1978. GIORGIO NAPOLITANO NOS EUA
Em busca da solidariedade nacional
A primeira viagem de Giorgio Napolitano aos Estados Unidos, nos dias do seqüestro Moro. A reconstrução de Joseph La Palombara
Entrevista com Joseph La Palombara de Giovanni Cubeddu

Napolitano durante a viagem aos EUA de abril de 1978
Era assim que Alberto Jacoviello, na época correspondente do l’Unità em Washington, introduzia uma entrevista com o alto dirigente do Partido Comunista Italiano Giorgio Napolitano, membro da direção e responsável pelo departamento econômico do partido. Com estilo sóbrio, mas objetivos bem traçados (Jacoviello foi obrigado a enviar o texto ao entrevistado antes de publicá-lo, e recebeu correções), a entrevista queria destacar a importância que se atribuía àquele fato. A viagem, realmente, tinha sido algo único em seu gênero. Embora outros membros do Partido tivessem podido proferir pequenas conferências nos Estados Unidos anteriormente, Napolitano foi o primeiro líder do PCI a ser admitido enquanto tal na América – e não como simples membro de delegações parlamentares, regionais ou municipais. Isso foi possível graças a um visto de entrada que lhe foi concedido numa evidente exceção à legislação ideológica e restritiva (iniciada com o Smith Act, de 1940, e continuada com o McCarran Act, de 1950), que impedia a concessão de vistos a qualquer pessoa que constituísse uma “ameaça” para o país; e os comunistas faziam parte dessa categoria. Em sua passagem pelos Estados Unidos, entre 4 a 19 de abril de 1978, Napolitano carregava consigo a esperança de que os americanos compreendessem melhor o PCI, o caminho que percorrera e o que buscava, sua abordagem peculiar do eurocomunismo, e de que aceitassem a anomalia italiana e a idéia do compromisso histórico. Quando, porém, finalmente conseguiu chegar à América, Aldo Moro tinha sido seqüestrado havia mais de duas semanas. O próprio Napolitano escreveria em Rinascita, no mês de maio seguinte (num artigo intitulado “O PCI explicado aos americanos”), numa espécie de comentário final à sua passagem pelos Estados Unidos: “De uma forma ou de outra, o fato é que nasceu um interesse [pelo PCI, ndr.], que se abriram canais de comunicação e debate. É preciso que esses caminhos sejam percorridos, por mais que isso não seja simples”.
Os interlocutores norte-americanos de Napolitano foram acadêmicos e personalidades com interesses político-culturais. Nenhum membro do Congresso ou do Executivo: essa era uma fronteira que ainda precisaria ser cruzada. Em 7 de novembro de 1977, o dirigente comunista recebera da Princeton University uma carta confirmando o convite para que proferisse algumas lectures na universidade; na carta, sublinhava-se o apoio do professor Peter Lange, de Harvard, universidade a que Napolitano, dois anos antes, não pudera ir porque... lhe haviam negado o visto de entrada. De maneira significativa, pediam ainda ao convidado italiano que falasse dos temas nos quais se concentrava a curiosidade americana: “A intervenção do Estado na economia”, “Planejamento, política monetária, fiscal e econômica” e, enfim, “algum tema internacional ou doméstico de particular importância para a Itália e a Europa”. Eram todos temas-chave, no fundo desejando dar autênticas garantias de que, tendencialmente, não havia incompatibilidade entre o Ocidente, a Otan e a trajetória que já vinha mostrando o PCI como “destinado” a se tornar governo, sobretudo após os excelentes 34,4 por cento que obtivera nas eleições de 1976.
O cenário daqueles anos fora inaugurado pelo Ato de Helsinque, de 1975, pela distensão entre os dois blocos, pelos acordos Salt para o desarmamento EUA-URSS e pelo surgimento da idéia do eurocomunismo. Mas é também verdade que os três artigos assinados por Berlinguer em Rinascita, publicados de 28 de setembro a 12 de outubro de 1973, no qual se propunha o “compromisso histórico”, tinham tomado como pretexto os acontecimentos de 11 de setembro daquele ano: o golpe chileno de Pinochet e o assassinato de Salvador Allende.
