ARTE
Extraído do número 09 - 2003
Sena, uma obra-prima na aurora de Duccio
Quando a mostra sobre Duccio abrir as portas, em outubro, uma das etapas mais importantes do percurso da exposição será a cripta pré-ducciana descoberta há dois anos e restaurada especialmente para essa ocasião. Dela nos fala Luciano Bellosi
de Giuseppe Frangi

A fachada do Domo de Sena
Na realidade, o percurso expositivo ideal começará justamente dali. “De fato”, explica Bellosi, “essas pinturas podem ser datadas por volta de 1270 e representam uma espécie de desforra contra aqueles que afirmavam que apenas com Simone Martini a pintura mural tinha entrado na história da arte de Sena. Naquela época, Duccio, com pouco mais de vinte anos, estava provavelmente em Florença, no ateliê de Cimabue, mas é provável que a cor viva dessas pinturas tenha ficado gravada em seu olhar”. O ciclo conta as cenas da vida de Cristo. Há um Descanso na fuga para o Egito pintado sobre um pilar, com uma referência ao pormenor, citado pelos evangelhos apócrifos, da palma que se inclina sobre os fugitivos para fazer sombra. Há duas cenas da Paixão, uma Crucifixão e uma Deposição no sepulcro, que são as duas cenas em melhores condições; já os dois requadros da Ressurreição, com as pias mulheres no sepulcro e o Noli me tangere, foram cortados no alto, durante os trabalhos de pavimentação do Domo. As imagens se destacam com solenidade, com aquelas figuras altas e delgadas, em tamanho natural, dispostas com grande sabedoria compositiva. “Trata-se de um daqueles artistas pré-duccianos, dos quais a mostra de outubro aprofundará o conhecimento. Os nomes mais prováveis são os de Dietisalvi de Speme, de Guido de Graziano e Rinaldo de Sena”, explica Bellosi. O principal candidato é Dietisalvi de Speme, a figura mais completa entre os pré-duccianos. Os documentos o apresentam ativo entre 1259 e 1288, e lhe dão com segurança a autoria de quatro tabuletas pintadas: são as famosas Biccherne, as capas dos registros sobre os quais a magistratura, na entrada das sedes das finanças públicas, anotavam as contas de Sena. Dietisalvi, dizem os documentos, teria pintado 29 delas. Mas apenas 4 chegaram até nós.

detalhe da Crucifixão de Jesus, pintada na cripta que apareceu sob o altar do Domo em 2001
Bellosi estudou as pinturas da cripta, comparando-as com as Biccherne, da mesma época. Na comparação, não só restringiu o leque de nomes dos prováveis autores, mas, sobretudo, pôde focar a característica-chave da pintura de Sena: o senso da cor. “Nas pinturas da cripta, o vigor dos pigmentos é excepcional; a escuridão e essa segregação secular os preservaram de maneira surpreendente. De fato, a cripta praticamente não foi utilizada. Talvez a tenham pensado como acesso ao Domo da cidade. Mas, depois, o projeto foi completamente revisto”.
Enquanto isso, as coisas ao seu redor se desenvolveram velozmente. Duccio, em 1287, recebia a encomenda para o vitral do Domo. A pequena Maestà de Berna, aguardada na mostra, é contemporânea desse trabalho. Na mostra veremos também o excepcional Triptiqueto das coleções da rainha da Inglaterra, a obra mais bela de Duccio, depois da Maestà. A arte de Sena, com a maturidade de Duccio, decola. “A originalidade e a experimentação são as primeiras características que indicam uma grandeza completa. O véu branco sob o manto de Nossa Senhora no Triptiqueto de Londres é um pormenor que nos espanta”, explica Bellosi. Mas, se tivéssemos de tentar, traçar um perfil de Duccio como homem e artista, que deveríamos imaginar? Bellosi, pego de surpresa, sugere duas categorias não artísticas em primeiro lugar: “Para mim, a beleza de Duccio se baseia na seriedade e na convicção. Ele viu com os próprios olhos a força da revolução de Giotto, a assimilou a seu modo, sem reservas mentais, mas teve a força de continuar a ser ele mesmo. Projetou, na intensidade das cores,§como em seus vermelhos vináceos e escuros, sua surpresa pelo real. Mas nunca perdeu o senso de equilíbrio. A profundidade de tons nunca comportou danos ao requinte”.
Este é Duccio, portanto. Um grande homem cujo itinerário humano e artístico podemos repercorrer hoje, passo a passo. Imaginando-o cheio de espanto aos pés daquelas pinturas da cripta do Domo, fulgurantes de cores que hoje voltam à tona tais e quais eram diante de seus olhos.