Impressões de uma viagem
As palavras do Papa aos jornalistas durante o voo de volta
![O Papa durante o pronunciamento à imprensa a bordo do avião, em 23 de março [© Associated Press/LaPresse]](/upload/articoli_immagini_interne/1241791541057.jpg)
O Papa durante o pronunciamento à imprensa a bordo do avião, em 23 de março [© Associated Press/LaPresse]
Queridos amigos, vejo que estais ainda a trabalhar. O meu trabalho está quase terminado, ao contrário do vosso, que recomeça. Obrigado por este serviço.
Ficaram-me gravadas na memória sobretudo duas sensações: por um lado, a sensação desta cordialidade quase exuberante, desta alegria, duma África em festa, e parece-me que viram no Papa, por assim dizer, a personificação do fato de sermos todos filhos e família de Deus. Essa família existe, e nós, com todos os nossos limites, estamos nela e Deus está conosco. Digamos que a presença do Papa ajudou a sentir isso e a viver realmente na alegria.
Por outro lado, impressionou-me muito o espírito de recolhimento nas liturgias, o sentido intenso do sagrado: nas liturgias, não há autoapresentação dos grupos, autoanimação, mas a presença do sagrado, do próprio Deus. Até os movimentos físicos eram sempre marcados pelo respeito e pela consciência da presença divina. Isso suscitou em mim uma grande impressão.
Depois, devo dizer que me deixou profundamente consternado o fato de, sexta-feira à noite, no caos que se criou à porta do estádio, terem morrido duas jovens. Rezei e rezo por elas. Infelizmente, uma delas ainda não foi identificada. O cardeal Bertone e dom Filoni puderam visitar a mãe da outra: uma mulher viúva, corajosa, com cinco filhos. A primeira destes – precisamente aquela que morreu – era catequista. Todos nós rezamos e esperamos que, no futuro, as coisas se possam organizar de modo que isso não volte a acontecer.
Mais duas recordações que me ficaram na memória: uma recordação especial – haveria aqui muito a dizer – refere-se ao Centro Cardeal Léger: o coração ficou comovido ao ver lá um mundo de múltiplas doenças – todo o sofrimento, a tristeza, a pobreza da existência humana –, mas também por ver como Estado e Igreja colaboram para ajudar os doentes. Por um lado, o Estado administra de modo exemplar esse grande Centro e, por outro, movimentos eclesiais e realidades da Igreja colaboram para ajudar realmente essas pessoas. E fica bem claro – na minha perspectiva – que o homem, ajudando a quem sofre, torna-se mais homem, o mundo torna-se mais humano. Isso é o que permanece impresso na minha memória.
Não nos limitamos a distribuir o Instrumentum laboris para o Sínodo, mas trabalhamos também pelo Sínodo. Ao entardecer do dia de São José, reuni-me com todos os componentes do Conselho do Sínodo – doze bispos – e cada um falou sobre a situação da sua Igreja local. Relataram-me suas propostas, suas expectativas, e assim nasceu uma ideia muito rica da realidade da Igreja na África: como se move, como sofre, o que faz, quais são as esperanças, os problemas. Poderia contar muitas coisas, como, por exemplo, a respeito da Igreja na África do Sul, que teve uma experiência de reconciliação difícil, mas substancialmente bem-sucedida: agora ela ajuda, com suas experiências, na tentativa de reconciliação no Burundi, e procura fazer algo parecido, embora com enormes dificuldades, no Zimbábue.
Por fim, quero mais uma vez agradecer a quantos contribuíram para o bom êxito desta viagem: vimos os preparativos que a tinham precedido, como todos colaboraram. Desejo agradecer às autoridade estatais, civis, às autoridades da Igreja e a todas as pessoas que colaboraram. Parece-me que verdadeiramente a palavra final desta aventura deve ser “obrigado”. Obrigado uma vez mais também a vós, jornalistas, pelo trabalho que fizestes e continuais a fazer. Boa viagem a todos. Obrigado!