Giorgio Napolitano aterrissou nos Estados Unidos levando tudo isso em sua bagagem. Sua viagem foi também a coroação da “política de contatos” iniciada muito tempo antes pela embaixada de Roma e alguns membros do PCI, de maneira às vezes secreta (contando com vários agentes sob cobertura diplomática), às vezes reservada ou mesmo pública (mas com muito cuidado). A virada que se imaginara a partir da eleição de Jimmy Carter à Casa Branca, que deveria produzir uma revisão da política americana perante o comunismo, demorava para acontecer; aliás, não vinha sendo fácil entender o curso novo tomado por Carter.
Os “italianistas”
Joseph La Palombara começou a se interessar pela Itália nos primeiros anos do pós-guerra. São da década de 1950 seus primeiros ensaios sobre o país. Como politólogo, ele se tornou o padrinho de muitos dos “italianistas” das gerações acadêmicas seguintes. A faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Yale encontra-se atualmente em reforma, e parte dela transferiu-se para uma sucursal apelidada de “The diner” (“O restaurante”), por seu aspecto arquitetônico. Logo à entrada vemos um retrato de La Palombara: é um gesto tradicional de gratidão da faculdade a um de seus mais insignes professores eméritos. Como elogio a quem o pintou, é preciso que se diga que a argúcia e o senso de humor que transparecem da tela existem mesmo, e nós os experimentamos ao vivo. O currículo do professor La Palombara é riquíssimo, e inclui dezenas de viagens à Itália e dois anos como chefe do Cultural Office da embaixada dos EUA em Roma (1980-1981). Ele foi um dos organizadores daquela viagem de Napolitano, e testemunha ocular de como ela nasceu.
Comecemos lembrando o pequeno grupo que, com ele, identificou em Napolitano o guia ideal dos acadêmicos norte-americanos pelas trilhas do eurocomunismo: “O professor Stanley Hoffmann, de Harvard, o falecido colega Nick Wahl, que na época lecionava na Princeton University, e o professor Zbigniew Brzezinski, na época docente na Columbia University, mas também conselheiro de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter”. Na realidade, uma tentativa de abertura aos de;o em Washington, e me ‘lamentei’, dando a entender que era sumamente necessário reconhecer a tendência eurocomunista, a resposta que ele me deu combinava perfeitamente com a sua política e a sua pessoa: ‘Teremos bastante tempo para convidá-los a nos visitar, quando chegarem ao poder!’ Na realidade, eu não estava de modo algum dizendo a ele que tinha certeza de que o PCI chegaria a ser governo – embora, no fundo, esperássemos essa ‘ultrapassagem’ sobre a Democracia Cristã –, mas a resposta de Kissinger teve o mérito de ser extremamente clara: enquanto ele estivesse no Departamento de Estado, não conseguiríamos que a idéia de um convite como aquele avançasse um metro sequer”.
Na realidade, as primeiras tentativas de contato entre o setor político da embaixada dos EUA em Roma e expoentes do PCI, pelo que se sabe, vinham já de 1969. Foram também desse ano os contatos feitos com a “cobertura” do serviço secreto norte-americano, a partir dos quais nasceria um relatório em 1975 (conhecido como “relatório Boies”, do nome do funcionário que o redigiu, Robert Boies). O relatório conflitava com a opinião do secretário de Estado, e justamente por isso não mudou as coisas. “A dialética entre a diplomacia e os órgãos de inteligência é um problema cíclico”, explica La Palombara. “O texto de Boies havia nascido da convicção de que, a curto prazo, o PCI chegaria ao poder. Vários dos personagens que, na época, testemunharam no Congresso sobre o ‘caso Itália’ estavam convencidos disso, e as eleições de 1976 confirmaram que o comunismo viera para ficar. Escrevi naquele momento que eu também esperava que o PCI chegasse ao governo, mas não sozinho, e nem sem problemas. Como de fato aconteceu”.

