EDITORIAL
Extraído do número 06 - 2003
A iniciativa de Gorbatchov
Não teve grande repercussão – de resto é quase sempre assim para os eventos positivos – a iniciativa tomada pelo ex-presidente Gorbatchov de lançar em Turim um Fórum político de avaliação, de modo construtivo, sobre a situação internacional, infelizmente quase sempre crítica e preocupante. As instituições da região Piemonte deram um grande apoio a esta agregação, que terá sua sede em Boscomarengo, em um antigo mosteiro colocado à disposição pela Província de Alessandria
Giulio Andreotti
Não teve grande repercussão – de resto é quase sempre assim para os eventos positivos – a iniciativa tomada pelo ex-presidente Gorbatchov de lançar em Turim um Fórum político de avaliação, de modo construtivo, sobre a situação internacional, infelizmente quase sempre crítica e preocupante. As instituições da região Piemonte deram um grande apoio a esta agregação, que terá sua sede em Boscomarengo, em um antigo mosteiro colocado à disposição pela Província de Alessandria.

Houve uma resposta muito grande ao apelo de Gorbatchov. Os que não puderam participar pessoalmente enviaram mensagens justificadas (não as habituais expressões de cortesia), e constatou-se a difusa preocupação pelo curso da história contemporânea atormentado e cheio de divisões. Porém, tratava-se – e todos compreenderam e expressaram isso, começando por Francesco Cossiga, por Emilio Colombo e por mim: os três destinatários italianos do convite – de não indulgenciar em confrontos comparativos com um pass•do considerado melhor. O importante é um esforço comum para encontrar perspectivas válidas para estruturar novos modelos de acordos internacionais.
No fundo Mikhail Gorbatchov, recordei disso gracejando, é o responsável pelo fim da guerra fria causada pela dissolução do pólo soviético. Com um grande centro de poder mundial único poder-se-ia correr o risco – perdoem o paradoxo – de sentir falta do bipolarismo. Por outro lado, talvez porque ninguém é profeta na própria pátria, atualmente, na Federação Russa, Gorbatchov não tem uma grande força; mesmo sendo muito respeitado por parte de Putin, o que não acontecia por parte de Yéltsin. Algumas suas passadas iniciativas, muito corajosas (basta pensar na dissolução do Partido Comunista e no apoio à unificação alemã), não podiam deixar de provocar divisões. Também deve ser recordado que os ocidentais não o ajudaram. Lembro quando participou, junto com Primakov, da reunião do G7 em Londres. Ele explicou de modo apaixonado que, além e mais do que ajuda financeira, precisava de compreensão e de tempo para realizar um projeto gradual e articulado de reorganização das Repúblicas, tão diferentes entre si. A pressão para restituir a curto prazo a soberania aos países bálticos caminhava em sentido oposto a essa exigência.
Não obteve sucesso; somente Mitterrand e a delegação italiana tentaram, em vão, abrir-lhe o crédito solicitado. Voltou para Moscou com um esquálido voto de recomendação para serem admitidos como observadores no Fundo Monetário Internacional. A partir desse ponto começou a parábola descendente do novo curso moscovita. Não foi difícil para o musculoso senhor Yéltsin colocá-lo em crise; e teve sorte por não ter sido despachado ao Criador.
O encontro de Turim realizou-se na mesma linha que caracterizou a revolução – ou se preferirem e sem malícia – a contra-revolução de Gorbatchov.
Principalmente na busca de uma nova ordem internacional, superando a crise da ONU que os acontecimentos iraquianos colocaram dolorosamente à vista. O empenho comum em combater o terrorismo pode ser positivo, porém desde que não se confundam em uma demonização os projetos criminosos com as aspirações de independência. Os patriotas israelianos que no pós-guerra pressionaram os ingleses da Palestina não eram terroristas, mesmo usando bombas e explodindo hotéis.
Atualmente se condensam particularmente duas ordens de críticas contra a ONU. Considera-se um anacronismo o fato de cinco países terem o direito de veto sobre as decisões do Conselho de Segurança apenas porque foram os vencedores da Segunda Guerra Mundial. Do mesmo modo, considera-se injusto perante à ONU dar o mesmo peso (agora são 191 países) tanto aos países que representam um bilhão de pessoas como para os que contam com uma dimensão liliputiana.
