VATICANO
Extraído do número 06 - 2003
Diplomacia. As conversas reservadas sobre o problema do uso de transgênicos no Terceiro Mundo
Por um punhado de milho biotecnológico
Continua a pressão dos Estados Unidos para convencer a Santa Sé a se pronunciar a favor dos alimentos geneticamente modificados. Em nome da luta à fome. Mas também do controle dos mercados. O caso Zâmbia
de Gianni Cardinale

Mulheres zambianas carregam sacos de cereais distribuídos pelo programa WFP, programa mundial de alimentação, em Ngombe
O caso Zâmbia
A ação diplomática americana começou no verão passado, partindo da devastadora carestia que atingiu a Zâmbia. Com efeito, o governo de Lusaka recusou obstinadamente o milho geneticamente modificado produzido nos Estados Unidos, que tinha sido oferecido pelo World Food Program. E neste seu comportamento foi encorajado pelo Jesuit Centre for Theological Reflection (Jctr), guiado pelo jesuíta americano Pete Henriot, que escreveu uma aprofundada pesquisa sobre a questão. Para o Jctr, os transgênicos não devem desembarcar na Zâmbia por uma série de motivos (os estudos sobre a sua não nocividade não seriam confiáveis; haveria o risco de esterilidade; a semeadura tornaria o terreno inadequado para outras culturas; seu uso tornaria o país dependente dos Estados Unidos...) que são os argumentos clássicos usados pelos opositores dos alimentos biotecnológicos. Motivações que pareceram um pretexto aos ouvidos do Departamento de Estado americano. Então, Washington teve a brilhante idéia de entregar a questão ao embaixador americano junto à Santa Sé, Jim Nicholson, que além de tudo é pessoalmente um convicto pró-transgênico (em um recente congresso confessou que quando era menino passou fome e desta experiência deriva sua particular atenção aos problemas da fome no mundo).
O ativo diplomata americano não perdeu tempo. Assim, contemporaneamente aos intensos encontros e diálogos sobre a questão iraquiana, acontecido na Santa Sé e em Washington, realizou uma outra não menos intensa série de contatos verbais e missivos sobre o caso da Zâmbia. Tratou-se de conversas e mensagens até agora reservadas, mas que a 30Dias tem condições de revelar seus aspectos essenciais.
Pressão americana
e prudência vaticana
Sobre o caso Zâmbia, entre os meses de setembro e de dezembro do ano passado, foram realizados alguns encontros na Secretaria de Estado entre Nicholson e o “Ministro do Exterior” vaticano Tauran, e também com o substituto (o “Ministro do Interior”), o arcebispo Leonardo Sandri. Além disso, houve uma correspondência entre Powell e Tauran, entre o número dois da embaixada Brent Hardt e o então vice de Tauran, dom Celestino Migliore (atualmente observador junto à sede da ONU de Nova York) assim como entre Nicholson e o Geral dos jesuítas, Peter-Hans Kolvenbach, na qualidade de superior do Jctr de Lusaka.
O objetivo dessa pressão era o de obter da Santa Sé uma declaração “clara e não ambígua” na qual se afirmasse a “segurança dos alimentos biotecnológicos” para ajudar a superar as “hesitações muito difusas não só na África”. Praticamente uma intervenção pública que neutralizasse a propaganda antitransgênicos, levada adiante pelos jesuítas da Zâmbia, mas também as tomadas de posições negativas manifestadas por alguns episcopados (como o sul-africano em 2000) e por vários setores do mundo católico não só da África. Porém, ainda não houve a tal intervenção. Certamente nos palácios sagrados não há consonância entre os tons ideologicamente antitransgênicos, como os que às vezes são usados no mundo ambientalista e nas ONGs leigas e católicas, mas subtraiu-se diplomaticamente de oferecer a bênção aos paladinos da biotecnologia.