Enrico Berlinguer, secretário do PCI, cumprimenta Aldo Moro, presidente da DC, em 20 de maio de 1970; na foto, Giorgio Napolitano está à esquerda do secretário do PCI
Novembro de 1976, eleição de Jimmy Carter. Em dezembro, o novo presidente nomeia Cyrus Vance e Zbigniew Brzezinski, respectivamente, secretário de Estado e conselheiro para a Segurança Nacional. Renasce a idéia de convidar os comunistas ou os socialistas europeus mais “moderados” e interessantes (como o espanhol Carrillo, o português Soares e, justamente, Napolitano). “De qualquer forma, antes de fazer um pedido formal à administração, sondamos o ambiente... Cyrus Vance eu já conhecia, como membro do conselho de administração da Yale University. ‘Zbig’ Brzezinski, que agora era conselheiro para a Segurança Nacional, teria condições de nos dizer se a idéia estava aprovada”. O presidente Carter também tinha sido informado? “Sim, pois certamente Brzezinski não poderia, sozinho, mudar a política de concessão de vistos a dirigentes comunistas. Além de tudo, para conseguir isso era preciso um trabalho de preparação no Congresso americano e com os nossos sindicatos, AFL e CIO, que sempre tinham sido ferozmente anticomunistas. Resumindo, não era suficiente que Brzezinski fosse bater à porta da sala oval, sobretudo depois das eleições italianas de 1976”.
Muito já se falou e escreveu a respeito da diferença, real ou suposta, entre a oposição dura e tradicional ao comunismo internacional da era Nixon-Kissinger (mesmo com gestos evidentes de diálogo com Moscou) e a abordagem do governo Carter, que se antecipava como mais compreensiva. Para La Palombara, a realidade se demonstra neste episódio: “Recebi em Yale uma personalidade soviética, o diretor do Instituto para o Estudo do Estado, o senhor Arbatov, pouco depois das eleições presidenciais de 1976. Antes de viajar para Washington, Arbatov me disse: ‘Será maravilhoso encontrar na capital uma política em relação a nós completamente diferente da anterior’. Perguntei a ele em que é que baseava aquela expectativa. ‘Kissinger já não está no governo. Brzezinski é muito mais disponível, e começa a abrir as portas para os comunistas na Europa...’ ‘Com todo o respeito’, respondi, ‘o senhor precisa entender que vai ser muito difícil mudar essa política. Sozinho, o presidente Carter não consegue fazer isso; o problema é o Congresso’. E ele: ‘É só o presidente dizer que a política está mudando, e os parlamentares serão obrigados a marchar com ele...’ Respondi: ‘Talvez vocês, no seu Instituto, não tenham entendido bem a dinâmica do nosso sistema: não é assim que as coisas funcionam’. Enquanto Arbatov insistia que as coisas tinham mudado, com a entrada de Brzezinski, encerrei a conversa deste jeito: ‘Ouça, vocês têm de se dar conta de que, em lugar de um alemão – que certamente não ama o sistema soviético, e talvez nem os russos –, nós agora temos justamente um polonês!’”
Não interferência, não indiferença
Em março de 1977, Vance e Michael Blumenthal (ministro do Tesouro) redigiram um memorandum para Carter sobre a política que deveria ser adotada com relação à Itália e ao PCI. Nele, ficava explícita a linha que seria conhecida como de “não interferência, não indiferença” diante das decisões do governo de Roma sobre a eventual partilha do poder com o Partido Comunista. Simplificando, a tese que defendiam era a de que a democracia de tipo ocidental precisava ser mantida, e de que o ônus de se demonstrarem à altura dessa democracia cabia principalmente aos comunistas, que tinham, portanto, de evoluir (no memorandum, entre outras coisas, era destacado o problema da concessão de vistos aos membros do Partido). Pouco antes da chegada de Napolitano à América, o Departamento de Estado divulgara também a famigerada declaração de 12 de janeiro de 1978, que exortava a que não se buscassem estabelecer governos com o PCI, mesmo “em coalizão”. Explica La Palombara: “O embaixador americano da época, Dick Gardner, reivindicou na época – e o escreveu, depois, em seu livro de memórias – que a declaração fora escrita por ele, depois de se encontrar tanto com Carter quanto com Brzezinski, em Washington. Gardner afirmava que agira daquela forma para combater, na Itália e na Europa, uma interpretação errônea da chamada ‘abertura’ aos comunistas. Essa era uma preocupação que o próprio secretário de Estado, Vance, compartilhava... Imagine, então, se o presidente Carter iria querer assumir esse risco perante o Congresso, onde o anticomunismo estava no próprio DNA do parlamentar americano ‘típico’”. Continua La Palombara: “A meu ver, faltava a Washington a faculdade de compreender que, mesmo com os comunistas como parte da coalizão, Andreotti teria a capacidade de governar e administrar serenamente a relação com o PCI, mantendo-o sob controle. Se você me permite observar, na verdade deve ter pesado também uma outra dimensão de Andreotti, que fazia o pessoal de Washington não digerir muito bem o fato de a Itália ter um papel importante no Mediterrâneo e em relação ao mundo árabe”.
