CONGO
Extraído do número 05 - 2008
O saqueio dos recursos
A “maldita” riqueza de um país pobre
Multinacionais que extraem minerais preciosos sem permissão. Outras que exportam sem pagar impostos. E uma conexão direta entre a guerra, que já causou cinco milhões de mortos, e a luta pelo controle dos recursos naturais
de Roberto Rotondo

Garimpeiros clandestinos em uma mina de diamantes do ex-Zaire. Segundo uma comissão governamental ainda atuando, noventa por cento das concessões minerárias nas mãos de empresas nacionais e estrangeiras são irregulares
Estão sob acusação principalmente os contratos que são exclusivamente para a pesquisa de jazidas por parte de empresas minerárias e não a exploração dos mesmos, fato este que acontece regularmente há anos. É o caso da Alvin Mining que, segundo a imprensa congolesa, noticiada também pela agência de notícias missionária Misna, extraiu e levou embora ouro e cobre no valor de 1 bilhão e 300 milhões de dólares sem pagar nenhum imposto ao governo congolês, é também o caso da Banro, que por muitos anos explorou uma mina de ouro, expulsando uma empresa estatal, mas mantendo as isenções fiscais desta última, assim como é o caso da Khgm, que tinha apresentado um estudo de viabilidade (apenas em língua polonesa) para a construção de uma fábrica em Katanga e, ao invés, começou a extrair e comercializar cobre. É preciso também considerar que dos trabalhos da comissão governamental presidida pelo ministro Martin Kabwelulu que ainda estão em curso, estão excluídas a inúmeras minas ilegais que em muitas regiões do país, como na região do Norte e o Sul de Kivu, ainda estão sob o controle de milícias rebeldes que cedem minerais em troca de dinheiro e armas, apesar do embargo declarado pelo Conselho de Segurança da ONU. Mas o saque do que está no subsolo não é superior ao do que está sobre o solo: a indústria madeireira, por exemplo, em pouco tempo desertificou uma área da floresta fluvial do rio Congo do tamanho da Polônia. Uma aberração que, com a denúncia da mídia ocidental do desastre ecológico, depois de anos de silêncio, fez com que reacendessem os refletores sobre o país africano. Mas há uma grande suspeita de que o renovado interesse seja hipocritamente ditado pela chegada em cena de um concorrente incômodo, a China, a qual, com um investimento recorde, conseguiu um papel central no crescimento econômico do país africano: com efeito, o Banco Chinês de Desenvolvimento, aprovou um empréstimo de 3,6 bilhões de euros com o qual serão construídos hospitais, linhas ferroviárias, estradas, escolas. Em troca, Pequim obteve concessões minerárias e concessões para a indústria madeireiras.

O presidente congolês Joseph Kabila com o presidente chinês Hu Jintao. A República Popular da China está se tornando para o Congo um parceiro privilegiado com um investimento recorde que permitirá a construção de infra-estruturas fundamentais em troca de licenças para a exploração dos recursos naturais
No entanto, do outro lado do país, no oeste, volta-se a falar do projeto da represa “Grand Inga” sobre o rio congo. Uma obra gigantesca, com condições de exportar energia elétrica para toda a África e até mesmo para a Europa. Um mês atrás em Londres, sete governos africanos e os mais importantes bancos de investimentos e empresas de construção do planeta sentaram-se à mesa para falar da maior central hidroelétrica jamais construída pelo homem. Não é a primeira vez: os maldosos dizem que foram os potencias lucros entrevistos neste projeto a consentirem ao Congo encontrar aqueles apoios no exterior que lhes permitiram terminar, em 2003, a chamada Guerra Mundial da África. Quem sabe se a “Grand Inga” definida pela União Africana como a mola de desenvolvimento de todo o continente, conseguirá levar luz a 90% da população congolesa que hoje não tem, ou se esta também viajará para fora das fronteiras de um país “malditamente rico”.