ÁFRICA
Extraído do número 07 - 2003
Entrevista com o cardeal Emmanuel Wamala, arcebispo de Campala
Uma força de paz internacional para a Uganda
Entrevista com o cardeal Emmanuel Wamala
de Davide Malacaria

Como a Igreja ugandense vive a tragédia que está atravessando o norte do país?
EMMANUEL WAMALA: Estamos todos aflitos por esta situação, não sabemos bem o que acontece, nem conseguimos nos explicar como seja possível que não se consiga acabar com tudo isso. São mais de 17 anos que esta guerra vai adiante e a situação piora cada dia que passa.
Qual é o testemunho de fé que mais lhe impressionou neste momento tão dramático?
WAMALA: Neste momento creio que seja o fato de que os bispos do Norte, junto com os líderes anglicanos e muçulmanos, tenham decidido dormir pelas ruas com as crianças que à noite procuram um pouco de segurança perto das igrejas e dos hospitais. Creio que seja um testemunho maravilhoso.
Na sua opinião a ação do governo é suficiente para acabar com essa guerra?
WAMALA: Antes do Natal o presidente foi para o norte do país onde ficou por muito tempo. Falou com os bispos da região, e ouviu suas sugestões. Além disso, Museveni tentou entender porque o exército ugandense não conseguia defender a população civil, solicitando a remoção dos comandantes que tinham cometido erros. Enfim, considero que havia vontade política de acabar com esta guerra e de tentar o diálogo com os rebeldes para resolver a situação, como solicitara a Igreja Católica, por meio de uma negociação. Mas os rebeldes não deram nenhuma resposta neste sentido.
Agora a situação piorou...
WAMALA: Sim. Atualmente a zona rural do Norte está infestada pelos rebeldes que avançam nas cidades, onde antes eram ausentes. A situação é tão feia que não creio que exista um modo de sair dela sem a intervenção internacional, assim como aconteceu no Congo.
O presidente Museveni aceitaria?
WAMALA: Creio que não concorde com a idéia de uma intervenção internacional. Mas eu constato que em 17 anos a Uganda sozinha não conseguiu resolver a situação. O próprio presidente, no ano passado, declarou que até março acabaria com a rebelião. E isso não aconteceu.
Uma comissão de estudos elaborou uma modificação na Constituição que, se for aprovada, consentiria ao atual presidente apresentar-se como candidato nas próximas eleições. O senhor expressou publicamente o seu desacordo. Por quê?
WAMALA: Eu não disse que a Constituição não pode ser modificada. Eu disse que não se pode mudar a Constituição apenas por interesse individual. Além disso, creio e espero que na Uganda possa ser realizado um pluralismo político. Acredito que isso seja mais cônsono com o direito natural.
Em outubro do ano passado o Vaticano reconheceu o martírio de dois jovens catequistas ugandenses, Daudi e Jildo. O que isso significou para vocês?
WAMALA: Uma grande alegria e também uma grande honra. Principalmente porque Daudi e Jildo foram martirizados no Norte, na mesma região onde hoje tanta gente está sofrendo. Tentamos indicá-los à nossa gente como testemunhas de Cristo sofredor por eles e com eles, mas ao mesmo tempo, pedimos a sua ajuda, a sua intercessão para que o nosso país encontre a paz. Em 3 de junho passado, por ocasião da celebração dos Mártires ugandenses (mortos no final de século XIX e reconhecidos sob o pontificado de Paulo VI), foram levadas também as relíquias dos dois catequistas. Foi uma grande festa à qual participaram fiéis provenientes de muitos países africanos, mas também pessoas vindas da Europa e da América.
O senhor lembra da visita de Paulo VI à Uganda?
WAMALA: Lembro muito bem. Para a África foi uma honra e também o testemunho de que a fé do nosso continente tinha crescido, com a dignidade de poder hospedar o Sumo Pontífice. A doutrina que nos deixou na ocasião foi e é, até hoje, uma grande fonte de inspiração. Lembro que me impressionou muito a veemência dada pelo Papa à vocação missionária da Igreja africana. A vocação missionária que se manifesta principalmente para com a África, mas que não se detém no nosso continente. Os jovens que vão em missão em outros países africanos, mas também na Europa e na América, colocam em prática os votos feitos por Paulo VI naquela ocasião.