Uma coisa é certa: a declaração de janeiro de 1978 não facilitava o diálogo, nem ajudava Giorgio Napolitano a construir pontes para chegar à compreensão. “Quando pensamos em convidar Napolitano, era porque poucos, como ele, poderiam esclarecer meus compatriotas a respeito do PCI, que não era um partido de estilo soviético, nem seus membros saíam por aí com bombas nos bolsos. Seja como for, quando o viram e experimentaram de perto, ele acabou se revelando o personagem ideal para essa finalidade”, sintetiza La Palombara.

O presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter com o primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, na Casa Branca, em Washington, a 26 de julho de 1977
Estamos em 4 de abril de 1978, começa o tour pela América. O compromisso histórico pode dar certo, a solidariedade nacional não traz nenhum prejuízo aos interesses dos Estados Unidos: essa era a mensagem que Napolitano levava. Mas como falaria a seu auditório? “Nem Wahl, nem Hoffmann, nem eu mesmo estávamos cem por cento seguros do que ele poderia dizer. Além de tudo, nos sentíamos ligeiramente embaraçados diante dele, pois – como acontecera com Carrillo e outros eurocomunistas – o visto que lhe havia sido concedido era por um período específico e limitado, e, acima de tudo, estava condicionado à obrigação de declararmos, se não de hora em hora, pelo menos todos os dias, em que parte do solo americano ele se encontraria. Era uma exigência que em certo sentido estava em conflito com a dignidade que qualquer pessoa, com razão, considera merecer: não dá para investigar a que hora a pessoa se levanta de manhã, almoça ou vai se deitar... Mas fizeram isso com ele. Como todos sabemos, o trâmite para a concessão do visto havia sido atribulado”.
Começava o percurso. Estavam previstas etapas nas Universidades de Princeton, Harvard, Yale, no Lehrman Institute, no Council on Foreign Relations, na Johns Hopkins e na Georgetown. As notícias que La Palombara recebia dos colegas professores sobre os primeiros passos de Napolitano eram totalmente positivas. “Sobretudo pelo grande número de estudantes e professores presentes nos encontros, até mesmo apenas para ver um ‘real communist in our midst’, ‘um comunista em carne e osso entre nós’: com o Smith Act em vigor, era muito difícil para um homem comum encontrar um comunista de verdade!”
Na Universidade de Yale, Napolitano finalmente foi recebido por La Palombara. “Seu discurso estava programado para o auditório principal da faculdade de Ciências Políticas. Eu o havia cedido por um dever de gentileza, pois não esperava mais que quarenta ou cinqüenta estudantes e alguns colegas. No entanto, algumas pessoas foram obrigadas a acompanhar a conferência do lado de fora do auditório, tamanho foi o público presente.” Napolitano falou de improviso e, depois de concluir sua introdução, manteve um debate de uma hora e meia, respondendo a perguntas de todos os tipos. Todas elas tinham por finalidade entender o comportamento que seria possível esperar do PCI quando chegasse ao governo. La Palombara recorda: “Napolitano foi obrigado a corrigir gentilmente as afirmações apocalípticas do auditório, que dizia que aquela seria a primeira vez que os comunistas tomavam o poder na Europa! Ele explicou, com simplicidade, a história européia do segundo pós-guerra, com a capacidade, um tanto refinada, que tinha de acolher as perguntas mordazes ou polêmicas. Quando o estudante mais ‘informado’ de sempre apareceu com a pergunta: ‘O que o senhor nos diz do comportamento do PCI durante a Guerra da Coréia?’, ele explicou o contexto histórico com toda a calma, e mostrou as razões complexas pelas quais, naquela época, era quase impossível para o PCI distanciar-se de Moscou. Confessei depois a Napolitano que essa sua qualidade de moderação me impressionou sinceramente, pela freqüência com que ela faltava aos debates políticos americanos”. E ele? “Disse-me que reconhecia ‘toda a responsabilidade de ter chegado até aqui’, ao meu país, que se sentia ‘como uma espécie de patrulha de reconhecimento’ nos Estados Unidos, e que sabia como aqueles momentos eram importantes, até para o futuro de seu partido.” Como nas outras universidades que visitara, em Yale Napolitano também insistiu muito no tema da abertura da Itália à esquerda, do acordo entre todos os partidos que formavam a esfera constitucional, lembrando muitas vezes, como ideal, o período imediatamente posterior à guerra, quando o PCI fazia parte do governo. Explicou que havia uma visão comum quando se tratava de identificar os problemas do país, e que a “solidariedade nacional” não mancharia a tradicional política externa italiana.
