CONCLAVES
Extraído do número 07 - 2003
Quando o veto do imperador favoreceu a eleição de um Papa santo
Há cem anos, num 14 de agosto, Giuseppe Sarto era eleito papa com o nome de Pio X. Graças, também, ao veto que o imperador da Áustria Francisco José impôs ao cardeal siciliano Mariano Rampolla del Tindaro
de Andrea Tornielli

Francisco José
Papa "político"
ou Papa "pastor"
Leão XIII, ao morreu com noventa e três anos, depois de reinar por um quarto de século, deixava uma herança nada fácil. Muitos cardeais queriam uma guinada "pastoral", um papa que não fosse "político" nem "diplomático". No entanto, o candidato mais visado era um purpurado que encarnava outra linha, a da continuidade direta com Leão XIII. Era o nobre e piedoso siciliano Mariano Rampolla del Tindaro, até aquele momento secretário de Estado. Sua ascensão era apoiada pela maior parte dos cardeais franceses, mas não era desejada pela Áustria, por sua política de apoio às aspirações eslavas que fermentavam nos Bálcãs. Para impedir a eleição de Rampolla, o imperador da Áustria decidiu usufruir de um antigo direito de veto concedido às grandes monarquias católicas.
O veto chegou ao conhecimento do bispo de Cracóvia (um predecessor de Karol Wojtyla), Jan Puzyna de Kozielsko. Segundo alguns, a iniciativa teria partido do próprio cardeal Puzyna, que a teria apoiado junto ao já ancião e relutante Francisco José. Informados do "voto de exclusão", os purpurados austro-húngaros decidiram apostar em dois cardeais: Serafino Vannutelli e Girolamo Maria Gotti, este último carmelita e prefeito de Propaganda Fide. Alguns cardeais, entre os quais o arcebispo de Milão, Andrea Carlo Ferrari, desejavam uma candidatura de perfil decididamente pastoral. E identificavam no patriarca de Veneza, Sarto, o homem ideal. Seu nome, porém, não aparecia nas previsões. Seja como for, é interessante notar que nos jornais, mesmo antes do início do conclave, a candidatura de Rampolla del Tindaro era dada por arruinada. Na noite de 31 de julho, sessenta e dois cardeais entravam na clausura do conclave.
A insistência
do cardeal Ferrari
Na manhã de 1 de agosto começam os escrutínios, dois por dia, um de manhã e um à tarde. Para ser eleito, é preciso alcançar a maioria de dois terços, ou seja, 42 votos. No primeiro escrutínio, Rampolla obtém 24 votos, Gotti, 12, Sarto, 5, Vannutelli, 4. À tarde, Rampolla sobe para 29 e Sarto para 10, enquanto Gotti vai a 16. Essa situação parece pouco favorável a Rampolla, se a examinarmos com atenção: dos 38 eleitores que pela manhã haviam votado em outros candidatos, só 5 se decidem agora por ele. O conclave apresenta, portanto, um impasse, mesmo antes de se pronunciar o famoso veto. O patriarca de Veneza, que subiu para 10 votos, comenta: "Volunt iocari supra nomen meum", querem se divertir com meu nome. Não acredita ser candidato.
Na manhã de 2 de agosto, depois de informar a Rampolla, Puzyna lê em latim o texto do "voto de exclusão", com o qual pede ao camerlengo "que tome ciência, para sua informação, e que notifique e declare de modo oficiosoü em nome e com a autoridade de sua majestade apostólica Francisco José, imperador da Áustria e rei da Hungria, que, querendo sua majestade usar de um antigo direito e privilégio, pronuncia o veto de exclusão contra o eminentíssimo senhor cardeal Mariano Rampolla del Tindaro". Mais que um veto, parece a expressão de um desejo, declarado "de modo oficioso". Logo depois, tanto o camerlengo quanto o próprio Rampolla protestam. Todos se associam a eles, considerando absurda e inoportuna a ingerência. Apesar disso, na votação dessa manhã o ex-secretário de Estado de Leão XIII não ganha nem um voto a mais que os 29 da tarde anterior. Sarto, no entanto, sobe para 21, enquanto a candidatura Gotti naufraga, chegando a 9. É um sinal evidente da divisão do conclave.
