JOÃO PAULO II
Extraído do número 10 - 2003
XXV ANOS DE PONTIFICADO. Encontro com o Prefeito da Congregação para o Clero
“Está dando tudo de si mesmo, até a última gota de sangue”
Entrevista com o cardeal Darío Castrillón Hoyos: “Esta é uma fase rica, muito rica do pontificado. Porque este Papa, neste momento, é o testemunho de um homem sem interesses pessoais, que não faz nada para ter poder”
de Gianni Cardinale

O cardeal Darío Castrillón Hoyos
O cardeal Darío Castrillón Hoyos, 74 anos, colombiano, estreito colaborador do Papa na Cúria romana, também participará a essas celebrações. Com efeito, desde 1996 o purpurado é o prefeito da Congregação para o Clero e desde 2000 guia também a Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”, o organismo vaticano que tem a tarefa de recuperar à “plena comunhão eclesial” os eclesiásticos e os leigos “ligados à fraternidade fundada pelo monsenhor Marcel Lefebvre”. Antes de chegar na Cúria romana, Castrillón Hoyos foi, na Colômbia, bispo de Pereira (1971-1992) e arcebispo de Bucaramanga (1992-1996). Durante o seu episcopado colombiano o cardeal realizou sua missão também no Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), como secretário-geral entre 1983 e 1987 e também presidente entre 1987 e 1991. É cardeal desde 1998.
@minência, quando o senhor conheceu pessoalmente Karol Wojtyla?
DARÍO CASTRILLÓN HOYOS: Na época em que eu era bispo de Pereira tive a oportunidade de encontrar o cardeal Karol Wojtyla na casa do amigo dom Andrzej Deskur [desde 1995 cardeal, ndr], que trabalhava aqui em Roma, na Cúria. Creio que foi o ano em que o então arcebispo de Cracóvia fez os exercícios espirituais à Cúria romana. De qualquer modo, foi um encontro ocasional, não aprofundado. Na época tinha lido um livro sobre a Igreja na Polônia no qual se fazia um belo perfil da personalidade de Wojtyla, mostrando-o como um bispo capaz de desafiar o regime e de grande dinamismo espiritual. Fiquei impressionado com essa figura, mas, certamente, não podia imaginar que seria papa...
De fato, a sua eleição foi uma surpresa. Tratava-se do primeiro papa não italiano depois de quase 500 anos. Como ficou sabendo dessa inesperada eleição?
CASTRILLÓN HOYOS: Soube de um modo meio incomum... Estava na Colômbia participando de um funeral quando um outro bispo aproximou-se de mim e sussurrando disse-me: “Darío, foi eleito o papa, é um africano...”. “Deus seja abençoado”, respondi... Depois da celebração, obviamente fomos informados de modo correto.
Quando o senhor encontrou pela primeira vez João Paulo II?
CASTRILLÓN HOYOS: Foi quando eu trabalhava no Celam, ali tive a oportunidade de encontrá-lo de perto para a preparação da Assembléia Geral do Episcopado Latino-americano celebrada em Puebla, em 1979, poucos meses depois da sua eleição. Logo deu-me a impressão de um homem de fé, com uma abertura mental e uma visão do mundo extraordinárias. Decidiu logo que participaria pessoalmente do encontro de Puebla, que não a caso foi um ponto de virada para a Igreja latino-americana.
A Igreja latino-americana deve muito à obra evangelizadora dos primeiros missionários provenientes da Europa, especialmente da península ibérica. Foi também graças a eles que hoje a América Latina é um subcontinente com uma unidade substancial de fé, com uma tradição cultural comum de marca, sem sombra de dúvidas, ocidental....
Em que sentido?CASTRILLÓN HOYOS: Na época a Igreja latino-americana era muito dinâmica, e o nosso continente já era o continente da esperança. Mas era também um momento difícil. A Teologia da Libertação passava pelo seu momento mais virulento. E naquela fase o Papa foi uma luz e também um hábil timoneiro. Houve algumas manifestações de desacordo, mas a maioria dos bispos encontrou nele um guia seguro em um delicado momento da história. Há quem diga que na época houve a possibilidade de um cisma, mas não é verdade. Mesmo os bispos, digamos assim, mais ideologizados, que em boa fé acreditavam na bondade do projeto marxista, amavam a Igreja e o Papa, o Vigário de Cristo, e seguiram as suas importantes indicações. O papel de João Paulo II foi muito importante para a unidade da Igreja latino-americana.
Permita um parênteses sobre a Igreja latino-americana, como o senhor vê o seu futuro?
CASTRILLÓN HOYOS: A Igreja latino-americana deve muito à obra evangelizadora dos primeiros missionários provenientes da Europa, especialmente da península ibérica. Foi também graças a eles que hoje a América Latina é um subcontinente com uma unidade substancial de fé, com uma tradição cultural comum de marca, sem sombra de dúvidas, ocidental. Atualmente a Igreja da América Latina já é adulta, e conta com mais da metade dos católicos do mundo. Também deve ser lembrada da presença cada vez maior de hispânicos em algumas das dioceses mais ativas da América do Norte como a de Los Angeles. Portanto, a Igreja latino-americana é uma realidade presente e não uma esperança para o futuro. Depois de um período de crise, hoje há uma retomada das vocações sacerdotais, tanto que pela redução demográfica da população a relação católicos-fiéis é melhor do que a da década de 1960.