Etapa no Council on Foreign Relations
No entanto, na opinião de La Palombara, houve um momento em que a visita aos EUA chegou a seu resultado mais alto: o encontro de 14 de abril no Council on Foreign Relations, de Nova York. O auditório era composto por grandes advogados, banqueiros e dirigentes industriais de nível internacional. “Posso testemunhar a surpresa de alguns membros do Council, que só Deus sabe o que esperavam ouvir de um ‘comunista’ italiano que desembarcava em Manhattan”, comenta o professor. “Depois da minha apresentação, Napolitano levantou-se e proferiu uma dissertação sobre a economia italiana e internacional, falando de todos os problemas efetivos, num inglês fluente”. No Council, Napolitano afirmou com todas as letras que “a Itália não podia se dar ao luxo de uma oposição entre PCI e DC”, lembrou o “acordo programático” em vigor desde julho de 1977, “que não incluía a cooperação [do PCI, ndr.] na área da política externa”, mas, logo depois, recordou também as moções unitárias votadas no Parlamento pelo PCI e pela DC no outono de 1977 sobre o reforço da Comunidade Européia, a contribuição comum que se deveria dar para a distensão, a redução dos armamentos e a plena implantação do Ato de Helsinque. Explicou ainda que “o PCI já não se opunha à Otan como na década de 1960”, e encerrou assim sua introdução: “Nosso objetivo comum é superar a crise e criar maior estabilidade na Itália”. “Na sessão de perguntas e respostas que veio a seguir”, retoma La Palombara, “seu desempenho também foi eficaz, a ponto de um dirigente do Council, no final, vir me perguntar se Napolitano realmente expressava a linha de seu partido. Nessa hora, tive de desconversar, pois não ousava dizer não, mas também não podia afirmar que aquela era a linha oficial aceita pelo politburo do PCI... É claro que Napolitano tendia a enfatizar as áreas de atuação do PCI em que o conflito com a DC e o Ocidente era abrandado; ou seja, destacava a solução garantida por Andreotti, pela qual o PCI daria seu apoio parlamentar sem entrar no governo. Mas era uma solução que despertava preocupações em Washington, onde alguns se perguntavam que concessões estavam ‘ocultas’ por trás disso, para que o PCI aceitasse essa fórmula. Andreotti pedia a confiança dos americanos, que estava céticos, justamente, a respeito desse ponto, que ele, no entanto, sabia administrar. Meus compatriotas não entendiam isso e não confiavam”.