À tarde, os cardeais franceses, irritados com a derrota de Rampolla, decidem pronunciar um protesto contra o veto. É um movimento para tentar recuperar votos para o ex-secretário de Estado. Logo depois, toma a palavra o cardeal Sarto: "É certo que nunca aceitarei o papado, para o qual me sinto indigno. Peço que os eminentíssimos cardeais se esqueçam de meu nome". No escrutínio seguinte, Rampolla sobe apenas um voto, Sarto passa de 21 para 24, Gotti desce para 3.
O cardeal Ferrari, diante dessa situação de impasse, tenta convencer Sarto, que resiste: "Não me sinto à altura de tanto peso. Não é possível que consiga assumi-lo. Meus primeiros inimigos estariam entre os mais próximos. Conheço bem as próprias pessoas que estão me elegendo: não podem estar bem intencionadas...". Ferrari insiste: "Uma recusa poderia custar-lhe caro demais e ser penosa para a vida inteira... Pense na responsabilidade e nos danos à santa Igreja que viriam de uma eleição malvista na Itália e no exterior, ou de um prolongamento tão grande do conclave que ninguém saberia dizer (e todos concordam com isso) se seria de dias, semanas ou até meses".

Papa Pio X abençoa os peregrinos que chegam ao Vaticano
O cardeal Ferrari volta à carga, em vão, na manhã de 3 de agosto de 1903. No primeiro escrutínio, Sarto sobe para 27 votos, enquanto Rampolla começa a cair e obtém apenas 24. O patriarca de Veneza pede novamente a palavra: "Insisto para que esqueçam meu nome. Diante da minha consciência e diante de Deus, não posso aceitar seus votos". Palavras consideradas como uma ducha de água fria por seus apoiadores, que não pretendem elegê-lo para depois ouvir que não aceita. Ao mesmo tempo, os cardeais franceses vêem a perspectiva de que Rampolla faça seus votos passarem para outro candidato, à sua escolha. Mas o ex-secretário de Estado resiste: "É preciso sustentar e defender a independência do Sacro Colégio", diz, "e a liberdade na escolha do papa. Por isso, considero meu dever não retirar-me da luta". Na realidade, o veto austríaco, nesse caso, mais que um impedimento decisivo à eleição de Rampolla, parece representar para ele quase uma desculpa para continuar tenazmente a resistir, ante um impasse que já era evidente antes do pronunciamento imperial.
Naquelas horas, a intervenção do cardeal Francesco Satolli é decisiva. Encontrando Sarto na saída de sua cela, Satolli o repreende: "Vossa eminência quer resistir à vontade de Deus manifestada tão abertamente pelo Sacro Colégio...". Sarto finalmente capitula. Levanta as mãos em sinal de rendição e afirma: "Seja feita a vontade de Deus". A notícia corre logo de boca em boca pelo conclave. Na votação da tarde, o patriarca de Veneza sobe para 35 votos, Rampolla desce para 16.
Comentará o cardeal americano James Gibbons: "A cada escrutínio em que viu crescer os votos a seu favor, o cardeal Sarto tomou a palavra para suplicar ao Sacro Colégio que desistisse da idéia de elegê-lo: sua voz tremia todas as vezes, seu rosto se enrubescia e escorriam lágrimas de seus olhos. A cada vez procurava descrever mais minuciosamente os títulos que lhe pareciam faltar para o papado. No entanto, quem pode acreditar? Foram esses discursos, tão cheios de humildade e sabedoria, que tornaram cada vez mais vãs suas súplicas".
"Eu me chamarei Pio"
Na manhã do dia seguinte, os cardeais franceses, irritados com a resistência de Rampolla, passam para o lado de Sarto, que, também graças a eles, obtém 50 votos (precisava de 42). Rampolla recebe 10, Gotti, 2. O eleito responde assim à pergunta do ritual: "Quoniam calix non potest transire, fiat voluntas Dei (já que o cálice não pode passar, cumpra-se a vontade de Deus). Confiante na proteção divina, dos santos apóstolos Pedro e Paulo e dos santos pontífices que usaram o nome Pio, sobretudo daqueles que lutaram corajosamente no século passado contra as seitas e os erros que se multiplicavam, assumo o nome de Pio X".