CAZAQUISTÃO
Extraído do número 10 - 2003
AS RELIGIÕES E A PAZ. O congresso convocado pelo presidente Nazarbayev
Tentativas de pax religiosa na Eurásia
Nos últimos dias de setembro, delegados de alto nível enviados por dezessete experiências e instituições religiosas e confessionais do mundo todo se encontraram para lançar novamente palavras de ordem como diálogo e liberdade religiosa. Um congresso no coração da Eurásia, considerada pelos teóricos do confronto entre civilizações o epicentro de todos os conflitos de matriz étnico-religiosa
de Gianni Valente

O presidente Nursultan Nazarbayev com os chefes das delegações religiosas no momento conclusivo do Congresso de Astana na tenda organizada nas proximidades do monumento de Baiterek
Foi assim que se encerrou, no início da tarde de quarta-feira, 24 de setembro, o “Primeiro Congresso das Religiões Mundiais e Nacionais Tradicionais”, convocado a Astana pelo líder político cazaque, o “gorbatcheviano” Nazarbayev, em sua disponibilidade àýconcórdia inter-religiosa. Durante dois dias, delegados de alto nível de 17 experiências e instituições religiosas e confessionais do mundo todo sentaram-se à grande mesa redonda da sala do Sultanato Saraiy, entre arrases vermelhos e colunas azul-turquesa, para “relançar” palavras de ordem como diálogo e liberdade religiosa, do coração da Eurásia, bem perto do Afeganistão, do Paquistão, do Iraque, do Azerbaidjão, área centro-asiática que os teóricos do confronto entre civilizações consideram o epicentro de todos os conflitos de matriz étnico-religiosa que inquietam o mundo globalizado.

O arcebispo católico de Astana Tomasz Peta com os representantes islâmicos, hinduístas e budistas
Preocupações islâmicas
Desde o programa declarado pelos organizadores, o congresso tinha como modelo a Jornada da Paz em Assis, em 24 de janeiro de 2002, convocada por João Paulo II para reafirmar a contribuição positiva das diversas tradições religiosas ao diálogo e à concórdia entre os povos e as nações. Os dias de Astana tiveram a intenção de se opor também ao clima mental pós-11 de setembro, que identifica o fator religioso como combustível de baixo custo dos novos conflitos geopolíticos. Os diversos representantes islâmicos pareceram, sobretudo, condicionados pela urgência de emancipar o islã da lenda negra “ocidentalista” que o descreve como o novo império do Mal, matriz ideológica de guerras santas e redes terroristas. O saudita Abdullah bin Abdul Mohsin Al Turki, secretário-geral da Muslim World League, proferiu uma conferência magistral, recheada de citações do Alcorão, na qual procurou demonstrar que “o islã confirma a autenticidade dos Livros Sagrados revelados antes de Maomé”, que “veta a seus adeptos que oýriguem outras pessoas a abraçarem a fé islâmica”, contestando, com base nos versículos do Profeta, as afirmações daqueles que descrevem a religião muçulmana como “religião que prega a violência, despreza os direitos humanos e oprime as mulheres”. Ouviu-se um eco de suas palavras na conferência do paquistanês Mahmood Ahmad Ghazi, vice-presidente da International Islamic University, uma apologia do islã interessada em documentar que “uma característica fundamental da civilização islâmica é a aceitação do pluralismo de opiniões e da variedade de pontos de vista”. Ao mesmo tempo, o indiano Muhammad Rabey Hasani Nadwi, presidente do All India Muslim Personal Law Board, procurou frisar que “o islã só admite o uso da força, em casos realmente excepcionais, quando não há outro caminho para resistir à tirania ou quando pessoas inocentes sofrem com o terror e a injustiça. Se alguém usa a violência fora desses casos, faz uma ação contra o islã”.
Muitos nomes,
um só Deus?
Além da excusatio dos islâmicos, ouviu-se em algumas conferências uma análise do diálogo inter-religioso do ponto de vista teológico, e não apenas ‘político’, ligando a existência de uma pluralidade de ritos e confissões religiosas ao próprio desígnio providencial divino. “Ainda que Deus seja um só e o mesmo para todos, ele é nomeado de maneiras diferentes por pessoas diferentes. Você se refere a Deus por um determinado nome. Ele é Um. Cada religião é como uma flor, e como toda flor, tem seu néctar. Como as abelhas, nós temos de recolher o néctar de cada religião, para fazer o nosso mel mais saboroso.” Foi o que disse o líder hindu Sri Sugunendra Theerta Swamiji, em sua conferência, lida por Karamshi Somaiyak do Indological Research Institute and Inter-faith Dialogue. E foi acompanhado nesse caminho pelo japonês Minoru Sonoda, líder da Associação dos Templos Xintoístas, para o qual “as religiões devem evitar ter pretensões absolutas. Na sua relação permanente com a transcendência, devem levar em conta também suas relações com as outras crenças religiosas”. Mas a tendência sincrética das tradições orientais não é uma novidade. O que mais surpreende é a justificação teológica do pluralismo religioso indicada na conferência de Mohammad Seid Tantawi, imã da Universidade egípcia de Al Azhar, autoridade reconhecida por todo o islã sunita, que explicou como “a diversidade de religiões não impede a troca de bens, nos limites desejados por Alá. A religião não se vende nem se compra, cada um tem a sua. Alá, se esse tivesse sido seu desejo, teria criado todos os homens de uma mesma nação e de uma mesma religião. Mas criou-nos de nações e religiões diferentes”.