Harvard. Napolitano esteve nessa Universidade de 9 a 12 de abril; aqui, responde a perguntas de um estudante
Infelizmente, um tema se destacou em todas as discussões que Napolitano teve de enfrentar durante sua passagem pelos EUA: o terrorismo na Itália. Houve até alguém que chegou a jogar na cara do convidado italiano o famoso artigo assinado por Rossana Rossanda, publicado no il Manifesto apenas dois dias antes de sua chegada à América, na coluna Álbum de família: foi o professor Mike Ledeen. “Uma coisa como essa certamente nunca teria acontecido aqui, em Yale. O episódio ocorreu durante um café da manhã em Washington, oferecido por alguns centros de estudo. Conheço bem o professor Ledeen, como o presidente Napolitano também conhecia, dadas as várias viagens de Ledeen à Itália, algumas delas durante os dois anos em que trabalhei na embaixada, em Roma. Sobre a relação entre o PCI e as Brigadas Vermelhas, Napolitano se manteve inflexível: negava e explicava vigorosamente que, se alguém tivesse se desviado, os outros ‘companheiros’ de sua região jamais aceitariam mantê-lo no partido. Pessoas assim seriam expulsas imediatamente”. Do ponto de vista cronológico, o ciclo de conferências de Napolitano ocorreu bem no meio dos cinqüenta e cinco dias do seqüestro de Aldo Moro. La Palombara lembra as primeiras reações de seus colegas, e também as de seu convidado: “Para nós, ‘italianistas’ americanos, aquilo foi um choque. Não entendíamos bem o que havia acontecido. Como fazia todas as manhãs, Moro tinha ido à igreja; depois, houve a emboscada... Eu estava muito pessimista quanto ao desfecho do seqüestro; Napolitano nem tanto, ou pelo menos era o que queria dar a entender. Eu tinha uma boa experiência da Itália, que havia percorrido nos anos de chumbo, e sempre fui um estudioso desse país, mas ver esse desvio brigadista foi realmente algo inesperado. Eu pensava que conhecia bastante bem a esquerda italiana, mas o fenômeno das Brigadas Vermelhas me chocou. Lembro-me de ouvir Napolitano pronunciar-se de uma maneira nada branda contra o terrorismo ‘dito de esquerda’, consciente de que, para a democracia italiana e a esquerda, ainda em via de formação, isso representava uma guinada terrivelmente negativa”. La Palombara compartilhava com Napolitano, naquele momento, a percepção de que um abismo já ia se abrindo entre católicos e comunistas no desdobramento, até aí positivo, de suas relações políticas na Itália: “É claro que víamos isso, pois o caso Moro foi um evento trágico, conscientemente realizado – tomo de empréstimo o título de um livro escrito pelo próprio Giorgio – In mezzo al guado (No meio da travessia). Todos os discursos feitos por Napolitano nos Estados Unidos tinham sido inspirados pelo desejo de esclarecer e reforçar a coalizão DC-PCI, exatamente o que o desvio terrorista queria aniquilar. Como vocês acham que Napolitano podia se sentir, naqueles dias em que ia pela primeira vez aos Estados Unidos? Devo acrescentar que a idéia de paralisar a tendência ao diálogo entre católicos e comunistas era compartilhada e antecipada por muitos de meus colaboradores. E isso muito mais que na Itália, onde, ao contrário, o seqüestro do presidente da DC não foi, de imediato, aceito como um evento que fechava definitivamente a temporada de diálogo. Isso sempre me fez estimar muito a Itália e a natureza democrática dos italianos. Em comparação com a Itália, nós, americanos, não somos tão ‘inteligentes’; temos a tendência a exagerar na descrição das situações, somos inclinados à ruptura, a polarizar. Já vocês, italianos, bem no meio dos anos de chumbo, demonstraram uma capacidade de solidariedade democrática e patriótica que eu considero admirável, e impressionante”.