Nas suas respostas a Santa Sé mostrou sempre uma consideração pelo papel dos Estados Unidos na assistência humanitária na África. Mas, ao mesmo tempo, deixou claro que não pretende formular avaliações sobre cada produto ou sobre a questão de um país dever ou não usar um determinado tipo de alimento. O Vaticano, além disso, recordou que, de sua parte, não há qualquer “rejeição absoluta” aos alimentos biotecnológicos, mas que é necessário seguir o “princípio da precaução”, como os que são usados para os medicamentos, evitando assim que as pessoas corram risco de vida. Além disso, para a Santa Sé, é necessário que os alimentos biotecnológicos, quando colocados em comércio, sejam identificados como tais com “apropriadas etiquetas”. Nos palácios sagrados não deixaram de notar que o uso de transgênicos nos países em desenvolvimento deveria respeitar também “os princípios de justiça e de solidariedade com referência às questões comerciais e econômicas”.
No dicastério “Justiça e Paz” estuda-se uma declaração sobre a biotecnologia
Transgênicos, esperança ou pesadelo?
Sobre os organismos geneticamente modificados (OGM), a Santa Sé ainda não expressou uma posição oficial, mas o tema, pela sua atualidade e a sua delicadeza, já está na ordem do dia do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, o organismo vaticano competente sobre o assunto. Portanto, é provável que no futuro seja apresentada justamente deste dicastério uma declaração sobre a biotecnologia, também para evitar sejam feitos pronunciamentos contraditórios sobre a questão por parte de alguns episcopados. Todavia, o assunto dos transgênicos já foi examinado pela Pontifícia Academia para a Vida, com o livro, editado em 1998, Biotecnologias animais e vegetais. Novas fronteiras e novas responsabilidades. Deve também ser assinalado que em 2001 o arcebispo Agostino Marchetto, então Observador permanente junto à FAO, publicou em Assuntos Sociais Internacionais uma contribuição intitulada Biotecnologias: uma esperança para combater a fome no mundo?
As respostas vaticanas não satisfizeram plenamente os pedidos americanos. Então o general Powell aproveitou da audiência que lhe foi concedida em 2 de junho para levantar novamente a questão, falando diretamente com João Paulo II. E o fez com uma insinuação que Nicholson, sorrindo, contou ao Corriere della Sera. Com efeito, Powell, para defender a causa propôs-se como garoto-propaganda da biotecnologia, dizendo ao Papa: “Santidade, eu como produtos geneticamente modificados todos os dias e até que não estou mal, não é?”Encontro em Sacramento
A insinuação de Powell terá algum efeito? Uma resposta a esta pergunta poderá chegar no fim deste mês. Com efeito, entre 23 e 25 de junho em Sacramento, na Califórnia, será realizada uma Conferência Interministerial-expo sobre “Ciência agrícola e tecnologia” organizada pelo Departamento americano de agricultura, patrocinada pelo Departamento de Estado. Para representar o Vaticano foi convidado o arcebispo dom Renato Martino, presidente do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”. Uma escolha que poderia parecer paradoxal, visto que o bispo italiano foi o expoente da Cúria Romana que usou os termos mais fortes para criticar a política de Washington durante a última guerra no Iraque. Na realidade, deve ser lembrado que na sua primeira entrevista coletiva como chefe do dicastério vaticano, em 17 de dezembro do ano passado, dom Renato Martino fez uma espécie de apologia dos transgênicos: “Olhem-me”, confessou, “estou com boa saúde, ao menos creio que seja assim. Morei nos Estados Unidos por 16 anos [como observador permanente na ONU, ndr] e comi tudo o que os mercados americanos oferecem, inclusive muitos alimentos transgênicos. Até agora não sofri nenhum efeito negativo”. Palavras não muito diferentes das que foram ditas por Powell diante de João Paulo II. Todavia, em Sacramento, Martino não irá expor as suas posições pessoais, mas as da Santa Sé. Na ocasião, talvez, se possa saber se as palavras de Powell ao Papa tiveram algum efeito. Ou, como parece mais provável, se a Santa Sé continuará a considerar que ainda não é o caso de tomar uma posição oficial “clara e não ambígua” a favor dos transgênicos.