Em meio à intensa seqüência de conferências e declarações, a do presidente da delegação vaticana, cardeal Jozef Tomko, ateve-se sobriamente a delinear o “papel das religiões na construção da paz”, recorrendo a amplas citações da Constituição conciliar Gaudium et spes e do magistério pontifício recente, de Paulo VI (“O novo nome da paz é desenvolvimento”) a João Paulo II (“As confissões cristãs e as grandes religiões devem colaborar entre si para enfrentar as causas sociais e culturais do terrorismo”). Lembrando o antigo ditado latino “Si vis pacem para bellum”, o purpurado eslovaco comentou: “Hoje diríamos: ‘Se queres a paz, promove a justiça’. As tensões, o ódio, as guerras, a violência e as ações terroristas são geralmente resultado da injustiça”. Como conclusão ýe sua conferência, mais que introduzir opiniões controversas sobre a presumida “equivalência” de todos os caminhos religiosos, o cardeal enviado por Roma propôs a liberdade religiosa como critério regulador das relações interconfessionais e entre as religiões e a sociedade: “Cada um tem direito a escolher sua religião e a praticá-la, tanto como indivíduo quanto como membro de uma comunidade. [...] As religiões têm o dever de promover os direitos humanos. Não é possível invocar as tradições religiosas para limitar a liberdade de religião”.
A pouca propensão dos delegados vaticanos às fórmulas de sabor sincrético provavelmente também tenha se manifestado durante a preparação da Declaração Final promulgada pelo Congresso: uma relação de recomendações e de afirmações, entre as quais a de que ýo extremismo e o terrorismo em nome da religião não têm nenhuma relação com a genuína compreensão da religião”. Talvez por erro de tradução, na versão inglesa do esboço de trabalho, distribuída pelo comitê organizador antes do Congresso, aparecia uma frase ambígua, na qual a desejada coexistência pacífica entre as diversas crenças religiosas era ligada à possibilidade de demonstrar “uma natureza única de todas as religiões e culturas”. Na versão final, para eliminar qualquer equívoco, esclarece-se que “a diversidade das crenças e práticas religiosas não deve conduzir à suspeita recíproca, à discriminação e à humilhação, mas a uma mútua aceitação e à harmonia, dentro da manifestação das características peculiares de cada religião e cultura”. O texto final da declaração, reconhece também, desde as primeiras linhas, “o direito de toda pessoa humana a escolher, exprimir e praticar livremente sua religião”. É realmente uma afirmação de compromisso, uma vez que foi subscrita também por líderes espirituais reconhecidos em todo o mundo muçulmano, num simpósio que se desenvolveu num país de esmagadora maioria islâmica.
Há glória para todos
A Santa Sé prestigiou o Congresso de Astana, enviando uma delegação de alto nível. Com o cardeal Tomko voaram para a capital cazaque os arcebispos Renato Raffaele Martino, presidente do Pontifício Conselho de Justiça e Paz (que viria a receber o barrete cardinalício no Consistório de 21 de outubro) e Pierluigi Celata, secretário do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, além do padre Jozef Maj, do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, e de monsenhor Julio Murat, da segunda seção da Secretaria de Estado. Um time de primeira categoria, demonstrando que esse congresso inter-religioso evidentemente não foi visto pelos Palácios Sagrados como um encontro “de rotina”. Sobretudo porque o convite não veio dos organismos ou movimentos religiosos “de rotina”, mas do presidente e patrono da pátria do novo Cazaquistão.
No país das estepes, terra de ex-deportados e ex-lixeira nuclear do império soviético, convivem 130 nacionalidades e mais de 40 diferentes grupos confessionais, não muito longe de regiões infestadas por focos fundamentalistas. Nesse cenário, Nazarbayev fez da política de concórdia religiosa o ponto-chave de seu programa de modernização, revigorando a tradição tolerante do islã local depois de décadas de propaganda ateísta soviética. A pax religiosaÛlhe interessa também como garantia de estabilidade social, para favorecer um desenvolvimento político e econômico ordenado, baseado na exploração do petróleo e de outros recursos naturais. Uma política que, em nome da tranquilitas ordinis, procura associar as lideranças religiosas ao projeto de tolerância encabeçado pelo governo, no qual todas as confissões podem aproveitar de discretos espaços de ação para desenvolver suas instituições. A própria Santa Sé pode verificá-lo diretamente, quando elevou a diocese as administrações apostólicas católicas presentes no Cazaquistão, em maio, sem problemas do ponto de vista político e jurídico. Essa contingência favorável poderia consolidar-se nos próximos anos, visto que Nazarbayev parece ter-se afeiçoado a sua imagem de líder político “amigo” das religiões: já convocou para a capital cazaque, para 2006, o segundo Congresso dos Líderes das Religiões Mundiais Tradicionais. E anunciou a construção de um “Palácio das Nações” na área nova de Astana, como “símbolo da unidade do povo do nosso país”, no qual serão também hospedados, um ao lado do outro, “uma mesquita, uma igreja, uma sinagoga e um templo budista”. Todos juntos, sob o teto erguido pelo presidente “humanista”.