Uma DC católica “demais”
Em janeiro de 1979, a época da solidariedade nacional se encerrou formalmente. “Infelizmente, infelizmente”, comenta o professor La Palombara. Perguntamos a ele qual o peso que teve, nos Estados Unidos – nos anos seguintes à viagem de Napolitano –, esse sentimento, profundo, embora não manifesto, de “desconfiança” perante a DC, partido aliado, mas talvez católico “demais”. “O fator ‘Igreja’, nas relações atlânticas, teve um peso enorme. Mesmo na estrutura da CIA, a presença de católicos era muito forte... É preciso fazer também uma outra consideração fundamental: nos primeiros anos do pós-guerra, os americanos entenderam que, num país como a Itália, a situação teria sido mais difícil sem a presença da DC e o intervencionismo – às vezes até discutível – da Igreja. Não apenas na Itália, mas em toda a Europa. Foi uma sorte para a Itália ter naquele momento crucial um chefe de governo como Alcide De Gasperi, que não apenas teve a perspicácia, mas também a coragem de não amarrar o governo ao carro do PCI, o que, no equilíbrio internacional, em rezão da URSS, representava um problema. Talvez todos nós, ocidentais, tenhamos exagerado em relação ao ‘perigo comunista’; isso eu até posso admitir, poderíamos discutir sobre isso... Mas, de qualquer forma, com a primeira visita de De Gasperi aos Estados Unidos, em 1947, nasceu em nós uma admiração pela capacidade política da DC, embora não faltassem críticas a seus expoentes individualmente. Respondo assim, então, a sua pergunta: o que contava era a Realpolitik. Kissinger, por exemplo, certamente não era um católico, mas garantiu um apoio fortíssimo e incondicional à DC, uma vez que a considerava um fator de seu projeto estratégico. Antes dele, naturalmente, outros secretários de Estado fizeram o mesmo, como James Byrnes, John Foster Dulles e o inesquecível George Marshall – o programa que recebeu seu nome foi, na minha opinião, a política externa dos Estados Unidos de maior sucesso em nossa história. Os americanos certamente não compreendiam bem o equilíbrio interno da política italiana, mas os que eram ‘pró DC’ não tinham uma postura condicionada – como o ‘votar tapando o nariz’ de Indro Montanelli –, exceto, talvez, um ou outro intelectual e algum de meus colegas italianistas. Mesmo não amando esse partido, sempre considerei, por realismo, necessário evitar que a política norte-americana perante a Itália, durante a Guerra Fria, acabasse por se tornar assunto militar”.

Zbigniew Brzezinski com João Paulo II, numa audiência concedida à Trilateral Commission em 1983, na Cidade do Vaticano. Brzezinski conheceu o cardeal Wojtyla em Harvard, em 1976
Há uma pergunta que não podemos deixar de fazer ao professor: é verdade que a política italiana pode ter pago por uma certa confusão americana na fase de transição de Kissinger para Brzezinski, cenário da viagem de Napolitano? Ele nos responde assim: “Nós, acadêmicos e intelectuais, também colaboramos para essa confusão. Como o colega Peter Lange, que, como todos sabem, acreditava que os comunistas italianos eram ‘filo-americanos’, éramos todos levados a pensar que Carter retomaria o caminho iniciado por Kennedy. E que a abertura de Kennedy ao centro-esquerda, com o PSI, prosseguiria com Carter, incluindo o PCI. Nem todos concordávamos em pensar que o PCI chegaria à sala dos botões, mas o sucesso da nova dupla Carter-Brzezinski permitia imaginar uma mudança de linha. Portanto, o funcionário soviético que citei antes também não era o único errado em suas expectativas; ele simplesmente foi levado ao engano pelas circunstâncias. Os italianos também contribuíram para essa comédia, ou drama, de equívocos. O próprio Lange sabia que todo dirigente político italiano desejava uma certa bênção dos Estados Unidos, e isso valia também para os comunistas italianos, embora com algumas exceções interessantes. A vontade do PCI de interpretar que, com Carter-Brzezinski, a política americana mudaria é compreensível; a expectativa era enorme”. Mas a resposta que os comunistas italianos esperavam não chegou. Pelo contrário, “o embaixador Gardner publicou a famosa declaração de janeiro de 1978 contra os governos em coalizão com o PCI”, explica La Palombara. “O futuro não desmentiria Gardner. A Itália, depois de 1978, não foi mais a mesma.”
Por uma política menos propensa ao medo
Em 19 de abril de 1978, Napolitano voltou a Roma. Vocês, italianistas, fizeram um balanço? “Sua visita havia dado um forte impulso à política de abertura, e valorizou uma política menos propensa ao medo. Todos ficaram impressionados com seu carisma leve, não ostentado, distante da figura do grande orador – se tentássemos compará-lo a alguém no presente, não era um Barack Obama. As pessoas passavam a gostar de Giorgio Napolitano com o tempo, seguindo seus argumentos, vendo como administrava os debates, algo tão sagrado para nós, americanos. Ele começava com humildade e angariava a benevolência do público. Não foi preciso que nós, colegas americanos, fizéssemos uma reunião de balanço para reconhecer tudo o que havia sido concretizado com a viagem. Ela foi a base de desdobramentos futuros.”