São válidos motivos de reconsideração que o próprio Gorbatchov colocou em evidência na sua época, mas até a adoção de um novo estatuto o vigente deve ser respeitado, sem perigosas interrupções.
O novo Fórum tem como objetivo a construção de um grupo de trabalho ad hoc para estudar alternativas e fazer propostas; considerando as agregações de áreas que intervieram neste período: a União Européia, o Mercosul na América Meridional, a União alfandegária México-EUA-Canadá e também o recém-nascido projeto de União africana. Deverá também ser levado em conta, para enquadrá-lo, o G7 (ou G8 que seja). Nasceu para uma triangulação aberta com o Japão, mas hoje é uma instituição sem legitimação efetiva.
Agora é preciso ir adiante, ativando o diálogo entre todas as religiões, que terá um reflexo benéfico também para a atenuação das controvérsias políticas e das distâncias econômico-sociais.
No encontro de Turim houve uma significativa concordância de análises e de auspícios: de Genscher ao japonês Kafu, de Boutros Ghali à cassada primeira-ministra do Paquistão, senhora Bhutto (hoje exilada nos Emirados Árabes) e assim por diante. Mas, para que a iniciativa de Gorbatchov tenha validade é preciso fazer um salto qualitativo, ou seja, fazer com que se unam a nós, ex-combatentes, personalidades em serviço ativo. A partir disso surge a proposta de convidar para a próxima reunião de outubro ao menos o ministro Frattini.
Sobre a recuperação pós-Iraque de um diálogo de todos com os Estados Unidos, devem ser procurados pontos de encontro válidos. Genscher citou – e fico contente com isso – as possibilidades da Organização para a Segurança e Cooperação Européia na qual estão juntos com os Estados Unidos e o Canadá todos os Estados europeus.
E tem mais ainda. O período Reagan-Gorbatchov foi marcado pelo esforço de redução dos armamentos, que se concretizou na diminuição pela metade dos arsenais nucleares. Depois da Guerra do Golfo anunciou-se solenemente o propósito de retomar este caminho de paz. Mas isso não aconteceu. Com penetrante intuição um cômico, Beppe Grillo, sintetizou o caminho errado dizendo: “Uma vez produziam-se armas para guerra; hoje se fazem guerras para produzir e comercializar as armas”.
Qualquer referência de atualidade não é ocasional.

Imagens do World Political Forum realizado dias 19 e 20 de maio na Feira do Livro de Turim
No fundo Mikhail Gorbatchov, recordei disso gracejando, é o responsável pelo fim da guerra fria causada pela dissolução do pólo soviético. Com um grande centro de poder mundial único poder-se-ia correr o risco – perdoem o paradoxo – de sentir falta do bipolarismo. Por outro lado, talvez porque ninguém é profeta na própria pátria, atualmente, na Federação Russa, Gorbatchov não tem uma grande força; mesmo sendo muito respeitado por parte de Putin, o que não acontecia por parte de Yéltsin. Algumas suas passadas iniciativas, muito corajosas (basta pensar na dissolução do Partido Comunista e no apoio à unificação alemã), não podiam deixar de provocar divisões. Também deve ser recordado que os ocidentais não o ajudaram. Lembro quando participou, junto com Primakov, da reunião do G7 em Londres. Ele explicou de modo apaixonado que, além e mais do que ajuda financeira, precisava de compreensão e de tempo para realizar um projeto gradual e articulado de reorganização das Repúblicas, tão diferentes entre si. A pressão para restituir a curto prazo a soberania aos países bálticos caminhava em sentido oposto a essa exigência.
Não obteve sucesso; somente Mitterrand e a delegação italiana tentaram, em vão, abrir-lhe o crédito solicitado. Voltou para Moscou com um esquálido voto de recomendação para serem admitidos como observadores no Fundo Monetário Internacional. A partir desse ponto começou a parábola descendente do novo curso moscovita. Não foi difícil para o musculoso senhor Yéltsin colocá-lo em crise; e teve sorte por não ter sido despachado ao Criador.
O encontro de Turim realizou-se na mesma linha que caracterizou a revolução – ou se preferirem e sem malícia – a contra-revolução de Gorbatchov.