... Atualmente a Igreja da América Latina já é adulta, e conta com mais da metade dos católicos do mundo. Também deve ser lembrada da presença cada vez maior de hispânicos em algumas das dioceses mais ativas da América do Norte como a de Los Angeles. Portanto, a Igreja latino-americana é uma realidade presente e não uma esperança para o futuro
Voltemos aos 25 anos de pontificado de João Paulo II. Quais são os gestos e os eventos deste pontificado que o impressionaram particularmente?CASTRILLÓN HOYOS: Não se trata de um gesto em particular, mas do estilo de um pontificado. A opinião pública faz com que se veja a Igreja como uma instituição social visível com um fim até mesmo belo, uma doutrina interessante, uma moral digna de admiração mesmo se não compartilhada. Se olharmos o Papa a partir desse ângulo, jamais se entenderá nem Karol Wojtyla nem João Paulo II. Os liberais, os comunistas, os maçons, os políticos nacionalistas ou universalistas podem encontrar neste pontificado palavras ou gestos que lhes agradam ou não. Mas somente de uma perspectiva de fé pode-se entender bem este pontificado. O Papa é antes de tudo um homem de Deus, um contemplativo possuído por Deus. E isso pode ser visto no modo com o qual está enfrentando a doeýça. Que líder no mundo, se sofresse quanto sofre o Papa, continuaria a trabalhar assim como está fazendo João Paulo II? E o seu trabalho é apresentar a mensagem de Jesus do qual – e ele sabe disso – é o Vigário na terra. E faz isso com uma simplicidade absoluta, à maneira de Jesus, que falava também por meio dos gestos. Assim, por exemplo, beijou o Alcorão como gesto de respeito por um povo que tem uma crença. Porém, do mesmo modo, através da Congregação para a Doutrina da Fé, confirmou com a Dominus Iesus a unicidade salvífica de Jesus Cristo.
Com que ânimo segue essa fase particularmente delicada do pontificado?
CASTRILLÓN HOYOS: Não, não é uma fase delicada, mas é uma fase rica, muito rica do pontificado. Porque este Papa, neste momento, é o testemunho de um homem sem interesses pessoais, que não faz nada para ter poder. Está dando tudo de si mesmo, até a última gota de sangue. Ele é o Vigário de Cristo, então porque o mundo se maravilha por ele estar sendo crucificado como Jesus? A cruz foi o momento mais rico de Jesus: foi naquele momento que Ele nos ofereceu a sua Mãe, que nos ofereceu o pensamento do perdão, o pensamento do sentir o abandono de Deus do abandonar-se confiante na vontade do pai... Nessa fase o Papa está trabalhando particularmente pela unidade dos cristãos, sem pretensões de poder, mas para que Jesus seja o poder da unidade da Igreja.

João Paulo II diante da imagem da Bem-Aventurada Virgem, no átrio do Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, em 7 de outubro de 2003
CASTRILLÓN HOYOS: Não considero isso um mau pensamento, mas um absurdo. O vigário está com o Senhor até que o Senhor o chama para si. Engana-se quem pensa que o carisma petrino para guiar a Sua Igreja seja dado a outros funcionários e não ao papa. É o papa quem tem o carisma petrino. E também, repito, a palavra de João Paulo II para a união da Igreja e pela paz no mundo hoje é muito mais forte, muito mais penetrante do que a de 25 anos atrás.
Eminência, antes o senhor falou com particular entusiasmo do momento da Paixão de Jesus. Por acaso as suas palavras foram influenciadas pelo filme Passionœde Mel Gibson, que o senhor viu em avant-première? Trata-se de um filme que já causou muitas discussões, pois foi acusado por alguns de ser anti-semita...
ýASTRILLÓN HOYOS: Não sou apaixonado por filmes. Porém este filme pareceu-me muito bem feito, cuidadoso na reconstrução, fiel à narração dos Evangelhos. Acho que a representação de uma história verdadeira não pode ser vista como um ato de acusação generalizada contra um povo. No filme a responsabilidade da condenação de Jesus é corretamente atribuída a um grupo limitado de pessoas em um determinado tempo. É claro que as culpas dos pais não podem cair sobre os filhos ou sobre os netos e bisnetos. Por outro lado, é também verdade que, por exemplo, entre os meus antepassados há conquistadores que mataram índios quando chegaram na América Latina. Eu não me sinto responsável pelas suas culpas, mas não me zango se alguém me lembra disso.
O senhor encontrou o ator e diretor australiano, que é particularmente devoto da missa de São Pio V a ponto de ser acusado muitas vezes de ser um “lefebvriano”?
CASTRILLÓN HOYOS: Sim, encontrei-o pessoalmente e me pareceu uma pessoa que crê, uma pessoa que crê que Jesus é filho de Deus. Não vejo nenhum problema em uma pessoa, em um fiel que tenha um amor especial por uma tradição milenária, respeitável, sagrada da Igreja.