia esquecê-los depois de conseguir o governo graças a seus votos, promovendo o diálogo da Igreja com os “que estão longe” e com os comunistas, fazendo apelos à manutenção da paz e à proibição das armas atômicas em época de guerra-fria, declarando uma objeção de consciência ao serviço militar obrigatório.
“O mesmo amor me fez às vezes violento e transbordante”, escreve ainda padre Primo no Testamento spirituale. “Alguém pode ter pensado que a predileção pelos pobres e os mais distantes me fechou diante dos outros: que certas tomadas de posição decididas em campos não estritamente pastorais fecharam para mim as portas daqueles que por qualquer motivo não suportam declarações desse gênero. Nenhum de meus filhinhos, porém, fechou o coração a seu pároco, que se viu transformado em sinal de acusações contraditórias, só porque insistia em distinguir a salvação do homem e de suas exigências, mesmo as humanas, das ideologias que de quando em quando lhe são emprestadas por movimentos que, muitas vezes, o mobilizam contra a sua vontade.”
![Padre Primo com um sobrinho-neto <BR>[© Fondazione Mazzolari]](upload/articoli_immagini_interne/1242048019933.jpg)
Padre Primo com um sobrinho-neto
[© Fondazione Mazzolari]
Assim, naquele 28 de janeiro de 1959, padre Primo abriu seu coração a Montini, que suspendeu as deliberações da Conferência Episcopal da Lombardia contra o jornal Adesso. O arcebispo sabia que o sacerdote estava para encontrar o papa João XXIII, e talvez pressentisse que daquela audiência poderiam brotar boas novidades. Um pressentimento que seria confirmado alguns dias depois, como testemunham as palavras que Montini, alguns anos mais tarde, pronunciaria, como Papa, para lembrar padre Mazzolari: “Disseram que não tivemos afeição por padre Primo. Não é verdade: nós também o amamos! Mas vocês sabem como andavam as coisas. Ele tinha o passo longo demais, e nós custávamos a segui-lo...”.
Em 5 de fevereiro seguinte, o papa Roncalli acolheu padre Primo afetuosamente, confirmando sua convocação para os trabalhos – anunciados dez dias antes – do Concílio Ecumênico Vaticano II, que assumiria mais tarde muitas das intuições do pároco da Baixada de Mântua. Padre Primo havia deixado Roma “consoladíssimo” pelo encontro com o Papa: “Ele é um ponto providencial”, diria numa carta a um amigo.
“E assim os últimos passos”, escrevia um ano antes desses eventos, “se tornam leves, na certeza de que o Senhor mantém a palavra, mesmo diante deste seu inútil e pouco generoso servidor”.
Padre Mazzolari morreu em 12 de abril, cinquenta anos atrás. Era um domingo, seu dia preferido, aquele em que celebrava sua missa na paróquia: “Quando estou na sacristia, sinto que minha paternidade espiritual teve na missa da paróquia seu ponto mais alto e sua alegria, e me disponho, com confiança, a todo o esforço da semana, esperando pelo novo domingo: o retorno”.