Principalmente na busca de uma nova ordem internacional, superando a crise da ONU que os acontecimentos iraquianos colocaram dolorosamente à vista. O empenho comum em combater o terrorismo pode ser positivo, porém desde que não se confundam em uma demonização os projetos criminosos com as aspirações de independência. Os patriotas israelianos que no pós-guerra pressionaram os ingleses da Palestina não eram terroristas, mesmo usando bombas e explodindo hotéis.
Atualmente se condensam particularmente duas ordens de críticas contra a ONU. Considera-se um anacronismo o fato de cinco países terem o direito de veto sobre as decisões do Conselho de Segurança apenas porque foram os vencedores da Segunda Guerra Mundial. Do mesmo modo, considera-se injusto perante à ONU dar o mesmo peso (agora são 191 países) tanto aos países que representam um bilhão de pessoas como para os que contam com uma dimensão liliputiana.
São válidos motivos de reconsideração que o próprio Gorbatchov colocou em evidência na sua época, mas até a adoção de um novo estatuto o vigente deve ser respeitado, sem perigosas interrupções.
O novo Fórum tem como objetivo a construção de um grupo de trabalho ad hoc para estudar alternativas e fazer propostas; considerando as agregações de áreas que intervieram neste período: a União Européia, o Mercosul na América Meridional, a União alfandegária México-EUA-Canadá e também o recém-nascido projeto de União africana. Deverá também ser levado em conta, para enquadrá-lo, o G7 (ou G8 que seja). Nasceu para uma triangulação aberta com o Japão, mas hoje é uma instituição sem legitimação efetiva.
Lembro quando participou, junto com Primakov, da reunião do G7
em Londres. Ele explicou de modo apaixonado que, além e mais do que ajuda financeira, precisava
de compreensão e de tempo para realizar um projeto gradual e articulado de reorganização das Repúblicas, tão diferentes entre si. A pressão para restituir a curto prazo a soberania aos países bálticos caminhava em sentido oposto a essa exigência…
De um outro ponto da doutrina de Gorbatchov partiu-se para a programação. Sob o ameaçador risco de uma guerra de religião, criado sob o peso e a propagação do islã, se contrapõe a virada que o própria Gorbatchov anunciou em Roma, onde segundo uma intimidante lenda os cavalos dos cassacos deveriam ter saciado a sede. Depois de uma significativa visita ao Papa (como recordação deste fato dedicará um livro) Gorbatchov declarou solenemente que a religião poderia ter sido, aliás já era efetivamente, um impulso positivo para o desenvolvimento do seu povo. A doutrina do ódio à religião, considerada o ópio do povo, não poderia ter um melhor fim. Agora é preciso ir adiante, ativando o diálogo entre todas as religiões, que terá um reflexo benéfico também para a atenuação das controvérsias políticas e das distâncias econômico-sociais.
No encontro de Turim houve uma significativa concordância de análises e de auspícios: de Genscher ao japonês Kafu, de Boutros Ghali à cassada primeira-ministra do Paquistão, senhora Bhutto (hoje exilada nos Emirados Árabes) e assim por diante. Mas, para que a iniciativa de Gorbatchov tenha validade é preciso fazer um salto qualitativo, ou seja, fazer com que se unam a nós, ex-combatentes, personalidades em serviço ativo. A partir disso surge a proposta de convidar para a próxima reunião de outubro ao menos o ministro Frattini.
Sobre a recuperação pós-Iraque de um diálogo de todos com os Estados Unidos, devem ser procurados pontos de encontro válidos. Genscher citou – e fico contente com isso – as possibilidades da Organização para a Segurança e Cooperação Européia na qual estão juntos com os Estados Unidos e o Canadá todos os Estados europeus.
E tem mais ainda. O período Reagan-Gorbatchov foi marcado pelo esforço de redução dos armamentos, que se concretizou na diminuição pela metade dos arsenais nucleares. Depois da Guerra do Golfo anunciou-se solenemente o propósito de retomar este caminho de paz. Mas isso não aconteceu. Com penetrante intuição um cômico, Beppe Grillo, sintetizou o caminho errado dizendo: “Uma vez produziam-se armas para guerra; hoje se fazem guerras para produzir e comercializar as armas”.
Qualquer referência de atualidade não é ocasional.